despropósito ativado

Emocional virado, rotina estranha, despropósito ativado. Tudo misturado sem lógica, embora a cada carta tua, e ou minha, a cada instante dividido, uma turbulência sadia acorde a boa e gentil Eliza /Beth, e sou feliz, completa/ inteira. Esta ilusão de estar perto, junto. A vontade de contar e dizer. Dividir a banalidade de toda percepção desarrumada ou não… Esta efervescência juvenil me parece deslocada. Estou confusa. Atrapalhada. Desfocada. Este fim de semana, o das mães, movimenta a casa, e agora, as famílias… Vou tentar entender o que me acontece. Quero voltar para a sensual ideia…, para o tesão da mão atravessando o corpo, do beijo na raiz dos cabelos. Sem pejo. Depois fechar a porta. Nua e feliz arrumar as camas, colocar flores nos vasos. Perfumar a casa com o cheiro de outono. E dizer alto ” estou/sou feliz” Voltar a escrever todos os dias, a trancar sentimentos complicados nos livros, abrir o portão, e deixar as pessoas da calçada entrarem, se refestelarem pra dizer o quanto se divertiram, ou se Maria arrumou namorado, e o jantar dos Silva esteve impecável, e o vestido da Isabel era decotado, mas fazia frio. Raras e perfeitas conversas de sol. Inquietude aplacada. Voltarei a beber o bom chá, caminharei até cansar, voltarei para as gavetas. E as vozes sairão do rádio. Deixarei celular e computador fechados. Ouvirei os discos de vinil. E voltarei pra mim, devagar. Não consigo ser objetiva. Toda vez que te escrevo entro e saio do Paraíso, resvalo nas pedras, machuco os pés, entro desavisada e depois olho o Inferno. Ao te beijar fecho os olhos encabulada. Vou acalmar esta adolescência, vou aplacar estes impulsos todos, e acertar no sensato. Prometo que terás de volta tua amiga gentil, tranquila e pacífica. Inteligente (tentando ser, pois que tu gostas) e atenta. Vou trazer também aquela escabelada, descuidada e alegre. Cozinharei mais vezes. Limparei menos. Sairei todos os dias e deixarei o celular ligado, conversarei, normalmente com as pessoas, seguirei as regras da epidemia com cuidado. Um beijo

Encaminhar este texto/carta – impressionante como o fluxo segue: hoje 13 de setembro de 2022 numa madrugada fria / gelada / parece incrível q eu possa ter dito / escrito / ou feito seguir qualquer agitação forte como está. E afinal. As histórias se ‘montam’ na emoção da vida vivida. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2021 – Torres

Entre leituras:

Carta dirigida por Kawabata Yasunari (Hase 264, Kamakura) a Mishima Yukio 4-32, Ota-ku, Tokio) 16 de febrero de 1967

Hoy también me he levantado a las nueve y media de la noche, que es, para mí, la mañana: los dias se suceden con un ritmo totalmente inverso, la noche reembraza al día, y desde que vivo así, en un estado próximo a la chochez, he perdido toda confianza en mi capaidad para escribir cualquier cosa. Pero, como este pedido vienne de usted, sólo puedo darle une respuesta favorable. Mi prosa, sin ser del todo detestable, será seguramente estúpida, y le ruego que me disculpe. (p.186) YASUNARI KAWABATA YUKIO MISHIMA Correspondencia (1945-1970)

vermelho

o vermelho intenso,

vibrante do amor

inteiro, no meu sentir,

amor manso, violento,

ciumento eu senti

não era hora de sorrir, e eu te olhei azul,

assim mesmo na largueza.

impressionante e tensionado desejo ardeu

eu te amei e tu me amaste

tanta gente! expostos os dois, na despedida do amigo pintor, teu, meu, nosso.

assim foi te amar no meu amor. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2022 – Torres

amamos, amei a ideia de amar, amamos, amei a projeção: o imaginado vive

não podemos

Eu me identifico com esta lentidão, com este despreparo de ‘carregar’ a alma. É preciso assumir / compartilhar e entender o outro suavemente. A alma e a sua lentidão, o corpo acelerado…

Não podemos correr de um lugar a outro sem perder alguma coisa, passar rapidamente de um local a outro todos os nossos objetos e mudar de trabalho em um minuto, como gostaríamos. Nada demora tanto na viagem como a alma e é lentamente que ela alcança o corpo, se este se desloca. Assim se atrapalham acreditam rápidos, mal agrupados com as suas almas que, estando com eles no momento da partida, os alcançam aos poucos durante o percurso e às quais eles exigem o exercício contrário, com o tempo eles acabam acreditando que estão completos, existem, mas não existem mais. […] o que importa é esperar que o corpo se reagrupe e não nos apoiarmos em uma aparência, na qual somente aqueles que nos conhecem mal podem acreditar.”(p.125) Jean Cocteau A dificuldade de ser

Tenho sido sombra, não pessoa. Atordoada com a fealdade das notícias, com o palavreado, com este exército combativo. Não esclarece / nem informar: estão a metralhar as margaridas… Eu me surpreendo com a guerra sem bandeira do melhor / ou da tão desgastada bandeira! Emparedados! Todas as flores não escondem o sombrio do dia, insinuam beleza. Desejo que o colorido volte, sem lágrima. História e imposição não se confundam… (ingenuidade minha!) O hoje não apaga o dia de ontem, não mesmo, apenas complementa… Quem sabe possa ser melhor!? Breve teremos respostas assertivas, céus! Breve estaremos diante do fato! Vou chorar e com a palma da mão secar as lágrimas. Fiz o melhor, bem, ao trabalho, outra vez… Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2022 – Torres

alerta

Apreender, fazer, ou recomeçar, ou mesmo iniciar qualquer pequeno gesto, requer paciência. E, eu me surpreendo entre sombras, cinzentos e claros, objetivos e subjetivos. Não quero ter medo de ousar. Ah! O medo alerta! Eu encolho. Narrativas, histórias, envolvimentos e sentimentos se renovam… Os mesmos ditos amores, amizades, ciúmes, revoltas ou acertos…, não. Nunca o mesmo, sempre novo. Não consigo estabilidade, surpreendente: soluções diferentes embora o incômodo, a decepção, o problema pareça ser o mesmo. Acordei outra… embora o momento do impacto, o maior e o menor estejam ao lado a exigir.  Não temos nada de heroico, ou fora do comum embora na hora de escrever fique mais séria, e logo comece a questionar tudo o que escrevo.  Caminho numa calçada ensaboada, estar atenta importa. No final, tenho necessidade de ternura. A ternura derramada, natural, não a compaixão, a ternura fácil. O absoluto. Então, esconder os problemas faz parte de uma estratégia. A exposição debilita, fragiliza: escrever é lançar pontes, pontes individuais, ouvir vozes. E, sublinho o indivíduo, e o estético. O universo estético pode nos arrancar do real. Enfim, ao escrever quero o leitor cúmplice. Decisões prosaicas, comuns, enfim, o que marca a pessoa do caminho entre dias luminosos, outro excessivamente opacos, ou tristes, outros estupendos. Estender as pequenas obrigações, como soldado seguir entre soldados, a paz das certezas coloridas, meio aos temporais. O mundo num todo remexe com meu mundinho, não é possível fechar as janelas, trancar a porta, tirar o som, escuto a respiração…Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2022 – Torres

rosto / face / expressão

1.

o rosto quadrado / marcado, quase severo.

o rosto que mora em corpo desfeito / aberto / inquieto.

procura, este rosto, quando se olha.

procura no espelho a moça menina

a menina-moça retraída, ingênua, criança, esta mulher menina!

crescer no olhar doeu tanto / e segue a doer a velha criança-menina, no espelho a se olhar…

2.

tem um pedaço de pêssego /ou de maçã

tem um gosto de morango , ou talvez seja mesmo de abacaxi maduro,

escorrendo, sem vergonha,

todas as frutas presas na minha garganta, e,

e, e eu usufruo o gosto do gozo. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2022- Torres

a impressora carimba, o jornalista fala

Lembram dos códices? Pois é, essa máquina pega a folhona de papel. dobra no lugar certinho, fazendo o que a gente chama de caderno, depois pega todos os cadernos, cola e costura bem bonitinho e corta. Até só colocar a capa e o livro está pronto pra todo o mundo ler, ou pra todo mundo escutar!

Tenho a sensação esquisita, uma vontade enorme de acordar o FT e a velha guarda / aqueles…e perguntar se é mesmo assim que se faz. Os jornalistas não dão a notícia, fotografam alguma coisa e se divertem na interpretação, constantes eu penso,/ eu acho, / eu imagino, ou deve ser assim, talvez , quem sabe, vamos aguardar. Bem, mós vamos todos aguardar, o temporal, a seca, os raios, os trovões, aquela voz do fundo do porão, deve dizer mesmo alguma coisa, por enquanto não escutei nada…ah! vamos aguardar! Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2022 – Torres / bem cinzento por aqui.

conversas memória de leitura e dúvida

Afinal, não encontramos a resposta – há um vento de inverno – há uma distração e há um /o desejo de voltar ao começo: não se pode apenas seguir -, estarei cega, outra vez sem enxergar… Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2022 – Torres (ler pode ser voar, e lá em cima, não saber voltar – ou voltar, e cair)

G.D.: Se se considera a situação atual, o poder possui forçosamente uma visão total ou global. Quero dizer que todas as formas atuais de repressão, que são múltiplas, se totalizam facilmente do ponto de vista do poder […]

M.F.:E Max e Freud talvez não sejam suficientes para nos ajudar a conhecer esta coisa tão enigmática, ao mesmo tempo visível e invisível, presente e oculta, investida em toda a parte, que se chama poder. […] Existe atualmente um grande desconhecido: quem exerce o poder? Onde o exerce? Atualmente se sabe, mais ou menos, quem explora, para onde vai o lucro, por que mãos ele passa e onde ele se reinveste, mas o poder… Sabe – se muito bem que não são os governantes que o detêm. Mas a noção de ‘classe dirigente’, nem é muito clara nem muito elaborada. ‘Dominar, ‘dirigir’, ‘governar’, ‘grupo de poder’, ‘aparelho de Estado’, etc… é todo um conjunto de noções que exige análise. […] Ninguém é, propriamente falando, seu titular; e, no entanto, ele sempre se exerce em determinada direção, com uns de um lado e outros do outro; não se sabe ao certo quem o detém; mas se sabe quem não o possui.” (p.74-75) in Microfísica do Poder Conversa entre Michel Faucault e Gilles Deleuze

luxo

ser feliz pode ser mesmo um luxo! e as escolhas? sem escolhas, apenas seguir e recomeçar! esquisito isso, recomeçar e olhar / ver / enxergar, sem ilusão, o real! Elizabeth M.B. Mattos – ainda não terminou setembro, apenas começo. Outra vida. 2022 – Torres