lento, lento…,a tarde e a noite, toda a manhã devagar: espero, não sei o que espero. ironia não saber. não posso explicar a explosão, pode ser apenas ausência. devagar. uma dor não definida se espalha, deve ser medo, ou a visão, ou o desânimo. percepção, encantos e espantos para rimar, e deixar passar, devagar… Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2022 – Torres
tem uma beleza, uma plenitude plena / uma beleza perdida, florindo e achada no olhar da felicidade desavisada / um domingo com todo o sol que tem direito, e todas as flores que já explodiram, e toda a calidez possível….
felicidade alegria que salta da vontade; e se manifesta enfeitada com as amoras e as pitangas, aos punhados: com todas as possibilidades possíveis: os segredinhos apertados nas mãos . A vida respinga por todos os lados: predisposição / encantos e espantos… vamos festejar! Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2022 – Torres
” O que era mesmo que eles queriam mandar para o diabo? A experiência. Aquela experiência pessoal, por cujo calor da terra, por cujo realismo, o Impressionismo se apaixonara há quinze anos, como se fosse uma planta miraculosa. Agora diziam que o Impressionismo era lânguido e confuso. Pediam controle da sensualidade, a síntese intelectual!
Síntese para eles seria o contrário de ceticismo, psicologia, análise e dissecação, em suma, das tendência literárias dos seus pais? Até onde se podia entender, não falavam num sentido filosófico: o que compreendiam por ‘síntese’ era antes o anseio de seus jovens ossos e músculos desejosos de movimento livre, saltar e dançar, recusando qualquer estorvo de crítica. Quando lhe servia, não hesitavam em também mandar a síntese ao diabo, junto com a análise e toda a reflexão. Então afirmavam que o espírito tinha de ser estimulado pela seiva da vida. Habitualmente eram membros de outro grupo que afirmavam isso; mas às vezes, naquele fervor, eram os mesmos.
Que palavras fantásticas usavam! Exigiam o temperamento intelectual. O estilo de pensamento rápido, que salta ao peito da vida. O cérebro do homem cósmico. O que mais ele escutara?
A reformulação do homem dentro do plano de trabalho mundial americano, através da força mecanizada.
O lirismo aliado à mais intensa dramaticidade da vida.
O tecnicismo, espírito da era da máquina.
Blériot – exclama um deles – estava naquele momento flutuando sobre o Canal da Mancha numa velocidade de cinquenta quilômetros horários! Era preciso escrever esse poema-dos-cinquenta-quilômetros, e jogar no lixo toda a literatura mofada.
Exigiam o acelerismo, o aumento máximo da velocidade das experiências de vida através da biomecânica esportiva e da precisão acrobática!
A renovação fotogênica através do cinema.
Depois, um deles dissera que o homem era um misterioso espaço interior,[…]Alguém disse que era preciso olhar para dentro da alma humana, para fixá-la em três dimensões. E alguém fez a pergunta agressiva e de muito efeito: afinal, o que era mais importante – dez mil homens famintos ou uma obra de arte?” (p.287-288) Robert Musil O Homem sem Qualidades
É preciso mesmo olhar para trás / é preciso apressar o passo para não sermos atropelados pelas vaidades pululantes e exacerbadas, é preciso atenção porque ainda existem lobos, e nossas defesas nem sempre estão atentas, e somos devorados por falta de de energia – é preciso recuar para poder dar o golpe final. Cuidado com vaidade doente porque camufla essencialidades, é preciso paciência para entender, argumentar e ampliar, dar lugar para…, ceder o espaço, não por hierarquia, mas por serenidade. Vou atropelando a história, secando as feridas, tapando os olhos, sorrindo, sem sarcasmo, abrindo espaço os reis que se coroam eles mesmo, como Napoleão! pobre Imperador! Esqueceu do inferno gelado que a Russia guardava para recebê-lo! Não é um duelo, é a própria história que define os vitoriosos. Assim, meus filhos, lutem, todos os dias, durmam durante a noite e ao acordar, estejam vigilantes. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2022 – Torres – sábado de muito sol, muita luz, uma primavera colorida se prepara – que venha!
Afinal os sentimentos são assim mesmo, exasperados, enroscados no momento – hora marcada; por mais que possa me esconder ou fingir coragem, sou absurdamente apavorada, e, medrosa e inquieta: resposta? As costas, os braços, as pernas doem, reclamam… Dúvidas e perturbações e raiva da impotência. Com certeza. Preciso chegar, mas não sei exatamente aonde, nem em qual momento eu me sentirei, outra vez, apenas alegre… Estes sentimentos importam, e a confrontação não é um bom ringue…, preciso do lugar certo para ser desafiada? Ah! do calor cálido do azul, ao cinzento gelado e conturbado! A fragilidade de ser pessoa vai se cristalizando. Elizabeth M. B. Mattos – setembro de 2022 – Torres
“Croisset, terça
17 de junho, 1856
“[…] Comportei – me como um tolo o fazer ao fazer como os outros, indo morar em Paris, querendo publicar. Vivia numa serenidade de arte perfeita quando escrevia só para mim. Agora estou cheio de dúvidas e perturbações, e estou experimentando uma coisa nova: escrever me aborrece! Sinto contra a literatura o ódio da impotência.”(p.159) Gustave Flaubert Cartas Exemplares
A beleza se esconde na doçura e na bondade – onde a paz acalma e os olhos enxergam / veem…, Conceitos complicados, inadequados. E o feio? A injustiça é feia. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2022 – vou plantar letras arredondadas, nomes sonoros, e me embalar nas teclas do piano, nas cordas do violão, na comida feita em casa, e na alegria da primeira infância quando os primeiros passos, a primeira palavra ilumina a casa –
Antes de cair no sono ontem à noite, ordenei à minha mente subconsciente que se lembrasse, ao despertar, do último pensamento em minha cabeça – e deu certo. Sonhei contigo e voltei correndo pra ti…
voltei ao Rio de Janeiro, 1973 – tanta vida, tão pouco tempo, 1974 ficou tão completamente diferente!
Quando escrevo tenho consciência do tempo, mas quando tomo o pincel fico tão dominada pela ideia de fazer alguma coisa nova, diferente, perco de vista a realidade, então, volto a contar a mesma coisa e deixo pra trás o verde, o azul, o roxo, a ideia ser outra vez, uma mulher carioca. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2022 – a me despedir outra vez – de ser eu?
“Quando eu estava pintando um quadro – ele explicou – achava que deveria estar cuidando da minha conta bancária. Quando estava cuidando da minha conta bancária, pensava que deveria sair para uma caminhada. E quando, no meio de uma longa caminhada, chegara a três quilômetros de casa, concluía que deveria estar, naquele momento, diante de meu cavalete. Estava constantemente em fuga, um exilado em todos os lugares.” (p.26) Isak Dinesen (Karen Blixen) SOMBRAS NA RELVA
o curioso de pensar o tempo todo, de fazer tanto isso ou aquilo pra segurar a inquietude se transforma numa mesma coisa do nada
quanto a escrever? o que pode ser? já foi dito tanto de nós mesmos que duvido, agora, de tudo
teremos chance de aplaudir o novo, ou voltaremos, em outubro, para o mesmo do mesmo que nos trouxe desconcerto
não consigo pintar uma tela num único dia, nem terminá-la em quatro anos, já tentei doze anos, passei tinta óleo, raspei, recomecei, e não consegui / voltar aos mesmos pincéis, gastos, endurecidos, parece incoerência…
um novo desenho, por favor! tenho pena de mim!
o texto de Karen Blixen volta / gira /refaz a vontade: errar e desconcertar querendo…, o novo: não sei o quê nem como.
preciso parar para me concentrar / um projeto, preciso de um projeto. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2022 – Torres – fora do exílio, em casa outra vez
não posso acreditar que ao esquecer as datas, esqueço o acontecido.
nem posso imaginar que estou a rever filmes e reler livros, quando tantos importantes esperam…
nem que a louça fica empilhada sem ser lavada,
as roupas empilhadas na cadeira, e que deixo o café esfriar
não posso imaginar indolência e distração assim continuadas.
sempre achei que não terminaria nunca a curiosidade, a novidade do novo.
o tempo não seria/teria esta largueza, nem tédio, nem passaria tão apressado, descuidado.
não posso acreditar que olhei uma foto de casamento, mas não vi a noiva, vi todos ali, menos a noiva
observei a beleza da minha mãe, a serenidade do meu pai e a brejeirice da irmã,
não vi a noiva.
céus! sentada no primeiro plano; peço desculpas, não sei
não posso acreditar que acabo de dizer o que não penso, e penso no que não posso dizer.
não consigo acreditar nos desastres, nem que fui a Lajeado conhecer teu irmão, ou estive em Buenos Aires, dentro de uma mala, ou que tenha descido do teu carro pela janela (a porta enguiçou) quando cheguei a Búzios (risos),
e sou fiel.
não posso acreditar que revisito velhos amores ao lado do amado!
não posso acreditar em mimoseiras, nem nos jacarandás: gosto dos jasmineiros, das buganvílias, das pitangueiras.
não posso acreditar no que penso, ou sinto,
não posso deixar de ser alienada e distraída, mas protegida pela armação polida,
concentrada, fico/permaneço atrás do escudo
não posso acreditar!
vou dançar o baile
não posso acreditar na felicidade surpresa! tão surpreendente é . Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2022- Torres
Passagem de trem, voos de avião, corridas de automóveis, e memória revirada, atravessa a leitura: em Torres eu me encontrei com o silêncio, com a minha autonomia -, finalmente, sou eu mesma. Mas foi em Santa Cruz do Sul , foi em Rio Pardo que fiz amigos, não, acho que foi no Rio e Janeiro, ou as cônegas, no Bom Conselho, no tempo de colégio fiz amigas preciosas, ou em Porto Alegre?! Mas acho que a liberdade chegou em Torres. Aqui me libertei para ser feliz: eu estava/estou completa: eu, era/fui tão completamente feliz e encontrada! Descobri meus segredos. AMEI – AMEI COM COMPLETA E CEGA ENTREGA!….Agora já rastejo o tempo. Ninguém toca e acalma o sentimento de ser feliz! Vaidade e vaidade, e poder, e poder! O que eu tenho em Torres? Um longo trabalho a ser feito…, vou conseguir. Precisarei de um apoio, um sinaleiro para chegar mais rápido. A loucura é apenas minha. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2022 – Torres