quando engoli perguntas

Droga! Indigestão. Contar e perguntar lava o passado, alveja, perfuma a vida. Danadas lembranças/memórias se abrem expostas, machucadas. E tudo empurro… Há de haver um buraco bem grande para se enfiar com elas, e depois volto ilesa. Viver é tão bom! Estou com Günter Grass “Porque e também aquilo tem de ser lembrado. Porque poderia faltar alguma coisa petulantemente dando na vista. Porque quem foi que e quando foi que caiu no poço, e isso quando já era tarde demais: meus buracos tamponados apenas mais tarde, meu crescimento irrefreável, minhas relações linguísticas com objetos perdidos. E também este motivo de ser mencionado: porque quero sempre ter a última palavra.

A recordação ama o jogo de esconde-esconde das crianças. Ela se escafede. Inclina-se a embelezar as coisas e gosta de enfeitar, muitas vezes sem motivo. Ela contraria a memória, que se mostra pedante e, quizilenta, quer ter sempre razão.” (p.10) Nas peles da cebola – tradução de Marcelo Backes, Record, 2007 – Rio de Janeiro

eu foto do joão

Solange

Minha amiga Solange está certa, o aperto que aperta e estrangula se gruda na finitude da vida, agora, nesta idade, tenho certeza, mínima certeza, se sou lúcida e lógica ou coerente e pessoa, vai terminar a festa no por do sol. Elizabeth M.B.Mattos – janeiro de 2019

brinca desconfiada

História travada. Vazia de sentido. Sem personagem, nem divagação. Inteligente, emocionalmente, atrapalhada. Boneca mimada, brinca desconfiada entre acertos certos. Encabulada, escondida. Casa ruidosa. A mãe acende um cigarro depois do outro entre costuras bordados, enxovais. Um armário cheio de portas, depois de abrir a primeira, uma alavanca, outra porta se abre. Bom esconderijo aquele.  Livros se enfileiram nos seus olhos.  Sabe – se o que pode e não se pode fazer. Seguindo sinais na rota, tudo é possível. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2019 – Torres

mundo de brennand

desvio

Este desejo plural de ter esta ou aquela vida gera certa angústia, aflição, até entristece. Desejos não são apenas complementares. Escolhas obsessivas e lineares dificultam sentimentos concretos, se posso definir sentimento como concreto. Não quero apenas a boneca vestida de Chapeuzinho Vermelho, quero o bebê com fraldas, também a vestida de princesa. Quero todas bonecas da vitrine. Insatisfação com o limite da escolha. A interferência prazerosa de uma pessoa altera tudo. O desejo é plural maior do que um compartimento limitado que a vida possibilita. Amar alguém  em especial como único  será  limitar. Ter que escolher entre este e aquele amado. Ou não escolher. Uma gramática complicada em português ou na matemática.  Viver é  o caminho,  o fazer e as pessoas o oásis a ilusão. As interferências  o sal ,  o gosto,  a explicação. Nossos lamentos se desenham em abraços e beijos. E apaixonar ou enlouquecer de amor não se explica. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2019
janelas.jpg

lugar certo

Voltar ao lugar certo: revisitar o jardim das hortênsias encher o bolso de pedras redondas. Passar o café, esquentar o pão. Geleia e manteiga. Descascar frutas. E o dia se confessa tranquilo e feliz. Beth Mattos – Torres janeiro de 2019

mulheres emolduradas

perverso

Na caminhada matutina escuto a conversa: “ele me pediu para comprar ração, sabes o que fiz? Comprei, mas coloquei veneno. Morreram aqueles cães todos… É, eu não gosto de cachorro. Depois tive um vizinho que não limpava o pátio…” Etc, etc. E do mundo, e das pessoas ele gosta? Deve ser um espécie particular enojado. E mata cães e gatos. E o homem obsessivo segue a limpar a lagoa. Eu apressada. Posso julgar o cruel homenzinho? Estou numa lua diferente. Beth Mattos janeiro de 2019

bilhete de amor

Por que escrevo bilhetes de amor? Porque me apaixono, abençoadamente, eu me apaixono, inexplicavelmente, eu me apaixono. O amor sacode pensamento estremece ciúme, acorda prazer, dá tranquilidade desesperança, e também paz. Sei que estás lá … Do lado de fora estou a envelhecer inquieta, dentro estás a te estabanar animado. Agradeço a juventude que se inclina e me abraça. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2017 – Porto Alegre

cogmelo na janela linda a foto

Ler fora sempre o seu maior prazer, e agora, na narrativa dos triunfos e derrotas dos outros, das dores e alegrias alheias, encontrava refúgio contra o espectro obsedante do próprio insucesso”. (p.73) Irving Stone – A vida trágica de Van Gogh – José Olympio Editora – 1945

repetição, não reparação

Histórias familiares omitidas. Rastros obstáculos. A memória soluça como lamúria. Sim, sinto saudade do campo enquanto olho nostalgicamente para o mar… “Ah, Anna, quanto tempo passou. Quantas lacunas que não podem ser preenchidas, quantas coisas dignas de serem esquecidas. Aquilo que se meteu no meio de nós sem ser chamado, e depois tinha de valer como calorosamente desejado. Aquilo com que nos fizemos felizes. Aquilo que considerávamos belo. Aquilo que era enganador. Razão pela qual nos tornamos estranhos um ao outro, nos machucamos mutuamente. […] Seríamos um casal de sonhos, diziam de nós. Inseparáveis e nascidos um para o outro, nós parecíamos ser, e também éramos: do mesmo nível. Tu voluntariosamente orgulhosa; eu treinadamente autoconfiante. Em imagens que mudam vertiginosamente, adequadas para festejar o jovem casal, vejo – no unidos a dois. Em teatros no Leste e no Oeste, onde presenciamos o Círculo de giz caucasiano e Esperando Godot, ou no cinema na Steinplatz, onde vimos os clássicos franceses Hotel du NordA menina com capacete de ouro, A besta humana. Eu subi no teu quarto de solteira, tu disseste: ainda não.” (p.320) Günter Grass Nas Peles da Cebola – Memórias

Desta memória um novo jeito de viver. Perseguir a paz, acalmar angustia. Agarrar a velha alegria. Estar aqui e agora. Fecho portas, abro janelas. O feito era/é natural. Fácil recomeçar, colocar uma pedra em cima da tristeza, abrir um verso, uma frase, fechar uma história e desenhar outra. Beth Mattos – janeiro de 2019, nada assustava a desesperar. Sempre recomeçar, outra história. Como mudar de bairro, de casa, de estado. Mudar de país. Renovar seria inovar. Trabalhar. A força física, a mão laboriosa, bordar e consertar. Sim, sinto saudade do campo enquanto olho nostalgicamente para o mar… Horizonte.

 

emprestado

Vida emprestada ou alugada, enfeitada de palavra. Desavisada. Desânimo grotesco, pesado. O tal chavão do silêncio ruidoso. Vivo eu comigo. Imaginação. Houve tempo de mudar, hoje não. Se agitam as calçadas. É assim. Dorme de dia acorda na noite. Dança de noite se amoita no dia. Se o sol  queima a noite refresca. Se a conversa se esgota o olhar arde. Dito feito, ou nada. Desordem interior. Apego desnecessário. Querer sem rumo. Tô triste porque é tarde! Beth Mattos – 2019

não raciocinar

A gente aprende a escrever, a cantar, a falar bem, a emocionar -se, nunca a pensar. E as palavras nos conduzem, e elas deturpam até mesmo os sentimentos. […] Tenho observado que as pessoas, quando falam ou escrevem, abandonam imediatamente qualquer pensamento para tirar deduções artificiais. Utilizam – se das palavras como de uma máquina de calcular de onde deve sair a verdade. É uma tolice. É preciso aprender não a raciocinar, mas a não raciocinar. Não há necessidade de uma sucessão de palavras para compreender alguma coisa; caso contrário, elas falseiam tudo; nós confiamos nelas.” (p.105) Antoine de Saint-Exupéry Carta a sua Mãe