nenhuma esperança

Quando você entregar estas cartas”[..]

“Se ela deve saber que você a ama no mesmo instante em que descobre que não há nenhuma esperança nesse amor, por que lhe contar afinal de contas?” (p.165)

“Ao contrário de você, não tenho medo da vida nem de minhas paixões”, disse Necip. Temendo ter perturbado Ka, ele acrescentou:” A única coisa que me interessa são estas cartas: não consigo viver sem estar apaixonado por alguém ou por alguma coisa bela. Agora eu tenho que buscar o amor e a felicidade em outro lugar. Mas primeiro tenho que tirar Kadife da minha cabeça.” ((p.166) Omark Pamuk – Onde Deus não existe – em NEVE

Pesadelo e o terrível. O dramático percurso com a leitura, a memória escapa foge e se esmaga  … Então eu preciso tomar notas, sublinhar, ou voltar, usar de estratégias para segurar trama ambiente. Redesenho  modelo a minha maneira. Claro que eu me assusto. Viver parece tão urgente! Esquecer se transforma  num gigante assustador. Existem soluções para me distrair de mim mesma. Brincadeiras. Tenho recursos para as boas lembranças, mas tantas vezes negligencio, desvio e penso num dia dentro do outro …, apenas sobrevivo. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2018 – Torres e muito frio.

 

dois tipos de homens

Não quero que você me deixe nunca, disse Ka a Ipek. Fiquei loucamente apaixonado.

Mas você mal me conhece, disse Ipek.

Há dois tipos de homem, disse Ka em tom professoral. O primeiro não se apaixona antes de ver como a jovem come um sanduíche, como ela penteia o cabelo, com que tipo de bobagem ela se preocupa, por que ela tem raiva do pai, o que as pessoas comentam sobre ela. O segundo tipo de homem – aquele em que me enquadro – só se apaixona por uma mulher quando sabe quase nada sobre ela. […]

Quer dizer que quando você souber como eu como um sanduíche e o que uso no cabelo, deixará de me amar.

Não, porque a essa altura a intimidade que se criou entre nós se aprofundará, transformando-se num desejo que envolverá nossos corpos, e estaremos ligados para sempre por nossas lembranças felizes.” […]

Como você pode apaixonar – se por mim sem nem me conhecer? 

Porque você é muito bonita… porque já vi em meus sonhos como seremos felizes juntos… porque consigo lhe dizer qualquer coisa sem a menor vergonha. Em meus sonhos não consigo nunca para de nos imaginar fazendo amor.

O que você fazia quando estava em Frankfurt?

Eu pensava um bocado sobre os poemas que não conseguia escrever… Eu me masturbava… A solidão é essencialmente uma questão de orgulho; você mergulha em seu próprio cheiro. É sempre assim com todos os verdadeiros poetas. Se alguém passa muito tempo se sentindo feliz, se torna banal. Da mesma forma, se você fica infeliz por muito tempo, perde sua capacidade poética… A felicidade e a poesia só podem coexistir por um prazo brevíssimo. Depois disso, ou a felicidade embota o poeta ou o poema é tão verdadeiro que destrói sua felicidade. Morro de medo da infelicidade que me espera em Frankfurt.”

(p.150- 151)  Orhan Pamuk  Neve

às vezes

…, às vezes acho que tudo poderia ser diferente, e poderia se eu tivesse te encontrado antes  …, outras, acho que está tudo na medida certa, certo triste passageiro complicado e confuso. Eu nunca vou entender bem o porquê.  Beth Mattos – julho de 2018

Não é apenas chuva que desceu do céu, mas um protesto. Estar em casa, na frente do fogo, ou no abraço, –  um consolo.

beleza e desejo

Lui: Tu me donnes beaucoup l´envie d´aimer. ( Tu me dás vontade, desejo de fazer amor.)

Elle ne repond pas tout de suite. Elle a baissé les yeux sous le coup de trouble dans lequel la jettent ses paroles. […] ( Ela não responde  imediatamente. Ela baixa os olhos sobre a força daquelas palavras [me escapou alguma coisa para traduzir, uma expressão]

Elle:  Toujours …les amours de  …rencontre… Moi aussi… ( sempre …os amores de …reencontros… Em mim também acontece o mesmo [esta vontade de fazer amor]

[…]

Elle: De même que dans l’amour cette illusion existe, cette illusion de pouvoir ne jamais oublier, de même j’ ai eu l ‘ íllusion devant Hiroshima que jamais je l’ oublierais. (Como no amor esta ilusão existe, esta ilusão de nunca mais poder esquecer, eu tive esta mesma ilusão diante de Hiroshima que eu nunca esqueceria.)

De Même qu dans l’ amour. (p.28) (Do mesmo jeito acontece com o amor.)

Lui: Comment c’ était ta folie à Nevers? (Como foi enlouquecer em Nevers?

Elle: C’est comme l’intelligence, la folie, tu sais. On ne peut pas l’expliquer. Tout comme l’ intelligence.  Elle vous arrive dessus, elle vous remplit et alors on la comprend. Mais quand elle vous quitte, on ne peut la comprendre du tout.” (p.58) ( É como a inteligencia, a loucura. Não se pode explicar. Exatamente como a inteligencia. Ela chega por cima, ela preenche ou nos toma por inteiro, então a gente compreende tudo. Mas quando ela nos deixa, a gente não consegue mais compreender totalmente.)

Marguerite Duras – Hiroshima mon amour – (p.68)

A gente volta para a terra e a beleza está em todo lugar, encontra certeza cheiro e explora o tempo. Dizer, explicar, não consigo. Apenas sei. E.M.B. Mattos – julho de 2018

Com a tesoura fantastico

comigo mesma

Acordei livre, mais eu, menos triste, menos escuro. Ritmo próprio, dança lenta comedida. Escuto música canto, gosto! Estranho domingo laborioso! Lavo roupa. Lençóis perfumados com alfazema. Troco água dos vasos. Café da manhã com cerimonia: toalha branca. Geleia queijo presunto. Ovos. Frutas.  Estou na página da revista, estou em casa. Janela aberta. Estrada aberta. O mar a resmungar… Areia e sal. Bom morar eu comigo mesma. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2018 – Torres

je suis le cahier bonito

na vígilia

Fechner fundador da Psicofísica insatisfeito com a ciência acaba seduzido pelo espiritismo da Índia védica, sem renegar seu passado científico tenta encarar a morte e a imortalidade como decorrências automáticas da vida. Resumiu sua tese desta forma: ” O homem na terra não vive uma só vez, vive três:  a primeira etapa da vida é um sono contínuo; a segunda, um alternar de sono e vigília; a terceira, uma eterna vigília. Na primeira etapa vive ele solitário na treva. Na segunda vive em sociedade, mas isolado, junto aos outros, numa luz que a superfície reflete. Na terceira, sua vida se entrelaça com a das outras almas para uma existência no mais alto espírito, e passa a contemplar a essência das coisas imortais.” 

Lembrei do F.T. e das três mortes de Che Guevara …, só lembrei.  “O caminho que tomamos para passar da segunda para a terceira etapa não é mais obscuro do que o que trilhamos para passar da primeira para a segunda. Um leva à contemplação exterior, o outro a visão interior do mundo.” Fechner dá uma boa síntese. Estou na vigília. Que seja! Beth Mattos

escandaloso

O texto acorda escandaloso logo quer saber o caminho de seguir na letra, e dá risada! Dar uma boa aula é saber pensar e não apenas sentir, ou saber… e, o certo é que somos, basicamente, pessoas exibicionistas. (Não sei porque lembrei disso, sou exibicionista? Talvez!)

Por favor, vem me buscar! Pega meu braço, meu corpo. Beija minha testa. Aquece o corpo, esquece a dor. Quebra a noite para nascer outra vez na água do rio que brota da pedra. Quero saber se o riso das tuas lágrimas tem cor e sabor. Ouvir a terra. Ouvir a música. Estar lá do lado certo em que o mundo é mundo. Quero ter voz, cheiro e beleza. Escutar, perguntar, sem terminar de dizer. Abrir a porta, e te ver chegar sem saber que eras tu…  Elizabeth M.B. Mattos último dia de junho para nunca mais falar de amar,  não sei mas…, vou tentar. 2018

inventar

Inventar o real, ou tornar verdadeira uma vida falsa, ou mais relevante ainda, tornar falsa uma vida verdadeira. Bela tarefa para um escritor segundo Rubem Fonseca. E André Gide acrescenta: um romancista medíocre faz/escreve seus livros a partir da vida real, e o bom escreve sobre vidas possíveis.

Uma semana para pensares e eu estarei aqui quieto e prudente.” E eu me agarro a vida possível. Nos pedaços, não avanço: passo uma semana a costurar e bordar e cozinhar, no tédio. E como tu saíste do nada para me dizer tudo o que de verdade importa, … eu, de natureza lenta, e nostálgica, permaneço estarrecida e, me confesso apaixonada. Apaixonada não pelo homem real, este não conheço, mas ironicamente, pelas letras, pelas palavras. “Porque o físico é tão ou mais importante do que a palavra.” Escreveste. Depois exiges, pedes, insinuas, repetes, “mas quero te ver crescer e crescer a mulher que vive dentro de ti atolada de letras, e que te dispas destas letras todas: nudez das letras“. Estou atrapalhada com a verdade. …, “antes chamavas atenção pela beleza, e agora, sem ela, tens que continuar reinando só no escuro“-.  Imagino este escuro seria/é no abraço, no beijo, no gosto da tua pele, nos acessos de alegria…, talvez. Sexo não é nem de perto o mais difícil, ou perigoso, mas nosso intimidade derramada, sim. O ar estala com perguntas não feitas porque o tempo do silêncio me afoga. Inadvertidamente, atravesso a linha. Sim, vou voltar à ideia serena de ser aquela que pensa na palavra, no livro, no irreal, na grama. O aroma do grande jardim continua em tua pele: vento ozônio grama seca e doce como madeira recém cortada. Não. Grama úmida, encharcada de chuva e cheiro de terra, do revirado perfume da madrugada. Estou nos teus braços consumida pelo beijo. “Nem sempre os dois querem ao mesmo tempo, então…” Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2018 – Torres

EU no colégio BOM CONSELHOimagem021

 

sessenta e quadro ou setenta e dois

Agora, nada mais havia a ser feito. Percebeu que estava muito cansada, porém era um cansaço suave, acalentado e confortado por tudo que a cercava, como se sua casa fosse uma pessoa carinhosa, que a abraçasse com ternura. […] ela se percebeu surpresa, impregnada pelo tipo de felicidade irracional que há anos não sentia. Deve ser porque estou viva. Tenho sessenta e quatro e, se devo crer naqueles médicos idiotas, sofri um ataque cardíaco. Ou qualquer coisa assim. Sobrevivi, agora isso ficou para trás, e não falarei mais a respeito, nunca mais. Nem pensarei. Porque estou viva. Posso tocar, ver, ouvir, cheirar, saborear; cuidar de mim mesma; deixar o hospital por vontade, pegar um táxi e voltar para casa. Há anêmonas brotando no jardim, e a primavera está a caminho. Eu a verei. Testemunharei o milagre anual, sentirei o sol começar a ficar mais quente à medida que as semanas passarem. E porque estou viva verei tudo isto acontecer e serei parte do milagre.

Recordou a história de Maurice Chavalier. ‘ Qual a sensação de estar com setenta anos?’, perguntaram para ele. ‘ Não é tão ruim’, respondera Chevalier, ‘ se a gente considerar a alternativa.’ Para ela […] Agora, viver se tornara não a simples existência que a pessoa tina como garantia, mas um prêmio, uma dádiva, com cada dia ainda por vir, transformado em uma experiência ser saboreada. O tempo não duraria para sempre. Não desperdiçarei  um só momento, prometeu a si mesma. Jamais se sentira tão forte, tão otimista. Era como se voltasse a ser jovem, desabrochando, e algo maravilhoso estivesse prestes a acontecer.”   Rosamunde Pilcher  Os catadores de Conchas