turbilhão

Involuntariamente, sua mão fez o gesto de quem afasta alguma coisa, de quem afasta um pensamento. A verdade é que, no mais íntimo  do seu íntimo, ele temia essa força que tem o nome de paixão. Esse turbilhão que leva pelos ares como folhas secas tudo o que um homem tem de sólido, de ponderável, de respeitável! Isso não era com ele. Essa labareda que se consome prodigamente na própria fumaça … Não, ele preferia queimar lentamente.” (p.109) Jens Peter Jacobsen – Niels Lyne Cosac& Naif, 2000 – Coleção Prosa do Mundo

Já que eu não posso te falar nem dizer o que penso. Nem ouvir os comentários da nossa precária vitória  antes da Copa. (Haja futebol! Vamos torcer!) Eu imagino as coisas por dentro, mesmo que não sejam, eu imagino! Um sim ou um não categóricos, um pró ou contra, para que eu deva saber exatamente o que devo odiar e o que devo amar. Estranhezas deste inverno que se fez ameno hoje, durante o dia. Beth Mattos – junho de 2018 quase chegando a São Paulo

gosto dos dois

Inverno. Eu gosto. Um pouco de sol que mais é luz do que calor. Domingo cheio de vozes a esquentar o que dizemos ser amor. Uma receita do que é bom: uma caipira toda iluminada. Filés na manteiga com alho e cebola. Farofa também na manteiga, certo. Aipim macio, frito ou sem ser frito, delícia: gosto dos dois. Mexi tudo com alegria. Revira. Sente o cheiro e o gosto. Delícia. É domingo. Estou estupidamente feliz. A música é o rádio …, que fala e conta coisas que às vezes escuto outras não. E danço. Adoro dançar. Que venha esta alegria toda a transbordar.  Elizabeth M.B. Mattos e vou ao Rio e para São Paulo, Recife também. Muito bom ser eu alegre mãe, e mulher. Junho de 2018

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viáveis

Sabes o que eu acho? Que ainda temos um tempo razoável, largo e bom para sermos um do outro. Posso cuidar de nós dois. Posso te mimar. Posso brincar e te fazer rir. Podemos dormir abraçados, tomar banho de mar, ou nos enfiarmos no mato fazendo pequenas caminhadas com os cães. Tu podes ficar horas e horas sentado olhando para o lago que eu te alcançarei todos os sorrisos e os carinhos que precisas para esticar este tempo de estar vivo. Sabes mesmo o que eu acho? Que seríamos tolos insanos se não pudéssemos agora resgatar estes cinquenta anos que não passamos juntos. Não precisamos nos arrepender de nada porque testamos os limites …, daremos boas risadas. Sensualidade sexualidade se misturam e a conversa silenciosa e mansa e pacífica nos dará de volta a alegria que desejamos. Amoroso como tu és amoroso, poderemos os dois usufruir daquilo que mais valorizamos, a vida. Sensível atento perspicaz corajoso. Elizabeth M. B. Mattos feliz, muito, bastante feliz por ter te encontrado. Somos viáveis em todos os aspectos porque assim nos foi dado o sonho de viver juntos, hoje, agora. Junho de 2018

A trégua

Posso repetir como  Mario Benedetti: “Agora, o sexo  é (para mim, pelo menos) menos importante, menos vital; muito mais importantes, mais vitais, são nossas conversas, nossas afinidades.” (p.131) A trégua.

E eu penso que não passamos impunes pela vida de ninguém. Há sempre a tentativa de ficar. É sempre mais fácil  falarmos pela voz de outro, por isso eu me sirvo dos livros, vozes que não revidam, e passivamente, escutam. Beth Mattos

“[…] com tantos problemas de comunicação nas minhas relações com meus filhos, com o pudor defensivo que sempre resguardou minha vida privada da malícia do escritório, com minha higiênicas aproximações com mulheres sempre novas, nunca repetidas, é evidente que eu me havia desacostumado a sinceridade. Inclusive, é provável que só de forma esporádica eu a praticasse comigo mesmo. Digo isso porque certas vezes, nestes diálogos francos (que tivemos nestes últimos meses), eu me vi pronunciando palavras que pareciam mais sinceras do que meus pensamentos. É possível isso? Então me assombro com a saudade que sinto de ti.” (p. 127) Mario Benedetti  A trégua

amarrados

Vida e fantasia. Nós dois a sonhar amarrados  no avesso do dia, aquele em que nós dois não estamos. Na fantasia da fantasia nos debruçamos. Sinto trepidar o que antes chamei de amor ou paixão. Não somos nada que possa ser desenhado por um modelo daquilo que já vivemos. Estamos a brincar. Do outro lado a vida comum, lisa, arranha estreitos conceitos de cotidiano. Posso cantar …, ou dedilhar o piano. Quero que dances comigo corpo colado no corpo. Transpor a barreira, o avesso.  Eu te toco,  sou a menina de treze anos. Feitiçaria e mágica nestes gestos repetidos. Lembranças: o cheiro da casa, cantos escondidos de brincar. Digo do amontoado da alma. Selo diabólico e insano desejo de ser aquela que decodifica, desarruma a casa.

Será a convivência a contínua dor dos casais? O que de fato angustia e agita? O que nos faz permanecer imóveis? Enquanto dormes solto e pesado escrevo ansiosa. Eu te quero tanto! Neste caminho os pés não sangram. Morno acarinhar que tanto necessitamos! Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2018 – Torres

 

liberdade cigana

Quando olho caixa de dentifrício sabonete vejo o trem apitando: do papelão janelas rodinhas portas e até chaminé. Se coleciono vidros de perfume, potes de cremes ah! É a loja de quinquilharias. Quanto aos livros livraria de alugar. Cafeteria confeitaria ou bar. Brinco de fazer. Ócio esquisito de vida parada. Atropelo. Carruagem de abóbora: reconstrução emocional. Pago a prenda, e me liberto do convencional. Do desastre de perder noivo. Liberdade cigana. Catecismo gaúcho desaparece. Do convento ao casamento. Da ruptura à liberdade.

Caminho verde. Flores cheiros: mar música risada carioca. Limite da tristeza. O sangue muda a química interna de menina, acordo mulher. Aceito confissão e amor. E a fada traz o homem com quem eu viria a ter filhos. Conversas de amanhecer naquele Rio de Janeiro de 1966 -1967. Ditadura acalma calçada. Silêncio na cidade. Automóvel janela aberta descansados… Beira mar. Cheiro de terror e gosto de amor. Ditadura militar anos de ferro: arranca liberdade assassina gente jovem, escandaliza e emporcalha quartéis. Palco da liberdade. Eu não volto para casa. Neste Rio de Janeiro caminho pela noite e me deixo ficar. Se o medo no Brasil se alastra, o meu desaparece. Na maresia música salina coloco emplastro na ferida. Calor de agosto, amoleço o amanhecer que entra na pele. Já em dezembro, noiva outra vez, reconstruo a estrada de Petrópolis em passeios. Novos amigos saias mais curtas mínimos biquínis.

Balaio e Sacha´s para dançar. Bistrôs nas ruas de Copacabana. Ipanema jantar com velas. Memória de festa flor permanência e encantamento. Anestesiada vivo o primeiro conto de fadas carioca. Tudo devido e permitido, inclusive o prazer. Nenhuma regra nenhum poder. Experimentar sem passado. Na cidade luz mar e amor do Brasil, no Rio de Janeiro. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2018 – Torres

 

desnudar despir e ser sem medo porque sou assim mesmo

Ser o que somos por dentro, desejar sempre por inteiro. Rir na hora de rir. Cozinhar ou limpar. Embalar os bebês. Ter filhos. Amar animais e sorrir. Dar uma gargalhada. Chorar com lágrimas por dentro e por fora. Enternecer, fazer amor e amar o amor e falar de amor sem nada saber.  Ser natural. Andar de meias de lã pela casa. Ter camisola de flanela e ficar o dia inteiro, assim, nos pijamas.  No verão camisola de alças. Nada apertado. Ter cabelos compridos até envelhecer, e trançar. Andar de pés descalços. Poder lavar o rosto sem maquiagem, ser perfumada. Colocar batom e ficar mais bonita. Usar brincos e colar de pérolas.  Beleza importa, mas nem tanto! Alegria mais. Tomar muitos, muitos, banhos durante o dia e antes de dormir, um estupidamente quente e outro ao amanhecer e voltar para a cama. Usar no mínimo cinco travesseiros. Lençóis de algodão passados, e com milhões de fios. Nunca cetim. Beber café preto e comer pão com manteiga. Gosto de pastel, sonho e camarão e berinjela e carne de panela. Ler em voz alta para a filha, para o amigo, para o amado, ou para o neto. Conversar até cansar e enfiar um assunto no outro sem sentindo e ninguém reparar. Exaustão e envelhecer descartei ( sorrindo). Entender o que o outro diz. Não entender porque foi embora sem se despedir.  Rir.  Brigar. Implicar. Ter amigos e amar todos com desejo, e também distância. Não ter proibições e assim mesmo obedecer. Assustar e aproximar. Colocar as mãos na terra. Cavar. Plantar e molhar. Ter flores nos vasos. Perfume na casa. Ter um cachorro, ou um gato. Nunca pássaros em gaiolas. Tapetes fofos e limpos. Poder caminhar sem roupa pela casa. Ter as janelas abertas e sentir a maresia entrando.

…ficar arrependida. Caminhar na praia. Nas calçadas. Caminhar, caminhar. Nunca fazer exercício aeróbico ou querer ser mais bonita do que se é. Não ficar doente. Morrer fechando os olhos sem estardalhaço. Não morrer é melhor. Gostar de massagem. De comida italiana e vinho tinto encorpado. Nenhuma bebida doce. Sucos de todas as frutas. Água. Mar e serra, campo e sol. Lareira com fogo. Se encolher nas cobertas. Amanhecer no dia. Noite com estrela ou noite chegando, entardecer. Estar viva. Ser beijada na hora certa com o amor certo. Deixar ir para sentir saudade. Dormir a qualquer hora. Acordar no meio da noite para namorar. Ter filhos. E abraçar estes bebês. Escrever, escrever, escrever sem saber o porquê, e sempre. Encerar e fazer brilhar o chão. Sentir o cheiro do mato. Fazer amor de manhã cedo com o corpo aberto para o prazer. Ter água por perto. Rio ou mar ou lago ou lagoa, nunca piscina. Gramados. Cheiro de terra. Um abraço inesperado, uma voz desconhecida. Uma palavra gentil. Sentir medo. Chorar. Poder sair tantas vezes que tiver vontade para poder voltar. Comer laranjas e bergamotas, morangos e maçãs. Mamão com limão. Falar francês. Entender espanhol. Viajar na imaginação. Lamentar não ter ido a Itália nem conhecer Nova York nem a Noruega, nem Londres, nem o Brasil. Andar de navio. Ir a Buenos Aires. Fazer tricô. Bordar florzinha amontoada nos jeans rasgados. Ter filhos e ter cães. Ser livre e rir. Ser alegre e triste. Sentir saudade de amor. Não morrer. Viver para sempre. Descobrir. Fazer amigos. Chorar porque eles se foram. Esquecer. Amar outra vez. Escrever. Apagar. Se surpreender. Ler livros muitos livros. Ir ao cinema, ao teatro. Fechar as janelas. Sopa de ervilhas com pedacinhos de pão tostados na manteiga. Dançar. Escutar o piano e ser invadida. Comer frango assado com as mãos. Rock e futebol: ver jogos, torcer, gritar e dormir exausta. Fazer amor devagar, sentir o corpo, o olhar e então ficar apaixonada pela paixão de ser dois. Esquecer. Estar viva. Banho quente. Banho frio. Não morrer, não te esquecer. Espiar o amor chegando, dar as mãos, sorrir um para outro. Baixar os olhos. Ir ao encontro. Não ter medo de errar nem de sofrer nem de chorar nem de chegar. Nunca atender ao telefone. Escutar ele tocar. Escutar música todos os dias. Qualquer música. Ligar o rádio. Receber cartas. Fechar bem a porta. Estar feliz e alegre. Não saber o que acontece no mundo. Ter os filhos por perto. Ter netos. Ter amigos. Ser alegre. Rir. Eu já disse. E chorar quando rejeitada, empurrada, esquecida. Intimidade num repente. Ser arredia e vulnerável. Descoberta e desejada. Preguiçosa e distraída. Sentir o verão e o inverno. Não morrer. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2018 – Torres

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Valentina

Joana e Valentina

Joana e Valentina

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Joana na casa de Santa Cruz do Sul

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Foto de Ana Maria Vianna Moog em junho de 2018 – Torres

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Mas, minha querida, talvez a questão seja justamente esta: não é para ter enredo nenhum, porque não existem mais enredos; os filmes, tal como a pintura, segundo você, ou segundo o A., foram obrigados a parar de contar histórias. […] Uma história pressupõe um autor, que manipula os personagens lá do alto, que manipula a nós lá do alto, com algum objetivo moralmente inteligível, e ninguém acreditava mais nisso, depois do Holocausto, da bomba atômica…” (p.247)  Jonh Uodike  Busca o meu rosto

…, e tem o livro da francesa que já citei no Amoras e não estou encontrando agora O sal da VIDA o que faz a vida valer a pena. É o título que FRANÇOISE HÉRITIER dá ao seu livro. Ela sugere que todos façam suas listas e se libertem. Muito bom de fazer, pode ser mais completa a lista, indefinida, sem finitude. Estou a me lembrar de várias coisas que não escrevi. Dormir sem sonhos. Sonhar acordada. Desejar.  Esquecer. Dançar. Pensar e pensar e pensar. Acreditar. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2018 – Torres

Françoise Héritier, 1933, antropóloga e etnóloga. Obra: Deux soeurs et leur mère e Masculin/ Féminan, é professora honorária do Collège de France, onde dirigiu o Laboratório de antropologia Social ( criando a cátedra de estudos Comparados das Sociedades africanas) sucedeu Claude Lévi-Strauss (a pedido do próprio).

O SAL DA VIDA foi publicado, entre outros países , na Alemanha, Inglaterra, Japão, Portugal, Espanha, Itália (onde, assim como na França, se tornou best-seller).

 

 

tela acabada

Carta papel, pequena referência, escrito fragmentado: material de construção. Paciência trabalho braçal. Criar escrever ou pintar pressupõe crítica revisão, e a última pincelada, o esforço. Consciência da tela acabada. Sempre a me propor começo. Inovar. Estou a me esvaziar da obsessão de te pensar. Sinto tua falta. Beth Mattos – junho de 2018 – Torres

 

carta do pai cartas