Ninguém sabe o que fazer ou como ou deixar de fazer …, comédia ou tragédia …, suicídio ou vida lenta. Arrasto correntes, pesa o meu passo. Chá ou café, água ou vodca. Desmaio ou sono. Ninguém pode dizer nada. A memória acelera impossível, desgovernada. Estou menina enroscada nos sonhos das letras. Agora estas lamúrias comezinhas e inúteis. Fizeste bem ao te instalar no meio do mato, fizeste bem. Caminhar na areia da praia. Fizeste bem em te mudar para a cidade fervente. Fizeste bem em me esquecer … Elizabeth M.B. Mattos dezembro de 2018 – Torres
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rendas guipures
Eu me atirei para ler Anna Kariênina de Tolstói, tradução (árduo trabalho) de Rubens Figueiredo. Desencontro encontro. Vida no campo versus o mundano, beirada e dúvida. A magia dos escorregões e sacudidas. Descrições minuciosas[…],” mas sim de preto, num vestido de veludo de corpete rebaixado, que deixava à mostra cheios e torneados, como que em marfim antigo, o colo, os ombros e os braços roliços, de pulsos finos e minúsculos. O vestido era todo ornado de guipures venezianas.” (p.89) Citações, minhas guipuras venezianas. Química e tato e desejo e vontade e palavra virada prazer = satisfação agrilhoada! Que 2019 aproxime a bondade, ainda teremos risadas e sossego.Elizabeth M.B. Mattos – Torres 2018


estás perto
“pensando em mim e te sentindo só.
Vive-se agora, nada de adiar,
colhem – se hoje as rosas desta vida.
É preciso esquecer… Velhos a suspirar,”
[…]
Pierre de Ronsard (1524 – 1585)
tradução de Paulo Hecker Filho
do amor
Henri-Pierre Roché
On n’aime tout à fait qu’un moment. Ce moment revenait toujours.
Henri-Pierre Roché, Jules et Jim

CARTA ROUBADA
O roubo das cartas não foi resolvido. (Ele não me devolveu as cartas, as minhas, porque quer as de Iberê.) Eu mesma não me importei. São minhas! As desaparecidas. Nada que eu possa ter escrito importa mais do que as cartas dele. Antropofágico. Edgar Allan Poe me devolveu a carta, Eduardo não.
Real ficção. Inventa – se vida: plenitude e urgência… Onde / com quem estarão as cartas? Não sei exatamente -, ou não importa se eu sei. Elizabeth M.B.Mattos – Torres 2018
“- Bem, posso arriscar – me a dizer que o papel confere ao seu possuidor um certo poder numa esfera em que tal poder é de imenso valor.” – O chefe de polícia adorava a linguagem diplomática. […]
– Está claro – disse eu -, como você observou, que a carta ainda está em posse do ministro, e é essa posse, e não qualquer uso da carta, que garante o poder. Com o uso o poder deixa de existir.” Edgar Allan Poe

A maldade é um sopro, uma intenção. As cartas, reunidas, a história. Ou apenas imaginação.
nudez pecaminosa
Volto os olhos e te vejo. Infância juventude e este doce envelhecer no teu abraço, pecados. Não me converti em estatua de sal. Nem fui amaldiçoada. Ninguém me apedrejou. Caminho por Porto Alegre. Sim. Foi preciso tirar as roupas, rir em voz alta, choramingar pelas praças… Gritar. Escabelar-me. Voltar a Rua Vitor Hugo, ao Petrópolis Tênis Clube, as calçada da Fernandes Vieira, pegar o bonde João About, voltar ao cinema Ritz, assistir a missa na Igreja São Sebastião. Entrar no Colégio Santa Inês, dividir a merenda com a Maria do Carmo. Chegar à Escola Estadual Rio Branco, rever as professoras. Espiar pelos muros do Colégio Israelita. Voltar pra casa caminhando pela Avenida Protásio Alves. Depois comprar balas no bar Tupi antes de ficar sentada sob os jacarandás. Ver as bonecas na vitrine. Sentir o inverno, também o verão assim desnuda. O sol queimando a pele! Preciso deste palco, desta retomada penosa para voltar a ser quem deixei pra trás … Preciso rever. Olhar a menina que brinca no pátio da casa de Ipanema. Aquela que pula no sofá contigo. A mesma que entra nos caixotes pra poder cantar, falar… Choro com espanto. Nada escorreu como deveria ter escorrido. As sutilezas da proibição são urtigas. Estou me repetindo, já disse isto antes. São aroeiras que me queimam! E pensei em jasmins… Elizabeth M.B. Mattos – Torres – 2013

classes sociais
… cansada por conta da viagem. As pessoas se acotovelam embora estejam todas sentadas. Distraída deixo meu olhar se soltar e vejo: azuis e cintilantes, febris, inquietos, prontos para o novo, era ele. Temperamento antropofágico. Como se explica? Algumas pessoas, sensíveis, inteligentes,ambiciosas querem degraus vivos, pulsantes para chegarem a nobreza / ao lugar certo de destaque. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2018
” – Mas como você é retrógrado! E a integração de classes? – disse Oblónski.
– Quem gostar que se integre, e boa sorte, mas eu sou contra. […]
[…] você vai me chamar de novo de retrógrado ou até de alguma outra palavra horrorosa, no entanto me irrita e me dá pena ver, por toda a parte, o empobrecimento da nobreza, […] E o empobrecimento não se deve ao luxo, isso não seria nada; levar uma vida de fartura é próprio da nobreza, e só os fidalgos o sabem fazer. (p.177) Liev Tolstói – Anna Kariênina

à distância
O que importa no livro é o elo, a comunhão que estabelece entre seres humanos, mesmo à distância, mesmo entre mortos e vivos. O tempo não conta, somos contemporâneos de Tolstói, Virgílio ou Shakespeare. Somos amigos pessoais.
Se cada dia cai dentro da noite
Há um poço onde a claridade está presa.
Há que sentar na beira do poço da sombra e pescar a luz caída, com paciência.
PABLO NERUDA
do susto
Acordei assustada do sonho. Fiz chá, acendi luzes. O significado da necessidade está neste construir e destruir peculiar a natureza humana. É preciso ser livre para viver, mas é, desastradamente, solitário! Esbarro na liberdade: há urgência. A vida queima, nós queimamos. Haverá encontro. Um lençol cobre a terra. No ar transgressões …, na pincelada ruptura. A doença se esparrama. Sinto fisicamente o desânimo.
Será justo, ou não será? Fiz, desfiz, começo e recomeço. Não saio do mesmo lugar …
Dias longos chegaram. Não estavas aqui, poderias estar. Desânimo. Cansaço igual ao teu. Quero voltar para nós. Costura minha dor e borda este meu arrependimento. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2018 –
“Porto Alegre, 7 de janeiro de 1992.
Amiga, querida amiga:
Tua carta é desesperada, é um grito. Eu me preocupo. Estou ao teu lado, quero te ajudar. Tu não podes te deixar abater, afundar na desesperança. Cuida da tua forma física, pinta teu cabelo, renasce. Basta perder peso que voltas a ser o que sempre foste, uma mulher bonita e sensível.
Oportunamente vou te fazer um desenho, será o presente de Natal que passou. Mas não posso fazer uma ratinha, porque não é assim que eu te vejo. Se eu o fizesse mentiria. Precisas sair deste poço, dessa prisão imaginária em que vives tuas cadeias, essas amarras são psicológicas. Não te deixes aprisionar num círculo de giz como acontece com as galinhas.
Eu, atualmente, enfrento muitos problemas. As reformas que fiz no atelier não deram certo! Agora vou jogar a última carta: remover o telhado, substituí-lo por […], única possibilidade de ter a tão necessária luz zenital, a luminosidade do céu. Tudo isso devido ao erro do arquiteto que projetou o atelier. Nesse país a incompetência é geral. Nós estamos sempre pagando a burrice dos outros. A situação do Brasil é a prova maior da incompetência e da irresponsabilidade. Desculpa, mas estou muito irritado com a situação que estou vivendo. Há ainda o caso da Lopo que não se decide. O tribunal está em férias. A justiça é lenta, não tem pressa, é preguiçosa. Seja o que for nós temos que lutar.
Comecei um novo quadro, também de grande formato. Há nele a evocação dos carretéis. Abstenho-me de mais comentários para não esvaziá – lo emocionalmente.
Sei que vais reagir. Para começar cuida do visual, pinta o cabelo, volta a ser bonita. Manda-me uma foto, mas não tão pequena, quase invisível, como a que mandaste tempo atrás. Iberê”

outra pessoa
…, outra pessoa. Eu tento mudar. Entrar devagar dentro de mim mesma. Reconhecer a menina esquiva, arrisca, mas confiante. Guardo pedras e fitas. Imagino estar outra vez na frente da lareira, o fogo. Não existe tudo …, escolhas foram do jeito que foram, e somos do jeito que somos: uns mais tranquilos, outros menos. E tu estás amarrado na tua vida. Eu vejo o muro …, flores de maracujá se debruçam. Queria te dizer das manhãs, mas escureceu … Elizabeth M.B.Mattos – dezembro de 2018 – Torres depois de chuva mansa. Estou apaixonada pelo livro. Nunca não existe. Estou / estás tão perto de nós!
“Sentiu-se inteiro em si mesmo e não queria ser outra pessoa. […] Todos aqueles vestígios da sua vida pareceram cercá-lo e dizer:’ não, você não fugirá de nós e não será diferente, mas sim o mesmo que já era: com as dúvidas com a eterna insatisfação consigo mesmo, com as vãs tentativas de se corrigir, com os fracassos e com a eterna esperança de felicidade, que não veio e que, para você, é impossível”. (p.102-103) Liev Tolstói Anna Kariênina