indecifrável emaranhado

Indecifrável narrativa. A memória segue um fio, outro fio… A conversa visualizada, um emaranhado multicolorido. Novelo de lã a ser tecido, difícil pintar / desenhar, materializar, sei lá…, posso imaginar, mas não concluo, não há definições, nem lógica: um som a ecoar. Inviável definir a cor, seria multicolorido. Seria um eco entre montanhas, vozes. Engraçado, encontro/ouço a voz da minha mãe, vejo os olhos do meu pai e me transporto para a casa da Vitor Hugo. Suponho que aquela vida, aquela casa, aquela rua, os ciprestes, os cães, as pessoas, os espaços, os quadros, as portas, as lareiras, o fogo é meu. Quero dividir, contar, explicar ou apenas, como se diz, recordar, avivar a memória, mas estou absolutamente sozinha. Como se nada existisse, nenhuma referencia. Os livros da biblioteca, os cristais, os quadros em galeria, os discos, a eletrola, os nós de pinho, a grama, o cheiro pertencem apenas ao indecifrável emaranhado da minha memória. Estranha solidão! Quando me movimento eu percebo. Posso contar qualquer coisa: o pai a descascar laranjas no alpendre, ou a mãe, pernas encolhidas, no sofá, fumando um cigarro enquanto a xícara de café espera por ela, sou eu que vejo… Embora seja inverno, embora o fogo esteja crepitando na lareira, embora faça frio, as portas abertas para o alpendre trazem luz, e outro calor ilumina a biblioteca. O pai descasca as laranjas, estou sentada nos degraus, ao lado dele, e a boneca escabelada segue abandonada no gramado… Estou ainda povoada pela presença deles, nunca estive sozinha, tudo me foi legado doado, presenteado. Eu transbordo… Acho que é apenas memória. Não sei explicar. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2022 – Torres (o sol voltou vejo as calçadas limpas, varridas pela chuva – gosto)

bilhete / nota

quando me dizes do amor, cá do outro lado, fico feliz! estas notícias de encontros, brindes, enfeitam a vida! precisamos desta alegria! obrigada. quando me contas dos afetos achados nestes desencontros eu cá desta lado vivo! e fico a me imaginar elegante, posta, encantada e abraçada. ah! como estes abraços festivos nos trazem de volta ao tempo de amar! realimentam abraços, os necessários! obrigada! as histórias são/estão coloridas com tua energia, teus passeios, caminhadas. As calçadas são parques, e os parques, em movimento verde, oxigenados e quentes te representam! o sol veio te saudar neste Rio Grande do Sul! chá, chimarrão, luvas, gorros e comidas com carnes lascadas! o frio se despede, eu acho. ah! somos gulosos! nem pensar em dietas! dietas são cariocas porque o sol alimenta as mulheres do mar! a cada cidade sua história peculiar calórica! voltas cheia de sol! E ele veio. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2022 – Torres

E agora, adeus

” – Não; eu mesmo prepararei uma taça de chá para mim antes de partir…Posso comer no trem. Não é preciso que ninguém levante cedo.

Não gostava de incomodar os outros, por motivos que não eram altruístas: procurava evitar os aborrecimentos que isto causava a ele mesmo.” (p.112) James Hilton – E agora, adeus

A novela / o autor / claro, tudo no lugar certo onde um inglês como ele deve morar/estar ou ser lido / relido. Quem não conhece a maestria? “Amor, para ele, era o sentimento que tinha pela esposa, e que supunha terem os outros homens pelas suas. Era assim que o compreendia. Um sentimento reto e simples, perfeitamente razoável e isento de complicações. Mas o sentimento de Elizabeth pelo seu galã (este termo gentil era o único que lhe ocorria) devia ser algo inteiramente diverso, algo, por fortuna, absolutamente alheio à sua experiência pessoal e à de quase toda a gente.”

James Hilton foi um escritor inglês de romances e roteiros para o cinema. Sua obra de maior destaque é o romance de 1933 Lost Horizon, em que idealiza o mito de Shangri-La. Wikipédia

Nascimento: 9 de setembro de 1900, Leigh, Reino Unido

Falecimento: 20 de dezembro de 1954, Long Beach, Califórnia, EUA

Cônjuge: Alice Brown (de 1935 a 1937)

Formação: Universidade de Cambridge, The Leys School, Christ’s College

contar pedrinhas

Esta coisa de contar pedrinhas, de contar histórias é uma delícia de brincadeira: escrever / inventar / poetar / dizer e narrar: a boa profissão, o escritor. Eu me pergunto, a pensar o ficcional, será que se transforma em areia e água quando concorre com o SE CONHECER / se descrever? Pode existir maior e mais preciosa ficção do que transformar em palavras a pessoa que somos? Intrigante. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2022- Torres no tédio do cinzento.

querido amigo

Amigo querido, como estou sentindo falta daquele entusiasmo de pensar que estarias comigo, chegando, e da imaginação colorida de nos pensar estupefatos / desconhecidos porque atravessados de um tempo enorme / muito grande mesmo que foi este de não nos vermos. Às vezes, mesmo o olhar parado, agita a alma e se reveste veste com presença. Satisfaz! Sim, ainda devo, e posso, fazer/arrumar a mochila, pegar o travesseiro e o ânimo e ir até a casa da minha irmã no bairro Moinhos de Vento, quase ao lado do shopping Moinhos, aprazível, central para o que se entende Porto Alegre: vais gostar. Fácil para passear e com uma enormidade de bons lugares para beber café, cerveja e conversar. Para morar eu teria escolhido a Cidade Baixa – tentei comprar por lá um apartamento, mas era infinitamente, mais caro do que subir até a avenida Independência, então, cabisbaixa, eu me acomodei onde podia ser eu pela metade, assim mesmo eu. Ainda quero voltar a me instalar por lá. O Centro da cidade me pareceu também boa aventura, um conceito, um estar na calçada mais vezes. Também não consegui. O limite da grana limitou a escolha. Petrópolis me atraia, claro, um retorno amoroso e… Uai! Seria abraçar a memória com redobrado carinho, mas tudo a muitos passos de tudo (ao que chamamos/conhecemos por comodidades).O lugar tinha que ter padaria, bar e um restaurante amigo por perto. E não ser na avenida. Que carta esquisita! Não sei mais escrever cartas / larguei algumas facilidades, alguma coisa minha para me fantasiar em texto. Agora sou sempre um amontoado de letras. Curiosa mutação! Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2022 – Torres num dia com chuva e chuva e cinzento quieto.

Ana Gilbert

“Observo-te à distância. À distância insegura de um toque, de um gesto, à distância insegura de uma inspiração-expiração-inspiração, à distância insegura do olhar que é também carícia. Observo-te, e penso que se quer suspeitas o que sinto. Talvez imagines que estou aqui sem me envolver. Alheia a ti, sensação apenas. Talvez não. Observo-te os contornos, texturas, movimentos. Observo-te na solidão. da tua presença, na tristeza do encontro, na possibilidade de prazer (sou será dor?)” Ana Gilber “desejo, a fantasia que nos separa”

Já é a terceira leitura, ou a quarta, por que não avanço? Vou repetindo as palavras. Os sentidos escapam ora de um lado, ora se escondem, ora ousam. E eu respiro. O correto seria ter/ler tudo, até o final e não fazer este jogo de desdobrar…desculpa. Gosto tanto de puxar significados todos, e se não houverem, pinto significados, bordo significados a me dizer/alertar aproximo, e, não sei aproximar sem sentir, sem tropeçar…e, me atrapalho. Interrompo a leitura. Elizabeth M.B. Mattos –

Já peço desculpas por ousar me deter no início sem finalizar, e caminhar devagar, tão devagar a saborear…não quero avançar, mais um dia, mais um…

Vianna Moog

Memória picotada: o recorte, página inteira: o escritor gaúcho Vianna Moog em Porto Alegre, a estrela – o primeiro diretor da Folha da Tarde – e foi homenageado – estes velhos e importantes recortes que se movimentam na sala e se debruçam… a vida volta entusiasmada a querer ser dita/contada. E não escrevo, fotografo os picotes. Depois o tempo apaga, os livros não foram reeditados, merecem. O exílio foi no Amazonas / e sempre soubemos protestar e dizer! Somos brasileiros / sobrevivemos… levaram nosso ouro, mas ainda somos ricos e poderosos. Temos V O Z. Elizabeth M.B. Vianna Moog – uns anos, depois voltei a ser Menna Barreto Mattos – agosto de 2022 – Torres, e, inventei o AMORAS.

O Homem Medíocre

“Ser digno significa não pedir o que se merece, nem aceitar o imerecido. O pão ensopado na adulação, que engorda o servil, envenena o digno. Este prefere perder um direito a obter um favor.”

” O homem é. A sombra parece. O orgulho é uma arrogância originada por nobres motivos, e quer aquilatar o mérito; a soberba é uma desmedida presunção e procura ampliar a sombra.”(p.112-113)

“Os caracteres dignos permanecem solitários, sem trazer na anca nenhuma marca de ferro. […]”

” […] o digno se refugia em si mesmo, se entrincheira em seus ideais, e cala, temendo perturbar, com as suas palavras, as sombras que escutam. E até que mude o clima, como é fatal na alternativa das estações, espera, ancorado no seu orgulho, como se este fosse o porto natural e mais seguro para a sua dignidade.”

“Vive com a obsessão de não depender de pessoa alguma; sabe que, sem independência material, a honra está exposta a mil ciladas, e, para adquirire-las, suporta os mais rudes trabalhos, cujo fruto será a sua liberdade no porvir.

Todo parasita é um lacaio, todo o mendigo é um domesticado. O faminto pode ser um rebelde, não é nunca um homem livre. A miséria é a inimiga poderosa da dignidade: ela esmigalha os caracteres vacilante e incuba os piores servilismos […]”

“Os estoicos ensinam os segredos da dignidade: CONTENTAM-SE COM O QUE TEM , RESTRINGINDO AS PRÓPRIAS NECESSIDADES. Um homem livre não espera nada de outro, nem precisa pedir. A felicidade que o dinheiro dá está em não ser obrigado a pensar nele; por pensar nele o avaro não é livre, nem feliz. […] Os únicos bens intangíveis são aqueles que se acumulam no cérebro e no coração, quando estes faltam. nenhum tesouro os substitui. (p.116 – p.117) José Ingenieros O Homem Medíocre

ironia

Nada nos salva da vida, não tem saída, temos que viver. O pacote alegria, surpresa, prazer vem cheio de espinhos e ardências, mas o remédio e a resposta, meu querido, é viver a vida, por inteiro, sempre. No susto, no pânico e na tranquilidade de estar apenas a respirar. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2022 – Torres, e, é intrasferível, agarra minha mão e vamos…