um lugar

Existe um lugar que é o começo… Não posso improvisar a felicidade. É preciso esperar, ficar de tocaia, como se ela fosse alçar voo…, e chegar/pousar na janela. Entre a espera e a chegada, uma flor. Depois, a tal felicidade… No irreal, o impossível e inexplicável espanto real. Estás a me esperar… Beth Mattos – meio de 2021 – Torres

ZYJMCAMVT

3 de maio de 2021 – um dia cheio de…, agitado, a transbordar. Sou turbulenta, apressada, desajeitada, lenta. A transbordar, exceder. Fazer acontecer sem pensar, desmedido excesso…, não sei explicar. Intimidade, confiança e aquele prazer seguro, sereno. O mesmo desavisado planeta. A idade certa. Generoso momento. Generoso dia. Feliz. Sim, ser/estar feliz é coisa boa. Ou compartilhar. Ou lutar… Lutar em causa própria. Esta danada epidemia segura/agarra, limita, transforma / ou deforma, muda / modela alguma coisa, certamente, conectar… Reavaliação, também. Eu me justifico. Reclusa, mais “esquisita”, ou menos social, de repente, acolhida. Não fecho as janelas, nem desligo o celular, ou desapareço. Estou. Torres transborda. Exercito minhas vontades… Caminhos virados, ou os achados. E me apaixono. Amante amado amor, um susto. Fosforescente. Estás nos meus silêncios, e no meu abraço. Horas e horas a contar pedrinhas, dormir. Café juntos, cozinhar. Dividir. Este cheiro de outono, estas manhãs menos ensolaradas… Demorado tempo a revirar na cama. Escrever menos, ler menos, escutar menos, e o teu silêncio. Esperar cartas. Tão bom! Se chegam longas, leio duas vezes, três. Gosto que não te importas que cortei os cabelos desajeitada no espelho. Não te importas se visto a mesma roupa. E aquele dia, aquela manhã de demorar nas conversas se espicha… Gosto de te gostar, de me entregar, de não ter vergonha, e de pensar: agora, muito, muito, muito, muito melhor. Este hoje me dás de presente, vou desembrulhar devagar… Desdobro, dobro. ZYJMCAMVT Elizabeth M. B. Mattos – maio de 2021 – Torres, partida / porto / chegada: amizade. Amante. Amigo. Tesão. Sexo. Vagar. Devagar. Epidemia. Desejo. Cerveja, pizza. Vinho. Aguardente. Sol. E frio. Chuva também. Lagoa. Mar lá, a esperar. Céu. Histórias de contar… “Momentos irrefletidos que levam a encontros irrefletidos. Momentos irrefletidos que levam a escolhas perigosas. É bom você não ficar me lembrando muito disso“(p.281) Philip Roth Fantasma sai de cena – Seda, sede. Saudade. Coisas de sentir.

Amós Oz

De amor e trevas

(p.319-320)

“Uma vez, qdo eu tinha sete ou oito anos de idade, minha mãe me disse que embora os livros possam mudar ao longo dos anos, assim como as pessoas, a diferença está em que, enquanto a pessoas sempre nos abandonam qdo percebem que não podemos mais obter nenhum vantagem, prazer, interesse ou pelo menos um bom momento para nós, um livro nunca vai nos abandonar. Você com certeza vai abandoná-los, algumas vezes por muitos anos, ou até para sempre. Mas eles, os livros, mesmo traídos, nunca vão lhe dar as costas: vão continuar esperando por você silenciosa e humildemente nas suas prateleiras. Eles nos esperam até por dezenas de anos. Não se queixam. Até que numa noite, quando de repente você vier a precisar de um deles, mesmo que seja às três da madrugada, e mesmo que seja um livro que você tenha desprezado e quase apagado de seu coração por muitos e muitos anos, ele não vai decepcioná-lo…, descerá da prateleira e virá conviver com você num momento difícil. Não fará contas, não inventará desculpas e não se perguntará se vale a pena, se ele merece, se você merece, se você ainda tem algo a ver com ele, mas virá a você no momento em que você pedir. Jamais vai trair você.” Amós Oz

os cortes

(7:55) 2 de maio de 2021 – Torres

Natural incerteza, tantos anos! Fechar a porta ou decidir o impossível. Quando as relações terminam a lucidez importa. É preciso determinar, colocar uma trava no sentimento contraditório. Apagar a luz, e livre de si mesma, enfrentar o novo tateando no escuro…

Et nous sommes encore tout mêlés l’un à l’autre,

Elle à demi vivante et moi mort à demi…” Musset

Uma máscara de fadiga parece escorregar do seu rosto, e, os traços adquirem uma expressão simples que a torna parecida com seus retratos de criança. Como a criança que foi, enrodilhada ao fundo da poltrona, olha o fogo e sente o inverno como se pudesse, um dia florir primavera, redescobrir sentimentos, ou interromper a corrente de dor, desalento, provação… entende.

“existem inúmeras formas de ter e dar prazer”

Releio a carta, o café esfria. Quero entrar na brincadeira, usar as cores, estar no mapa, desenhar os caminhos e colocar pedrinhas, lago, árvores e uma casinha com janelas pequenas que olham de longe a chegada do visitante: o brinquedo. Sou o teu brinquedo, és as minhas descobertas de menina velha: viva.

Manter uma chama adolescente e seus impulsos é uma ‘tarja preta’ sem efeitos colaterais. Não abandona. Nem despreza.”

Vou fazer as torradas, abro a geladeira a procurar manteiga. Sinto já o prazer deste acarinhado sentimento. Não sei se me diz respeito, se ele divaga pensando na fantasia de um encontrando desajeitado, assim mesmo um encontro de apaixonados amantes…, o gosto de chocolate, este sono ciranda me embala. E o beijo.

No isolamento – distância, dificuldades “

– então, imaginar faz sentido. Eu sigo a ler tuas cartas, tuas observações críticas, certeiras:

Por enquanto me senti no Le Roy Merlin, nas prateleiras dos organizadores usados para colocar o que quiserem em suposta ordem. Não faria isto, jamais. Com amores, com louças sim. Nunca contei amores. Esposas, ou amantes. Não saberia contar e seria injusto com qualquer uma delas. Foram, são e serão sempre… enquanto dure (poetinha…, citando Vinícius de Morais)”

Não posso te repetir, nem dizer nada. Ainda dormes. Matutina sou eu, inquieta. Estás no teu elemento / no teu prazer, fora das angustias (de repente escapa a palavra, minha memória !?, não de amores, nem de ausência chorada, a memória do dia – onde estão meu óculos, qual é mesmo o nome daquela flor, quem escreveu isso? Qual cidade? Que nome tinha o professor de Latim? Miguel) Coloquei água para esquentar, vou passar outro café. Descascar uma laranja. Amanhã quero figos, preciso comprar legumes. Gosto quando o frio entra indiscreto e me arrepia. E mencionas cumplicidade e renúncia. Eu penso. Em que momento renunciamos? Conscientes? Ou apenas viramos as costas… Eu me aqueço nas tuas palavras, com as mãos lambuzadas releio:

“…,idade não transforma desejável em indesejável. O que transforma é a vontade. Atitude de não ser desejável. […] tenho que me manter leve, eu me emociono”,

Tens a sedução costurada no coração, nas tuas mãos, ao poder, e o caminho de respirar e fazer acontecer te encoraja, penso nos mimos, nas lágrimas e nos armas (lembras do filme? Viste O perfume?) Releio:

Beth…sonoridade. […] Somos, no espelho, a imagem de nosso presente. Devemos ficar felizes por estarmos ali. Se algo não agrada, aqui ou ali, retoca ou ajusta no possível. Nunca seremos o que fomos, apenas seremos no espelho de nossas memórias. Somos personagens do passado, coadjuvantes lá atrás, papeis principais hoje, mas personificados por esta nuvem do tempo. Curte…, sem ansiedade. Senão tem gosto ruim. Vive… como pode e surge. Sem angústia ou lamento de perdas. A vida reserva momentos inesquecíveis aos aventureiros. A monotonia aos que não ousam. Inteligência em dividir prazer de ansiedade é a chave para que o momento seja o momento pleno. Pensa e relaxa e usufrui como é!”

Pensei no bilhete que te escrevi às pressas para não te perder, guardar um pouco mais enquanto respiro o teu cheiro. ‘estou aqui agarrada no momento de gostar de ti, tanto e tanto!’. Sou lenta, tão lenta para entender / sentir / ou estar no momento, no agora, no livro certo… Já me conheces, a pressa de agarrar, o cuidado, a incerteza e o hábito de pensar que depois, amanhã, na outra semana, ou sempre estarás ao meu lado… Disposto a ouvir, a contar, e também, disposto a me abraçar, calar o desatino e embalar o presente com as fitas que trouxeste na mala, e os perfumes… A tua chegada tem gosto de orgia acesa sem máscara, sem cuidado, sem limite.

Louca e consciente eu te escrevi: […] enquanto temos tesão, enquanto andamos nus pela sala pelo quarto, enquanto nos deixamos ficar uma tarde inteira embaixo dos lençóis, enquanto brincamos e fantasiados de desejo assistimos o prazer, o tempo passa… Enquanto nos falamos somos / estamos jovens, vivos e felizes. Obrigada / obrigada / obrigada. O que importa? Não precisamos de palavras…, o silêncio prolonga. Te cuida poque quero te amar amanhã, e depois de amanhã, e passando o mês de maio, ainda em junho. Um beijo, dois, ou três, ou um valendo quatro, melhor, um abraço suado. Eu te mandarei flores, coloca num jarro, no canto da bancada, na tua cozinha, são poucas, misturei alecrim… E, agora, vamos assistir ao futebol e torcer… Elizabeth M.B. Mattos – meio de 2021 – Torres ( eu já escrevi isso) Desambientação, curiosidade, atração. A gente nunca se arrepende de não mentir. WWJMCLJCAkYZ

voltar amanhã

Se eu te explico a fantasia / o sonho ou alguma coisa do outro lado… Acredito/penso/imagino o motivo para correr/ ou mudar/ ou inventar outra vida. Nós dois. (tão bom poder pensar / ter esta alegria de resolver…, acreditar que eu posso/ que eu consigo, tu me perturbas!). Mudar de casa pode ser, ainda, ainda uma vez, reinventar o caminho/viajar/procurar. Esta inquietude fantasiosa não se explica com palavra, melhor seria soltar balões coloridos ou todos brancos, ou todos vermelhos. Soltar balões pela janela. E se o vento conversa com balões a minha vontade se desgrudaria e iria junto pelo céu. Voltar a Porto Alegre, morar em Porto Alegre! Porto – chegada, Alegre – feliz! Estou  ainda, outra vez, a divagar. Do porto saio / embarco, e posso voltar, ou não voltar.  Quando este calor viajar, voltar pro lugar dele, sair por aí… Irei caminhar. E Torres deve me abraçar outra vez. Tens razão! Estou melhor em casa. Vais gostar do apartamento com este jardim iluminado, envidraçado, quase farol! Ou…Todas as histórias se prendem no ir e voltar. Eu sei que vais / estás a entender. E nós dois deitados, no sonho, contaríamos outras/ muitas histórias proibidas, e de meninos, de jovens vestidos de gala dançado, ou na areia, no jogo, no mar. E rir e lembrar enganaria a blindagem de ser como é/do jeito feito, acabado. Sim, tu tinhas uma casa em Torres. Como ia ser bom voltar! JMXCYZ ElizaBeth M.B.Mattos – abril de 2021

possibilidade de fazer mais em pouco tempo

O silêncio se prolonga assustado, mas como força, depois como mediador… ‘possibilidade de fazer mais em pouco tempo’, e se tu pudesses voltar, ou eu ir o teu encontro! O que faríamos?

O fio / a ideia / a vida estica e aperta. Dói este longe / a distância Aumenta o vazio que se quer/ se pretende preenchido.

A casa com brinquedos espalhados, a casa das presenças.

O medo(sorriso), o estranhamento somos nós longe um do outro / com barreiras intransponíveis, naturais, eu sei. O medo (lágrima)…

O silêncio se veste de pânico. Este ir e vir das nossas vozes me engasga. Estranhas certezas incertas. Gosto de estar contigo. Atravesso o tempo. Fico te espiando: com certeza, te espero… Beth Mattos – abril de 2021 – Torres

o caderno gris

“Eu te adoro por tua generosidade, por tua sensibilidade de flor, pela seriedade que pões em todos os teus pensamentos em todas as tuas ações, e até nas volúpias do amor. Todas as tuas ternuras, todas as tuas emoções, e as sofro ao mesmo tempo que tu! Rendamos graças à Providência por nos termos amado, e por nossos corações, assolados de solidão, terem podido ligar – se em uma união tão indissoluvelmente carnal! Não me abandones nunca! E lembremo – nos, eternamente, de que possuímos um no outro o objeto apaixonado de nosso A M O R.” (p.36) Roger Martin du Gard – Os Thibault

” O tempo passa e nos emurchece. E no fundo nada muda. Sempre os mesmos. Nada mudou, a não ser que eu me sinto desanimado e envelhecido.” (p.36)

“Ai! por que não vivemos com toda a força de nossa alma, em vez de raciocinar? Nós pensamos demais!“(p36)

anotações e rabiscos

A cerca / o muro, o impossível. Um desafio de ir , de sair e de voltar. A busca de / com perspectiva… Desafiar o impossível pode ser o bom motor, o necessário para o tal desafio desafiador: trocar a mesa, arrastar as cadeiras, alterar a ordem dos objetos, fazer uma horta, desafiar o céu. Arrastar fantasmas com doçura.

Há qualquer coisa de instantâneo na limpeza: o movimento como onda, um furacão ou o mágico que me arrasta… Ultrapassar obstáculos.

Sinto um certo e insistente aperto: sufoco no cinzento e silencioso. Outra vez arrumar… Pensar / recomeçar ou dizer sem me interromper…Usufruir do tal fluxo natural deste aventuroso encontro. Ah! Este tedio desorganizado! Beth Mattos

Foto: Tina Zappoli

Don Juan de Molière : orgulho e audácia – perturbador, malappris… Bernard Shaw il fallait ne pas les aimer et les fuir / Mozart Don Juan – não muito diferente do personagem de Molière, mas a música invoca traz/ faz ver / pensar / sentir um homem grandioso. São tantos! Eu me confundo…

mundo plural

Atravesso o livro. Releio autor amado (ah! os que fazem estremecer). Assombrada e misteriosa conversa. No texto, no fragmento, a voz se esconde, ou te procura. Sentimento inexplicável (preâmbulo)… És o amado ausente, e tão incrivelmente, paradoxalmente, próximo. Abro o livro. Em voz alta começo a ler, quero teus olhos…, também teu desejo.

Estão, constantemente, à espera, sempre prontos e determinados a seguir o rastro de uma aventura até a beira do abismo. Estão sempre carregados de paixão, mas não a do amante, e sim a do frio, calculista e perigoso jogador. Entre eles, há os persistentes, para os quais, desde a juventude e por toda a vida, essa expectativa torna-se uma aventura eterna; para os quais cada dia se dissolve em uma centena de pequenas experiências sensuais – um olhar de passagem, um meio sorriso discreto, rápido e silencioso, um roçar acidental de joelhos – e cada ano em centenas desses dias; para os quais a experiência sensorial constitui a fonte que flui eternamente, nutrindo e aquecendo suas vidas.” (p.13) Stefan Zweig Novelas insólitas

Tu me olhas inquieto. Não dizes nada. Talvez porque eu saiba o que sentes…, fecho o livro, e vou escrever. Tenho cartas a responder, outras a decifrar, este mês de abril me inquieta. Releio o início de Segredo Ardente. Estou a descoberto, entregue. Escondida de mim mesma, ainda a me despedir de um amor arrepiado…, o teu. Eu não entendo o porquê deste dessossegado inquieto. Eu te penso. E me encolho neste necessário silêncio… Ah! O filme, a fantasia, e a tal vontade de voltar para a vida sacudida de Porta Alegre. O passado me inquieta… Eu não pude escolher, apenas reagir. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2021 – Torres