A quarta carta

Estou a te pensar, estou a pensar no labirinto, estou a pensar em nós dois, estou a pensar como seremos, tu e eu. Fico indo e voltando como se fosse possível medir o que não é pelo que é. Como foi  embalar, meninos, uma fugaz tarde de março? Penso, estremeço. Sinto medo. Se houver outro beijo, aquele que não nos demos, se as horas se enfiarem apertadas e saciadas, se a luz entrar devagar, e eu sorrir sem pejo …   Se eu imaginar que o corpo é invólucro perdido e achado comandado pelo desejo … Se …

Acordei depois de um sono bem grande no meio da noite. Uma das delícias de viver sozinho é poder estar viva a qualquer hora sem nenhum constrangimento. As janelas estão todas abertas, a luz da calçada ilumina um pedaço da sala. Ônix cuida o movimento dos gatos, o vento sacode o que pode sacudir, e eu escrevo. Esperei o ramo de jasmins, ou seriam anêmonas, rosas? Ninguém me trouxe flores. E pensei. As histórias são as dele, a vida é dele, os acertos dele, eu, eu não sou parte dele sou apenas um Eu. E voltei no/ao/ em tempo. Telefones soam no meio da noite. O fantasma desce, entra, se acomoda em qualquer cadeira e firma o olhar. E logo, cadeiras tomadas …  Estou no palco com vontade de acarinhar indefinidamente acarinhar. Sono, vigília, insônia, ânimo. O que posso fazer com estas coisas todas remexidas?  Como posso controlar o revirado? Sem ponto vou andando, com virgula respiro, nas reticências imagino, nas interrogações choro e nas exclamações compreendo. Choramingo porque o tempo o tempo me pareceu nosso, apenas nosso, egoisticamente nosso. Elizabeth M.B. Mattos, Torres.

desmaiado-da-casa

De frente para o mar

“Sonhava com tarefas inacabadas, inacabáveis.” 

Carmélio

Carmélio Cruz,  óleo sobre tela, 1966 Torres

Estou de frente, na frente do mar outra vez. Posso ver a Ilha dos Lobos, areia, pedras, gente, cães, o gramado. Fico olhando… O mar muda de cor e de movimento e de conversa.  Trepida esta vida miúda, a minha. Uma agitação de coisa boa me cerca. O apartamento novo tem uma sala ampla com janelões cheios de maresia. Outra vez perto do mar. Depois de tantas e infindáveis mudanças, talvez, esta nem seja a definitiva, mas gostaria de convidar todos os meus fantasmas para sentirem este cheiro, e brindar. Felicidade de alma. Não se explica. E tudo será do jeito que gosto. De quadros, o Iberê Camargo ficou na parede menor. Glauco Rodrigues trouxe Jandira, têmpera a ovo sobre madeira de 1951. Do Danúbio Gonçalves as aquarelas de mar e flores. Os retratos de Carmélio Cruz ficarão juntos, na galeria das mulheres. Os nanquins coloquei uns sobre os outros numa coluna,  gosto de Darel e do Aldemir. E pensei no olho exterior, que assiste. Olha e vê outra coisa que não vejo. E do olho interior de cada quadro que segue na sua corrida do imaginário. O plástico (a arte) exerce o prazer desta interioridade exposta. A mesa retangular ficou encostada na outra parede para receber o meu material de trabalho, os vasos amontoados, também os castiçais, e duas fruteiras coloridas da Lattoog. Em cima, encostado, o autorretrato do Pedro Moog. As paredes são brancas, mas estão se colorindo… Duas Pantoche soltas no meio da sala. E, para a rede com franjas rendadas, consegui um bom lugar. Poucos móveis. Um sofá pequeno e na lateral aquelas mesas ninho tão do meu agrado. Coloquei tapetes mexicanos, coloridos, mas pesados. O pequeno persa na frente da cadeira com estofado de flores miudas. Gosto de andar descalça. O assoalho com lajotas vermelhas, me agrada. No quarto menor estantes nas duas paredes, e uma escada metálica que roda nos trilhos onde ela vai até o teto. Uma pequena mesa no centro, duas cadeiras. Uma luminária que vem ser moderna e vermelha. Elizabeth M. B. Mattos –  março 2017 -Torres.

Jandira Glauco Rodrigues

 Glauco Rodrigues, Jandira têmpera a ovo sobre madeira, 1951.

“Certo dia, Simon Segal quis fazer meu retrato. Era um dia de inverno em que eu estava inteiramente sonhador. Sonhava com a vida que me fez – não sei por que! – filósofo. Sonhava com tarefas inacabadas, inacabáveis. Em suma, Segal me surpreendeu numa hora de melancolia. Mas aí está o testemunho de minha vida difícil. O pintor, estou certo, disse em sua linguagem uma das minhas verdades. ” (p.34) Gaston Bachelard, O Direito de Sonhar. 

Fitas coloridas

Nas pontas de cada fita (uma tira comprida, estreita de qualquer tecido ou material) está uma medida de amor. Da saudade ao carinho, da mágoa a tristeza, da frustração a certeza.  Pode ser de veludo, de corda, de tecido … não importa tamanho, comprimento ou mesmo a cor.  Fita amarela, verde vermelha ou azul ou cheia de listas, ou pontinhos ou com desenhos pintada … A fita se estica dá uma volta e se revira num laço. A fita explica/ diz, grita, sublinha,  enfeita este presente.

Festiva, amorosa explicação deste te gosto inexplicável. No começo e no final a cada ponto da fita uma história. De amor, de despedida, de saudade, e de ainda gosto. Não termina o amor bem-amado se foram empacotados enfeitados com as fitas coloridas desta memória cheia de fitas… Elizabeth M.B. Mattos, Torres.

LAÇO E FITA

fora do lugar

Por que as coisas saem todas fora do lugar quando deveriam estar serenas em ordem e perfumadas. Basta pequena euforia, e pronto…  Acelerada desordem atormenta. Inquietude improdutiva. O vento leva livro e a memória. E também minha alegria brejeira.  A ventania uiva, varre o mundo, o dia. Estupefata eu me pergunto: sou ela ou eu?…, não quero fazer nada. Não quero pensar por uma hora, duas, por toda uma tarde e uma manhã inteira. Não quero mais pensar. Não quero fazer nada pensar nada. Essa pressa louca me atropela. Aonde está o meu nada? Elizabeth M.B. Mattos – março 2017 – Torres.

tinteiro

Aonde habita o desejo?

Livro para presente. Ideias fervilham. Estou indecisa …  Coisas da loucura … livros? Quero todos para mim. Mesmo sem tempo para ler ou usufruir e ou me dedicar deliciar com eles. Compro decidida só pra empilhar … como ficam, fora da estante, esperando nas mesas ou nas  cadeiras. Milton Hatoum! Muito, muito muito bom. Então já quero todos … Tento me controlar. Difícil! A loucura invade, toma conta, enlouqueço. Este quero presentear. Será? Já perdida dentro do Borges e do Brennand, agora o Hautoum? Abro o livro seduzida. E.M.B. Mattos, Torres.

” Uma lembrança do Japão, ele disse, com sotaque de Portugal. Pedi que traduzisse os ideogramas. No lugar desconhecido habita o desejo. Sem saber o que dizer ou comentar, agradeci de novo e disse que ia acompanhá -lo até o hotel. Vamos direto ao porto, ele disse. Tinha certeza de que não queria descansar? Depois comeríamos uma peixada … Recusou, balançando a cabeça e sorrindo. E então revelou um sonho antigo, desde a infância: viajar pelo rio Negro. Sua profissão levara – o a terras distantes e, em cada rio que navegava na África e na Ásia, aumentava o desejo de conhecer o maior afluente do Amazonas. Não tinha tempo para uma longa viagem. E acrescentou: tempo de vida.

Quer dizer que tinha vindo de tão longe só para dar um passeio pelo rio Negro?”(p.30)

Milton Hatoum, A cidade ilhada, Contos.  São Paulo,Companhia das Letras,2009

A muralha e os livros

A música, os estados de felicidade, a mitologia, os rostos trabalhados pelo tempo, certos crepúsculos e certos lugares querem nos dizer algo, ou algo disseram que não deveríamos ter perdido, ou estão a ponto de dizer algo; essa iminência de uma revelação que não se produz e, quem sabe, o fato estético. ” (p.12) outras inquisições (1952) jorge luis borges

“Cercar, construir a Muralha, queimar os livros … E Borges cogita: “Che Huang – ti talvez tenha querido abolir todo o passado para abolir uma única lembrança: a infâmia de sua mãe. (Não de outro modo, um rei , na Judeia, mandou matar todas as criança para matar uma)”

E Borges explica: Talvez o Imperador tenha querido criar o princípio do tempo  e se chamou Primeiro.

Cercamos casas para perpetuar, não ser invadido, queimamos fotos pra não ser lembrados, desejamos que nossa memória registre, e desenhe apenas o melhor. Elizabeth M.B. Mattos, 2017 -Torres.

 

Um desastre

Às vezes acho que não faço nada, outras que faço tudo e muito. E hoje foi desastroso …

” …Tenho pressa de deixar este lugar … Não sei se você pretende me deixar aqui, mas é muito cruel para mim! …Dizer que a gente está tão bem em Paris e que é preciso renunciar a isso por causa das bobagens que vocês têm na cabeça … Não me abandone aqui sozinha …”

lousalome1

Camille Claudel, fragmento de uma carta ao seu irmão Paul Claudel

Com gelo

Entrei com toda a desenvoltura possível.

Não vou beber nada, obrigada.  Água? Sim, um copo, por favor. Vinho? Não obrigada. …  Bem, … pode ser  uísque. Sem gelo. Mas não esquece a água. Uísque e com gelo, bastante gelo. Bebo raramente. Aliás, nunca bebo. Estou nervosa. Não, não precisa ter pressa … quero água, e uma taça com uísque, aliás, não importa o copo. Uísque, por favor. Aliás, pode ser vinho!

whiskey-drink-alcohol-ice-cubes-glass-table-shadow

sonho de Alguém

O livro traz de volta o que terminou, o concluído, o exorcizado. Reafirma que o Outro existe. Estou no sonho dele, e ele está no meu. O sonho me cerca. Intrometidamente Alguém entra no meu desejo. E não quero. Quero ser Eu, não Ela. Não vou ao teu encontro, não preciso tocar, nem abraçar. Não és Alguém. És a fantasia do meu sonho. E os sonhos são os sonhos… Eu acordo.  O vento uiva e a maresia se instala confortável na sala. O vento é real. É preciso anular, derrubar estas coisas de amor.  Ou de voltar no abraço e no beijo. Não quero o teu olhar. Não quero estar lá… Vou semear margaridas, plantar hortênsias. Colher amoras e pitangas.  E vamos ser amigos sem ser amantes. Elizabeth M.B. Mattos 2017 – Torres

“Com efeito, se o mundo for sonho de alguém, se houver Alguém que agora esteja nos sonhando e que sonha a história do universo, como prega a doutrina da escola idealista, a aniquilação das religiões e das artes, o incêndio geral das bibliotecas não será muito mais importante do que a destruição dos móveis de um sonho.  A mente que alguma vez os sonhou voltará a sonhá -los; enquanto a mente continuar sonhando, nada se terá perdido.”(p.81)  Jorge Luis Borges, Outras Inquisições, Nathaniel Hawthorne, texto de uma conferência proferida no Colégio Livre de Estudos Superiores, em março de 1949.

Beth na praiaunnamed-9-jpg-gostei

Depois da voz

Depois de escutar tua voz e depois de gritar te gosto bem alto no meio da praça… Depois que peguei na tua mão e olhei nos teus olhos, arrumei as malas, duas, e joguei as roupas lá dentro e peguei a rede. Depois, depois, fui entrando feliz naquele apartamento aonde o mar nos espiava. Lá temos vento, e temos a Ilha dos Lobos, e temos nós dois abraçados, quietos. E o amor. De repente uma coisa triste entrou…  Tu a pensar nos quadros, nas esculturas, nas artes e nos tapetes persas.  Eu a pensar nas estantes, nos livros, nos livros, nos livros, nas panelas na mesmice de ser só eu. E nas amoras azuis …  Esquecidas.

Fechamos os olhos e nos beijamos. Elizabeth M. B. Mattos – março 2017 – Torres.

16