nebulosa memória

“Citei inutilidade da arte, mas ignorei sua capacidade de confortar. Nisso reside o consolo do trabalho que realizo com minha mente e meu coração – é apenas , nos silêncios do pintor ou do escritor, que a realidade pode ser ordenada, recriada de modo a exibir sua porção mais significativa. Na realidade, nossas ações cotidianas não passam de andrajos que ocultam o tecido de ouro – o significado do padrão. Por meio da arte, estabelecemos – nós, artistas – um acordo radiante com tudo o que nos feriu ou derrotou na vida cotidiana; e desta forma, em vez de fugir ao nosso  destino, como tentam fazer as pessoas comuns, realizamos por inteiro nosso genuíno potencial – a imaginação.” (p.17) Lawrence Durrel – Justine – Quarteto de Alexandria .

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LUIZA

O tempo é uma delícia!” L.D.M.

“Sopro sono chegou pairando

Quase ou pouco separando

sonho e realidade“. L. M.D.

… outra vez Luiza:

“É o mundo inteiro de repente tão pequeno… Coração apertado, espremido, rabiscado no papel. O infinito num instante. Teu olhar imensidão -, sem dizer nada, traduzia pensamentos… só eternidade.”

Luiza Domingues –10 de outubro de 2012 

LUIZA E EU BRANCO E PRETO

Luiza e eu – Santa Cruz do Sul / RS

Ana Moog, Frigga Vianna Moog e eu – Copacabana  -1989  Rio de Janeiro

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FOTO MARAVILHOSA DAS COSTAS DA LUIZAunnamed-jpg-luiza-so-luiza

Luiza Mattos Domingues – Recife – Oficina Brennand  e festa de Maria Benedita Bohrer Porto Alegre /RS

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Luiza e Ônix – Torres -Rio Grande do Sul

durmo porque te sonho

Lá quando começa o dia.

Hora apertada dia apressado,

quando chego, …terminou.

Eu vou te dizer tanto e tudo, e depressa.

Tu me aquietas, e me devolves para  ser.

Explico: prefiro ter uma rã que fale, do que o príncipe. Prefiero tener uma rana que habla.

Só tu sabes o que significa estar perto de ti. Ler poemas. Constatar que nada sei, aprendo.

Estão cortando a grama, o cheiro da terra entra pela janela!

O mundo se revira perfumado. Cheiros definem o mundo.

Elizabeth M.B. Mattos, outubro de 2017

a fada

Os teus gatos que não sei…

Meus Gatos

Eu sei. Eu sei.

Eles são limitados, têm distintas

necessidades e preocupações.

 

Mas eu os observo e aprendo com eles.

Eu aprecio o pouco que sabem,

que é

tanto.

 

Eles rosnam mas jamais

se inquietam,

perambulam com uma surpreendente dignidade.

Eles dormem com uma direta simplicidade que

os humanos não são capazes de

entender.

 

Seus olhos são mais

belos que os nossos olhos.

E eles podem dormir 20 horas

por dia

sem

hesitação ou

remorso.

 

Quando me sinto

desalentado

tudo o que tenho a fazer

é contemplar os meus gatos

e assim

ressurge-me a coragem.

 

Eu estudo essas

criaturas.

 

Os gatos são os meus

mestres.

 

BUKOWSKI, Charles. My cats. In: __________. Come in!: news poems.gatos cavalo e sapo

quem escreve

Apenas a cidade é real. Apenas a alma de quem escreve ou lê derrama acorda. Logo adormece outra vez porque a vida tem lacunas, tem sono. Lacunas feitas pelo sono, também pelos sonhos e pesadelos.

O que acontece não é real. Para VIVER é preciso INVENTAR.

Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2017 – TORRES

São Francisco de ASSIS bonita foto

praia deserta vazia e vento

A praia  o mar tinha proteção dos molhes, não chega água marrom. Verões de roupa nova, data, – pouco importa. Era um final de ano. A decisão aponta dura definitiva enrijecida. Liberdade importa,  dar rumo ao rumo, rebeldia. Sabor novo.Tentativa inútil de tentar o porquê. Fui movida pelo instinto. Nada me faltou naqueles anos de abastança, ao contrário. Era o excesso que me afogava: excesso de pessoas, de mimos, de sexo, de noites brancas, de música, excesso de luxo. Excesso devorador. Excesso de trabalho também. A mesa verde coberta por dicionários, gramáticas.  … a mata o canto da passarinhada. Domingos longos e saciados. Elizabeth M.B.Mattos, – outubro de 2017 – Torres

“No vasto silêncio destas noites de inverno há um único relógio: o mar. Ressoando em minha mente, seus movimentos incessantes são a fuga sobre a qual soando em minha mente, seus movimentos incessantes são a fuga sobre a qual este escrito se compõe. Cadências vazias de água marinha a lamber suas próprias feridas, avançando pelas fozes do delta, fervendo nas praias desertas – vazias, para sempre vazias sob o voo das  gaivotas: garranchos brancos sobre o cinza, ruminados pelas nuvens. Se alguma vela se aproxima daqui, morre antes que sobre ela recaia a sombra da terra firme. Destroços de naufrágio surgidos non frontões das ilhas, os últimos vestígios, corroídos pelas intempéries, presos nas mandíbulas azuis do mar … desaparecidos!”(p.16) Justine – Lawrence Durrel

A praia  o mar tinha proteção dos molhes, não chega água marrom. Verões de roupa nova, data, – pouco importa. Era um final de ano. A decisão aponta dura definitiva enrijecida. Liberdade importa,  dar rumo ao rumo, rebeldia. Sabor novo.Tentativa inútil de tentar o porquê. Fui movida pelo instinto. Nada me faltou naqueles anos de abastança, ao contrário. Era o excesso que me afogava: excesso de pessoas, de mimos, de sexo, de noites brancas, de música, excesso de luxo. Excesso devorador. Excesso de trabalho também. Cadernos, folhas, exigências; escolasss alunos particulares. A grande mesa verde coberta por dicionários, gramáticas e a máquina elétrica ficava na ponta, pronta; cães espiam  portas janelas abertas … a mata alimenta o canto da passarinhada. Os domingos eram longos e saciados. Elizabeth M.B.Mattos, – outubro de 2017 – Torres

também boa esta foto da marinha e do sapo

Alexandria

sapo amarelo

… possuída de grande saudade triste. Nada possível ou diferente de dormir. Encontro amoroso, prazeroso e cúmplice (três palavras mágicas). Deste vazio acordo lânguida, sem rumo. Intenso tumulto. Tem qualquer coisa de mentiroso, falso, ilusório. Mergulho em febre transtornada. Não beijo abraço, sossego, paz e quietude, mas febre. Quero dançar, entrar no mar, beber o riso, falar dizer ponderar esmiuçar, e falar como se bastasse … quero o abraço. Quero não terminar de chegar, e reiniciar, e tomar o inteiro em posse egoísta e ciumenta. Dou-me conta que terminou. Como amores terminam. Como a juventude termina. Do mesmo jeito que os bebês crescem. Não se pode evitar. Não posso evitar engodo, dúvida, nem o irreal, surreal do inusitado… sinto o corpo dolorido do sono, e sei que volto a dormir tão logo a noite entre no meu quarto. Vou precisar do silêncio da perda. Do silêncio dolorido de constatar, Karl Ove desapareceu. Sua frota viking. Os olhos esverdeados, seus cabelos aloirados. O corpo magro, seu ar impaciente. Sua irreverencia. Ele simplesmente voltou para casa. Estou possuída de grande saudade. Inconsolável. Devorei morangos, bebi vinho, comi queijo, pão e manteiga. O doce de ovos com merengue nevado. Esvaziei a geladeira. Caminhei pela praia, molhei os pés no mar. Senti frio pelo corpo todo. Molhei os cabelos na chuva. Desejei desaparecer porque não posso fazer nada nem impedir que ele vá… A saudade devora sem piedade.  […] “não é possível desfrutar a doce anarquia do corpo – pois superou o corpo. […] Alexandria era o grande lugar do amor, origem dos enfermos, dos solitários, dos profetas – enfim, de todos que tiveram seu sexo profundamente ferido. ”  Profundamente ferida nesta despedida. Não estava preparada para fechar o livro, nunca estou pronta, ou preparada para qualquer coisa, coisa nenhuma… Uma violenta mágoa do não possível inconcluso. Toque e sexo. E o sexo não termina, escreve, carimba, fixa sempre o imponderável. O sexo acarinha.Toda a despedida é traumática. Dormir. Dormir mais um dia inteiro, dois, três dias. Todos os necessários para esquecer a fantasia deste amor. Elizabeth M.B.Mattos – outubro de 2017 – Torres

PERFEITA ESTA FOTO

“Cinco raças, cinco idiomas, uma dúzia de credos: cinco esquadras cortando seus reflexos oleosos nas cercanias do porto. Mas existem mais de cinco sexos, e apenas o grego demótico parece capaz de distingui – los. O sortimento sexual à disposição é desconcertante em sua variedade e abundância. Alexandria nunca seria confundida com um lugar feliz. Ali os amantes simbióticos do livre mundo helênico são substituídos por algo distinto, algo sutilmente andrógino, voltado para si mesmo. Ao Oriente não é possível desfrutar a doce anarquia do corpo – pois superou o corpo. Lembro que certa vez Nessim afirmou – citando alguém, imagino – que Alexandria era o grande lugar do amor, origem dos enfermos, dos solitários, dos profetas – enfim, de todos que tiveram seu sexo profundamente ferido. ” (p.14) Justine Lawrence Durrell

EU HOJE desenho

resposta em alto mar

…esvazio o pensamento no mergulho. Nadar, –  água e corpo conversam. Músculos se movimentam, …eu acho/imagino. Poucas certezas,  …saber passou a ser raso! Dinheiro enrolado em poder, insano desejo de ser/ter mais e mais (desacreditado desgoverno de governar), e as palavras se diluem. Setenta e um, já pensando em oitenta e um. Se inverto seria dezoito, ou terei 91 anos? Aos dezenove a vida já era casamento filho e fazeres domésticos: flores nos vasos beleza na voz música folhar revistas e jogar cartas. Beijar o marido.

Eu me escondo na idade, afirmas. Bom que consigo me esconder! (sorrindo) Sou tão evidente e transparente! Depois da entrega, deste desnudar constante, deste amolecimento interior, desta indolência de amar,  …  nenhuma certeza. Lembro da moto possante, – Montevidéu até  Punta del Este, jantar no Floreal. Não cursei medicina, nem direito, nem conheci Che Guevara. Se Iberê Camargo fosse vivo explicaria. Se Paulo Hecker Filho vivesse teria respostas. Se pudesse conversar com Flávio Tavares descobriria de sobreviver. Se eu estivesse e estou apaixonada deixarei de sofrer. Se Tia Joana olhasse para mim fecharia os olhos. Se apreendesse inglês não interromperia a leitura. Amanhã iremos até a Urca: o Rio de Janeiro pode ser sempre mais e mais lindo ainda, explica a vida.. Estou febril no prazer apertado de teu beijo. Sufoco: cheiro tua voz. Eu te belisco. Amoleço o corpo em teus braços… Sem falar.  Elizabeth M.B.Mattos / Torres, outubro de  2017

LIVROS e ESTANHOS LINDA FOTO

não vá incendiar o bife

Escrevo e conto, todos os dias:  o gato, a rua, aquela caminhada preguiçosa. O sono, o livro que terminou, o copo de vinho.

…penso, penso penso e…

Durmo imagino acordo penso outra vez, e me escandalizo: palavras. O bife flambado, o fogo. Estabanada (uma colher de sopa a medida, por favor, não vá incendiar o bife).  O país pegando fogo, a desaparecer enlouquecendo e eu. Eu no rompante a namorar. Beijo e tempestade. Medo estremecimento de loucura. Intenso pequeno e avassalador. Por isso nos abraçamos e somos tão ligados um no outro. A gente não ama do mesmo jeito, desesperador, eu digo. Sempre a pensar que vamos amar mais e melhor, ou que não é ainda amor, medida estranha! Eu te gosto: dizer não significa nada. E respondes: para mim significa… E eu te amo porque acreditas. Elizabeth M. B. Mattos – outubro 2027 – Porto Alegre

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Pierre Bonnard

não se explica

… cartas se amontoam … não consigo dizer o que pretendo, ou penso confessar. Sem importância a palavra … não, tens razão, importante, verdadeiro. Confissão amorosa tem espelho.  Vidro mágico que reflete/guarda e anuncia … o que se esconde está visível. Presente/junto/escondido, e transparente … invisível. A coerência é incoerente, com certeza. Digo nego afirmo, e desespero … a cada encontro. Agitas remexes dominas … transcrevo o que sentes, ou és tu a repetir o que sinto. E sou tu: nós dois ao mesmo tempo. Estás aqui ao meu lado, olhando tocando. Não compreendo. Não entendo. Não se explica. É louco e impossível. Somos dois. Não somos.

astrid

astrid meu retrato