dispersiva /enlouquecida /apaixonada

Ok! Não vou ficar a fatiar todos os dias, mas vou teclar e me exceder, vou sair gritando, vou enlouquecer.

A chuva caía com violência ou simplesmente não caía, O sol ardia ou era tudo escuridão. Transpondo isso para as regiões espirituais, como é seu costume, os poetas cantavam com graça o modo como as rosas fenecem e as pétalas caem. O momento é breve, cantavam eles, o momento passava; todos dormirão, depois, uma longa e eterna noite. Quanto a lançar mãos dos artifícios dos viveiros ou estufas para prolongar a vida desses cravos e rosas ou mantê – los frescos, essa era sua maneira de agir. As estéreis minúcias e ambiguidades de nossa época, mais afeita às gradações e as dúvidas, eram deles desconhecidas. A violência era tudo. A flor se abria e murchava. O sol se levantava e se punha, O amante amava e partia, E o que os poetas diziam em rima, os jovens colocavam em prática. As moças eram rosas, e sua floração tão curta quanto a das flores. Era preciso colhê – las antes do anoitecer; pois o dia era breve e o dia era tudo. Assim, se Orlando seguia o exemplo do clima, dos poetas, da própria época, e colhia suas flores no banco junto à janela apesar da neve no chão e da rainha vigilante no corredor, dificilmente podemos culpá – lo. Era jovem; era um rapazote ainda: não fez nada mais do que aquilo que a natureza lhe ditava. Quanto a garota, não sabemos, tal como a própria rainha Elizabeth, qual era seu nome. Pode ter sido Dóris, Clóris, Délia ou Diana, pois ele fazia rimas para todas, cada uma por sua vez,; da mesma forma, tanto pode ter sido uma dama da corte ou alguma copeira. Pois o gosto de Orlando era amplo; não apreciava apenas as flores de jardim, as flores silvestres e as ervas daninhas também sempre exerceram fascínio sobre ele.” (p.20) Virgínia Woolf – Orlando – A biografia –Editora Autêntica – Belo Horizonte – 2015 -Tradução – Tomaz Tadeu

improvável

improvável, acontece. não chega com surpresa, e, tão improvável era! parece/acho/ penso que não aconteceu, então, empurro para o sonho aquele sentimento intenso que me leva a caminhar, a caminhar e a me surpreender… o sonho acontece e se ritualiza. pode ser assim? chuva, vento, sol no arco íris, ali ao meu lado, dentro dos meus olhos, verdade verdadeira, ou está no vinho, no ritual. Primitivo, arcaico, os mesmos. Elizabeth M. B. Mattos – setembro de 2022 – Torres – a rainha enterrada – terminou. onze longos e repartidos dias

As baleias

As baleias estiveram em Torres: dezoito ou vinte. Esguichavam, nadavam com seus filhotes. Vieram parir em Torres, nas águas mornas e mansas deste mar. Entre os lobos marinhos, as rochas. As baleias estiveram em Torres.

Passo o tempo arrumando os detalhes. Penduro os quadros, encero os móveis, lustro as pratas. Espaço no armário… Roupas passadas, empilhadas. Luzes para a meia-luz. Os marceneiros, as prateleiras, quase prontas. Ordeno o tempo e a casa: chegas amanhã, ou no final de setembro? Nunca sei ao certo. Exaspero. Outro telegrama:

Só quando rapaz é melhor amar sem paz; mas já, mais tarde, como agora, quero tranquilo comer amora pra que todos vejam Gaal me namora, menamora.

Leio, releio. São versos…

O que farei para que não leves os pedaços quando partires outra vez? Antecipo a dor, antecipo.

Encero, limpo, lustro, espero. O que faço? Vem logo, amor, meu!

Compro violetas. Plantas verdes, samambaias na luz de fresta das janelas. O verde sacode na ventania desta primavera. Outro telegrama:

Quando a quem ama só resta telegrama, até mesmo o beijo escreve-se com o desejo de que o papel tenha gosto de mel; saudade aperta, mas abraço não deserta mesmo que no dia 12 não esteja aí, estarei ao teu lado, contigo, todos os momentos.

Para que perdure andar do amor de abraços beijos toques alma, terminantemente proibido refrigerantes, comida salgada, álcool em suas várias modalidades; além todas manualidades exclusivas vida íntima. Gafa.

Um detalhe, outro. O riso perpassa. O desejo aquece. Palavras brotam, crescem no caderno de notas: para cada nova palavra nova leitura encadeada: um jogo.

Apaga incêndios, contém emoções, evita suicídios, homicídios, afogamentos. Enfim, explica aí. Quem interessar possa que não se aflijam além limites porque poucos dias mais chegarei. Beijos. Saudades.

Retido. Retido. Faço mil planos contigo para julho, também, depois tentando sonhar preciso Gaal pra vencer letargia tomou conta de mim; estarei aí nomáximo primeira semana de julho esperando até lá te cuides: corpo e alma, cabeça já que coração é ingovernável mesmo. Mil beijos, milhões de abraços. Gafa.

Adiamentos viagem aumentam saudades. Vontade sentir-te estar contigo; demora não é desamor ao contrário. Tardo por querer ganhar tempo extraviado anos não te conheci. Beijos.”

Cada palavra, cada nova palavra, desgoverno. Todavia, no entanto, contudo, como diria aquela professora nossa amiga, tudo isso, ou, isso tudo, vem de atraso, atraso… Releio, repasso. Outra via, outra guia… Espio o mar cinzento. Elas se foram, as baleias.

E. M. B. Mattos – Torres

correspondência eterna e constante

(Clichy, 8 mars 1933)

Anaïs :

C’est par erreur que j’ai gardé votre livre de Nietzsche, est un erreur très heureuse, car j’ai eu l’occasion de jeter un coup d’oeil sur Ecce Homo […]

Ce soir, en tout cas, étendu sur mon lit, j’ai fait une découverte, ou tout au moins réaffirmé une découverte qui dormait au fond de moi.. La voici: quand on entreprend un travail, quand on écrit un livre, il faut en écrire plusieurs à la fois. Ne pas les écrire, comme on le pense habituellement, mais les laisser passer. Car c’est quand vous êtes dans les affres de la création que vous créez, si je puis le dire, multilatéralement. Celui qui se trouve bloqué pendant la création est envahi par des idées étrangères et devrait les accueillir avec faveur sans chercer à les détourner ou les supprimer. ( Et c’est le péché universel des artistes) Ainsi donc, comme je vous en ai déjà informée, je prête oreille et language à ces instrusions, je vais laisser pousser les divers livres qui ont déjà pris racine en moi et, à mesure que le temps passera, ces notes, ces expressions hâtives, s´entasseront dans leurs dossiers repectifs pendant que j´acrèverai la tâche prescrite, pour qu ún jour je les regarde et voyez! Ce seront les lvres que je voulais écrire! Que sont ces livres? Principalment, la saga de June Tropique de Capricorne […] Comme il est maintenant si claire pour nous, grâce à l’ étude de GIde sur Dostoïevski, que chaque livre contient le germe du suivant, prenos consciemment avantage de cette condition de la création, L’ auteur est comme un arbre au milieu de ses création, elles sont l’ atmosphère qui le bagne, il lui pousse des racines à mesure qu’il croît, et c’est de ces racines que croissent l ‘ leur tour les arbres à venir, non de fleurs ou des glands. OU bien, pensez à une serpent : un serpennt n’ abandonne pas son ancienne peau d ‘ en avoir créer une nouvelle. Le livre qui vous écrivez est cette peau dont vous vous dépouillez. Le livre important, la nouvelle peau, est toujours celui qui n’ est pas né, ou s” il est né, celui qui reste invisible. La vie dans la matrice, l´embryon. Et de même que chaque enfant est, naissant, le résultat miraculeux du hasard, un être entre une indifité de possibles, de même livre qui vient au jour n’est qu ‘une entre plusieurs formes d’expressions; le grand écrivain est comme un monstre qui engendrerait toute une portée de prestiges au lieu d’un seul! H.V.M. (p.128-129 -130) Henry Miller – LETTRES À ANAÏS NIN

sábado cinzento com flores flores flores flores flores flores

Acordei com a Ônix querendo descer: fomos reconhecer as calçadas, comer amoras. Impressionante como as amoreiras estão carregadas. Sair/passear antes das calçadas encherem de vozes, de mãos, e pernas e risos… Assim, meio dormindo, meio sonhando fazemos a caminhada e voltamos, apressadas para dormir a noite interrompida, nesta hora matutina e quieta, o outro sono! Tenho que inverter este hábito do entardecer, de despertar na madrugada, das duas horas da manhã ligar a televisão, pensar que o mundo se movimenta, Pendurar e recolher roupas, molhar buganvílias, lavar a louça se enfiar na preguiça solução da madrugada. Não. Não soluciona nada se esconder janelas abertas, não soluciona desligar o celular, não soluciona nada pensar que estarei sempre sempre sempre protegida do susto. Ele caminha pelas sombras, brejeiro, aflito também ele e me agarra! Ufa! Tenho que consolar, acertar o passo. Tomo café. Fotografo as flores dos meninos, revejo cada uma para que possam, elas também, explicar esta coisa complicada de inventar o amor, a amizade, o livro e o sossego. Segurar o coração porque ele falou comigo, um pouco, um pouco de lado, mas escreveu. Tenho que dormir agora e terei um sábado de pessoa. Quem sabe possa cozinhar!? Perfumar a casa com temperos! Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2022 – Torres

Corre, raio de rio, e leva para o mar

CORRE, RAIO DE RIO, E LEVA AO MAR

Primeiro Tempo

Fui ver o mar quando cheguei.

Aberto! Perfumado, inquieto!

Barulhento. Colorido.

O frio, contudo, não me permitiu molhar os pés.

Na casa, aproveito o calor e o fogo alto da lareira. Cozinho o pinhão e o feijão do jeito que têm de ser feitos.

O café, sem pães nem geleias açucaradas.

No fim da tarde, caminho pela cidade.

Que bicho mais louco é o homem! Depredador, nocivo, cruel.

O mar com areia e pedras. A Ilha dos Lobos.

A Lagoa do Violão, sem aguapés: poluída.

O rio Mampituba, escuro, botos seguindo cardumes; o mesmo rio. Os molhes que facilita a entrada dos barcos…

Daquele lado eu gosto, o cheiro é outro: barcos pesqueiros, canoas. Lembro a vida do começo da barranca.

Os molhes: mar e rio juntos.

Beleza importa, sim. Não a das pessoas, mas dessa natureza que sobrou. Essa, pode ser beleza.

É um equívoco, a cidade.

Como fez frio! Meus sonhos de Cambará do Sul e São José dos Ausentes na sombra. Será que eu quero a neve? Será que eu ainda quero alguma coisa?

De volta para casa estico as pernas no balanço da varanda. Pelo envidraçado, vejo objetos que se movimentam pelo chão: meias, copos, garrafas e livros; ou imagino esta dança? Se estivesses comigo! Certamente, tudo estaria arrumado…

  A casa está numa desordem permanente.

Sigo com as pernas esticadas, pensando em abrir a última garrafa de vinho, comer o último pedaço de peixe, e as últimas uvas que sobraram no pote verde.

Levanto para buscar o que vou comer.

*

Tenho que encontrar os documentos; o corretor deve pegá-los logo, examinar. Preciso entregar o imóvel ainda esta semana, inclusive, já reservei o hotel.

— E tu não estás aqui para me ajudar!,pondero.

— Se me perguntares como consigo tirar as coisas das gavetas, das caixas, eu não saberei te responder.

Volto aos papéis, documentos, inquietações, fotos, desânimo. Esquisito, isto tudo faz trânsito pelo chão. O meu mundo aberto, no tapete, grudado nas portas, como se os lembretes fossem solução.

Quando a noite chega e o lobisomem aparece, vou para a cama: durmo, durmo, durmo. Não faço nada. Estou doente.

Estas sucessivas mudanças adoecem meu espírito e o meu corpo.

*

Choveu e ventou a noite inteira. Separei alguns vasos em caixas de plástico, tudo o mais está pronto.

Que manhã escura! A chuva e o movimento sacudido das samambaias arrastam o verde. Retirei as avencas das frestas, elas, como eu, detestam vento.

Este ritual de caixas oprime. A escassez oprime.

Oprime o desejo contido. A cópia, o modelo estereotipado. Oprime o diabo do espelho. Oprime o segredo, a preguiça. As incapacidades, as ilusões frustradas, a idiota vaidade. Este mesquinho egoísmo e esta opaca mediocridade.

Oprime não termos a compreensão nem o espetáculo inteiro, só o palco do teatro. Vazio. As diferenças de linguagem. Por que não aceitar o prazer de estar outra vez em movimento?

O homem chegou com o caminhão, o corretor, e com os novos proprietários. Todos aguardam o som da minha voz. E, o pijama apertado escandaliza pela hora avançada do dia. Ninguém fala, então o motorista grita o endereço e pergunta se pode começar a recolher a mobília. Eu abro a porta por inteiro.

SEGUNDO TEMPO

Escurecia, quando terminei de colocar o que restava na minha caminhonete.

No quarto do hotel, portas-janelas abertas: o mar, a montanha. O preto da noite. Aquietei-me bebendo e fumando, e disse pro silêncio o que restou.

O silêncio. A possibilidade de ler. Estudar o que posso estudar. Aceitar o limite de ser apenas mulher comum. Mulher igual a todas as outras mulheres comuns.

Falsificar lembranças, explicar o isto e o aquilo. Não há necessidade. Limito-me a esquecer.

Não vou me afobar nem me afogar.

Afinal, não importa o palco, mas o espetáculo inteiro.

Então, encontrar a casa é o fazer perfeito: aquela onde perdemos e achamos coisas, cheiros, onde o gato entra. A invenção inteira.

Não um quarto de passagem.

*

Escritores usaram esse método – masmorra, para poder pensar e escrever sem distrações. Pessoas e coisas nos atrapalham no pensar e interiorizar o que somos. Beijo, sexo, carícia, chocolate, morangos e álcool; tudo o mais desgasta. Perde-se o tempo de crescer, de ser alguém. A escravidão.

Depois, tudo repetido, nunca o original. Se existe o único, é o autismo. Será que eles têm, tiveram razão? Quando escrevem estão inteiros na loucura. Verdade e fantasia e loucura.

Então o menor quarto, a menor casa, os mares sonhados, ruidosos, mutantes, o terreno.

A segunda garrafa. A segunda noite. A segunda voz.

Tropeçamos nas coisas, e na ignorância de nós mesmos, paradoxalmente imóveis. Falta atenção, cuidado com nosso próprio sentimento!… Ficar, assim, com joelhos esfolados!

Convicções.

O jogo das leituras. Essas pequenas parcerias possíveis!

Abro as últimas folhas da história que precisa ser lida, e vou assinalando equívocos em vermelho.

A mão que se estende, exige troca.

Não há surpresa amorosa, nas pessoas.

Revólveres, granadas, venenos e torturas.

Nada de flores. Pão ou leite.

Nenhum perfume.

O fétido das ruas.

*

É melhor vender a casa.

É melhor o quarto do hotel, despojado, o mar.

Elizabeth M.B. Mattos – (velhos textos) setembro de 2022 – Torres

Corre, raio de rio, e leva ao mar

A minha indiferença subjetiva!

Qual “leva ao mar”! Tua presença esquiva

Que tem comigo e com o meu pensar?

1

1 541.3 III, Barrow-on-furness. Poesias de Álvaro de Campos, Ficções do Interlúdio. Obras Completas de Fernando Pessoa. Editora Nova Aguilar, 2001.

franja picotada

Final da tarde, sem franja, nem recorte. Sensação esquisita de dia terminando. Ou de certa ausência. Talvez o florescer do cuidado! Valorizo. Esquisito porque ainda tem luz entrando por todos os lados, viajo. Agito tanta coisa por dentro! Esquisito prazer de escutar tuas palavras: explícitas, claras. Particularmente mansas e agregadoras. Obrigada. Vou tirar as coisas dos limites / inventar outras para sacudir a vontade / a impaciência. Largar esta apatia roendo. Esconder a tal seriedade que monta / sobe, avança domina e leva / carrega a graça de confessar. O humor desaparece. Ah! Preciso dominar a poeira / o cheiro / a quietude e avançar, eu também, entrar na luz. As mesmas calçadas. O mesmo descaminho: sensação esquisita. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2022 – Torres com a saudade miúda de outro tempo / outro lugar. Conhecida saudade da menina daquele tempo…

magia da surpresa a descobertas do coração

a vida surpreende nas surpresas da memória: a casa volta com a força de tanto querer e tanta energia! ah! os bons tempos de Santa Cruz do Sul, mesclados a Rio Pardo com as boas e mágicas lembranças da rua Santo Inácio como ponto de alegria / de retorno. sim, a cada época / década uma surpresa! Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2022 – Torres , vou desfiar a memória que Jorge merece, daquele amor entregue e vivo! da filha aos quarenta anos marcando, sinalizando a maturidade do amor completo…

detalhe e ritual

olhar o possível, o ritual

olhar:

primeira comunicação,

o primeiro movimento

olhar enxergar e ver

olhar o mundo, o detalhe,

a minúcia possível (participar)

o paladar possível, o gosto como sabor

participar / conviver e estar, identificar

escutar pelo tato / pelas mãos, então a forma do perfume que as flores trazem, inundam…

transforma em voz o silêncio da ausência. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2022 – Torres