emprendimento

Desde o início, e ingenuamente, acostumei você a uma grande paixão, quando é necessário algum artifício para se fazer amar. É preciso procurar com habilidade as formas de agradar: o amor por si só não desperta amor. Como você queria que eu o amasse, e como tinha planejado esse objetivo, fez tudo que pôde para consegui – lo. Teria até se decidido a me amar, se tivesse sido necessário. Mas percebeu que não era necessário amor para obter êxito em seu empreendimento, e que não precisava dele para nada. Que crueldade!”(p.55) Mariana Alcoforado – Cartas de Amor

perfil branco e preto

E por que uma vontade cega e um destino cruel insistem quase sempre em nos ligar àqueles que só por outros se interessam? Beth Mattos – julho 2018

a caixa e o poema

Então resolvi te escrever mais uma carta não atender o telefone não sair da cama e ler o livro até ao fim, tudo o mais farei amanhã. Fecho a caixa. Amanhã vou me sentir OK! Beth/Eliza/Lisa Elizabeth M.B.Mattos – fio de tempo e chuva- julho de 2018

perfil branco e preto

PINTURA

Eu sei que se tocasse com a mão aquele canto do quadro onde um amarelo arde me queimaria nele ou teria manchado para sempre de delírio a ponta dos dedos. (p.143) Ferreira Gullar – Relâmpagos

Ferrreira GUllar

a cada um

A cada um seu jeito de ser, de fazer, de sentir, de chorar, de rir, de resolver… O desânimo se acomoda na insônia, ou no excesso de sono. A energia se exibe enquanto faço sopa, descasco laranjas, penso no feijão,  olho o sol de inverno, sinto frio, depois calor. Ouço música. Vou lustrar limpar polir, e deixar as vozes entrarem… A cada um seu jeito de respirar. Elizabeth M.B.Mattos – julho de 2018

pimentas rosadas

Pimentas rosadas do jardim. Gosto de cavoucar a terra, molhar plantas. Podar, e ter pomar. Sentir cheiro/perfume de jasmins. Pensar camélias. Sinto saudade-perdida da/na fazenda…, e de ser menina. E de Torres olhando o mar. Coisas fincadas na lembrança, saudosa.

pequenas alegrias

Amanhecer bonito. Risco de lua no céu.  Pequenas alegrias se acomodam no café.  Viver tem cheiro de bolo quente. Envelhecer doçura de abraço. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2018

Tommy entrou na frente na casa das pombas, saltitando no terreno irregular. Eu esperava um ambiente escuro, mas o sol jorrava das claraboias.” (p.227)  Kazuo Ishiguro – Não me Abandone Jamais – NEVER LET ME GO

quase nada

Quase nada de novo … Certos detalhes desaparecem ao envelhecer. Não  é Porto Alegre nenhum bairro específico, nem as calçadas, ou do rio que pretendo te escrever, mas dos sentimentos. Poemas leituras recortes. Fugaz momento. Ou a história toda numa frase sem pontuação … Palavras presas nas vírgulas, no suspiro ou estancadas no ponto. O que se completa no papel. Persigo as ditas/malditas escuras palavras.  Corro atrás do tempo e constato: estou mais jovem agora. Elizabeth M.B.Mattos – julho de 2018 – Torres

sensação estranha

Que loucura! Que sensação estranha! A vida numa corrida galopante e a exaustão tomando conta de toda a minha cabeça transformando o raciocínio num labirinto …, em busca do Minotauro. Não, mais um vez ao terapeuta: o sonho, a mesma inquietação, o regate definitivo: ir a França eu mais eu e eu, nunca foi a Elizabeth. Estou embarcando via Varig dia 11  de julho direto para Paris e retorno no dia 27 de julho Paris Porto Alegre. Tudo desejado, planejado. Tua carta chegou neste pacote de excitação e turbulência. Estou, como deves saber, em recuperação de grau, e na próxima semana, exames. Alunos acanhados decepcionados. Outros atrevidos e agressivos. Os corredores cheios. Hipocrisia no ultimo sorriso. Voltam os desastres de sala de aula. Uma palavra, solução e o resultado. Fico atordoada. Sensação estranha! Anjos e espíritos agitados confabulam para que eu siga em frente sem medo. E tu que já me sabes um pouco. seja pelo não confessado, seja pelo que escrevo sentes em cada corrida o medo de ser eu, e eu e eu. Invoco os santos e quem amo. Fecho o círculo e me protejo de mim mesma. Quisera que a vida nunca terminasse, oxalá pudéssemos estar uns nas mãos dos outros abraçados. Tão abraçados que sentiríamos as voltas do corpo do outro enfiadas nas voltas do nosso corpo; seria um beijo permanente como corrente, prisioneiros. Condenados ao abraço. Encarcerados neste prazer suado. Elizabeth M.B. Mattos – 1999 Porto Alegre – fragmento de uma carta

Willys de Castro

Ontem / Trucidar meu corpo / Projetá-lo ao futuro / Sem razão alguma

Hoje / Sem motivo algum / Devolvê -lo ao passado

Remontar meu corpo /  Amanhã

Willys de Castro

Today  / Without any reason / Return it to the past / Put my body back together / Tomorrow – Willys de Castro

Com a tesoura fantastico

 

 

carta extraviada

Constituição Federal

Art.5

XXXIX

Não há crime sem lei anterior que o defina nem pena sem prévia cominação legal;

O que achas disto?

E deste inciso?

II Ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude da lei;

Que tal?

E a mentira que eu vivo? Onde eu a coloco? Tu, tu tens que continuar o moço que és, aliás, recebi este bilhete de uma amiga especial, colega lá do tempo das cônegas, segue na íntegra, ela mora em Fortaleza: ” […] tava olhando a programação da TV  Cultura (é que escuto a rádio Cultura FM de SP enquanto trabalho), e olha o que achei … ! Esses contos da meia noite são ótimos!  Contos da Meia-Noite  – Quinta, dia 03, às 00h00 – Walmor Chagas interpreta Oração da Noite, de Paulo Hecker Filho. O texto retrata a decadência do ser humano pela ação do tempo, a consciência e a dor de se tornar um ‘peso morto’. Reflete também sobre o desabamento dos valores e as limitações físicas e intelectuais. “

Como vês a tua vida continua, e não tens este embate com a mentira, com esta representação idiota que as pessoas fazem ao se acotovelarem aí pelas ruas. E a preocupação de viver e morrer  está dentro de cada um. É mais ou menos assim, escrevi hoje para F.T.  […], e pensei em verdade, no amor puro, na entrega, na paixão. […] Estou lendo O homem amoroso de Javier Marías. Também o livro interessante, biografia de MARIA MARTINS (lá na galeria eu tinha no computador, como tela de proteção, duas esculturas dela – e, ninguém sabia quem era. Quanto ao Marías encantada com as palavras o escrito o jeito e … Queria estar dentro dele, ser ele (o escritor é claro) só um pouquinho. Gostando.

Será que existe verdade? Existe mesmo o mundo com uma verdade?Podemos confiar? Apoiar a mão, dar o braço ou quanto mais caverna para  vida melhor … Pois é, ligou no meio da tarde o A. querendo fazer um livro que não passasse pela Fundação Iberê Camargo, e fosse uma biografia – , ou depoimentos sobre Iberê. Escutei. O que dizer? Nada. Ironia. Saudade. Pedaços. E eu voltei a pensar: somos antropofágicos. O melhor é seguir os instintos e a regressão para a condição de homem-macaco, será a salvação, tenho certeza. Estes primatas eram melhores, são melhores. Quero que a vida aconteça dentro da possibilidade possível daquilo que penso acredito ser o bom. O fazer  se acomoda no bom sentimento produtivo. Busco sonho no talento que me foi entregue e retiro, aos poucos, da energia possível a COISA o fato o criado a criatura construída.  O que é esta coisa? Sou e quero como Deus ser aquela que participa de um momento, de de uma ideia. Esparramo cor, busco possibilidade de…,  pessoas são apoios escudos objetos de pesquisa quando eu mesma me faço suficientemente importante: isto é verdade? Não, tudo mentira.

Mas, o que são as verdades? E o que A. espera que eu escreva? Jovem artista cheio de projetos. Justo o meu morto projeto sobre Iberê. Será amigo? Chegou o momento de escrever logo tudo que sei? Por que não contar das pombas? O meu par de rolas que vem me visitar todas as manhãs … Uma delas morreu, eu acho, tenho visto apenas uma. Os pássaros são fiéis nas suas parcerias. Acendeu em mim, outra vez, aquela vontade de reagir. Não ficar preocupada com o detalhe, o pequeno, apenas contar o que sinto e como eu sinto: gritar do mesmo jeito que aos cinco anos esparramava tinta no papel. Escrever. E já é tarde, eu sei. Tarde para escola galeria, e para pessoas. Contar o que vivi ou mesmo inventar, ou fazer de conta usando as forças de como vejo o mundo. Espantar o medo: inventar mentir. Posso apenas mentir. Dizer das raivas, dos desencontros, dos enganos e das falsas fantasias. O que é, afinal, o medo? Usar o brinquedo / a invenção. É invenção pura: é lúdico. Não é a ciência empírica, mas a vida a ser comprovada. A maçã mordida pela mulher no paraíso que inventou: a mulher que leva o homem como numa canga pagando o castigo da cobiça e pesando com o peso dele. Dizer nada, dizer tudo. Contar estas biografias programadas como a História escreveu a História, e a Geografia? Quem alcança / sabe das mutações da geografia?

Outra vez acordou dentro de mim o discurso velho e manso em que estes arrimo que busco. Não, – não podes me largar agora, nem um  pouquinho de sobra de tempo tens que não seja todo meu. Eu te preciso. Eu te preciso. Eu te preciso: nada de dizer “A ciência é implacável: depois dos sessenta (…)”, eu te preciso com limitações, desarranjos múltiplos para citar até os cerebrais. Nada disto. Agarra-te firme na cadeira, vai tratar na primeira caminhada do meu perfume, meus livros, lápis e sedas, depois conversamos. Tu és as minhas possibilidades além da estampa, da figura de mulher, eu sou gente porque tu escreves para mim. Vais fazer mais do que eles, os médicos. Vais ficar aí, esperando que eu faça o que tenho que fazer. Devo ter uma missão, não devo?  E isto segura o que possa haver de possível dentro de mim como criação: o fazer. A necessidade de dizer. Por isto eu amei  Lispector, Anaïs Nïn,  Canetti,  Lessing, V. Woolf, IBSEN e todas as mulheres ou homens que se debruçaram neles próprios, Kafka Gide, e conviveram apenas com as pessoas que de uma forma ou de outra acreditaram neles. Nada mais vale neste mundo do que este esmiuçar de quem somos nós. O acovardamento é que nos paralisa. Mas, queremos dividir. Isto é demais? Paulo, espera por mim.

Tenho que estudar o REGIMENTO. A prova é neste domingo. Reza. Faz por mim . Fica quieto, aliás, faz todas as compras, bem bonitas. Vai ser tão bom! E me espera, por favor.

9/3/2005 Porto Alegre

frio

…, a explicação de um beijo, de um abraço. “Ka endireitou o corpo e disse ao agente que se tratava de um amigo que o parara na rua no dia anterior para lhe falar de seu trabalho de escritor de ficção científica e mais tarde o levara até Azul. Ele o beijou, explicou Ka, porque aquele adolescente tinha um coração puro.” (p.215)  Orhan Pamuk Neve

Pode não acontecer o abraço porque não estamos no lugar e na hora que deveríamos estar. Frio, muito e tanto frio! O livro Neve perturba pela revolução da Turquia, pelas mortes, pelo trilho que o jornalista-poeta atravessa enquanto busca o amor de uma mulher ilusão e escreve poemas. Escrever neste  trajeto  de angustia meio a bombas, ao medo ou ao susto. A palavra é desafio ou alívio de tensão … Pamuk descreve/ entrega  uma expectativa. Fragilidade do inusitado do terror de uma política violenta. Homens são violentos. A vida parece arremedo e tão apenas cruel seca triste solitária, e violenta. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2018. Tão frio! Gelado.

não pise na grama

A literatura de Henry Miller é o testemunho de uma vida febril, o depoimento de um homem que, relutando em participar da engrenagem social, ressalvou sua liberdade para ler, escrever e pensar. Tento seguir o caminho, tento…, preciso seguir, dizer escrever, chorar, gritar e ser mais feliz, mas fico nas beiradas a me esquivar. Preciso da palavra deles pra me expressar. Medo. Tenho qualquer coisa represada que me assusta, e ou, me falta ânimo, não sei, acho que não vou saber nunca. Grito por socorro! Apenas peço socorro! Não basta. Não avanço. Não luto. Escorrego. Uma timidez-vergonha covarde. E me escondo nos livros, ou me revitalizo com livros, não sei. Na verdade este não saber imobiliza. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2018

Uma pessoa que acredita apaixonadamente e age desesperadamente com base no que acredita. Eu sempre acreditei em algo e assim me meti em encrencas. Quanto mais batiam minhas mãos mais firmemente eu acreditava. Eu acreditava –  e o resto do mundo não acreditava! Se fosse apenas uma questão de supor castigo, a gente poderia continuar acreditando até o fim. Mas a maneira do mundo é mais insidiosa. Ao invés de ser castigado, você é minado, solapado, tiram – lhe o terreno em baixo dos pés. Não é sequer traição […] É um negativismo que o leva a exceder -se. Você está perpetuamente gastando sua energia no ato de equilibrar -se. É dominado por uma espécie de vertigem espiritual, cambaleia na beira, fica com os cabelos em pé, não pode acreditar que por baixo de seus pés exista um abismo imensurável. Isso acontece devido a excesso de entusiasmo, devido a um desejo apaixonado de abraçar pessoas, de mostrar – lhes seu amor. Quanto mais você se estende em direção ao mundo, mais o mundo recua. Ninguém quer amor verdadeiro, ódio verdadeiro. Ninguém quer que você ponha a mão e suas sagradas entranhas […] Enquanto você viver, enquanto o sangue ainda estiver quente, tem de fingir que não existe sangue, que não existe esqueleto por baixo da cobertura de carne. Não pise na grama! Esse é o lema pelo qual as pessoas vivem.” (p.58-59) Henry Miller  Trópico de Capricórnio