SURPREENDE o amor

No amor, a entrega. E nos confessamos… Como se amar fosse absolvição ou redenção. Submissão. Difícil segurar esta narrativa verborrágica que inunda o outro de informação, e fantasia inadequada. O amor deveria ser jornada, caminho. Confidência delicada que desvenda, mas não se confunde amontoada com dores e pecados. Nem segredos.  Estar no estado de amor, deveria ser prazer, alegria generosa. Cumplicidade. Planejar juntos, não em órbitas esquizofrênicas. Sedução constante. Sem posse nem violência. Sem submissão. Sem poder. Não basta chegar lá. Cuidado com a vaidade que engole o senso do ridículo. Invalida honra. Desnuda fragilizando. Existe um lugar mediador, tranquilo onde amar se estende no verde. Sem a faca sangrenta do excesso. Meio termo sereno. A beleza no detalhe, na diferença. Inteligência na solução, até no desvio. Amar está no olhar silencioso. E, o estado de amor surpreende…

Tempo de reverter

Quase um ano no espaço…Aeronave precisa pousar. Onde? Quando? Em que hora?No meu jardim?

Um amigo acaba de me dizer que está em tempo de reverter histórias desencontradas, e mal resolvidas. Haverá mesmo possibilidade para setentões durões? Tempo de mudar afetos? Amor. Chegar mais perto? De quem? Colher amigos? Será que não estamos, de fato, cristalizados?

O calor das coisas

“Eu sei que errei, mas não me deixe agora. Eu protestei contra o que parecia sua culpa. Você me olhou afiando os olhos no meu rosto. Me senti retalhada, diferente das vezes em que me cortou e não sofri. Bem ao contrário, a carne me sorria, e u deixava que você me tivesse, porque a carne era a minha alma.”(p.121)

“Não sabes então que me amas, amas-me muito mais que podes saber/ Mas mesmo sem o socorro da tua consciência. E se não me amas com a paixão do meu amor, te ensinarei novamente a amar-me. Não te peço tempo, dias, horas. Sou mulher das longas estações. Serei verão quando exigires calor.” (p.123)

O calor das coisas : contos, Nélida Pinõn, RJ: Nova Fronteira,1980.

Relações Perigosas

Cartas na pauta. Da Dilma, do Delcídio, da Sandra,  do Tavares, e do Manoel. Não são pronunciamentos, declarações, muito menos bilhetes. Nem decretos, ou desculpas. Avisos? Não. São cartas a serem lidas, publicadas, relidas. Não são do pôquer, ou cartas ciganas. Talvez políticas. E não são de Ruy Barbosa. Talvez a primeira página do romance epistolar: Ligações Perigosas, Pierre C. de Laclos, 1782. O jogo continua.

É preciso explicar o amor amado de ZMXCL ou FHXH, ou sabes, não te escondo. Amar é urgente. Proponho almoçarmos ao menos uma vez por semana, todos os meses, mas preciso te olhar todos os dias. Atenta ao cuidado, confiante. Acredito que devo marcar um dia da semana. Juntos, uma, duas, três, ou quatro vezes ao mês. duas vezes ao dia.  Poderás me ensinar a jogar. Combinamos domingo. Se te parece muito, de quinze em quinze dias. Sempre me atrais / tu me encantas. Eu te abraço, neste dia cuido de nós dois, e dormes aqui, naquele quarto envidraçado, verás que a noite te cobre e o sol te ilumina todas as manhãs. Eu te amo. Beth Mattos

images (1).jpg coringadownloaddownload.jpg cartas ciganasdownload.jpg poquer

Só isso, agora

Sinto falta, saudade da mãe. Do pai. De ambos. De forma diferente, é claro. O tempo enterra mágoas, oculta também alegrias. Saudade parece um bicho estranho que fuça na vida da gente. Com nostalgia vou folhear estes livros. Procuro uma marca qualquer na espichada caligrafia, nas datas. Engasgo com lembranças. Penso a saudade, a memória de cada um. Brincadeira boba! Penso nas conversas que nunca tivemos. Nas confidencias. Observo o mapa das lembranças. Escuto vozes… Olho para o casaco de pele jogando no braço. O sorriso contido da foto. Base aérea de Natal. Danosa saudade.  Ficou pra trás o verde, o azul, não era rosa nem amarelo. Branco e preto. Poderia ser um vestido de alças largas, rodado. Sandálias. Não, não é a roupa que eu vejo, mas a danosa saudade.

“A avareza como o amor, tem o dom da vidência, quanto às contingências futuras. Fareja, apressa.”A. M.

“As pessoas generosas dão maus comerciantes”A. M. 

Só isso, agora…

Talvez respondas

Adoro as cartas porque são registros, e são urgentes. Preciso dizer isso ou aquilo. Ou que te penso. Que estou surda, mas vi o teu chamado. Apenas não respondi.  Assim mesmo quero dizer que amo aquele jardim, aquela casa, aquela dobra de saudade. Outras coisas nos movem, a cada momento, importantes, relevantes. E a cabeça deixa de pensar, de escutar. A carta espera para ser lida, relida. Não importa a resposta. Já passou. Hoje tudo que demora a ser resolvido, passa. E as crianças crescem. Eu envelheço. Algumas conversas ficam irremediavelmente esquecidas.  Mas as cartas voltam. Tu voltas. Outras velhas lembranças, adiadas ficam penduradas no varal. Secam. Ninguém se lembra de recolher. Dobrar, guardar… E eu te conto que gostaria de ter escutado. Queria ter ouvido a história do meu pai, da minha irmã. Daquela senhora que chorou no ônibus, daquela que segurou minha mão na volta de Paris. Ou fui eu que tentei acalentar, interromper os soluços. Queria estar contigo agora.

Afinal, confesso que gosto das cartas que ainda não pude ler, e das que escrevi, mas não chegaram. Estou sempre inquieta atrás de um interlocutor. Gosto de conversas interrompidas. De repente, voltam, seguem o destino. Vivas. Gosto das coisas desarrumadas porque tenho que organizar, e fazer, arrumar. E me ocupo com esta, ou com aquela gaveta. Não tem fim esta desordem, nem esta ordem. Gosto do nublado deste dia. Espero a chuva. O frescor. Gosto de esquecer porque quando lembro parece novo. E até deste envelhecer que me agita, acabo gostando porque me sinto, afinal, corajosa. Talvez faça tudo  que  ainda quero fazer. Atravesse o mar, e vá pra África. Colherei aquelas margaridas… Darei conselhos. Ficarei muitas horas no silêncio. Esquecerei… Talvez recomece tudo outra vez porque ainda é tempo de ver o céu de Paty do Alferes, olhar pro morro, tirar o inço, afofar canteiros, brincar com o Zeca e com a Malu. Contar histórias. Afinal, estou aqui. Quero dizer que te amo. E isso importa pra mim porque te escrevo cartas, e mais cartas. Talvez leias e respondas. Gosto de esperar. Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2016 – Rio de Janeiro

Avó adolescendo

download (3)download (4)

Enquanto separo fotos em caixas com nomes, datas, devidamente, etiquetadas, eu me pergunto: Em qual obscuro lugar será esquecida! Milhares de imagens do pequeno passado. Registro. Estamos todos atordoadamente apressados! Dou risada. Atendo o telefone, o que não acontece sempre. Dou outra risada. Escuto as notícias, todas. Depois, desanimo diante da louça espalhada. A desordem.

Espio a menina que se esconde. Cantarola. Brinca, e corre. As fraldas voam. Levantam, sentam. E se afastam. O tempo de ser uma só. Imagino a história da vida crescendo, dos cabelos encaracolados. Desta voz suave, clara. Suspiro desajeitada. Nem sou meiga, nem presente, nem suficientemente presente. Onde está a cadeira de balanço, o embalo, o sossego, e a história? Por que nunca sei contar, nem ler. Nem pensar avó. Faço beiço.

Ele senta no sofá. E pergunta, sem voz, se vou sorrir, abraçar, dar os presentes. Abraço. Dou beijos. Cresceu neste tempo. Sempre crescem os netos. E através dos óculos esconde timidez, percebo doçura. Sigo rindo distraída, falando, contando da viagem, da geração Z ,– explico, pontuo. Estou eu adolescendo. Minicraft, o jogo me impressiona: vou criar o planeta. Fiz o dever de casa, li a Veja, comento. Procuro na mala os livros que comprei. Infantis. Bobos. Dou-me conto que não acerto. Mas tem selo de troca. E a biografia do Jobs? Nenhum interesse. Erro, outra vez, desajeitada. Dureza de ano, sem dinheiro, economia parada. Explico. Arregala os olhos. Assusto. Silêncio. Vamos dar uma volta? Solução.

Lá vem a bicicleta. E não vejo. Rodopia. Levanta a roda. Voa. Não vejo. Esta avó distraída, ausente. Sou eu mesma. Logo no olhar encontro o menino. O abraço. O corte novo do cabelo.  Por que eles crescem assim desconfiados estes netos? E tão rápido. É um moço.

 

images (3)images (2)

Personagem noutra vida

20140806_115555

Equívocos. Sem o beijo. (A última chance, o último socorro. Esticar o braço, tocar na mão! Assim mesmo tímidos e estranhados.) Como aconteceu este encontro? Justo o que não podia ser… O definitivo, completo. Ainda brincas. Fazes graça. Encolho, encabulo. A vida deveria ter sido mais justa com o amor. Culpa: penso. Se eu não tivesse interferido, se tu amasses, ou ousasses. Não sei. A última brincadeira do diabo. Fui ingênua. Vais me dizer, sempre. Nunca vieste ao meu encontro, te esquivaste. Depois de setenta anos a explicação não faz sentido.  Claro, estou insistindo. Ver nos meus olhos, entender os teus. Caminho bloqueado.

Se a vida me devolve o homem, ficarei aturdida. Não existo. Sombra, pura imaginação.  Eu me deixei derreter, desbotar, murchar. O que fazes agora? Audácia. O brinquedo. Quanto mais poderoso és, maior o meu medo.

Tenho o tamanho certo para teus braços. E tu o abraço perfeito. Na minha imaginação, mãos dadas. Sem equívoco, ao contrário. Certezas. Assim eu te vejo. Inserido na vida como ela deve ser, perfeita.

O trabalho. Nova, e já inteira, a família caiu como presente: fitas coloridas, pacote com flores. Consolo. És o meu personagem, outra vida. Beijos não resolveriam. Posso chorar. Levantei um muro entre nós dois quando falei francês naquela noite italiana. Aflita. E dizer que nunca nos beijamos! Deve existir outra oportunidade respirando para a entrega. Que venhas ao meu encontro. Perdas não se explicam. O sentimento de abandono sacode nossos aniversários. Nunca amei como se deve amar! Procurei azul, verde, amarelo. Nunca o amor. Por que te escrevo?  Porque não quero morrer sem te beijar. Milhões de vezes, próximos, e intocáveis! O olhar tira minha blusa, ou deseja. Desejada, desejei.  Fulminada, diminui. E teu olhar se desviou. Reagimos, como se o passado fosse uma brincadeira, a favorita. Incerteza. Não do sentimento. Sempre te amei. Risadas, pequenas aventuras. O sentimento fraterno. O amante. O segredo sensual. O herói, personagem preferido sem livros, sem máquina de escrever, nas rodas dos automóveis, ao vento. O homem que não toca piano, mas enche a sala de risadas.  Povoada meninice, adolescência. Ainda no colégio, através da cerca, a brejeirice. E não nos beijamos. Ser um do outro, sem tocar.

Depois de tantos equívocos, magoa. Se nos tivéssemos revelado como menino, menina. Jovem, mulher, e homem, teríamos acertado?  Ou errado. Não importa. Nunca amei mesmo por inteiro. Será que seria festa estar nua aos teus olhos? Ser possuída? Sacudida por prazer ou desespero. Saberia.

Se existe outra vida, resolvo a confusão.  Alguém, um fantasma, outra mulher, outro homem. Qualquer equívoco. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro – 2016 – Torres

20140727_165038

20151221113454701_0002

De Hélio Oiticica para Lygia Clark

Sou  mesmo atraída pelo voyeurismo das cartas. O pensamento impensado, em transe… Não mais cartas seladas, nem correio, nem papel, nem letras, nem pessoas a se escreverem, mas a contaminar… Pode ser. Não mais com envelope. Mas cartas fragmentadas em mensagens eletrônicas. Tropeçamos um no outro virtualmente. E seguimos o impulso do prazer. Navegamos teclando em celulares, afinal, com palavras… Beth Mattos

Derramado…, como nesta carta do artista Hélio Oiticica e Lygia Clark.

images.jpgLYGIAimages (1)

“New York, 11.7.1974

Lygia:

Recebi sua carta que como sempre me deu grande alegria e espero que você esteja aí quando esta chegar. Sua carta foi muito importante para definir e esclarecer uma série de coisas e principalmente para que eu acrescente na seção de corpo (BODYWISE) do livro que faço a importante e claríssima definição sua (como sempre) e que peço aqui sua permissão  para usar coisas da carta. Penso em colocar num espaço grande em cor ou branco o seguinte:

LYGIA CLARCK:

É a fantasmática do corpo, aliás, o que me interessa, e não o corpo em si.

Essa citação seria em cor que vibre sobre o fundo como luz (complementares), pois a meu ver é uma definição e uma posição, ou melhor, colocação do ponto no ponto maior e crucial; uma revelação: um ponto de tal finura que faz justiça e expressa in totum a natureza de sua personalidade e inteligência sem par: sua carta de duas páginas diz mais que qualquer outra de mil: para mim é como um banho e um alívio vibrar com sua inteligência e afinidade criativa; como você nunca vi, e sei que jamais verei! A vibração das letras puladas da sua máquina e a euforia tão sua e “ligada” me fizeram acordar quando já ia caindo de sono ( há três dias estou de pé!).

[…] Me deu uma sensação incrível de emoção sublime, de uma paixão maior; algo que gera tanta coisa na nossa cabeça que dá então nisso que você segiu da cabeça coletiva: cada coisa engravida outra.

[…] Lygia, pensei em anexar aqui páginas ou páginas com pensamentos que me vêm com os seus argumentos na sua carta; não pense que esses pensamentos sejam ” interpretativo” já era! Pelo contrário, porque o que me leva a determinados pensamentos é o que você desencadeou, e não o que você  disse, ou é em essência; isso me fascina; sinto que a fragmentação que me ocorre é BEM TRIVIAL; sinto-me CLOWN e isso me define e me alegra; sinto você algo bem diferente mas que adoro: SUBLIME, como que tudo o que de grávido da sensibilidade feminina estivesse expresso tão forte quanto uma rocha masculina […] “

(p.225 -230) Organização de Luciano Figueiredo

Lygia Clarck Hélio Oiticica CARTAS 1964 -74

 

É Torres

Noite fresca de verão. Lua encheiando devagar. Lua no cinzento frescor desta noite de verão.

E a vida é assim. Escondida.  A vida como a lua. Jogo de apareço, não estou, ufa! Estou..A vida se esconde no vestido elegante. No encontro fugaz. No casamento certo. A vida se esconde na barra da bainha bem feita. No corte elegante daquele vestido vermelho. Naquela foto. A vida se esconde no tênis de correr. A vida se esconde no copo de vinho. Numa mulher bonita. E na feia também. Na pele escura. Na tez clara. E se esconde do medo, e no medo.  No velado olhar do desejo. Nas nuvens do sonho. Na relação perfeita. Numa tarde de compras. Nas vitrines. Nas modelos que desfilam em passarela. No ouro dos brincos. Nas pérolas do pescoço. A vida se esconde no mar. Na meninice. Nos folguedos da infância. No cheiro das pessoas, no aroma da casa.E a vida se esconde nas apostas do jogo. Nos aeroportos. Nos perdidos e achados.

A vida somos nós escondidos de nós mesmos. Como a lua neste céu cinzento, ventoso, e fresco de verão. Ela se esconde estourando de redonda, nascendo, e morrendo… No verão ventoso de Torres.