ir não ir esquecer

– Hoje de manhã pensei em te fazer uma visita. Fiz um bolo de limão. Da receita de mamãe.

– Estava em casa, seria ótimo! Por que não vieste? Agora estou levando Patrick para a escola, depois vou buscar os convites da festa. Passo aí daqui uma hora, tomamos um café…

– Não posso, Lúcia! Tenho que terminar a pesquisa, entrego ainda hoje…Queria te dizer que pensei no presente, não sei o que comprar!

– Não estou te escutando…

– Pensei em te ver, mas vamos combinar outro dia. Vou me organizar, ligo depois. Marina desligou o telefone, sentou aliviada. Torres, junho de 2017. E.M.B. Mattos

 

margaridas-brancas

os mesmos a mesma…

CEU E TERRA

Está gelado lá fora. Acordei de estranhos sonhos… Sonhos estranhos com pessoas diferentes, estranhas, como se a vida passasse para ser avaliada…  Estamos os dois com uma sede de confidências. Lembrei de outros amores como se os amores descessem para se encontrar todos na nossa terça-feira que já é curta. E quando me perguntas se estou acordada, é como se fosse um comando, eu acordo e espio o celular. Estou, respondi, mas tu já não estavas mais lá,…  E haverá o tempo de abrir os olhos na madrugada para conversar. Sigo escutando o mesmo disco de Keith Jarret e o piano me dá uma emoção/sensação única como se as cordas vibrassem dentro de mim. Claro que eu também ri bastante porque estou indo para Recife já faz um mês, e sempre é amanhã que embarco. É o meu processo, ou nada acontece, ou vou perdendo os pedaços, e corro o risco de não ir mesmo a lugar nenhum…  Repito: o importante de acontecer é dentro da pessoa. Interno e único e íntimo e prazeroso. O colorido e a voz e a intenção o medo se desfaz dentro do avião. Exupéry explica bem esse sentimento de espera que já é a chegada, ao menos o sentimento de…  De tudo me despeço, e a tudo me antecipo, como se a preparação já fosse a certeza deste ou daquele sentimento que não vai voltar. Não vou esquecer me esquecendo, é claro, porque estamos tu e eu neste jogo de ciranda que não termina. Amanhece com aquele brilho de luz que chega não sei bem de onde. Lembro dos amores passados, mas afinal sempre é o mesmo amor. Vai nos acontecer de contar a mesma história porque as lembranças ficam assim amarradas na mesma tensão, ou mesma importância, e somos sempre os iguais / os mesmos a nos repetir…, os mesmos. Releio as cartas que escrevi faz tantos anos para o primo e assimilo / entendo a ideia o engraçado deste sentir tudo outra vez. Os sentimentos são atuais e eu tinha dezoito anos hoje setenta, qual a diferença? São os mesmos, nunca saíram de dentro de mim. Esta seria a história. O tempo o tempo o danado do tempo nos devora, mas, nós não saímos do lugar nem de dentro de cada um, estamos agachados, escondidos, espiando, como digo sempre, espiando. Aquele noivado rompido, aquele abandono quase na porta da igreja se repete liturgicamente dentro de mim. Tenho sempre que terminar, fazer uma tarefa que nela mesma não se termina, como se o processo fosse o mais importante, fosse ele próprio a essência. A vida é mesmo assim, importa a caminhada, nunca chegar. Mas parece que a pedra vai rolar como castigo, e vou ter que carregar outra vez, tudo igual. Acontecer para terminar. Penso que estamos os dois carentes de atenção, mas essas carências não são o amor, o amor (tu) você está a procurar nas salas da sua casa, e desnorteado quer de volta o que não é mais. Penso nos trinta anos como uma condenação. É claro que não é condenação, mas vitória. Sucesso. Então ficarei do lado de fora desta história. Não posso esquecer que você não vai se jogar no mar para chegar até a ilha…  Não vai querer perder nada do que é seu. Nadar e segurar e carregar ao mesmo tempo… difícil!  Não saber nadar não é a boa resposta, nadar é mexer braços e pernas para não afundar … como caminhar é colocar um pé na frente do outro. Amanheceu. E já são sete horas. Vou passar um café, e me acordar.Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2017. Voando.

o pior é o perdido

Meu amigo querido e silencioso. De repente a memória falha, e já não sei mais onde estás, nem qual foi a última vez que te escrevi. Sinto apenas aguda saudade. O esquecimento volta e chega atento. Vontade que estejas em todos os lugares. Confuso isso de não lembrar. E o pior é o perdido, então, não é questão de procurar e pronto, mas aceitar. Insisto: em qual aonde / lugar vou te achar / encontrar. Como te reencontro como te descubro / encontro? Diz, explica como se faz isso de te encontrar? Eu sei, mas não quero, tenho medo, eu te espero. Estranho silêncio, ou este estranhamento de não me escreveres nem ligares: eu te preciso aqui.

Não mais Pernambuco, não mais Recife, não mais a Várzea, não mais Francisco Brennand, não mais a minha pequena, não mais o quente, nem as vozes, não mais o Rio Capibaribe. Eu te espero em Torres.

A saudade fica/está maior… Dois meses, tempo demais doendo. O clima frio gelado este chuvão forte constante contrasta com aquele de lá…  Eu queria que tudo fosse mais e mais e mais e muito. Beijo bom. Saudade boa. Alegria boa. Conversa boa. Noite boa. Dia bom! Pois é, estou de volta ao Rio Grande do Sul carregada de nostalgia. Leio o Diário de Francisco Brennand. Gosto do confidencial deste escrito definido tanto quanto impreciso. Vontade de sentar, pedir um café num boteco qualquer e conversar contigo. Torres, junho de 2017, Elizabeth M.B.Mattos

 

entre tijolos

Quantas e quantas vezes eu me sentei para te escrever quantas e quantas vezes olhei para o céu, pensei naquela noite achada… Foi pouco, e tão só juventude! Bilhetes perdidos outros medrosos alguns audaciosos esperançosos. E o sentimento de/com raízes seguram/prendem nesta terra longe. Difícil ir difícil caminhar. Vencer a negação des/ou armar o medo. Cuidar que nada possa ficar diferente nem melhor nem pior. Este fantasma me acompanha. Tão longe um do outro!

P.S. Não telefono/ligo, não é meu jeito. Nem vou tentar explicar, estaria/estarei sem a palavra certa. Compreendo o silêncio, quem não compreende? E a vida se explica, eu acho. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2017 – E eu não sabia, não sei, ainda…

ENTRE os tijolos

Oficina Francisco Brennand – 2017 – Recife / Pernambuco

junção das águas

Duas vezes ou três vezes não é o que se pode ver: alguma coisa que não sei explicar, mas vai como se…  Não sei dizer como, ainda não sei…  Importa olhar. Será esta a boa resposta?

“A minha repentina desconfiança com as palavras me faz reconhecer a necessidade de contrariar toda espécie de conversa desordenada. E nos escritos, […] liquidar com esse aparente cinismo que faz desmoronar o sábio edifício da linguagem, essa aceitação tácita de Babel.” (p.211) Volume I Diário de Francisco Brennand.

…fica o cheiro diferente de mar e de rio, também a surpresa óbvia como caminhar e respirar. A energia passa fica evapora sai entra estaciona. Porque sou/estou feliz? Não Terminei de Gostar. Esta coisa de terminar não tem / não existe. Doçura de nostalgia.

Francisco Brennand mais menino do que nunca. Fechado / inteiro na Oficina, e atento e aberto e já no outro passo o sorriso. Voltei duas vezes a Várzea. Irei uma terceira uma quarta uma quinta vez ou irei até eu me encontrar com os noventa anos daquela juventude…Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2017 Recife, Pernambuco

OLHOS abaixados dois

Prezada Sra. Elizabeth Mattos,

Espero que a junção das águas do Rio Capibaribe com o mar lhe sejam propícias.

Cordialmente,

Francisco Brennand

Prezada Sra. Elizabeth Mattos,

Espero que a junção das águas do Rio Capibaribe com o mar lhe sejam propícias.

Cordialmente,

Francisco Brennand

Ele me salvou, explicou… Esqueci o trágico, naqueles dias, depois de chorar e chorar, e dormir e dormir e ser acalentada pela Luiza. Guardei os projetos traçados com Gustavo e entendi: eu apenas estava lá,  apenas umas horas antes da passagem. Eu era o Benigno de Pedro Almadóvar

Chegar,…não sei

Paralisada a pensar no desfazer e subtrair para chegar/encontrar o jeito próprio de dizer.

Vou me desfazer de amados amores.  Desnuda re/encontrar/ começar a história de outro mar…  Chegar onde não sei…  E.M.B. Mattos  – Torres, maio 2017

brennand instituto

“Parece que viemos acumulando muita coisa ao longo da vida. Estamos sobrecarregados de informações, de bagagem, ou seja, as opções nos são oferecidas aos montes e, quando tentamos nos expressar, todo esse peso acaba sobrecarregando o motor. E não conseguimos mais nos mover. Nesse caso, temos que jogar fora o conteúdo desnecessário e limpar o sistema para que nossa mente se torne mais livre e ágil. Então, como separar o que é indispensável do que não é muito necessário e do que é completamente inútil?” (p.57) Haruki Murakami Romancista como vocação, tradução de Eunice Suenaga, editora Alfaguara, 2017

Paralisada a pensar  e chegar onde não sei …

fazer confuso

Coisas de vida. Coisas de sentimentos. Coisas de palavras que se misturam confusas. …não sou eu, nem és tu, somos nós  dois.  Danado tempo de esquecer e de lembrar. Tão tudo e completamente confuso, ao mesmo tempo definido como a morte. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2017 – Recife

a tranca

Foto na Oficina Brennand, Recife, maio de 2017.

RONALDO BASTOS Quando não se é mais tão jovem

Oficina Francisco Brennand – Recife – Pernambuco

FALANDO no restaurante

Quando jovem, temos coragem audácia. E o sexo não faz medo, – é fácil confiar. Na entrega não se tem a dimensão da perda. Quando jovem, a confiança está depositada na própria juventude, posição lógica. Não temos medo quando somos jovens, nem nos perguntamos se seria possível isso, ou aquilo. Acreditamos que É como É. Elizabeth M.B. Mattos – Recife – 2017.

“O passar dos anos não impede a coragem nem a audácia se tivermos a consciência de que não somos mais tão jovens!!

Na maturidade também podemos ter confiança no sexo contanto que saibamos medi-lo pelo metro da qualidade e não da intensidade!!

A entrega jamais será uma perda, em qualquer idade, pois ela representa a capacidade que tivemos – e devemos continuar tendo sempre – de exercer o maior sentimento do ser humano – o amor!!

Tudo será sempre possível enquanto pudermos sonhar com a possibilidade!!

Acreditar é condição para continuar vivendo!!! “ Porto Alegre,  maio, 2017.

Ronaldo Bastos

Seis horas oito horas sem notícia…

Despojada transparente. Você é assim muito demais como és. Deste jeito que és te pões a perigo. Mas, desprendida alegre… Ao dizer surpreendes a surpresa. Não quero que vás quero que fiques, não vás embora. Quero ter você aqui para sempre. Quero ir para onde tu fores… Espera, fica, vive o sonho. Por que o medo por que te assustas? Você insegura a diminuir te entregas mas desconfias.

…tua pele, teus olhos teu beijo, não o meu, tua boca teu pescoço tua simplicidade. E falas falas falas, falas tanto, e, desarmas. E te desproteges…, e te descuidas. Ah! Este teu medo inseguro visível insegurança que te esconde. O que é menos é maior. Tu és boa és querida e eu te gosto. Difícil complicada simples! Tu dizes as coisas, tantas, todas. Pensas, desconcertas e acertas. Sentimento doçura de olhar desprendido. Sofisticada simplicidade. E este jeito de fugir e também entregar, … tua leveza! Vontade de te ter aqui comigo, não vás, diz o que precisas, eu faço… O beijo do/no restaurante. Depois espiar a noite caminhando. E todas aquelas horas… “que tempo bom passamos juntos!”  O bom beijo. Colorido jeito de chegar… Expões o perigo, e você inteligente esconde… Insegura aflita. Desorganizada medrosa afetuosa intensa. Chega no silêncio este estranho longe. Agora que te achei não quero te perder tua saúde me preocupa.

Há qualquer coisa dentro de mim que se aflige independente de mim mesma se aflige e desperta. Contradições. Seis horas sem notícias de Elizabeth oito horas sem notícia de Elizabeth.  Uma manhã, uma tarde e um entardecer sem notícias de você! És muito melhor do que te imaginas, e este jeito manso. Deixa eu fazer para ti, espera. Não tomes banho frio.

…a memória se mistura/confunde.  Se adormeço esqueço.  Há um corpo se desfazendo no jardim onde plantei hortênsias e margaridas. E a figueira que chega audaciosa nascida tão perto do cimento se debruça no terraço… Tempo de enfiar raízes na terra e insistir.  Não tenho direito a completa nudez, estremeço. Este contar sem fim parece um comprido trágico segredo dolorido. Elizabeth M. B. Mattos – Recife – 2017

FOTO MUITO LINDA que Luiza tirou

“Enquanto eu falava, eu ia pensando nas histórias em que as pessoas transformam a vida, as vidas em que as pessoas transformam as histórias.” Nathan Zuckermam em  O Avesso da Vida, Philip Roth, OS FATOS, 1 edição 2016. Companhia das Letras.

Pernambuco

Brennand e LuizaVida agitada. Aguardo aquieto  observo vejo e sinto calor. Tudo a o mesmo tempo e todo o tempo no movimento de ir e vir. Francisco Brennand interessa. Não consigo parar de olhar e de sentir e de estar e sonhar e acordar seguindo no sonho. Um pedaço de percepção de jeito de entender, um pedaço de coisa concreta neste olhar. Observo vejo e sinto o ir e vir como um alegro musical doméstico … A menina a modelagem a costura o desenho. E também os cães. Limpa e cozinha, lava e dobra.

Estou as margens do Capibaribe num ponto central. Grandes edifícios avenidas parques ditos – espaços verdes – maltratados pelo descaso. Estes ajardinados amarelados separam (?) enfeitam, (?) e as balaustradas margeiam o rio. Pontes ligam apontam outros caminhos. Muitas bicicletas. Um vozerio sobe e se acomoda na sala. Onde estou é fresco e sombrio. Venezianas abaixadas. Recolhimento inesperado/ importante. Os dias passam. A faixada do prédio e laterais, em obra. Um transtorno com poeira neste tempo de ser pernambucana. Fica uma leve convocação a nova visita. No entanto viajar parece aventura deslocada. E estas agitações e gritarias políticas! Desencontro e revelação velada denudas sem pudor! Espantosa corrupção! Não compreendo. Não entendo este entender que um dia depois do outro resolve, … nada se resolve, ao contrário, tudo se complica numa guerra sanguinolenta com/de violência e maledicência e tanta vergonha!

Amigo! Assim neste mês de maio estico um pensamento preguiçoso para tudo que não seja olhar o calor. Não é uma carta/ mas se propõe um chegar/estar mais perto porque sinto saudades de ti, de você de nós dois conversando, pensando, nós dois …

FOTO MARAVILHOSA DAS COSTAS DA LUIZA