impaciência do amor

Esta coisa de escrever e amar e apaixonar e ferver sendo levada de roldão enlouquece. Nunca estou pronta, e de repente já aconteceu, estou apaixonada. Não esqueci nada: sofrimento ausência perda encontro. Mas, quebro barreiras, acordo insone, durmo apressada para ser amanhã: amanhã estarás comigo.

Já no final do livro de Karl Ove …,apego pela escrita deste norueguês que gosto tanto! Desgovernada saudade, encontro o recado para essa audácia do desvio de se contar… Escrever amassar o papel seguir insistir, e de repente… o texto. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2017 – Torres

“O sentimento que eu tinha era incrível. Eu tinha passado mais de dez anos sem conseguir nada, e de repente, do nada, bastava escrever. E o que eu escrevia era de uma qualidade que, em comparação com o o que eu havia feio antes, me surpreendia todas as tardes, quando eu relia o que tinha escrito durante a noite anterior. Era como uma embriaguez, ou como o andar de um sonâmbulo, uma situação em que eu estava fora de mim mesmo, porém o mais estranho neste caso foi que a sensação era contínua.”(p.578) Karl Ove Knausgard Minha Luta 5 – A Descoberta da Escrita

eu outubro ainda

desafio

trilha de cogumelos

A mesma coisa já foi escrita. Exercício contínuo de acompanhar letra palavra pensamento…, quase nulo! Escrever o que vivi, aquilo que passou. Escrever mentalmente: revisito/ percorro os anos. Não sei contar, – tanta coisa esquecida! Confundida! O tracejado de textos lidos, de livros sublinhados, anotados. Corro na memória, atravesso amados amores. Paixões inquietas. Olhar de buscar/ver/ enxergar. Nunca me aquieto.

É preciso serenidade. Aplacar saciar a menina. Investigo. Há que buscar a linha certa que desarma arma descobre o amor.

O dia se estende manso, lento. Não estás comigo! Ausência prolongadaaaaaaa. Insaciável desejo de presença, a tua. Rasgo a tarde a te procurar num não sei onde. Escurece e volta a chover, mas o sol espiou o mar.

Estás no mesmo lugar. Estás a rir do esconde-esconde. Não importa. Ah!  Já de volta!.

…eu te abraço, escutamos Mozart outra vez, sempre. Durmo enfiada nos teus braços. Esqueço de beber o vinho, embriagada. Como vou descrever a vida? Presente nesta ausência. Já digo/conto do sonho com minha mãe. Colorido, detalhado: eu a tomei nos braços e dançamos. Ela sorrindo… E na valsa rodopiamos. Espreguiças. Atropelo teu olhar falando falando falando, interminavelmente… Explico das pedras, dos cogumelos fotografados…  Sorrindo. Sorrindo estás.  Infindável discurso da Liza, tu pensas, mas segues a escutar. Procuro o livro que lia ainda ontem: eles se movem pulam de uma mesa para outra. Esperas. Então leio em voz alta: “Nossos desejos são ilimitados, porém sua realização é estritamente cerceada. O ‘ se pudesse’ esbarra a cada momento no ‘não pode ser’. A vida nos obriga a nos contentarmos sobriamente com o que podemos obter. Umas poucas coisas nos sãos outorgadas, muitas nos são negadas: a esperança de que algum dia ser-nos-ão concedidas é e sempre será um sonho. Um sonho paradisíaco, bem entendido: pois no paraíso, certamente aquilo que é proibido e aquilo que é permitido, tão opostos nesse mundo, não serão mais que uma coisa só. ” (p.136) Thomas Mann As Cabeças Trocadas  Edição da Livraria do Globo -1945 -,

E o texto se mistura à conversa enquanto bebemos café preto amargo o meu, doce o teu. Digo sorrindo: não sabes/conheces o gosto do café…

Já estás atrasado.

Elizabeth M.B. Mattos – Torres, 14 de outubro de 2017 –

cogumelos na beira da lagoa bonito

cogumelos no gramado

Seu rosto, que devia ter sido belo, conservara-se inteligente. Era um rosto oval com traços fortemente marcados. Os olhos eram de um azul muito profundo e resolutos. Seu olhar começava com uma nota de desafio, mas abrandava -se no que parecia um deliberado desfalecer da pupila na íris, revelando, por um instante, um temperamento de grande sensibilidade. A pupila recompunha – se rapidamente e aquela natureza, apenas revelada, recolhia -se de novo ao reino da prudência.” (p.107)  James Joyce – Dublinenses

tempo para pensar

…. diante de um cruzamento o susto, a dúvida. O que parece essencial não é. Eu me descuido do importante, escorrego … Confusa errada, ou atrapalhada? Transito no meio de quem pode, de quem sabe, e de quem tem. Não posso, não tenho.

Preciso começar do/no começo. Elizabeth M.B.Mattos – outubro de 2017 – Torres

pedras calçamento

 

 

 

imagem conversa

gramado

Se a palavra confunde, a imagem explica, …

sentimento transborda depois encolhe.

…quero música, dança, …

Se choro não é dor nem pesar, nem raiva, nem desespero (desespero imobiliza) … a lágrima chega em/na emoção pequena, perfeita.

Não posso tocar, sinto e transbordo. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2017 – Torres

poça

 

 

presença

mae e objetos

tua presença ausente se estica … teu olhar teu traço teu rastro na história de contar … sinto  falta sinto saudade durante a manhã que abre o dia, a tarde  e ao anoitecer também sinto tua falta. Volta logo! Te apressa! Não me deixa sozinha! Eu me estranho neste medo. A saudade espeta, sangra, aperta …és tu que te aproximas no sorriso! Sou eu que carrego tua voz, tuas cartas, teu amado amor que se derrama … Elizabeth Beth Mattos, Torres – outubro de 2017 –

brejeirice de um beijo

 … aroma cheiro e presença humana! … libertar sentimento e voz.  Brejeirice  jovem. Mesmo assim não  fomos tu e eu. A chuva reinventa o segredo. Corremos para o mar. Trovões e raios gritam o perigo. É preciso andar de volta no tempo.  Reencontrar  a diferença de quinze anos, ou já passaram vinte e cinco? … Querer voltar para trinta ou quarenta anos atrás … quando ainda não eras tu, nem eu era eu.  A certeza dos teus olhos presos no meu olhar. Invisíveis nós dois. Vamos desnudar, inventar, fantasiar … Amarrada, enfeitiçada … Suspensa pela fragilidade do encanto, assim eu estou a tua espera presa nos meus dezessete anos .

No piano a canção. Três casais dançam, nós apenas nos olhamos … A casa da avó, o silêncio da rua Vitor Hugo, a certeza do para sempre … afinal, nos encontramos. Elizabeth Beth Mattos  – Outubro de 2017 – Torres

[…] “o assoalho e a mobília estalavam no silêncio, e de algum modo a peça dava sempre a impressão de uma presença humana. A despensa era o lugar que ele tinha mais prazer em visitar, o que raramente acontecia. A mão da avó girava a chave numa porta pintada de vermelho vivo e libertava uma lufada de aromas: os cheiros de salames e presuntos defumados […] p.11 Czeslaw MILOSZ  – O Vale dos Demônios – 

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reclama

Reclamas dos meus 17 anos nos meus 71 anos, desta risada, desta irreverencia de amar o amor, amar saindo, voltando. Rodopiando. Ainda hoje mencionastes o saudosismo, a nostalgia, esta coisa de não estar aqui e agora … correr/ visitar histórias já passadas. Fechei tua boca com um beijo … ELIZALisaBETH M.B.Mattos – Outubro de 2017 – Torres

Tudo envolto em memórias, tudo colorido pelo temperamento. E assim através dos casulos que são nossas vidas, o tempo corre. Uma vez tínhamos dezessete anos, uma vez tínhamos trinta e cinco anos, uma vez tínhamos cinquenta e quatro anos. Será que ainda recordamos aquele dia? O dia 9 de janeiro de 1997 […]” (p.561) Karl Ove Knausgard – A descoberta da Escrita – Companhia das Letras – 2017

imagem

O estranho de viver vida! A surpresa. Posso, num repente, deixar de ser/existir/respirar/pensar… Milagre do tempo: tempo sem tempo: a vida . Posso me transformar em palavra/letra e imagem. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2017 – TORRES

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imagem preto e branco

do amor o motivo

Ele era/é o maior na poesia no escrito no tudo. Ele sempre será sendo ou estando não estando … tudo é perfeito. Depoimento de Mário Quintana: “Eu só tenho dois poetas prediletos no Rio Grande. Paulo Hecker Filho e… eu.”

Nós nos amamos tanto! Nos amamos com desespero.Precisavas de mim para não te perderes, precisava eu de ti para ser necessário. Há mil modos no amor de não amar, mas nós nos amamos. Com amor e com desespero.

Agora, separados, já não tens de entender e defender – te, não tenho de tentar outra vez dar -te a vida. Desfaz -se a alegria, sempre perto da dr, desfaz -se a dor, o amor, o desespero, sobra pouco. A lembrança do amor e do desespero, ainda desespero e amor, mas pouco. O pior, às vezes.”

O pior, às vezes – PAULO HECKER FILHO –  OS ADEUSES Editora Tchê, 1990

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um bilhete dentro do outro bilhete

Leio e  penso que não estou em lugar nenhum, de repente, nunca fui eu mesma em algum lugar, estou sempre do outro lado, – as pessoas se olham, eu me estranho. As pessoas caminham/ passeiam nas praças. Eu olho pela /através da vidraça estranhada. As pessoas estão na praia, no mar, eu vejo/ escuto, apenas o mar … o mar. Elizabeth M.B. Mattos – Outubro de 2017 – Torrres

As pessoas que passam estavam no meio da própria vida, em meio as profundezas da própria existência. Era como se eu estivesse fora daquilo, eu não pertencia aquele mundo, para mim era apenas um lugar, e o sentimento de estar em casa tornou-se mítico. No que consistia? Não era o lugar em si, porque o lugar não passava de um punhado de casas e umas rochas nuas à beira-mar, mas aquilo em que as pessoas transformavam o lugar, o significado que lhe atribuíam.” (p.561)

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