Rocamadour

Sim. Persigo sonhos pelos/através dos livros. Feliz / alegre e com sofreguidão. Este, eu materializei, fui a Rocamadour. Realizei. ROCAMADOUR. E não tirei fotos. Tenho a/na memória viva, excitada, feliz de lembrar a subida árida, amarela. Aqueles rochedos. E chegar… Beth Mattos. Amo a França do meu jeito esquisito, antes a língua, o francês, os exaustivos estudos, os autores, as “pegadas” da minha mãe, como não poderia deixar de confessar, a biblioteca…, mas Henry Miller e Anaïs são meus, muito, bastante, completamente meus. Li os Trópicos, de Câncer e Capricórnio com sofreguidão, e tudo que pude do que ela escreveu e senti o erótico o sensual, o proibido.

preguiça

espreguiçando este jeito novo/desconfiado de me olhares, eu te sinto indo…,

devagar a te afastar.

o tempo limite de amar, talvez…, ou a liberdade do grito, te sentes preso?

não sei.

Não gosto das amarras, mas das certezas. Faz sentido? No silêncio vou consumindo a energia inteira que me deste, que tenha sido livre e boa

sem artifícios, apenas encontro amar amor amado

saudade é um assunto sério

eu te estendo as duas mãos, mas não te prendo, não me prendes, tenho gosto de “eu por mim e possível” Beth Mattos – maio de 2021 – Torres iluminada pelo outono escabelado (venta um pouco), pela abundancia das frutas

especialmente cansada

Específica verdade, escondida num pote de certezas. A lucidez estraga toda e qualquer brincadeira. De repente imagino: armários, prateleiras arrumadas, segundo cada dono ou gosto, na lógica simples das necessidades. Eu, particularmente, complico: vou empurrando o que é possível quebrar para o fundo, lá escondido, estão meus copos, xícaras, porcelanas. Os preferidos. O som se mistura…, a música me atrapalha. Não é possível arrumar prateleiras, selecionar livros, sentar na mesma poltrona, e tentar se fazer entender: não. Não sei onde estou. E devagar vou desaparecendo… Esta brincadeira de esconder e achar, pegar e correr preenche tardes de folguedo. Somos viciados em correrias… No faz de conta. Hoje estou especialmente cansada. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2021 – Torres

fora do contexto

Existem numerosas espécies e gêneros de hortaliças, porém todas, segundo nossos princípios de classificação, jazem no lodo. Crescem aí e aí são colidas. Batatas, tomates, chicória e nabos. Seres humano e seres não-humanos. Alterando a analogia, pode -se dizer que vivemos vidas que estão encaixadas desde o nascimento até à morte. Desde o ventre de que nascemos à caixa da família, da qual progredimos para dentro da caixa da escola. Quando saímos da escola, já nos tornamos tão condicionados a viver numa caixa, uma prisão, um receptáculo cem nossa volta… até que, finalmente com alívio, somos introduzidos no caixão ou no forno crematório. Notemos simplesmente a conexão possível entre sanidade mental, socialmente prescrita, tratamento psiquiátrico e caixas.” (p.35) David Cooper Psiquiatria e Antipsiquiatria -Editora Perspectiva – Coleção Debates – 1967

Já transcrevi outras vezes este parágrafo, na simplificação permite um avanço, uma ideia simples… E na brincadeira podemos catalogar as caixas, colocar idades de tal a tal ano para organizarmos estas emoções extraordinárias criadas por uma única pessoa. e pensar o esforço que deve existir para sair da caixa, e ser outro, acrescido de nova experiência. Elizabeth M. B. Mattos – maio de 2021 – Torres

ciclones e ventanias

Fiquei a esperar um toque pra saber detalhes da tua ordem no novo quarto. Inclusive mais almofadas, ou tapete. Não sei. Como tu estás? Estou louca para saber detalhes. Como estão as tuas aulas? E o curso? E o  X e o Y? Sinto tua falta e falta do teu aconchego, a falta dos teus carinhos. Quero saber da vida. Conversa com teu pai. É importante. Não o mantenhas afastado. Faz com que participe desta tua nova vida. O salário mínimo vai sofrer aumento e tu deves receber um pouquinho mais. Não fica doente. Lê muito. Lê como se fosse um remédio, ou um vício… É importante. Escreve. Escreve. Faças outros lindos e importantes poemas, não os abandone. Cria/escreve/desenha o teu diário. Tudo isto ajuda mentalmente. Estou gostando mais da minha casa. Vou me aventurar ao frio. Que horror! Eu gosto. Lê as cartas para os meninos. Cuida das crianças. Estou louca para ficar com um pequeno para mim. Se eu nunca mais fosse trabalhar! QUEM SABE?! UM beijo, com muito amor. B.

Nota: Tu vens neste fim de semana, ou é a Ana quem vai viajar com o Agostinho? Conversa com ela sobre isto, e me avisa. Preciso me organizar. Cuidado com os ciclones e ventanias.

imagino lembranças, as doloridas e as festivas

Penso em coisas e fatos que aconteceram, e ou deixaram de acontecer… Pedaço amarrado na memória. Nem todas as lembranças são inteiras/completas: nós nos esquecemos, e dentro do esquecimento recriamos. 

Enquanto remexo no tempo procuro definições, esclarecimentos. Procuro paz. Procuro chegar mais perto de ti / talvez eu apenas te afaste / eu te assusto com desesperanças…

Quem das pessoas com quem convivemos foram, realmente, importantes? Ou melhor, quais teriam respostas para nos dar? E nos amaram…

Aconteceu uma coisa boa para mim, não sei se eu cheguei a te contar, tão rápido são nossos encontros! Conversei com o Nonô (Vicente Donário Lopes de Almeida), um pouco antes do transplante, um acaso. Ele foi me ver na galeria Garagem de Arte. Foi engraçado/divertido/curioso. Vi aquele homem bonito, espiando, bem vestido: tudo o que sempre vi nele estava ali. Tudo. Tu compreendes? Fui ao seu encontro, conversamos, saímos juntos e caminhamos até a Hilário Ribeiro, e nos sentamos na murada de um canteiro, continuamos conversando enquanto sua mãe não chegava. Ele esperava alguém… E foi mágico. Tão depressa! Aquela repassada no tempo! Tão importante! Pensei que voltaríamos a nos ver. Eu não o acompanhei até em casa, esperamos alguém chegar, eu voltaria ao trabalho…, deveria ter ido. Deveria ter ficado com eles o tempo que eu tivesse… Por que estamos sempre nos cobrando o que não fizemos? Insistimos. Agarrados no/ao hoje como crustáceos, seguros, nenhuma luz no depois… O cotidiano, o agora é a consciência de sentimentos. Segurança.

Por que ele ficou no tempo? Por que não tivemos tempo? Ele morreria um mês depois. O transplante não foi bem sucedido. As fotos que queríamos ver…., e queríamos voltar a nos ver. O importante conversarmos, e rimos e nos olhamos… Não pude vê-lo outra vez. Estas pessoas, as nossas pessoas, as queridas, e as amadas, começam a tomar outras formas, conseguiremos reencontrá-las? É a magia. Elas definiram coisas / decidiram juntas o destino / as escolhas. Esquisito voltar! Vou voltar para a cama.

Tu já pensaste nisto? Todo o dia arrumado / engomado a repetir o mesmo, sem susto, repetir / repetir / repetir. Organizar a próxima viagem: entrar em todos os cartões postais, beber os melhores vinhos, o sol… Deve ter um mistério que desconheço, sou eu a repetir os mesmos textos, a repetir a repetir… Pensar como seria entrar no tempo perdido, igual e repetir. Já pensaste nisto? Beth Mattos – maio de 2021 – Torres

“Sim, o que te escrevo não é de ninguém. E essa liberdade de ninguém é muito perigosa. É como o infinito que tem cor de ar. O que sou neste instante? Sou uma máquina de escrever fazendo ecoar as teclas secas na úmida madrugada. Para te escrever eu me perfumo. O que faço por involuntário instinto. O que eu estou fazendo ao te escrever? estou tentando fotografar o perfume.” (p.85) Clarice Lispector –Água Viva

“Viajar é descobrir que todas as pessoas estão erradas a respeito dos outros países”. Aldous Huxley.

A última das tantas ridículas cartas, todas de amor, pois só o amor pode ser ridículo (já explicou Fernando Pessoa), impulsivo e tempestivo. Às vezes tu falas comigo com a comedida voz e tom ao que consideras boa educação, e pertinente. Digamos, própria de quem trabalha com o público. Nenhuma manifestação amorosa que possa comprometer tua alma, tua retidão. Apenas, a fidelidade,

Fidelidade a boa educação. E os princípios de fidelidade internos, familiares. Importantes. A amizade deteriorou-se junto com a queima da paixão.  Sonho e desejo, sozinha, imagino teus abraços, tuas risadas, teus pinotes quando estás feliz e alcanças os objetivos. Cansei de esperar, imaginar e borboletear a tua volta. Eu lamento, mas estamos, os dois estacionados no vazio. Como alimentar esta viagem? “Viajar é descobrir que todas as pessoas estão erradas a respeito dos outros países”. Aldous Huxley.

Eu estou errada a teu respeito, não houve/não há interesse, ou paixão. Nada morreu, pois nada existiu. Então. a minha esquizofrenia foi maior. E, eu atropelo a minha vida com outros fantasmas, eu me defendo dizendo e contando de outros amores ou coisas assim esperando aquela reação imediata tua: “Não, sua tola, apenas a mim tu amaste e amas…” Aquele direito divino de saber quem é quem no meio do povo inteiro. Afinal, meu querido, nunca soubeste nem imaginaste, nem sentiste o amor que eu tenho por ti. Assim, de que vale meus sonhos, meu desejo? E as minhas fantasias? Elas caem na vala comum do ridículo, do vulgar. Perdoa o que te escrevo, esquece o sonho e segue nesta campanha silenciosa do n a d a: isto é, sem cinema, sem leituras, sem poemas, sem textos, sem vinho, sem música nem risadas.

OK!? VOU AQUIETAR-ME

 São José dos Ausentes, ausente, com neve, fogo, embriagues e amor com sexo, sexo com amor, sem sexo, com a mão correndo o corpo e os beijos secando a boca. Risadas, marcas e saudade já daquele momento que nem aconteceu, acontecendo.

Tenho que conseguir te esquecer. Apagar.

Aceitar teu caminho. As escolhas do tempo roubado. Que sejas, afinal, feliz como pai, avô, marido, viúvo, comerciante, intelectual, respeitado ou sei lá mais o quê desejas. Rico. Tenho ligado no meio da noite, no meio da manhã, nas tardes, com chuva, com sol, com lua, com latidos, com coragem, com medo, sem assunto, com muito assunto. Tenho ligado muitas vezes. Do celular, perdi o número: perdi todas aquelas mensagens carentes sem resposta. Como te ameaçar no amor. Esquisito. Invasão minha. Ninguém nos quer juntos e nós não somos mais de nós mesmos. Um beijo.  Se Paris voltar para nós eu estou aqui. Se as flores chegarem, eu estou aqui, se a cesta com vinhos e petiscos chegarem eu estou aqui. Se teus poemas se escreverem, eu estou aqui, se fores ao cinema, eu estou aqui. Se puderes, um dia, me amar, eu estou aqui. Um dia é muito tempo. Um dia inteiro sem medo. Um dia nosso, um dia. Como deixar o medo preso naquela gaveta e chaveado? Isto. Pensa nesta possibilidade: chavear o medo, a insegurança e as desconfianças e então abrir os braços de forma lenta, muito lenta, sem sofreguidão…Toda uma tarde, toda uma generosa noite com direito ao amanhecer quieto, por isto São José dos Ausentes nos espera. AUSENTES. 28/5/2004 10:23:37 / Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2021 – Torres

amor

“Às vezes, lembro, com o coração ansioso, seu sorriso, seus olhos, sua voz e lágrimas me vêm aos olhos, mas eu não choro não, é apenas amor.”

Eu estava bastante melancólica ontem, não sei exatamente o porquê. Talvez seja o danado limite, entender onde não irei/não posso chegar… Minha saudade, em vez de quente e feliz nostalgia, transformou-se em tristeza. Eu não posso mudar nada. Eu não posso, sim, estou sozinha. E isso é péssimo, o outro importa muito, muito, muito. E.M.B. Mattos

confissões perfumadas

Gostaria de não ter vendido a casa. A casa de pedras. Gostaria de nunca ter saído e convivido com fantasmas. Existem forças de anjos, também existem demônios. Aquela estrada de terra parecia a única por causa dos eucaliptos, e pelas margaridas, e pelos açudes. Os cães. Este começo era uma escolha, e eu gostava do silêncio. Dos dias excessivamente quentes, e também daqueles que as lareiras eram acessas. E a Lena estava sempre por perto. Eu tive amigos. Comecei a ler com a regularidade necessária para acorrentar um autor ao outro, estabelecer o sentido, flutuar, algumas vezes chorei, mas nada me removeria. As caminhadas. O introspectivo. O sorriso fácil, o generoso espírito comunitário. A estrada não me assustava, qualquer carro poderia me levar de lá para cá. E os alunos foram sempre a força natural. Alegria. Eu me libertava de correntes pesadas, eu decidia e fazia e sentia, e dizia, e tinha e completava…fiquei eu. Estes períodos não são longos, estes acertos também são apressados, e a coragem de largar tudo outra vez é o resultado saudável. O sono se deixa dormir, ninguém vai te acordar, o sono se deixa chegar às 16 horas espiando, e eu posso dançar às duas da manhã num dia de chuva. E. Se eu te amo, não importa. Eu te amo. E pronto. Já se passaram tantos anos! Deixarei de amar, virarei as costas, caminharei apressada, desligarei a orquestra. Talvez não chore. Guardo o beijo, o cheiro, o abraço e tua audácia na caixa amarela, aquela bonita que está em baixo da cadeira. Depois dobro todas as minhas confissões. Na outra, aquela azul, junto as intenções. E vamos fazer uma carne assada, dourar as batatas, vou abrir o vinho. Fiz uma ambrosia com quinze ovos. Festejamos. Hortência nos vasos. Passei batom e o vestido com flores vermelhas e azuis e verdes, canta francês e cantarola alegria…Gostaria de ter te conhecido mais cedo, muito mais cedo… Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2021 – torres