liberdade

“[…], a liberdade não diz respeito essencialmente ao que as pessoas podem fazer, ao que são capazes de fazer …, mas a responsabilidade de cada pessoa pelo que faz ou pelo que não faz em qualquer circunstância. […]  A liberdade não é livre de responsabilidade, liberdade é fazer escolhas e, por conseguinte, assumir responsabilidade.” Gary Cox

pinacotecaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

cães

se eu tivesse uma casa/jardim/quintal recolheria cães perdidos, os chamados sem raça definida: maltratados, e sofridos andarilhos

se eu pudesse eu resolveria o problema destes cavalos escravizados atrelados em carroças que correm ao chicote sem saber o por quê

o bicho homem pode ser tão cruel! Indefinidamente cruel

E.M.B.Mattos – outubro de 2018

na fazenda com os cães

Lolita ou FALA, MEMÓRIA

Porque estou inquieta escrevo. Preciso ficar dormindo. Não consigo. Renovar recomeçar, adolescendo. Céus! Evito pensar no cansada, no exausta, no tempo. Existem pessoas geniais, mesmo quando elas não se sabem geniais. Não sei definir o fantástico, único, especial, inteligente, iluminado. Aquele que resiste, persiste, fica e decide. Eu oscilo entre leituras oscilantes. Quero aquele prazer suado, libidinoso, quente. O livro termina antes da leitura findar, num parágrafo é já é ponto final. Outras leituras são arrastadas, lentas, e eu vou seguindo, fico eu mesma lenta…, e nesta lentidão indecisa. O vagar abraça beija, mas não move. Sei lá…, não se resolve. Então eu abro outro livro. “O berço balança sobre um abismo e o senso comum nos diz que nossa existência não é que uma breve fenda de luz entre duas eternidades de escuridão.

Uauuu! Literatura, palavra ou apenas uma frase, dois verbos, duas orações. Não resisto: “Embora as duas sejam gêmeas idênticas, o ser humano, como regra, vê o abismo pré-natal com mais calma do que aquele para o qual se dirige (a cerca de quatro mil e quinhentas batidas de coração por hora).

Com precisão ele ousa. Ele é. Ele diz. Ele me assanha. Eu releio, depois vou seguindo. “Conheço, porém, um jovem cromófobo que sentiu algo como pânico ao assistir pela primeira vez a filmes caseiros feitos poucas semanas antes de seu nascimento. Ele viu um mundo praticamente inalterado – a mesma casa, as mesmas pessoas – e então se deu conta de que ele não existia ali em absoluto e que ninguém lamentava sua ausência. Viu de relance sua mãe acenando de uma janela do andar superior e este gesto não familiar o perturbou, como se fosse um adeus misterioso. Mas o que o assustou particularmente foi a visão de um carrinho de bebê novo parado na varanda, com o aspecto presunçoso e invasivo de um caixão; mesmo aquilo estava vazio, como se, na inversão do curso dos acontecimentos, seus próprios ossos houvessem desintegrado. ”

E eu quis dividir a sensação de estranheza porque entrar na escuridão completa parece abusivo. Injusto. Irei protestando. Já disseram que tenho este lado novelesco exagerado. Estou sempre a sapatear no azul mesmo em dias abusivamente cinzentos.

[…] “A natureza espera que um homem adulto aceite os dois vazios negros, antes e depois, tão impassivelmente como aceita as excepcionais visões entre um e outro. A imaginação, deleite supremo do imortal e do imaturo, deve ser limitada. A fim de aproveitar a vida, devemos não aproveitá – la demais. ” Aceito. Eu concordo, e mergulho, engolindo água, nesta imaturidade insistente. E fico consternada. Não quero envelhecer, não quero morrer, não quero pensar, nem quero os livros, já expliquei. Quero viver. Nabokov segue: “Eu me rebelo contra este estado de coisas. Sinto uma compulsão de externar minha revolta e provocar a natureza, insistentemente, minha mente tem feito esforços colossais para distinguir a mais mínima cintilação pessoal na escuridão impessoal de ambos os lados da minha vida. A convicção de que este escuro é provocado apenas pelas muralhas de tempo que separam a mim e a meus punhos feridos do mundo livre da intemporal idade é algo que compartilho alegremente com o selvagem pintado com as cores mais berrantes.” (p.19-21) Vladimir Nabokov in Fala, Memória

LOLITA (filme ou livro) está na memória, ou deveria estar, ou vai chegar na memória dos jovens que ainda não leram ou não viram, ou não sabem. Vladimir Nobokov nasceu em São Petersburgo, em abril de 1899 e morreu em 1977. E vou atrás de referências. Encontro uma carta do Paulo Hecker Filho -, acredito que posso/ podia / deveria e…, eu não fiz o tal livro de memórias, ainda não consegui. Envelhecer pode ser dolorido se não guardamos as boas conexões. Eu acho. Elizabeth M.B.Mattos – outubro de 2018

estteeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee

P.Alegre, 18 de fevereiro de 2004

Beth:

        Estás dando um baile com tantas remessas, verdade que menos cartas – diálogo -que diário. Leva a pensar se não seria de tentares um diário mesmo, em que poderias te deter nos problemas pessoais e aprofundá – los. Pensa nessa

       Não li Desonra, mas A idade do ferro e o COETZEE é mesmo bom. Enxuto, como notas, mas sabendo assim ser mais patético.

       Como falas em ir muito a cinema, não percas Dogville e Terra de sonhos, diversos e chegando longe. 

        Um beijo

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Vi os dois filmes. Poderia rever um e outro. Releio as cartas do Paulo porque todas acrescentam. Sinto falta/saudade.

…, aos poucos vou voltando para casa, devagar. Apesar de ser tão perto, a viagem está sendo longa, lenta, vou/ volto devagar. Pesada a bagagem. Vou carregando tudo o que me pediste. Acho que não esqueci de nada, qualquer coisa escreve, e pede outra vez. Eu vou buscar. Beth Mattos

não sei se tem som

  1. Esta coisa da chuva é pretexto, mas qualquer fuga responde …, uma casa esparramada, envidraçada …, lajotas. As portas-janelas abertas apesar da chuva, … uma aba enorme protege o alpendre. Não molha a cadeira, nem a rede. A sonata se perde pela sala …, os espaços disputam melodia. Ele adormece meio sentado, reclinado, contrariado. O peso parece maior, mas não engordou, nem emagreceu, apenas parou de rir, de falar, segue/persegue o silêncio, e se abstraia da voz da mulher, da música e se afunda …, no sonho, nas correrias de menino, e nesta imobilidade. Albertina acomodada ao silêncio segue o sono que atravessa suas costuras, seu fazer. Ela não larga a rotina. A casa tem o cheiro da cera, do café, da carne assada, do feijão e das frutas picadas. Perfume de rosa e de jasmim. O mato entra pelas narinas como se fosse jardim, pomar, refúgio cozinha e sossego. A chuva bate forte na vida, e renova a terra, o revirado daquela fantasia. Imagino. Inesperadamente eu vou.
  2. Vidraças pingadas. As crianças apertam o nariz no vidro enquanto a chuva deste outubro se atrasa. Brinquedos, livros e cestos pelo chão. Espero acomodar as lembranças e assumir o jardim. Gavetas e estantes ordenadas. A poeira se aquieta, as panelas se escondem. Vejo a ponte entre o mar e a estrada, estremeço inquieta. As palavras me ensurdecem. Exijo silêncio, e adormeço. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2018

tempo suspenso

Uma segunda-feira cinzenta de chuva forte (como eu gosto) e raios e trovões e tarde escurecendo. Quando morava em casa as sensações de estar/pertencer a natureza eram maiores. E podia me encharcar inteira naquele gozo prazer. Barulhada no estômago. E volto no tempo de pensar o tempo do Rio grande do Sul tão avesso ao que vivi no Rio de Janeiro! Diferente da rua Vitor Hugo, em Porto Alegre e daquelas embaralhadas lembranças.

Existe um tempo suspenso, interno, que tudo determina num estranho repetir, repetir, repetir …, se me pergunto o motivo destas questões não resolvidas caio naquele poço da Alice no País das Maravilhas. Não existe coelho, tempo, chá, nem estou com avental branco … apenas a queda e o buraco se assemelham. Como ela, durante a queda, vou espiando/vendo curiosidades. Elizabeth M. B. Mattos – setembro de 2018 apenas registrando a chuva e a saudade de escutar a voz do meu pai e da minha mãe. Eu, de natureza arredia e desconfiada, espiava. Demorei a sair de casa, do convívio deles, assim mesmo, eu me pergunto, aonde o tempo? E aonde nos escondíamos os três.

palavra passado e Melanie

Parodiando o verão. Está ficando calor aqui, sem vento, como se tudo estivesse, por um momento imobilizado. Estrelas carregadas de luz. Bonito isso. Devo estar na alegria completa. Viva. E, por um momento, volto a Melanie. O desejo de ser trinta anos mais jovem, ou seja, voltar no tempo, ou viver no campo en Provence, no interior da Escócia, no Japão, ou Inglaterra, ou ter um mar particular! Ela / a vida sem guerra, eu no sonho.  Transitar na fantasia. Ou voltar para o Rio de Janeiro. Ou milhões de desejos que ter menos trinta, ou trinta e cinco anos propiciaria, penso: Já tive trabalho demais para chegar aonde estou – isto é, ficar tão velha quanto sou. Trabalho /  vida  / conquista / realização,  e censura / contrapondo, vamos incluir, sucesso. Envelhecer é tempo limitado / é ter consciência do stop/parar. Chegou. Mas, fazer outra vez, outra vez, outra vez, ter consciência de quem somos…, ansiedade e sucesso. Vou seguir pensando. Elizabeth M.B. Mattos – setembro quase terminando. 2018 já em Torres

“Estamos quase submersos em neve aqui. Tudo está coberto de neve e o país está bonito de ver. Eu gostaria de poder praticar esportes de inverno, o que subentende o desejo de ser trinta anos mais nova. (Mas não tenho tanta certeza se realmente ia gostar disso. Já tive trabalho demais para chegar aonde estou – isto é, ficar tão velha quanto sou.” (p. 276 Melanie Klein in O MUNDO E A OBRA de Melanie Klein de  Phillis Grosskurth

Japão e Inglaterra

Tóquio, capital econômica do Japão, é a perfeita mescla do novo com o tradicional Com santuários xintoístas e um palácio imperial que se misturam com os clubes de karaokê e convenções de mangá, é possível praticar japonês com os moradores nas lojas no bairro de SHIBUYA DISTRICT, onde fica o novo e confortável centro de idiomas.

E eu fui, e vi e me apaixonei: a mania/magia louca de me apaixonar chegou ao Japão. Visita / viagem imaginária, o neto no bairro Shibuya District, eu a fotografar cerejeiras.

BOURNEMOUTH…, e estou indo pra Inglaterra. “Um dos destinos  de verão preferido pelos britânicos. No charmoso pier em frente ao mar, você poderá escolher um dos muitos esportes náuticos disponíveis, além de visitar acolhedores cafés, mercados de rua e lojas sofisticadas. Nossa Escola EF está bem perto disso tudo!”  EF Cursos de Idiomas no Exterior para adolescentes e universitários.

As fotos inglesas ainda não tenho, mas já estou a preparar a mala. Fico exausta! E meu francês não me salvará, outra vez o neto há de intermediar. Com Valentina, certamente, irei a França…, e para ela, será Paris ou Limoges, Ou iremos para a Bretanha, Escócia voltar na viagem da Joana? Assim eu viajo. Isso é bom. Apenas com eles. Sou tão enraizada em mim mesma! Elizabeth M.B.Mattos – setembro 2018

asas e liberdade e idiomas e sair / voltar e nos reconhecer

Em frente ao mar na Inglaterra, …esta vez perto do mar. No Japão o meu mar eram as cerejeiras.

Le ruisseau

Le ruisseau

Beaucoup d’ eau a passé sous les ponts

et puis aussi énormément de sang

Mais aux pieds de l’ amour

coule un grand ruisseau blanc

Et dans les jardins de la lune

où tous les jours c’ est ta fête

ce ruisseau chante en dormant

Et cette lune c’est ma tête

où tourne un grand soleil bleu

Et ce soleil c’est tes yeux

(p.60)  Jacques Prévert

Histoires  poèmes de Jacques Prévert et André Verdel

lire, Le Tendre et Dangereux Visage de L’Amour

[] c’ est qu’il m’a blessée

blessée au coeur

et pour toujours

Brûlante trop brûlante

bleussure d’ amour

(p.67)

Frank Wan para Elizabeth Menna Barreto Mattos
Obrigada Frank Wan pela tradução.

O riacho

Muita água passou sob as pontes
e também muito sangue
Mas aos pés do amor
Corre um grande riacho branco
E nos jardins da lua
em que todos os dias celebramos você
este riacho canta dormindo
E esta lua é a minha cabeça
onde gira um grande sol azul
E esse sol são os teus olhos.

Jacques Prévert
Histórias e poemas de Jacques Prévert e André Verdel
ler,

O terno e perigoso rosto do amor

(…) me machucou
machucou meu coração
para sempre
a ferida do amor

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indiscreta velhice

1.

Escrevo às pressas. Tento te encontrar, não estas. O sábado amanheceu gelado e cinzento. Café forte, piano e o poema de Bertolt Brecht

Fôssemos infinitos

Tudo mudaria

Como somos finitos

Muito permanece

Leio tua carta que conta do leilão no Rio de Janeiro. Não fosse minha vida atabalhoada, correria para teus braços. Tempo de mergulhar neste mar, caminhar nestas areias. Coisa de meninos. Esqueceste de contar do hotel, do café, e dos jornais lidos. Sinto saudade da minha carioquice, da ponte aérea, de Buenos Aires e muito, tanto de Montevidéu, da casa em Carrasco. Avisei  os meninos da tua impossibilidade de visitar, da tua pressa. Ficaram desapontados. Trabalho bastante. Ontem uma curadoria especial montou a próxima exposição. Sucesso certo. O evento trará o moderno contemporâneo conversando com duas gerações. A galeria preta, toda uma concepção de luzes especiais. O trabalho reduz/diminui o tempo que fico longe de ti. Estou a procura do apartamento para melhorar a vida andarilha. Cavernas que se comuniquem…  Ontem fiz um assado com  batatas, gostarias. Abri a última garrafa de tinto. Escrevi cartas. Conversei com os filhos, os teus, os meus e voltei ao piano. Alguém me perguntou por fotos. Não temos fotos juntos. Tenho que te contar que rejuvenesci  ao criar uma livraria dentro da própria galeria. Trabalho com três editoras para abastecer as estantes. Sinto uma enorme sede de leituras demoradas. Sede e ansiedade neste fazer crescente. Ideias se desdobram… Não preciso dizer da saudade que sinto dos teus afagos, tua mão no meu corpo, teus beijos à beira do fogão, e nossas loucuras amorosas pela casa. Eu danço para te divertir. Somos o mesmo ritmo. Não imaginas a enorme fantástica chuva! Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2018