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Não sou o que outro imagina, nem sinto como o outro pensa ou quer, nem compreendo. Invento e concluo: um dos desastres de envelhecer é este atordoamento de gostar da diferença, ou da vida que não é a minha. Também do livro não lido, do inconsequente. Da leveza do sorriso fácil e da alegria. Elizabeth M. B. Mattos – Junho – chuva e raios – Torres – 2018

Círculo Klint

Com a tesoura fantastico.jpg

Do livro – mundos possíveis de Hilma af Klint

 

prazeirar

Eu, de natureza lenta e preguiçosa, descrente, escrevo ou toco piano? O que faço melhor? Rezo cometo pecados, e não faço … acumulo culpas. Prazeirar é um fazer? Leveza das risadas.  A cada conhecimento, a cada volta associações diferentes. Para cada mundo possível existente há um mundo possível diferente.  Elizabeth M.B.Mattos junho de 2018 – Torres

VERDE e planta CASA DO PEDRO

 

 

consternada

Tudo quero ler, tudo esqueço. Consternada retorno/ retomo ansiosa a memória. Criança curiosa, com franja. Os sapatos comem as meias e a boneca boceja. O fogo aquece seus olhos neste entardecer. Ah! que vontade tenho de voltar para a rua Vitor Hugo, 229 em Petrópolis: recomeçar tudo outra vez. Elizabeth M.B. Mattos – junho em Torres.

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miosótis

O inverno se encostou  nos meus ossos e o vento corta minhas mãos. As pernas não se mexem, os cabelos no gorro de lã. Meias grossas, luvas também de lã. Antes de sair três goles de vinho.

Um frio refestelado debaixo deste céu cinzento. Corro pelas calçadas até chegar a praça. Rosto vermelho alegria risonha. Bom voltar ao que era, sem perder o que foi e já sonhar com o que será.

Livros empilhados estufas acesas cozinha tomada por caldo de feijão e carne de panela, sopa de ervilha, torradinhas, bolinhos de carne, batatas cozidas. E sono, mais sono. Uma gripe, ou resfriado incomodado. Quero um ramo de miosótis. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2018 de volta para Torres.

 

 

espera por nós, 1963

Leitura, em tempo, refeita. Explode o que não vivemos, nem fizemos.  Pressão e silêncio. Ando corro interrompo sofro. E fica o não sentido, a estória na história neste encontro desfeito, intenso. Preso no escuro. Chamo por nós. Um  privilégio sentir: sentimos. Envelheço no espelho, tão rápido! Ou fui eu a pensar querer sozinha. Estrangular enfurecer apagar a memória. Maquiavelicamente estás a rir a te vingar. Qual o sentido deste nada?O não sentido …, privilégio ser blindado. Armadura da distância, do longe.

ausência, silêncio, euforia, tristeza,  silêncio, medo, pânico (envelheço tão rápido, não respiro, mas envelheço) silêncio

A porta está entreaberta, venta por aqui. Jasmim camélia e o verde da grama com cheiro de terra. Subo e desço as escadas. Abro as janelas. Faz azul por aqui …, gosto. E procuro por nós dois. Onde se escondeu o silêncio? Não nos encontro, adormeço e acordo. Não te encontro. Elizabeth M.B. Mattos – São Paulo – 2018

Na medida em que nos retiramos para nossas mentes, esquecemos como ‘pensar’ com nossos corpos, de que modo usá – los como agentes do conhecimento. Assim fazendo, também nos desligamos do nosso meio natural e esquecemos como comungar e cooperar com sua rica variedade de organismos vivos.” (p.37) Frtjof Capra PONTO DE MUTAÇÃO

 

São Paulo na Antônio Bento

“Na verdade, ninguém reconhece o momento mais feliz da sua vida no instante em que  vive. Pode ser que, num momento de grande alegria, alguém possa acreditar sinceramente que está vivendo esse instante de ouro “agora”,mesmo já tendo vivido antes um momento igual, mas, pense o que pensar, numa parte de seu coração ainda acreditará na possibilidade de um momento futuro mais feliz. […] pensar que se encontra no momento mais feliz da sua vida, terá sempre a esperança de que seu futuro venha a ser igualmente lindo,  ou ainda  mais.”(p.86) Orhan Pamuk O museu da inocência

(…) esta alegria de dentro, interior, e forte se derrama e faz explodir o coração. Um  tremor estranho, é preciso agarrar o tempo. E não posso esperar. Elizabeth.M.B.Mattos – junho de 2018 – São Paulo 

inocentes cruéis caçadores ou guerreiros

“Gostamos dos homens inocentes, cruéis, gostamos dos caçadores, dos guerreiros, gostamos das crianças.” Marguerite Duras escreve como  se pintasse um quadro. Encena o texto como se estivesse no palco. Individualiza o que pertence a todos. Que a imaterialidade se faça desenho no texto, na imagem. Efervescência e paixão. Recorte de mulher. Há estranhamento na opção mulher/sozinha, homem sozinho. De alguma forma nos espiamos pelas frestas. Toda a vez que penso em fluxo de consciência acrescento a sombra masculina, embora a vida e escolhas tenham sido essencialmente minhas. Vivo fechada, compartimentada, talvez. Nunca dois. Luta de vida inteira: ser eu. Tentativa. Maleável ao amor, ao sentimento. Sofro a condição, mas tenho orgulho da liberdade. Demorei para ser gente grande, atravessei campo minado. Tenho a impressão de que amadureci apenas depois de perder mãe e pai. Eles me tiveram pela mão por longos e intermináveis anos. Sair de casa não é tão evidente como parece. Cortar laços, eleger/escolher a família sem pieguice, mas por afinidade, só a maturidade permite.  E  a tal liberdade que apenas o trabalho nos dá. Fui tentada a permanecer agarrada na irmandade sanguínea. É como estar no útero por toda uma vida, protegida. Amarras.  Enquanto leio Duras eu perco pedaços de Beth ou de Elizabeth ou de Liza …, eu desapareço daquela condição feminina de ser apenas mulher. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2018

“Acho, fundamentalmente, que a situação da mulher, não mudou. A mulher se encarrega de tudo na casa; mesmo que conte com ajuda, mesmo que esteja muito mais alerta, muito mais inteligente, muito mais audaciosa que antes. Mesmo que agora tenha muito mais confiança em si própria. Mesmo que escreva muito mais, a mulher, relativamente ao homem, não mudou. Sua aspiração essencial continua sendo proteger a família, distraí – la, cuidar dela. E se ela mudou socialmente, tudo o que faz, faz em acréscimo a isso, a essa mudança. E o homem, mudou? Quase nada. Reclama menos, talvez. Também se cala mais atualmente. É. Parece que é tudo o que podemos observar. Acontece – lhe de ficar em silêncio. De atingir o silêncio, naturalmente. De descansar do ruído de sua própria voz. […] e, quando o homem se aproxima do lar, a mulher aceita isso? Digo que sim. Sim, porque a partir desse momento o homem passa a fazer parte das crianças. É preciso atender as necessidades do homem e às crianças. E isso para a mulher, também é um prazer. O homem imagina que é um herói, sempre como a criança. O homem gosta da guerra, a caça, da pesca, das motocicletas, dos automóveis, como a criança. Quando ele dorme isso é visível, e nós, as mulheres, gostamos dos homens assim. Não podemos nos enganar a esse respeito. Gostamos dos homens inocentes, cruéis, gostamos dos caçadores, dos guerreiros, gostamos das crianças.” (p.51-52) A vida Material, Marguerite Duras

As ideias estão atrapalhadas manchadas indefinidas. Há que se deter na sombra, na imagem, na coragem, e nesta confusão. Amanhã vou saber mais do que hoje.

nada de nada

Nada de nada e chego onde estás. O silêncio é um universo de entendimento e  a melhor forma de se saber/ poder conhecer a si mesmo. Foi como estar no jardim: entrei na ponta dos pés e pude te cuidar, alimentar, embalar e te fazer acreditar que ainda somos viáveis. Ou ao contrário, foste tu  a me acolher cuidar enternecer e mimar explicando o inviável. O inatingível. Se despe e olha com desejo e com prazer. Saber o que você quer e pode: sim, ser mais desejável para você mesma. E depois,  joga sobre a nudez  a cor que mais lhe agrada. Verá quem deseja ser, o alguém que você ama antes de qualquer coisa. Primeiro ser você apenas você.  Não culpa sons nem quem disse, ou deixou de dizer. Remodela ouvidos e o espírito. E não esquece que intensidade exagerada é desastrosa. Pés no chão e cabeça nas nuvens. Cultivar resiliência.  Be cool como a coca- cola.  Você comigo neste silêncio que tamborila na janela e molha o gramado, e lava o coração. Elizabeth M.B. Mattos junho de 2018. Chuva forte constante e sonora. Arrumo a mala naquela desordem particular distraída da música e da vontade de ficar e ir.

Resiliência, –  palavra do momento desta modernidade molhada de hoje.
substantivo feminino
  1. 1.
    fís propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica.
  2. 2.
    fig. capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças.
    “Nous vivons des myriades de secondes et, pourtant, il n’y en a jamais qu´une, une seule, qui met en ébullition tout noutre monde interieur”  Stefan Zweig
    Sim, apenas uma miríade, uma ínfima parcela de um segundo faz a diferença, e gera encantamento premência ansiosa saudade da tua palavra, você se inclinou e disse falou e ajudou. Por um segundo,  a diferença. Estamos. Beth Mattos
    BEth de pijama

vestida de letras

Entreolhamo -nos, com certo desespero, e dizemos depois: ‘É, até aqui chegamos nós dois.’ Da tua voz, o vento. E com o vento a tempestade. ‘Afinal tens razão, nada a nos dizer. Nada a fazer.’ Não compreendi …, não importa. O que fizemos? Nada. Sequer saímos do lugar. Sigo vestida de letras. Não é preciso compreender. Nem dizer/ falar ou pensar. Frágil, mas não vou quebrar a ilusão. Sonhos abertos insones nas mãos. Eu te convido para imaginar/desejar juntos, e apertar a vida no mesmo momento, agora, vai ficar eterna …, a vida.  Beth Mattos – junho de 2018