domingo de abril

Cinzento, fresco, sonoro, descansado domingo. Estou a preparar o ânimo: a polir este estranho humor, inventar o silêncio, domar a vontade e não sentir dor. Coisa lenta, elaborada resvala na manhã: promessa, desejo, ter tempo nos anos destes anos, nestes meses, nas semanas destes dias. Quero/desejo movimento, pessoas! Que aquela beleza pequena aconteça quando / enquanto faço isso e aquilo. A janela me invade. Mergulho no devaneio de estar/ter e despedir… Coisa aborrecida este dizer a esperar sentimento e vontade …e, coisas novas tão velhas! Encontrei uma mina de esmeraldas no fundo do jardim… Estou paralisada de encanto. Esmeraldas! O que vou fazer com elas? Esmeraldas! Vou pensar em opalinas e pérolas. Cristais brilhantes, lapidados. Rubis. Os jasmineiros perfumam a cerca e escondem o caminho, ah! meus jardineiros mágicos! Vou colher dálias, juntar em ramo as camélias. Para o almoço, teremos frutas, vinhos e queijos, e aquele pão com semente… A mesa no gramado. Nas cadeiras coloridas amarrei pequenas almofadas azuis. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2021 – Torres

22, 23, 24 e 25 de abril aniversários

22 de abril de 2021 – dia de sol, bonito, bonito demais. Ontem terminei a arrumação da cômoda e das estantes onde estão (o presente não se fez passado, permanência dos danados: os cupins)… Tempo perdido, guerra perdida, paliativo: os pozinhos voltam/voltaram, voltarão… Toda a manhã em função da faxina dos vidros, faz a diferença, muda o cheiro. Depois, dormi um pouco, o corpo doí. Tirei a mesa preta (está na garagem), o apartamento aumenta, móveis pesados, grandes. Espaço, no meio da casa, alecrim dourado. Ainda estou cansada. Escrever me animaria, não. Vou caminhar um pouco com a Ônix. Com ela/para ela foi um dia corrido (as faxinas são sempre novo jogo de esconde-esconde), e de estranheza.

Vacinada. Etapa vencida, brotam ideias de ir e vir, necessidades prementes, desejos urgentes: deveria ter comprado mais flores, e doces. Acertei no peixe. Delícia!, A facilidade e o gosto. Na minha pequena lista incluirei temperos. Diz minha amiga que a cozinha, o meu laboratório, traz sempre uma pequena surpresa interessante, vou ensaiar um bolo amanhã… Agora, voltar a dormir. O tempo ficou tão misturado, um dia pode ter uma cota misteriosa de multiplicação, e a ideia pequena fica tomada de poder de meses e meses… Mas nada aconteceu: ´penso em ti todos os dias, provo os vinhos sem entusiasmo, caminho menos, faça planos para resolver aquilo e isso, leio menos, muito menos, limpo, limpo, limpo e a vontade de mudar, ir pro Rio ou pra São Paulo se aquieta. Vejo filmes. E gosto. Ouço música e me entusiasmo. Tudo passa pelo entusiasmo… Tenho que espichar as manhãs. Beth Mattos – abril de 2021, ainda bocejando em Torres, inquieta.

Poemas de Luiza

“Me atravessa o vento

E dói

Me arrebata um sussurro teu

E dói

Me estremece teu olhar

E eu

Me arremesso entregue

Ao mar”

Luiza Mattos Domingues

*** X ***

“Querendo sonho verdade

Querendo caminho canção

Quem conhece meus pedaços

Não fecha os olhos pra ver

Que dentro de mim tem vulcão

Lava pronta pra irromper”

E mais um outro:

“Dentro, por dentro

Buraco no peito

Trancada em casa

Ou nem tanto

Pensamento solto momento

Um ano, e tanto tempo

Parece outra vida

Num reino de abraço

De encontro

De dançar até pingar

De atravessar com toque

Tanto pouco longo tempo

Sentimos todos

Esse grande estranhamento

Sem saber se nos pertence

Essa lacuna no vento

Luiza Domingues / Luiza D. Mattos – abril de 2021

(eu gosto, gosto, gosto, gosta! desta poeta que se arremessa com força! gosto! gosto!

número 8

Epigrama Número 8

Encostei a ti, sabendo bem que eras somente onda. Sabendo bem que eras nuvem depus a minha vida em ti. Como sabia bem tudo isso, e dei – me ao teu destino frágil, fiquei sem poder chorar, quando caí.”

Cecília Meireles

vontade

Vontade de ser feliz, completamente, totalmente feliz. Escolhi um caminho, estrada, rua tão esquisita! Então, percebo a felicidade, ali perto, ou teria sido ali daquele lado, e eu caminho em direção contrária… justo para contrariar a lógica. Tenho manchas no rosto, tenho apertos e sensações, desejos e estou, paradoxalmente, esvaziada. contrariar, perseguir o debate, a tal lógica escabelada… Vontade de ser feliz! A casa se estivesse perfumada e limpa! Se os livros já estivessem ordenadas e lidos! Um trabalho de estranhamento que não termina. Outra vez o desejo de abrir o portão e sair caminhando… Esforço! E deveria ser ser apenas natural…Beth M.B. Mattos – abril ( um mês diferente / sonoro) 2021 – Claro! eu me emocionei com Fátima Bernardes e aquela casa majestosamente branca e limpa! Os 80 anos de Roberto Carlos e toda a história que não aconteceu. Coisas de chorar! Mas eu sei, se olhar / ver / enxergar/ perceber, de certo tenho qualquer coisa de feliz!

Gaston Bachelard

Procura mais, mais, mais do que já tenho, mais em de tantos jeito até a fantasia completa, irreal… E tão agora, única, reinventada em detalhes.

“O ninho como toda imagem de descanso, de tranquilidade, associa – se imediatamente à imagem da casa simples. Da imagem do ninho à imagem da casa, ou vice-versa, as passagens só se podem fazer sob o signo da simplicidade. Van Gogh que pintou muitos ninhos e muitas choupanas, escreveu ao irmão: ‘A choupana com teto de palha me faz pensar num ninho de cambaxirra‘ (Van Gogh, Lettres à Théo, trd .fr., pág. 12) Não há para o olho atento do pintor uma reduplicação do interesse se, ao pintar um ninho, ele sonha com uma choupana, se ao pintar uma choupana sonha com um ninho. Há tais enlaces de imagens que parece que se sonha duas vezes, e que se sonha sobre dois registros. A imagem mais simples se duplica, é ela mesma e outra coisa que não ela mesma. As choupanas de Van Gogh são excessivamente cobertas de colmo. Uma palha espessa, grosseiramente trançada, acentua a vontade de abrigar além das paredes. De todas as virtudes do abrigo, o teto aqui é a testemunha dominante. Sob a cobertura do teto, as paredes são de barro toscamente trabalhado. As aberturas são baixas. A choupana está assentada na terra como um ninho no campo. E o ninho da cambaxirra bem parece uma choupana, pois é um ninho coberto, um ninho redondo. O Abade Vincelot o descreve nestes termos: ‘A cambaxirra dá a seu ninho a forma de uma bola muito redonda, na qual é feito um pequeno buraco colocado na parte inferior, para que a água não possa penetrar. Essa abertura é extraordinariamente dissimulada sob um galho. Frequentemente aconteceu – me examinar o ninho em todos os sentidos antes de perceber a abertura que dá passagem à fêmea‘ Vivendo em sua ligação manifesta a choupana ninho de Van Gohg, subitamente as palavras me dão prazer. Apraz – me dizer a mim mesmo que é um reizinho que mora na choupana. Eis uma imagem – como, uma imagem que sugere histórias.” (p.83) Gaston Bachelard A Poética do Espaço

Sequencia fantástica, já menciona o retorno. Eu me pergunto, em que momento construí estes desejos sonhos -sonhados, e a vontade que me faz retornar, voltar, retornar para seguir. Em círculo. “A casa é a própria pessoa, sua forma, seu esforço, mais imediato, eu direi, seu sofrimento.”

O delírio de pensar / o delírio de voltar / de transladar e correr, esconder, aquietar para encontrar… Esta dor do corpo que aperta pode ser a marca do inteiro, a perder pedaços ou a evoluir…. Beth Mattos Ler tudo outra vez, desenhar, pensar, escrever e recomeçar. Recomeçar tem dor, tem resistência. Haja coragem!

E pensar e pensar, e a pensar. A poética do Espaço – Gaston Bachelard

cambaxirra, o ninho

17 de abril de 2021

Acordei 9 horas. Tive um sonho / sono com / em detalhes, anotei. Diferente. Importante.

Tempo no/de silêncio! Temperamento forte, obstinado tu tens! Convicto. Sou/fico a pensar… Impressionante. Sentimento de certeza grande e poderosa. Mágoa intransponível, não. Intenso sentimento de certeza. Importante. Bom. Falei/conversei, contei das fantasias. Ele está, está, está…, como posso descrever? Não sei. Devagar, devagar volto no tempo, neste hoje com chuva! (que bom!) Algumas questões complicadas de crescer versus envelhecer. Se eu pudesse voltar no tempo! Não sei fazer mágica, sigo a pensar, a sentir. Beth Mattos, sem espelho.

Marina Pfeifer / foto do jardim…

adormecer

Limite de compartilhar: vida, vida, vida… Assumir compromisso. Cada amanhecer uma gota: lágrima, energia amorosa. É preciso adormecer: o sono e a despedida. No imaginário a eternidade do dia existe… Eternidade? Quem amamos… Amar, ceder, aceitar: compartilhar. Despedida solitária. Adormecer definitivo. Nada, ninguém substitui a vida solitária, a vida solitária… Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2021

ruídos

Chegado é o momento em que pairam no ar

Ruídos confusos a crescer na sombra.”

Dizer que te amo, ou dizer que te quero. Pedir que venhas, porque não posso ir, soa música e grito. Apaixonada insana! A pandemia nos prprotegeoteja, e os aviões nos levem. E o silêncio inteligente nos salve/salva. Que eu nunca mais te perca… E possas me tocar, do jeito desejado, e tu e eu, vamos rir no gozo desta alegria, nossa. Nossos detalhes. Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2021 – Torres

Coisas do Entardecer / Vitor Hugo / Coleção Abre – te Sésamo / ilustrado por Patrick Cuoratin / Editora Record

explicar

Estou sem entender / escrevo sem jeito. Frouxo, arriscando, sem saber. Sem consciência, não é normal…, não pode ser bom para você, não pode ser bom para mim, estamos a nos afastar. E de repente enfraquecemos o tempo, a vontade, empilhamos nas caixas as memórias que não se misturam, mas, reparaste? Como ficou fácil abrir a tampa certa, olhar de perto… Gozar, brincar, sensualizar meio ao acaso. O jogo é maior do que tu e muito maior do que eu. Nós dois juntos segurando as pontas deste enorme cadáver. Nossa adolescência escorrega pelas dunas de uma Torres praiana que não existe mais. Estamos perto /longe de quem somos. E tão absolutamente entregues! Beth Mattos – abril de 2021 –

foto de Marina Pfeifer – abril de 2021 – a rosa