bebê

quero ser uma menininha, ou um bebê aconchegado no colo de alguém, acarinhado, embalado, regredir no tamanho e sentir esta coisa de um abraço – confiança

quero casa ordenada, estantes limpas

vestidos perfumados e certezas em ordem alfabética / limpas, perfumadas

quero meu impossível

mesmo que ainda não seja o onde se esconde o possível!

Acordo e juro que vou dar conta das flores, da poeira do encerado do assoalho, dos lençóis, da mesa nova sem cupim – não quero os cupins, quero o mar e não olhar pro mar.quero flores.

quero cartas, mensagens, afagos, mas estou desorganizada e preguiçosa, durmo na cadeira sem sonhar, dói aqui, dói alí, dói amor de tua ausência, dói, dói…Elizabeth M.B. Mattos abril de 2023 Torre – São Paulo. E a Ônix, difícil deixar a pretinha pra trás… Meu tudo.

loucura desalinho coragem

a loucura que empurramos não é nossa, mas o emaranhado de erros cometidos, um atrás do outro, salvos? neste descaminho bafeja o amor, um amor de carinho, outro desajeitado, outo esondido, inconsciente. então eu caminho: ora no escuro, ora pelas sombras e às vezes eu sento na varando e seguro o sol com o rosto, braços abertas, pernas dobradas, dorso entregue e digo que sou feliz, só por um segundo, depois desconcerta o certo e eu caio no vazio profundo, ines´licável, trancando: não vou contar. As cortinas do teatro caem e o espetáculo termina, durmo. Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2023 – Torres

inglês, francês, espanhol, português

Todas elas, todas nas prateleiras, ordenadas, intocáveis… Assim são as potecialidades e os desencontros. Se não atravessamos a rua, não apertamos a mão, ou damos um beijo, ou entragamos a flor ou … Ficamos intocáveis, ausentes, transparentes.

É preciso fazer um gesto, ou memoraziar uma conjugação no modo indicativo subjuntivo, entender os diferentes futuros. É preciso me concentrar, não alterar a voz, nem gritar, nem ensurdecer.

Não bastam as flores

Não basta a música, nem fechar as portas…

Um esforço, um mínimo esforço para chegar na paz e tocar o céu… Toda a fluidez, qualquer azul, qualquer cinzento, com estrelas, sem estrelas.

Preciso entender o mar que vai e vem, e se movimenta, irritado, ou manso, vai e vem… Sempre o mesmo, tão diferente… E estou fechada no quarto, com a janela fechada. Sem conexão, no escuro, sentada na beira da cama, sem chorar… É preciso, então, chorar. Elizabeth M.B. Mattos – abril – 2023 – Torres

um fio, um fio bem fino e a água desce…

escasso, devagar, aflito

não sei se vou conseguir matar a sede, sossegar, ou

chegar, naturalmente, vou perder

quando a energia se transforma em sono, sono, sono e descuido,

com certeza, vou perder

posso colocar um piano para tocar, talvez uma valsa, ou comece a cantar…

nada que eu faça vai aletrar a certeza de que estou perdendo…

o que pensei esta manhã desapareceu, de tarde fiz um esforço, gritei

gritei um grito rouco e tão absurdo…

estou juntando os pedaços, para fazer, extamente, o que?

não vou colar nada.

aquela tristeza seca tomou canta, desorientada, seca, sentada, ao meu lado no quarto escuro… Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2023 – Torres

George Sand / Que tu viens a propos pour terminer ma peine!

As histórias de nascer, conviver, se repetem: encontros, desencontros, decisões que importam como faróis para que o amor e a vida possa seguir. Quanto sofrimento enfrentamos /aprendemos para seguir em frente, poucos botes se salvam no meio da tempestade… temos medos, e o medo persegue, as pessoas perseguem umas as outras. Os escudos do amor são importantes. E.M.B. Mattos – abril de 2023

Mas a história do gênero humano se complica sob tantos sucessos imprevistos, bizarros, misterioros; os caminhos da verdade se ramificam numa tal quantidade de atalhos estranhos e abruptos; as trevas que cercam essa peregrinação eterna são tão frequentes e espessas; as tempestades por tal forma se obstinam em destruir os marcos das estrada, desde a inscrição deixada deixada na areia até às Pirâmides; tantos sinistros dispersam e desorientam os pálidos viajantes, que não é de espantar que ainda não tenhamos tido uma história verdadeira livre de dúvidas, e que vaguemos nem labirinto de enganos. Os acontecimentos de ontem são-nos tão obscuros quanto as epopéias das épocas mitológicas, e somente de hoje datam os estudos sérios que lançam alguma luz a esse cáos. George Sand – História da Minha Vida (p.89) I volume ( História de uma família de Fontenoy a Morengo) tradução de Gulnara Lobato de Morais Pereira – 1945 – Livraria José Olympio / São Paulo

Estou empactada com a coragem de seguir em frente e como a doação sincera: uma autobiografia de todos nós, e história ferve, e somos nós. Os bons livros, serão sempre, os corajosos livros.

“[…]é a alma que sofreu mais que domina a outra. Se uma emoção nos empolga, não buscamos jamais o apoio do céptico zombeteiro e altivo. É para um infeliz como nós, em geral para alguém que tenha sofrido mais que nós, que voltamos nossos olhos e estendemos nossas mãos. Se o surpreendermos num momento de desespero, ele se apiedará de nós e conosco chorará. Se o invocarmos no pleno exercício de sua força e de sua razão, ele saberá instruir-nos e talvez nos salve; contudo, só poderá influenciar – nos se nos compreender, e para que nos compreenda, necessário será que tenha uma uma confidência a fazer em troca da nossa.”

A narrativa dos sofrimentos e das lutas da vida de cada homem é, pois, um ensinamento para todos os outros; seria a salvação de todos, se cada qual soubesse discernir o que o fez sofrer e compreender o que o salvou. Foi com esta mira sublime e sob o domínio de uma fé ardente, que Santo Agostinho escreveu as suas CONFISSÕES, que foram também as do seu século, e que ofereceram, a várias gerações de cristãos, o mais eficiente auxílio.” (p.15)

tu contigo

O esforço de fazer se abraça no esforço de sobreviver, como se um pedaço de você se soltasse do corpo e formace outra Elizabeth, uma boneca de ser feliz, arrastar coisas boas, cozinhar coisas boas, dizer coisas boas, apagar a tristeza ruim, colocar o indesejado na conta do caderno do envelhecer, mas não adianta, o mar está tão longe! Tenho que mudar a geografia, fazer a mala e ir embora pra São Paulo, colorindo o caderninho escondido. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2023 – Torres, ainda na despedida.

derrubei a faceirice

Tentativa travada e agitada: reorganizar. Possibilidade: da picanha ao fígado, e, salada verde. Estar preparada para todas as guerras.

Num lugar de entulhos, com tantos entulhos, brotam folhas e flores miúdas, corajosas. Assim se espalha o sono sem sono, um ânimo desanimado, uma preguiça arteira. Pequenas armadilhas: a calçada.

É o tempo se fazendo minuto, desassossegado, indeciso. E não faço o possível. Descosturo a velha túnica, embora mantenha os pés aquecidos nas meias, estou com os braços nus.

A descrição parece esdrúxula e os sintomas deste pequeno desacerto do certo possível se arraste inquieto a procurar o lugar definido. Sou eu acomodada na situação de ser com desânimo. Haja vida desavisada e contínua. Haja francês, alemão, inglês ou espanhol. O sonoro destas línguas todas, não esquecer o italiano, se mistura num gozo completo.

Acordo afogada na angústia de ter me esvaziado: derrubei a faceirice, o cuidado, a delicadeza que eu tinha comigo como se pudesse assim aliviar a angústia. Penitente, desfaço toda e qualquer alegria para ressuscitar. Impossível mecanismo. As leituras se desfazem, a casa não está limpa. E o mundo parece outro, não o meu. Sinto uma saudade desgovernada de minha mãe: passo meu tempo a pensar nela. Como vivia. Tenho que inventar o meu próprio jeito, não tenho parâmetro. E as vozes desapareceram dos telefones… Desapareceram das calçadas. E os hábitos que enfeitavam os dias foram embora. Esta reconstrução minuciosa e difícil desgoverna o pensamento.

Tenho que escrever mais, tenho que ler mais, tenho que voltar a trabalhar mais, talvez viajar. Preciso começar por Porto Alegre. Vencer a barreira, administrar este ir até a casa da irmã. Testar a calçada. Não enlouquecer. Trata-se de manter a lucidez, a coragem e bocejar antes de dormir. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2023 – Torres

Foto: Pedro Moog – Ibirapuera – abril de 2023 – São Paulo

diga quem amas e te direi quem és

A narrativa dos sofrimentos e das lutas da vida de cada homem, é, pois, um ensinamento para todos os outros; seria a salvação de todos, se cada qual soubesse discernir o que o fez sofrer e compreender o que o salvou. Foi com esta mira sublime e sob o domínio de uma fá ardente, que SAnto Agostinho escreveu as suas Confissões, que foram também as do seu século, e que ofereceram, a várias gerações de cristãos, o mais eficiente auxílio. (p 15) George Sand A História de Minha Vida

amor do amor para amor

Estás junto a mim, minha mão está envolvida

Pela tua. Meu corpo firmemente apertado contra o teu.

Minha boca grudada na tua…

Somos um único ser, inseparáveis.

Será a batida do teu coração ou do meu que sinto?

Não será o que soa e se avoluma em meu sangue

Um eco do teu sangue?

Não existe eu, nem tu. Benditas sejam as fronteiras.

Profundamente submerso, como todo o mundo

Está o que sempre nos separou. – E até que

O doce milagre se renove, e o sonho

Também seja devorado pelo fogo – torrente de desejo,

Imagino que somos, fomos e seremos – para sempre – um.

1914 – Melanie Klein – (p.77-78) O mundo e a obra de Melanie Klein – Phyllis Grosskurt