coração desnudado

“[42] O gosto do prazer nos prende ao presente. A preocupação pela nossa segurança nos deixa pendurados ao futuro. / Aquele que se apega ao prazer, isto é, ao presente, causa – me a impressão de um homem que rola por uma ladeira e que, tentando agarrar – se aos arbustos, acaba por arrancá – los e por carregá – los na queda. / Ser para si mesmo, antes de tudo, um grande homem e um Santo. (p.59) Charles Baudelaire – Meu Coração Desnudado – Editora Autêntica – tradução e notas – Tomaz Tadeu – 2009 – Belo Horizonte

Do prazer de ouvir tua voz: paz alegria e coisas boas. Obrigada. Então, semente amorosa e amiga germina feliz naquele canto cuidado do jardim. Amanhã regarei com carinho: teu abraço aqueceu corpo e coração. A paz abençoa o inquieto espirito avoado. Beth Mattos

na mesa

Quando o sono chega, enorme, avassalador: palavras, objetos e pessoas se encolhem… Os três pontos russos como soldados de guerra vencida, obedientes, voltam às caixas empilhadas em cima da cômoda. Roupas na cadeira, brinquedos pelo tapete, cortinas entreabertas, e o cheiro de Natal invade o quarto: atravessa a ponte iluminada da Lagoa do Violão.

Na mesa, espalhados meus sonhos. Desarrumados, empilhados meio aos pratos, copos, travessas e bandejas. Revoltados saltaram dos armários, vieram se exibir. Deixei todos por lá, desarrumados. Ontem dormi tarde, numa novidade colorida. O bolo e o chá ficaram surpresos… Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2020 – Torres

ansiosa e perversa

Atordoada com tuas palavras, teu recuo, tuas incertezas cravadas/enfiadas na caverna. Outra vida, sempre outra vida, e não se pode dividir, desnudar. Sabes o que acontece? O impossível possível encontro fora do lugar, atrapalhado no tempo, encolhe. Tudo perder.  O teu desejo, ou o meu desejo se espatifa/esfarela na quimera/no sonho. Já não lustro nem encero o assoalho, não lavo todos os copos, nem surpreendo a casa com flores. Sentimento asfixiado na ansiosa e perversa agonia de esperar. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2020 – Torres

amor

O amor tem sombras e contornos perfeitos, basta sossegar o olhar.

Parece / aparece o doce encanto da certeza. Do absoluto.

Observo ela se movimentar leve e solta, confiante. 

Elizabeth M.B. Mattos / novembro de 2020 / Torres

Não tenho círculo nenhum de amizades, sou uma pessoa solitária.” […] É uma vida chata, Van. Gosto…ah, de um monte de coisas, continuou num tom de voz pensativo e melancólico, […] Gosto de pinturas flamengas e holandesas, de flores, de comida, de Flaubert e Shakespeare, de fazer compraras, esquiar, nadar, dos beijos das Belas e das Feras, mas tudo isso, sei lá como, este molho e todas as riquezas da Holanda só formam uma espécie de camada fininha sob a qual não há absolutamente nada, exceto, é óbvio, tua imagem, e isso só faz é aumentar a profundidade do abismo e os sofrimentos […] (p.349-350) Vladimir Nabokov – Ada ou ardor

Depois do sentimento, do livro a se fechar (a leitura se esgota, os livros se fecham, o tempo deixa de pipocar). Depois do tédio deste cinzento cinza do dia, o susto e o farto/cansado de um fazer monótono: lavar, guardar, dobrar, passar, limpar e arrumar. Obcessivamente belo, obcessivamente sentido. Fecho as janelas. E fecho / tranco a vontade de dizer/falar. O corpo dói, reclama o movimento, ah esta minha audácia! E se fosse tudo diferente? Se eu pudesse ter quem me fizesse o jantar, cuidasse. Dividir o tempo em languidez e doçura? Será igual? Não vai mudar?

Quero te dizer, teus olhos cheios de luz mudariam o tempo: eu seria alegre e faceira e…, todos os projetos se realizariam, felizes para sempre. Morrer foi tão absurdamente definitivo! Elizabeth M.B.Mattos / novembro de 2020 / Torres

Mas eu não desisto de ser feliz. Não desisto de sonhar. Não desisto do colorido, nem de te amar…

chuva

o céu vai descendo até cair em chuva cinzento…ah! vontade tão grande de se deixar ficar porque chove. Chove no teu abraço e no teu beijo…Beth Mattos /novembro de 2020

passado espiando, mas é apenas uma foto…

O corpo amolecido e farto. De certo/ com certeza/ os excessos se acomodam prazerosos no amanhecer. Depois do café.

Perfumes virtuosos do sono da noite. Amolecida / preenchida.

A caminhada curta se fez meditativa: os olhos se fecham. Esta luz cinzenta, brilhante da manhã entra/fere como agulhas espetadas nos meus olhos. Caminho sonambula. Penso nas pílulas escolhidas, naquelas abandonadas: química de equilíbrio. Viver mais, conversar mais, dormir mais, fazer comedidamente. E o azul, o alaranjado, aquele vermelho, as riscas pretas, o lápis, a borracha e os pincéis. O desejo abusivo de atravessar. Por que não posso pintar, desenhar ou aquarelar atravessada de certezas prazerosas? Tenho/preciso lutar a cada amanhecer com este amontoado de palavras exibidas/ exigentes. Ah! Vou fechar os olhos mais vezes, vou fazer nada, esmaecida nestas pinceladas aguadas. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2020 –

do suicídio

a vida escorrega no tempo, e o tempo descansado, imune e lento assiste;

a vida escorrega nos dias, nos meses, na garrafa de vinho, na gula da fome, nos chocolates com café;

a vida escorrega na raiva, na falta de poder, no excesso de mando…

escorrega na voz que grita, se altera. No som desmanchado da conversa irritada.

a vida escorrega desanimada e se segura: do precipício,

vê o mar…, também as flores. E, sorri… Aventura inquieta de sobreviver/viver esta/nesta danada de vida, uma ida…, também volta. Engana, se esconde desta morte arrumada: suicídio lento na consciência alerta. Escuro. Logo amanhece, a vida. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2020 – Torres

aquarela – Marina Pfeifer

Compreendeu que ela não era apenas íntima dele, mas que agora ele não sabia onde ela terminava e ele começava. Compreendeu – o graças à torturante sensação de desdobramento que experimentava nesse minuto. Ofendeu – se no primeiro instante, mas no mesmo segundo sentiu que não podia ofender – se por causa de Kitty, pois ela era ele mesmo. Experimentou no primeiro instante uma sensação parecida com a de um homem que de repente recebe uma pancada pelas costas, volta – se com raiva e com desejo de vingança, para enfrentar o culpado, mas verifica que ele próprio se machucou por descuido, que não há contra quem ter raiva e que é preciso suportar a dor e amenizá – la.” (p.474-475) Liev Tolstói Anna Kariênina

Afinal as dores ardem no ardor do corte, da dúvida, do desconcerto de acertar. A vida se surpreende na coragem. Há que saber amenizar o caminho sem medo, dos atalhos (talhos), encontrar saída e alívio. Depois, devagar, apagar o suicídio que atropela, e cobrir o tempo com flores…, recomeçar até cansar.

não

Não, eu não estou levando/tendo/sentindo uma vida como deveria ser: está tudo fora do lugar: coisas e sentimentos. O gosto e o tato se perdem, e o calor e o frio se misturam. A estupidez não muda nada, e as palavras são ora bolas coloridas, ora caixas vazias. O livro ferrolho. O filme se arrasta, e a beleza não significa… Sinto dor pelo corpo, como se fosse um Pinóquio a ser puxado por cordames desajustados. Não, não, as coisas estão irreconhecíveis. A caminhada penosa, joelho dói. O silêncio escreve injurias, e teu sorriso se apaga triste. Beth Mattos – novembro de 2020 – Torres