passei três dias naquela casa, a porta fechada, passaram três anos, eu não sei, se o jardim atrás daquela porta tinha jasmins, hortênsias, espinhos ou eram apenas laranjeiras…

O medo impossibilita a descoberta do amor: amor de já passados três anos, seis ou do para sempre…

Hoje eu estaria sem roupa com todos os colares no pescoço. Ias me xingar e dizer que não tenho vinte nos, nem trinta e ainda não fiz as plásticas, sou eu cheia de colares e sem roupa. Não sei se sentirei vergonha, acho que vou te beijar e tirar a tua roupa bem depressa. E verás que estamos velhos os dois, enlouquecidos os dois, apaixonados os dois e saudosos os dois, A música vai tocar alto, as janelas escancaradas, os lençóis perfumados e o dia não terá fim e o sol, entrará pelo quarto inundando de luz o que deveria ser sombra é luz, somos nós. Querido: por que demoras tanto a chegar?1 Fico fera, fico louca, fio triste e eufórica, fico eu… Depois vamos dar risadas enquanto vestimos nossos pijamas comportados. E nos debruçaremos na janela para ver o céu! Que importa? Vieste!? Amanhã vamos passear pelos bananais e veremos o rio limpo e transparente e tomamos sol. Eu te amo! Acho que amas a uma velha porque em nós dois brota alegria música e prazer e gosto, sinto o cheiro do prazer e sentes o cheiro da alegria! Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2022 – Torres

P.S. A última Coca-Cola da festa, nunca vou esquecer disto. Te amo.

vou dançar

quando a amorosidade fica toda erriçada as três imãs resolvem se visitar, no braço a cesta das benesses e dos carinhos, descolado, mas preparados: carinho e particularidades, um grande festivo piquenique porque somos um trio de poder…. Então, num repente todos os prazeres se colam no encontro assim sem data, apenas nosso. Neutro, e nem tão neutro assim porque recheado do confissões e de amor. EU me faço vestir gala e saltos altos quando um evento domestico se realiza do começo ao fim, escancarando sonhos….tiro os sapatos e vou, vou dançar.

O esdrúxulo, as minúcias: revistas, livros, excesso, poeira, desordem, encanto, memória tão espalhada. Deveria eu procurar uma aula de dança para sacudir esta alegria presa, depois caminhar olhando o céu, mas, daria as mãos para as irmãs e espelharíamos a que foi e a saudade miúda de um tempo passado de ser jovem e solta,.

Imagino que somos três. TRÊS a comerem a delícia, beber o bom, conversar o sol e durante três dias voltar a sermos nós escarafunchando a vida e os prazeres que eles nos deram.

Se falo com Susana acho que pode ser ontem, não amanhã a aventura, com Tânia uma semana inteira, e, os brilhos serão o suficiente, as estrelas perfeitas e as massagens, a dança a festa estará pronta. E tenho certeza que merecemos nos dar as mãos. Elizabeth M. M. Mattos – maio de 2022 Torres

força de criança, o desafio

Um dia vou crescer e grande, pessoa crescida, com força de criança, angustia de jovem, a desafiar o mundo, como se diz, adulta, velha nunca!, vou escrever. Grande Marguerite Yourcenar! Sem limites! Abrir as leituras, bom!

Alegria completa! Estou de volta! Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2022 – Torres

Zênon hesitou em entrar na sala, receoso de que as roupas usadas e poeirentas, associadas ao cheiro do corpo há dias sem banho, o fizessem perder a oportunidade de insinuar – se junto aos poderosos deste mundo; pela primeira vez na vida, a adulação e a intriga lhe pareceram artes nas quais cumpria ser exímio, e o posto de secretário particular ou de preceptor de príncipe, preferível ao de mestre-escola ou de barbeiro de aldeia. Depois, impeliu – o a arrogância dos vinte anos, assim como a certeza de que a fortuna de um homem depende de seu temperamento e da boa vontade dos astros. Entrou e sentou-se junto à lareira, todo engrinaldada de folhagens, e olhou em torno para aquele Olimpo humano.” (p.42-43) Marguerite Yourcenar A OBRA EM NEGRO

Joana de Athayde e Anita de Athayde Mattos

uauuuu! Voltei com a leitura

Karl Ove Knausgard – o sexto volume – por fim, O FIM chegará no termino, resolvido o percalço!

Eu já citei, acho que esta mesma citação! Ah! Delícia de poder repetir, abrir/reler/olhar as letras/ver, e, reencontrar o pensado/sentido, talvez, até assimilado, não sei explicar! Só dizer, estou feliz! Estou a embalar a criança, entrego a boneca, as balas para a menina! A corda de pular, a bola de jogar, ao menino. Dividir o bolo de chocolate! E beber o suco, correr! E reler / ler e anoitecer eufórica! Sou eu. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2022 – Torres

Ler é ver as palavras como luz, elas brilham na escuridão, uma depois da outra, e a leitura é seguir a luz cada vez mais fundo. Mas o que cada pessoa vê mantém relação com o que cada pessoa é; na consciência existem limites, esses limites são pessoais, mas também culturais, de maneira que sempre existem coisas que não vemos, sempre existem lugares aonde não chegamos. No entanto,, se tivermos paciência suficiente, se examinarmos as palavras e os arredores das palavras com atenção necessária, podemos encontrar esses limites, e o que se revela nesse caso é aquilo que se encontra fora do nosso alcance. O objetivo da leitura é chegar a esses limites do nosso ser. Envelhecer não é compreender melhor, é saber que há mais coisas a compreender.” (p.389) Karl Ove Knausgard O FIM

desprendendo

A energia vai se desprendendo aos poucos! Um alerta! E, de fato, não sabemos, exatamente, o porquê deste descolamento… Apenas nos surpreendemos com o dia, com a importância de estar na boa direção…, e, vou a seguir. Tanto a ser investigado! E tempo nenhum, porque a carcaça reclama. esta coisa de ter um companheiro importa. (Elas estão certas!) As luzes/alertas acendem ao longo do caminho. Talvez seja tarde, mas igual são luzes. Olho para as flores, as pequenas, as maiores. penso na música, no piano, no mar, no bolo com café. decido que não gosto de chá, e tenho vontade de me mudar, limpar, arejar, perfumar. Saudade da minha mãe que pensava pensava e pensava e reinventava. Iluminava a casa com a luz do novo e da beleza. Sempre soube transformar em beleza esta coisa do cotidiano, do vazio… Guardei , colado a memória dela, esta ideia do bem feito, obra de arte, do detalhe. Desfazer e reconstruir. Estou a pensar nela todos os dias… Nossa casa se aquecia com o fogo das lareiras, as cortinas pesadas, as venezianas limpas, a limpeza/a higiene e o detalhe! Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2022 – Torres

domingo do dia das Mães! 2022 com Ana Maria fotografando

se fosse possível fazer mágica, nós faríamos,

se fosse possível voltar no tempo,

faríamos: voltaríamos,

se fosse possível…

somos deste jeito, sem jeito,

o impossível.
Assim mesmo, eu penso:

se fosse possível…

Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2022 – Torres

espelhos e sonhos

Existe a reclusão produtiva, coerente. Infelizmente, depois que as estações se fecham sucessivamente o sentindo vai se distanciando como um estranho, quase incompreensível. No entanto, visível. Escuto a água escorrendo pelos degraus, e a vassoura escovando, antigamente, era preciso ajoelhar. Agora fazemos tudo do alta, majestades em todos os postos. É preciso entender a soberba. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2022 – Torres. Ou é apenas o desagrado, o desinteresse pelo fazer, pelo cuidado. Podemos substituir os espelhos, e os sonhos.

Toda de branco, calçando chinelos, estes do interior, fechados, encontrados nas vendas. Especial porque de couro. Cabelos escorridos, raiados de branco. E o rosto de índia, da tribo chefe, serena. Não trazia enfeites. Agarrou a criança sem entusiasmo, com certeza.

Da janela assisto o movimento. Um carro branco: jovens. A pequena, sem sorrir, passa de uns braços aos outros braços. O cabelo com cachos, olhos escuros inquietos. Silenciosa criança.

Voltei para o dia de arrumar, recolher os papéis, deixar a ordem entrar com calma. Coloquei os bifes à milanesa no forno, terminei de cozinhar as batatas. Recolhi as roupas. Fechei as janelas.

‘O sonho é um produto da mente, ao qual o produtor assiste sem saber como será o fim’

8 de novembro

A gente não pode conhecer seu próprio estilo e usá-lo. O estilo que se usa é sempre preexistente, mas de um modo instintivo, que plasma um outro atual. O estilo presente só é conhecido quando se torna passado e definitivo, e a gente volta a percorrê-lo, interpretando-o, ou seja, percebendo claramente como é feito.

O que estamos escrevendo é sempre cego. Não podemos saber na hora se está ficando bom (e depois, retornando-o, o julgaremos realizado). Nós simplesmente o vivemos, e é claro que as astúcias, os expedientes que já empregamos, são outro estilo composto de antemão, estranho à substância do atual.

Escrever é gastar os maus estilos, empregando-os. Voltar ao já escrito para corrigir é perigoso: seria justapor diferentes coisas.

Então não há técnica? Há sim, mas o novo futuro que importa está sempre um passo adiante da técnica que conhecíamos, e sua polpa é a que aos poucos nos vai nascendo da pena, não sabemos.

Conhecermos um estilo significa termos desvendado parte de nosso mistério. E que daqui por diante nós nos proibimos de escrever nesse estilo.

10 de novembro

A literatura é uma defesa contra as ofensas da vida. Diz a ela ‘não me fazes de bobo: sei como te comportas, eu te acompanho e te prevejo. até sinto prazer em ver-te agir, e roubo teu segredo. compondo-te em construções astuciosas que te detém o fluxo.’

Afora esse jogo, a outra defesa contra as coisas é o silêncio recolhido para o ímpeto.(p.153-154) Cesare Pavese O Ofício de Viver

Este diário foi publicado após a morte de Pavese em 1952.

Ao lermos não buscamos ideias novas, mas pensamentos já pensados por nós“[…] p. 140