…, pode ser aquietar e voltar. Como ainda nem consegui sair, abri outro livro de Orhan Pamuk – O Livro Negro. Tempo de viver escondido, interrompo a leitura, eu penso. E volto. Embora desatinada, sem saber bem o motivo de voltar, volto. Que eu consiga chegar! É assim mesmo. Depois de cair e depois de esfolar joelhos e cotovelos, não desistir. Chegar. “Como gostaria de caminhar ao sol por entre os salgueiros, as acácias e as roseiras do jardim secreto protegido por muros altos em que Rüya, fechando cuidadosamente as portas atrás de si, mergulhava toda vez que adormecia serena. Mas sentia um medo constrangido dos rostos que lá poderia encontrar: […]” (p.12) Também eu tenho medo de entrar no sonho errado. De falar com a pessoa errada. De dizer errando e equivocada. Bem! Depois, talvez, quem sabe, morrer de vergonha! Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2018
Uncategorized
às vezes
Às vezes dá canseira de leituras. De livros e de escrever: vontade mesmo é de respirar. Divertir / rir! Elizabeth M.B. Mattos – setembro – 2018, ainda Torres
amor e amizade
Está nos livros. Ou potencializado dentro da pessoa, ou na música, este jogo ensaiado do amor, e repetido e o único que importa. A espera de. Penso que é para sempre, para sempre… E não é. Eu quero sentar e conversar. Beber chá, café, Comer pão com geleia vermelha, e manteiga. Quero estar contigo, uma meia hora, ou duas horas. Sugestão. Vamos ler As Brasas de Sándor Márai em voz alta, ouvindo nossas vozes. “O sentido do amor e da amizade estava todo ali. A amizade deles era séria e silenciosa como todos ali. A Amizade deles era séria e silenciosa como todos os grandes sentimentos destinados a durar uma vida inteira. E como todos os grandes sentimentos, continha certa dose de pudor e de culpa. Ninguém pode se apropriar impunemente de uma pessoa, subtraindo -a de todas as outras.” Sándor Márai
Estou respirando… Raios e chuva forte, a música. O cinzento londrino. O tempo, o meu tempo de ser e voltar: aquietar, usufruir. Tempo de absorver. Elizabeth M.B.Mattos — setembro – Torres
e namorar
“A passagem do tempo exaspera e condensa qualquer tormenta, embora no princípio não houvesse uma só nuvem minúscula no horizonte. Não sabemos o que o tempo fará de nós com suas camadas finas que se super – põem indistintas, em que é capaz de nos transformar.”(p.266)
Este tempo que Javier Marías descreve passando eu sinto / toco / invoco desde sempre. Como criança/menina tardes infindáveis monótonas entre bonecas e o nada. Jovem/ moça a nostalgia de ser criança sem nada fazer eu me pensava/ imaginava independente / livre. Surpreendentemente, mulher, já era mãe, e sendo mãe, – já estou blindada, impossibilitada de avançar / voltear / recomeçar ou refazer. Não me permito, não te permites. Então, não estou / não faço / não vejo. Imagino. Invento. Escondo, depois eu te conto…
“Não sabemos o que o tempo fará de nós […]. Avança discretamente, dia a dia e hora a hora e passo a passo envenenado, não se faz notar em seu sub – reptício labor, tão respeitoso e comedido que nunca nos dá um tranco nem um sobressalto. Toda manhã aparece com seu semblante tranquilizador e invariável, e nos assevera o contrário do que está acontecendo: que está tudo bem e nada mudou, que tudo é como ontem – o equilíbrio de forças -, que nada se ganha e nada se perde, que nosso rosto é o mesmo e também nosso cabelo e nosso contorno, que quem nos odiava continua nos odiando, e quem nos amava continua nos amando. E, de fato, é o exato contrário, só que nos permite avistá – lo com seus traiçoeiros minutos e seus enganadores segundos, até que chega um dia estranho, impensável, em que nada é como sempre foi: […] ” (p.266-267) Javier Marías Os enamoramentos
Tudo tão menor, tão apertado, desolado! E agora? Como vai ser amanhã? Igual. Vou fazer café. Arrumar as camas. Ler jornais. Pensar no almoço. Acertar as contas. Podar os galhos, colher flores e frutos.
Todas as vozes do mundo atropeladas, pausadas. Histórias risonhas, chorosas. E algumas tão silenciosas! Sonhos dobrados se esticam preguiçosos. Sonhados, abertos como lençóis perfumados. Arrumo as roupas extraviadas/achadas, dobro, estico. Lavo as xícaras, dois pratos, os copos preguiçosos que esperam, desmaiado ânimo. E, num desavisado momento, o espelho. Nada mais como antes. E posso não escolher o presidente, não votar (que angústia!), nenhum político para olhar este lugar de mar e beleza e sol e tanta chuva. O tempo se arrasta. Envelheço mansa e quieta. Ou agitada. Mulher mãe avó tia irmã. Amiga rabugenta. Ansiosa, inquieta , e aqueles sentimentos todos de plenitude e completitude e enamoramento escorregam. Fico fechada nas páginas de outro livro enquanto penso Valentina João Lucas José Antônio Celso Geraldo Ana Maria Cristina Marina Guilherme Laura Jorge Roberto Anita Tânia Suzana André Joana Luiza Lucia de luz, e Luisa e Pedro Stella Eduardo Ricardo e prima e primo, irmão e irmã, mãe e pai e tio e tia: madrinha e mar.
“Enamoramento pode suplantar o amor […] O que é muito raro é sentir um fraco, verdadeiro fraco por alguém, que esse alguém produza em nós essa fraqueza, que nos torne fracos.”
E a vida fica / ou se explica neste enamoramento inexplicável. Nestas conexões equivocadas. Nestes blindados conceitos do que é certo ou errado porque a vida assim o determinou, e porque podemos ser apenas uma pessoa. Não posso deixar de ser eu para ser você ou nós. Uma vida, não tantas, …mas, eu acho/penso/imagino que não temos apenas um amor azul. Também temos os verdes os castanhos. O limite. Somos apenas um. Ser muitos não podemos, há um círculo. Não podemos sair dele. Ou eu posso? Ser criança e mãe e moça e estudante e artista e operária. Não posso. Não ao mesmo tempo. Quero sair do borralho, dormir no sótão, conhecer o porão e dançar no baile com o príncipe. Claro, deixar um sapato de cristal ao descer as escadas do palácio. E depois, rolar, rolar no gramado, sentir o sol, e o sal. Fazer amor no teu amor. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2018 – Torres

Consegui escutar o mar: o silêncio da noite o trouxe para perto.
eu
Eu me perco…, estranho abraço proibido. Falta indefinida, contida e grande. Não sei …, um desejo sem desenho. Se eu nunca soubesse! Se não tivesses dito nem pensado!
Gosto do cheiro destes jasmins escabelados, castigados pelo vento … Perfumados. Elizabeth M.B.Mattos – setembro de 2018 – uma tristeza pequena, bem pequena.


cheiro de terra
Cansada e a cabeça se agita inquieta: vou tentar dormir. Bom que a chuva veio forte cheia de trovões e vozes e … este jeito de cair tão audível fica visível e me acalma, ou conta estórias. Como criança sei que não posso sair nem fazer. Estou segura atrás do vidro. A chuva derrubou o calor. Que venham as pitangas, porque as amoreiras estão carregadas e coloridas naquela transição do verde vermelho e pretas : e os galhos se sacodem ao gosto das pessoas. Uma festa movimentada, e agora a chuva. Tudo mais verde. Elizabeth M.B.Mattos – setembro de 2018 – o cheiro da terra molhada já perfuma o apartamento.
quero viver em abundância
… , coisas de Clarice Lispector, sim, sempre ela. Ninguém queria que ela estivesse lá aonde ela estava … Hoje não resisti, não escrevo, vou citando, usando:
“[…] assim como uma pessoa vai pouco a pouco se habituando ao escuro e aos poucos enxergando”
” Queriam elogiar a vida e não queriam a dor que é necessária para se viver, para se sentir e para amar. Eles queriam sentir a imortalidade terrífica. Pois o proibido é sempre o melhor.” (p.64) Clarice Lispector Onde estivestes de noite
Vou querer saber onde estavas nas noites que não te encontrei. Nas noites que não me pensas nem me queres, porque sou praga desajustada, marca de amado amor. Sou eu. Depois joga fora. Sou eu arrastando esperando para que não sintas vergonha, para que não sintas dor. …ah! meu amigo, sou eu te amando sem explicação, dizendo que te gosto agora. É meio ridículo tudo isso: os braços desanimados, as pernas, os babados, a barriga… tudo lamentável. Mas eu tenho olhos! Que gostes dos meus olhares, o resto, descartas. E se te gosto quero saber ONDE ESTIVESTE DE NOITE. Depois eu me acalmo. Eu sei: estamos blindados. Motivos diferentes, mas blindados, …e isso é/pode ser/ encenação. Não estamos protegidos. Vamos ao palco. Será que nos beijaríamos? Desconexo. Elizabeth M.B.Mattos – setembro de 2018 – TORRES




beijo e conexão
Beijo. Beijo estou devendo, estás devendo. ‘Já se perdeu’. Não faz sentido. Não tem gosto, nem mais boca…, nem memória no desejo. Esfumado beijo. Traço, mentalmente, o equívoco da história de uma foto de menino que me encantou. Risonho, alegre. E agora no livro OS ENAMORAMENTOS de Javier Marías imagino.

“Olhava para seus lábios enquanto ele perorava, olhava para eles fixamente e tempo que descaradamente, me deixava acalentar por suas palavras e não podia desviar os olhos do lugar por onde saiam, como se todo ele fosse boca beijável, dela procede a abundância, dela surge quase tudo, o que nos persuade e o que nos seduz, e o que nos faz mudar de ideia e o que nos encanta, e o que nos suga e o que nos convence.’Do que há em abundância no coração, fala a boca’. […] Fiquei perplexa ao verificar quanto aquele homem que eu mal conhecia me agradava e me fascinava […] a gente acha que o que nos apaixona todo mundo deveria desejar. […] tudo que provinha daqueles lábios me interessava,'” (p.115)
Presa no mesmo livro, logo passarei para outro, e será Francisco Brennand. Irei antes de São Paulo, antes do Rio, antes de mais nada, passar vinte dias em Recife, preciso. Estupidamente resumi o livro a um beijo. Ou a tua lembrança, uma foto. E sendo um dos melhores, parece que desaprendi a ler e entender, mergulho, afundo. O livro se transformou num objeto erótico.
… bem, igual. Quero te contar o singelo desencontro e a importância da conexão que se arrasta linda / pura / inteira / e por que não contaria, meu amigo? Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2018 – Torres


não é contável
…, pois eu estava/estou a tentar contar/dividir, tentando … Não consigo. Esbravejo. Digo besteiras/ bobagens/ esqueço/ atropelo os pronomes. Como não citar/mencionar/ alongar/ esquecer este Javier Marías? Este espanhol -, bem, não digo. Eu o beijaria porque é lindo, e ficaria olhando. Ele já disse T U D O -, melhor não dizer mais nada. Sigo envolvida. Volto aos livros para ajustar citações que não especifiquei …, e me perdi. Gostaria que tu / você …, que. Não sei. E eu pensei. Fidelidade não existe. Existe amor. E quando não é mais, bem, terminou. Não é mais. Portanto, … uma despedida dolorida, uma aceitação. Uma pedra pesada, ou um buquê de flores. Miosótis. Amar está ordenado nos olhos e no coração. Se desaparece …, não quero mais olhos azuis, quero os teus apertados, acastanhados. Tu entraste/ você entrou na minha vida/casa descuidado, ao acaso. Preciso te/ lhe contar esta história/ ou foi estória? Uma pequena mentira se transformou numa enorme V E R D A DE. Sou A PA I X O N A D A por este espanhol. O que faço? Elizabeth M. B. Mattos – setembro um pouco antes da primavera terminar. Agora 2018 … 2010 já passou, ou foi 2009 o começo desta obstinação por Javier -, vou examinar os livros. Céus!

“ A vida não é contável, e é extraordinário que os homens tenham passado todos o séculos de que temos conhecimento dedicando -se a isso, empenhados em contar o que não pode ser contado, seja em forma de mito, de poema épico, de crônica, anais, atas, lenda ou gesta, versos de cego ou cantigas, de evangelho, vida de santos, história, biografia, romance ou elogio fúnebre, de filme, de confissões, memória, de reportagem, dá na mesma. É uma empresa condenada, falida, e que talvez nos traga menos benefício o que danos. Às vezes penso que valeria mais abandonar o costume e deixar que as coisas apenas passem. E depois se acalmem. (p.110) Javier Marías Seu Rosto Amanhã [vol.I] Febre e Lança
culpada a mulher
Culpada a mulher. Javier Marías faz uma nota ao final do romance para esclarecer o título Tomorrow in the battle think on me . Cena III do Ato V de Ricardo III Amanhã, na batalha, pensa mim -, frase que aparece muitas vezes ao longo do livro. Essas são e não são estritamente de Shakespeare, depende. Em certas ocasiões são citação textual, em outras apenas paráfrase. E há um adjetivo, ‘ferruginosa’, aplicado a uma lança, que não está em absoluto em Shakespeare, mas em Juan Benet e antes dele em Miguel Hernández. (p.376) Javier Marías
Quero impressão apertada, concreta. Quero sair da raiva obstinação. …, estou arrependida de ter escrito/ dito que ele persegue/maltrata as mulheres. Repensar. Sem negar. Estou naqueles dias avizinhados de muito amor. Tenho vontade de bater xingar gritar, (pareço monstro! a escandalizar…). Prisioneira. Assustada porque desavisada. E não quero ouvir nada. Digo que estás proibido de ficar doente, de morrer ou respirar. Estás proibido de pensar de engordar de emagrecer. Estás proibido de dizer. Vou bater, bater até doer muito. Depois tu / você podes/ pode chorar. Depois. …,depois que eu chorar tudo que preciso chorar. De gritar até ficar exausta. Depois que eu mesma morrer. Depois …, tu/ você respiras / respira ou choras / chora, ou passa a sorrir porque me pensa/pensas. Depois …, ANTES estás / está PROIBIDO. Vou ler Assim Começa o Mal ou Enamoramentos, os livros estavam a me esperar na prateleira. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2018
