Suspeitar da suspeita

Livros que guardam numa só história, dezenas de outras histórias… Infinidade, um só parágrafo.  Fazer acreditar na verdade verdadeira de simples alusão… Acreditar no mal entendido daquele dito. Chorar. Rir. Ou sangrar. Assim é Javier Marías no livro Amanhã, na Batalha Pensa em Mim.

“A conversa não era fácil, talvez fosse melhor continuar em silêncio. Num momento pensava que era Cecília e que podíamos parar de fingir e falar tudo ou do de sempre, ou nos interrogar abertamente, no momento seguinte pensava que não podia ser ela e que se tratava apenas de uma dessas extraordinárias semelhanças que no entanto às vezes acontecem, como se fosse ela com outra vida, outra história, a mesma pessoa que teriam trocado quando bebê no berço como nos contos infantis ou nas tragédias de reis, o mesmo físico com outra memória, com outro nome, outro passado no qual eu não tivesse existido…”

(p.218)

 

“Como é fácil enfiar uma possibilidade, uma apreensão, uma ideia na cabeça de outra pessoa, tudo se contagia muito facilmente, de tudo podemos ser convencidos, às vezes basta um gesto de assentimento para alcançar os propósitos, fazer como quem sabe, ou suspeitar da suspeita do outro sobre nós para nos desvendarmos sem querer por medo e revelar o que íamos manter em segredo.”

(p.222)

Com Xico Stockinger

Com Xico Stockinger

Correspondência entre Xico Stockinger e Elizabeth Menna Barreto Mattos que resultou em livro em 2002.

Beth – Achas que há tempo (sem pensar neste negócio de idade) para retomar outros trabalhos? Iberê resolveu escrever. Ernesto Sábato pintar. E tu?
Xico – Às vezes penso que trabalho muito para fugir dos qüiproquós que eu arranjo. Trabalho porque gosto de fazer esculturas. Sou cheio de frescuras, recalques, e assim fazer bonecos me ajuda a esquecer essas coisas…
Beth – Trabalhamos para acertar coisas dentro de nós mesmos. Mas o maravilhoso nesta tua arte de fazer bonecos é dar o recado. Deles nascem outros Stockingers, que se apresentam para a luta. Conta da tua vida particular, tuas leituras, viagens, mulheres. O escultor tem uma corte. Assim eu vi a Vila Nova, muitos envolvidos. Há diferença entre a pluralidade de materiais e este trabalho repartido e exposto ao voyeuer? Isto sempre fez parte da tua vida?
Xico – Na Vila Nova há algo que eu nunca tive nos meus oitenta anos. Mas vamos parar de intimidades.
Beth – Temos potencialidades adormecidas. Será que a vida define o talento de alguns? Imaginaste descrever um mundo interior teu com os guerreiros e as guerreiras; eles são um ideário particular?
Xico – É preciso dizer que não caem estrelas do céu, nem ouço vozes. Na produção o que há mesmo no duro são mais de cinquenta anos fazendo escultura. Em cada uma aprendo algo de novo e cada uma me indica o caminho que posso tomar. […]

Editora Artes e Ofícios: Xico Stockinger Memórias

Nas tuas mãos

“O amor não tem portas que possamos abrir e fechar, nem passagens secretas para um sótão onde possamos fazer férias. Toma conta de tudo em nós, envolve-nos como um lençol de tédio, sedoso, infinito. Ninguém fala deste tédio sublime, tão contrário à acção e à eficácia, imóvel inimigo do  mundo. Só no tronco do sonho, iluminado e funesto, o amor interessa. Prolongada, a vida torna-se demasiado curta e o amor ganha o ritmo da chuva que bate leve, levemente.”

INÊS Pedrosa, Editora Planeta. p.78 do livro: Nas tuas Mãos

Há coisas que não comprendo

“Então, ele lamentava não ter aprendido a arte de pensar, começando por dobrar o segundo e o terceiro dedos a fim de colocar o indicador sobre o sujeito e o dedo mínimo sobre o verbo, como seu professor de latim ensinava, e lamentava não ver sentido na babel de dúvidas, desejos , imaginações e temores que lhe doíam na cabeça. E com menos força e coragem, ele também teria abandonado para sempre a possibilidade de vir a saber que tipo de ser ele era, como viveria, e viveria vencido, às cegas, num mundo louco, em meio a estranhos.”

Becket, Samuel. Malone Morre. S.Paulo.F. – Q M Editores Associados Ltda. (p. 26)

Desânimo cansado

A dor continua por um tempo maior do que aquele que pensamos poder suportar. Se eu me penso em estado de amor, penso também na perda, no abandono. Um dia a mágoa finda, como termina uma estação, e se passa do calor ao frio, do sol a chuva. Quase não se percebe a mutação, ela se faz. Pode-se esquecer o sentimento mesmo de sentir. Mas tem a rotina, o cotidiano de fazer o que é preciso fazer. Substituímos amores por dedicação ao mundo real que tínhamos esquecido no estado de amar. O estado de amor é perfeito gozo, dor, lágrima ou riso, tudo é perfeito, mas de repente some, vira cruz.

Amamos o outro neste desespero todo de tão grande, justamente, quando nos esquecemos de ser. Esquecemos o espelho, o fazer, a meta, a ideia, o pensamento. Quando esquecemos que temos um mundo próprio e todo nosso. Como um quarto sem janelas. Quando esquecemos que podemos fazer, deixar de fazer, seguir, parar, continuar. Quando esquecemos que a vida é caminhar, quando estamos cansados de avançar, de abrir picadas resolvemos que vamos amar com paixão, apaixonar-se é o puro estado de esquecimento.

O que é preciso fazer quando o amor nos deixa, quando o objeto de amor desaparece? É preciso recomeçar a ver a vida de viver. Retomar o caminho, o nosso caminho. Dá um desânimo cansado, mas, também é preciso voltar ao espelho,  ao detalhe, ao vaso esquecido na ponta da mesa, ao bolo, as cores das lãs que serão tapete, as flores, ao mar. Temos que voltar ao mundo real. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2012 – Torres

Sem fita

Frescor depois de chuva perversa.

Aperto. Bom que as plantas estão verdes!

Bom que o passado passou.

A rua, a rua… Movimento contínuo que atordoa.

Mutilação ou perda? O definitivo. Ausência presente.

Sem fita vermelha, sem laço.

Sem espinha dorsal, já  mutilação.

Dor de cabeça. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro 2012