Fragmento

Sonho definitivo, outra vez Vitor Hugo, Petrópolis! A casa ruindo. Colunas desabam, sem explosão. Aos poucos. Pedaços. Mas, diferente do real, esta, tem colunas, suspensa. Em baixo uma espécie de garagem, depósito. Palafitas sem rio, sem água. Casa quadrada. Pequenas sacadas suspensas. E colunas descascadas, ferros aparentes. Visão. Minha casa no sonho a perder os pedaços, e, passivamente assisto.

Ainda não é a minha. Esta casa existe. Perto do mar. Em transformação, sendo, de fato, descascada. Espaço verde com buganvílias, bananeiras, cinamomos desaparece, a escavação é a piscina. Alicerces, o pavilhão.

Sempre o cobiçado cimento, cinzento. No imaginário cifrões, ouro. Ostentação. Enormes casas. Prédios altos, mais altos! Posse, vale mais o metro quadrado construído.

A violência da explosão de construções transformou-se em sonho.

Torres, Buenos Aires, Kyoto e Rio de Janeiro

Torres, 5 e junho de 2015. A sexta-feira que estica o feriado de ontem, e desemboca num fim de semana comprido. Sol, temperatura perfeita. Azul. Cinza também, e muito verde. Amiga, este fio de correspondência me acende. Ou melhor, apaga a depressão que carrega o meu fazer lento, descuidado.
Bem sabes que me estendo no desânimo. Puxa meu corpo, arrasta. Fico encolhida na cama, releio a mesma página, e vou patinando sobre uma mesmice doente, não encontro sentido. E o amado amor, as vozes, as pessoas, velhos amigos se desdobram em elos estrangeiros, escorregadios, assuntos mortos. Um fio suspenso agita as inquietudes dos filhos, mas logo se encaixa na boa canaleta. Desligo telefones, desvio atenção, ou conselho, escuto música. Arrumo outra gaveta. E resolvo te escrever.

Tua expressão atenta, sorridente, o brilho dos teus olhos. E as roupas que usas, gosto. Pensar no chá, nos biscoitos, e na conversa que se estica quando estamos juntas, bom. Exatamente a peça certa, o jeito leve, sóbrio, e o cabelo natural. Livre. Teu sorriso, a leveza da voz modulando as confissões mais urgentes que guardei para te contar. E esta danada memória que se mistura brejeira com visitas acesas, esquecimentos tumultuados, leituras aos saltos, interrompidas, e discursos longos.

Quero montar o quebra-cabeça. O que posso lembrar da casa, da convivência, do pai, dos tios, desta vida cheia de reticências que eles levaram, ou que foram, ou são na memória? Um jogo. Transito por revelações sombrias, amorosas que podem ser inventadas.
Quando penso em autobiografia, traço um esboço da casa, daquelas pessoas que entravam, saiam, ficavam, das empregadas, da limpeza, do estético, da elegância da mãe. O café preto, o cigarro, as bandejas, os quadros, as cortinas, e as lareiras acesas. No verão, tínhamos Torres e as balsas. O incomum se agita. Penso, principalmente, na Anita que não conheceste. Rebelde, anestesiada destas baboseiras da vida do corretamente adequado. A minha mãe, personagem forte, arrimo, certezas. O tempo se agitava passando pelos seus dedos acolhendo os outros tempos, reunidos num mesmo palco. Sentada na ponta do sofá, desenhava, escrevia, silenciosa abria revistas, escutava Beethoven naqueles discos pequenos! Depois conversava, falava, opinava sobre tudo. Pontuava. Sorria. Transgredir talvez fosse a palavra certa, a posição corajosa de recuar aqui, e seguir ali por cima das pedras, escorregando, mas seguindo. Não olhar para trás, mas entender o perigo, aceitar o açoite, e ficar. Deixar a água correr.
Bambus podem ser a cerca perfeita. Ouve-se a voz do outro lado, vemos sombras, mas permanecemos separados. Os vizinhos não invadem. Seguem debruçados, conversam, falam, soltam foguetes, festejam, não prestamos atenção.
Pai e mãe em leituras, em conversas agitadas por discussões, e opiniões, protegem o feudo. Tecer com cuidado. Posso dizer, aplicado?
Amiga. Eu te imagino, vejo, trabalhando, estudando, e mesmo no lazer, evolução, revolução. No caminho certo, na contramão. Nenhuma mesmice. Enquanto te escrevo idealizo a coragem, imagino o novo, e tenho certeza, vejo luzes e assertivas. Aproveitem Buenos Aires! Respirem São Telmo, não esqueçam das livrarias, nem das cafeterias. Claro as casas de chá, os doces. Lembro das vitrines perto do Hotel Alvear. O luxo. O bom gosto. Caminhar pelas calçadas de Buenos Aires!
Preciso terminar o livro de Yusunari Kawata, KYOTO.
Volto a te escrever amanhã.

Ensombrada de pensamentos

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Leitura, o bom fluxo. Yasunari Kawabata, forma delicada, intimista. Gestos, palavras se recolhem, ou se explicitam numa dança oriental, rítmica, suave. O movimento interrompe a voz, e flutua numa modulação gestual. Advinha-se, extasiado, que neste cotidiano programado e sereno, a turbulência dos sentimentos está dentro de cada um, intensa, contida. E veloz. O tempo morno, lento, intensifica o gesto, o beijo. Kyoto, o livro, encanta.

“ Sua voz estava ensombrada de pensamentos. ”

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Respiro a natureza, o contemplativo importa. A beleza fermenta viva. A leitura se derrama no visual, e sensual, tange o essencial, o vivo.

Por ser em tudo uma grande cidade, Kyoto tem folhas de árvores com uma cor verdadeiramente bela.
Mesmo não considerando os pinheiros da vila Shigaku-in e do palácio imperial, e as árvores do vastos parques e templos, saltam imediatamente aos olhos do visitante as avenidas formadas pelos chorões de Kyya-machi, das margens do Takasegawa, de Go-Jo, de Horikava e de outros bairros: verdadeiros chorões, com uns ramos admiráveis que parecem querer voltar à terra, redondos e múltiplos, de linhas sutilíssimas, como os pinheiros vermelhos do monte Kita.”
( p.57)
Kyoto de Yasunari Kawabata.
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Lacunas, ausências geram defesas. Carências, o destempero selvagem da liberdade descabelada, e violência. A velha e desgastada tecla da educação, o polimento perseverante de uma boa leitura. Mas, de onde vem o texto? Nasce desta natureza exuberante? Do aquietamento da alma quando encontra beleza? Elizabeth M.B. Mattos – Torres

V I O L Ê N C I A

Pisoteamos, não pedimos licença, pisoteamos pretensiosos. Mesmo assim brota, enverdece, floresce caminho da grande violência. O cheiro doce de pão, ou mingau com canela, bananas ao forno?
Ausência. Ausência. O piano batido, dedilhado, ligeiro, cheio, vazio. No ar! Remediada esta dor pela música: braços e abraços. Lençóis macios, travesseiros empilhados. O estalo da lenha, os nós de pinho sangrando, escorrendo. O cheiro da cera. Os cães, os jacarandás.
Não ter a mãe, não ter o pai, ficar sentada no meio fio da calçada, não pedir licença, nem perdão. Exceder, não comer. Choramingar. Desaprender. A violência brota a cada empurrão matreiro. Peteleco corretivo. Castigo silencioso. Sem palavra, no quarto, violência. Depois o desavisado da beleza, tanto olhar, tanta cobiça! A beleza se espalha pelos ombros, ilumina pelo esverdeado olhar, dança mansa, pés pequenos, delicados. Tímido bailado de pele morena. Elizabeth M.B. Mattos  – maio – 2005 – Torres

CHUVA de FOTOS

Maio com chuva, o veranico terminou, mas o frio não se apresenta inteiro, ameaça. Umidade, e sonoridade do gotejado pesado destes pingos ininterruptos. Noites mal dormidas, sonhadas; revisando imagens, conversas, até o susto, a notícia da televisão. A mãe no sonho, linda! Ombros redondos, levemente roliços. Vestido decotado, e bordado com flores coloridas, pétalas salientes. Inclinada sobre a noiva, a Suzana. Comentei o quanto estava bonita, já sentada na cadeira da sala, pernas encolhidas, roupa solta, bege, os colares de madeira. Nos debruçamos sobre a imagem, a foto. Rimos. Bom que gostaste, disse, olhos escuros, mansos. Estes sonhos se sucedem com despertar. Vou ao banheiro, espio, pelos vãos da cortina. Volto a deitar. E outro sonho chega cheio de detalhes. Nestas frestas do sono, do que foi feito, dito, repasso o dia. Adormeço. Converso com ela mais uma hora, duas. Nunca apreendo o todo, escorrego. Não mencionou intimidades. Bebo água enrolada nos sonhos, e sigo sedenta. Elizabeth M. B. Mattos – maio – 2015 – Torres

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Cordas e cores

Pessoas se reconhecem pelo olhar. Beber do mesmo vinho, centralizar, escutar, falar, dizer e responder. A música importa, o livro importa, a cor, a beleza.
Observo, e me espanto.
O corpo responde. Dores precisas.
E o tempo se esvazia em menos um dia, menos uma manhã, menos uma tarde, menos uma noite. Sinto as pernas. Inchaço no coração: excesso de comida, de bebida, excesso.
Preguiça de viver. Insisto.
Esforço para me fazer compreender.
Risco, pontuo, estabeleço analogias, conclusões, depois esqueço. Nenhuma relação se afirma.
Confuso mundo de desvendar o mesmo…
Vendar, esconder, apagar. Depois abrir, e descobrir. Elizabeth M.B. Mattos

– abril de 2015 – Porto Alegre

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Proposta de AMOR

O amor tem idade?

Não, não tem idade. Saltitante esperança de criança. Saltos de coração, e frestas. Odor. Tudo outra vez… Primavera, verão, inverno, ou no outono, quando envelheço. As estações se misturam na proposta de amor, do perfume. Não importa se aos setenta, sessenta, ou trinta e cinco anos, ou quarenta. Pode ser aos oitenta, até aos noventa anos. No meio do bocejo, ao alcance da mão, a proposta de amor. Deixe a porta aberta. Sol, mar, vento, e ela se enrosca faceira nos braços do amado, cai na palma da mão. Pelas calçadas, passeio livre, sem pressa. Comer pipocas, rosca salgada ou doce. O sol no Arpoador.

Respira fundo. Aceita o inusitado. Aos vinte anos, nem precisa proposta, fala, ou explicação. Atropela encantamento de paixão! Afoga saudade. Cura tristeza, melancolia. Quinze anos! Apaixonado de prazer, abraço, beijo. Do jeito torto, ou certo, ou possível, o que importa? Que venha logo a proposta de amor… Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2015 – Porto Alegre

FOTO DAS FOTOS com as crianças

Encontro Marcado

Estas angustias impotentes, infrutíferas, circulares exasperam Elizabeth M. B. Mattos. Estes encontros ocasionais, estas vozes misteriosas cantarolando em seus ouvidos, e estes dias, estupidamente, curtos, doloridos, inquietam o coração: “Há uma fresta em minha alma”, é preciso reler, voltar aO Encontro Marcado, e aquietar urgências do Amoras.

E aqui começa a sua frustração. Habituado a superar e ganhar, eis que defronta um campo, o da criação literária, pouco adequado à vontade de competir. Porque escrever exige renúncia e sacrifício: é escolher um caminho entre cem outros, como lhe dizia Toledo, literato fracassado, citando Gide. Escrever está longe de uma competição, uma procura desenfreada de recordes: escrever é escutar o silêncio, contemplar desinteressadamente, resignar-se em ficar atrás tantas vezes, deixar que amadureçam sem pressa as forças e os elementos do próprio ser.”

Da página noventa e três de Alguns Estudos e um Fragmento de Autobiografia, Carlos Dantes de Morais. Comentando, contando Encontro Marcado, de Fernando Sabino. Uma luva para quem se aventura a escrever como ofício, como escolha, como qualquer coisa que se deseja, e não se encontra, o lugar certo, o lugar marcado de realizar.

‘Há uma fresta em minha alma por onde a substância do que sou está sempre se escapando, mas não vejo onde nem porquê. Depressa, não há tempo a perder…’ Escreve Sabino:

“ Eduardo Marciano debate-se num atormentado círculo vicioso. Quanto mais se afunda, tanto mais o seu querer ínfimo protesta, para lhe despertar novamente o desejo de evadir-se e salvar-se …” Escreve Carlos Dantes de Morais.

 

Se existisse memória …

Quero encontrar no passado a memória da casa. Vejo meus pais sentados na biblioteca. Conversam. Entro sem fazer barulho. Escuto encolhida atrás da cadeira azul. Fico sabendo que tia Joana está doente, que Anita vai para Poço de Caldas com as meninas, e que eu irei, no fim de semana, com meu pai para a casa do Telmo. E, todos comentam Huxley, Contraponto parece ter inspirado Érico Veríssimo no seu novíssimo  livro Caminhos Cruzados.

Pecamos. O Papa Francisco procura explicar a liberdade de casamentos entre pessoas do mesmo sexo, necessidade de controle da natalidade. Divorciados, separados são filhos de Deus. E o Papa não tem os dedos cheios de anéis de ouro, nenhuma cruz de brilhantes. Madalena lhe surge aos prantos. Ele beija as duas faces, e perdoa. Não há como seguir a igreja sem perdão, sem orar, e ajoelhar…

Quando envelhecemos sentimos dores no corpo. Os sinais gritam, e o silêncio sussurra. Está na hora. Estou com os bolsos cheios de pedras, caminho em direção ao rio. Sinto muita dor de cabeça.

Tentada por essa visão a prosseguir na reconstrução do passado, a Sra. E.M.B.M. fez uma pausa; era dada a enriquecer o presente com voos diretos para o passado ou o futuro, ou então em diagonal, através de corredores e alamedas; lembrou-se, contudo, de sua mãe – sua mãe censurando-a naquele mesmo aposento:

— Lucy, não fique aí de boca aberta,ou o vento mudará de direção…Quantas vezes s mãe a repreendera naquele mesmo aposento – ‘só que num mundo completamente diverso’, observaria seu irmão. Então, sentou-se par o chá matinal como qualquer outra velha dama de nariz grande, faces magras, anel no dedo e todos os enfeites de uma velhice um tanto consumida, embora ainda vaidosa, incluindo no caso dela, um crucifixo de ouro rebrilhando sobre o peito.”

Entre atos, Virginia Woolf, Editora Nova Fronteira

Carta e memória

Torres, 3 de junho de 1997, na memória.

Organizar sentimentos, repassar o tempo. Colocar a máscara. A individualidade se esconde atrás de nova personalidade. A máscara agrega a trivialidade da vida e do cotidiano um aditivo de coragem. Coloco a máscara.

Em pouca água nos afogamos.

“Nem um minuto mais posso esperar para te olhar outra vez. Nem um minuto sem tocar, beijar, cheirar, e estas coisas todas que temos vontade de fazer quando o inesperado se aproxima. ”

Rosas em atraso. Trinta e quatro anos depois, não, quarenta e três na conta exata. Engenheiro, não marinheiro. Navego no indefinido mar da imaginação. Atrasado, e fantasioso encontro. Verdade do quebra-cabeça: fraqueza, intervenção, não timidez. Vantagem de ser menina, outra vez, (para rimar). Entendo interrogações,  lacunas. Viajaste neste atraso com rosas cor de rosa.

“Tão pouco, e tudo. Não completo, tudo teria sido preenchido pela coragem. ”

Procurei no tempo errado, a pessoa errada. Vulnerável, não tímida, mas esperei o homem certo. Ironia. Não existe a pessoa certa. Gostar é sempre parcial. A explicação, intelectual. O intelecto nos remete a uma comparação entre o que desejamos ver, ler, ouvir. Confundimos, assim, gostar com concordar. Só se gosta do que se concorda.

A mãe, a minha, importa em todas as histórias. Genética, o escudo. Vivemos num mundo carregado de julgamentos do que possa ser certo, ou errado. Enigmático ou participativo, subordinamos conceitos estéticos e culturais ao nosso cristalizado repertório de ideias, opiniões e convicções. E nunca sabemos ao certo, o errado, o possível.

Estas rosas cor de rosa despertaram a menina. Mas não vieste buscar a mulher. Um capricho, o encontro. Confissão, e também, estabilidade carimbada.

“O prazer se sacode assim mesmo, escabelado, arrepiado, sem propósito. Talvez, ele possa telefonar ao chegar a Porto Alegre. Saia de casa, ás 23 horas, atravesse a rua, entre no botequim da esquina, compre cigarros, e telefone para dizer que pensa em mim, e vai voltar, em breve. ”

Imaginação. Não estarás do outro lado do fio. Contudo, corajosamente, escreves uma carta. E não é mais branco e preto, verdade e mentira, mas fantasia.