Confissão

A verdade e a palavra se cruzam numa trança azul, e a mentira dança exibida. Porque tudo pode ser sigiloso e vaidoso ao mesmo tempo. Há tempo de negar e tempo de afirmar. “É divertido concordar; é divertido discordar; e é sempre interessante saber o que um homem inteligente tem  dizer a respeito de algum escritor, Henry More, por exemplo, ou Richardson, que nunca tivemos ocasião de ler. Mas a única coisa importante num livro é a significação que ele tem para nós;pode ter outras e muito mais profundas para o crítico; mas, assim de segunda mão, pouco nos aproveitam. Não leio um livro por amor do livro, e sim por mim mesmo.” (p.93-94) W. Somerset Maugham Confissões

“As pessoas são difíceis de conhecer. Demanda tempo levá – las a contar o fato peculiar a seu respeito e que possa nos ser útil.” (p.94)

As pessoas nos cercam como se fosse possível agarrar, descobrir, usar e seguir. Não é possível. Explicar a relação pode ser o mais complicado: o neto te seduz, resolve todos os teus problemas, abre as trincheiras para a minha guerra, mostra o alvo, e pronto, desisto de atirar, vou morrer de fome, sem vontade, vou penar a me arrastar pelo atalho. O outro neto sorri tão alegria que sucumbo. A filha desenha, faz a música subir até minha janela, e eu não respondo. A outra explica como fazer e dizer, obedeço. Há um caminho secreto e particular. A cada filho um segredo secreto e evidente: não se misturam; somos muitos, e os mistérios, as mágicas possíveis sem receita. Como azedar o Presidente, elogiar ou enforcar, não tem eco, nem som, e a banda toca e passa. Céus! Esta morto. Tanto barulho faz com que não escute. E se me estendes a mão, posso viajar no teu barco,  mas não te assuste na baldeação. As pessoas são assim, leves e flutuam, ou se afogam longe do mar. Ou ficam numa ilha inesperada, sozinha. Nada que salva pode ser definitivo.Te cuida. E aquieta. Observa. Todas as surpresas serão amanhã. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2020 – Torres

Marina Tsvetáieva

Como aconteceu? Oh, meu amigo, como aconteceu?! Atirei -me, o outro respondeu, ouvi grandes palavras- mais simples do que elas não há – e pode ser que eu as tenha ouvido pela primeira vez em minha vida. ‘Uma relação?’ Não sei. Estou comprometida também com o vento, por entre os ramos. Das mãos – aos lábios – e onde está o limite? Existe, aliás, o limite? Os caminhos da terra são demasiado breves. O que sairá disso? – não sei. Sei: uma grande dor. Vou ao encontro do sofrimento.” (p.298) Marina Tsvetáieva Vivendo sob o Fogo

erotismo

Erotismo. Dinheiro dobrado abraçado no/em coragem de amar. Os travesseiros ocupam a cama: espalhados, marcam o corpo. A vontade decide, levantas a voz. Enternece teu poder, e obedeço. Mestre silencioso. Músculo obediente e mãos abertas. A palavra vai laboriosa a procura de silencio. Atendes devagar. Vontade atravessada pelos dedos. Alegria se abre no corpo. A voz se desmancha na tecla. Permissiva ordem. Atendo atenta e acordo. Doas e depois organizas. Decides / domas e doas. O corpo vibra entrega, relaxado e feliz. Devagar vagando já tem peso o cheiro das margaridas amassadas. Nada vai faltar. A loucura vibra outra vez. Acompanho o silêncio perfeito do gemido, em letras soletrado. Nada irá me faltar, e eu danço. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2020 – Torres

Auto-retrato

Dificilmente temos consciência do que é significativo em nossa própria existência, e isso certamente não debe preocupar nosso vizinho. Que sabe um peixe sobre a água em que nada a vida inteira?

O amargo e doce vem de fora, o penoso vem de dentro, de nossos próprios esforços. Na maioria das vezes, faço aquilo a que minha própria natureza me impele. É embaraçoso ganhar tanto respeito e amor por causa disso. Setas de ódio também foram disparadas contra mim; mas nunca me atingiram, porque de algum modo pertenciam a um outro mundo, com o qual não tenho nenhuma ligação.

Vivo naquela solidão que é penosa na juventude, mas deliciosa nos anos de maturidade.” (p.5) Albert Einstein Escritoseiiiiiiiiiiiiiiiinstein foto.jpg

 

espias

Sem mil bobagens sem voltar /nem ir, uma  estrada floresta. Abrir picada, e sem descanso, eu te abraço e te beijo a cada metro, muito muito muito, e segues! Que posso eu fazer? Vou atrás a te cuidar. Espias! Vai, vai, caminha, um dia depois do outro, no outro, nós chegamos. E tu me abraças e rolamos pela grama. E tu me abraças! Alguém te perdoa, e te abençoa. Outra vida. Oura vida teremos, não me importo.Elizabeth M.B. Mattos – abril de de 2020 – Torres

sou eu

Sem vontade de inventar, sou eu. Nada mudou nem mudei. Faltam os espirros. E o  lagrimejar, a dor de cabeça e ser  diagnosticada. E se for irei. Sem despedidas neste ter de seguir / ir.

Passei o dia inteiro pesando em ti. Calçadas nossas, e combinações calculadas; inteligente e saudável, os dois com os pés na areia, a rir. Sem precisar fazer contas. Sem pensar em amanhã ou depois. Beijos e beijos, beijos e beijos.

Sem vontade, aos pouco, entre o nada e o muito, entre…, que importa? Eu te espero, durmo menos hoje porque ontem dormi demais, não leio, não aguento, sem a mínima concentração, li tanto antes, li tanto, nenhuma vontade agora. Não escrevo , não sei o que escrever, não penso, eu me debruço em ti. Prisioneiro de tantas bobagens e  penduricalhos do tempo. Dinheiro importava, não importa. Não importa, droga! Faço panquecas e abro um vinho, rimos. Atravesso o tempo. Não imaginas quanta tanta quanta enormes gigantes saudades sinto das tuas palavras, e tu amordaçado, meu querido. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2020, em noites tépidas, lindas, perfeitas e nossas…

Palavras chaves: inteligente e saudável. Droga! Perdi tudo. E tu te importas, claro que não.Vamos nos ver sem cálculos nem lógica. E estou morrendo, morrendo devagar não me importo, nem te importes. Saúde precisamos para amar, senão…Deixa o tempo levar!

 

finalmente

Olhei para ele: estava mais velho, mais velho que ontem ou antes de ontem do que poderia ser envelhecer. A roupa desleixada, mas o olhar não era triste, nem infeliz, nenhuma gota de amargor. Nos braços o pacote, também flores, e a correspondência. Dois livros. Agradeci. Em casa preparei um chá. Não tinha fome. Nem vontade de folhar uma revista, olhar pela janela ou. E a televisão? Talvez eu fosse uma das poucas pessoas que não assistiram um filme nesta semana, nada. As notícias entram pelo rádio. Um velho hábito. Estou cansada. Fisicamente dolorida, o apartamento estava sujo, então eu limpei devagar: urgente, amanhã termino. E poderia ser diferente, sigo pensando. Poderíamos todos envelhecer devagar aos sorrisos.  Os cravos e as rosas no vaso e o perfume se mistura com o aramo das goiabas. Lembrei que a mãe detestava cravos. Talvez por serem amassados e tantos tingidos, ou porque deveriam ter enormes canteiros de cravos em Guaíba. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2020 – Torres e agora chove

o sopro

image 2 interessante.jpgFarelos, fragmentos ou estranhezas.

Não estás em lugar nenhum. 

Será que ainda te reconheço?

O moço de olhos azuis, ou são verdes? Apressado, gelado. Eu te aqueço.
Abro o baú do tempo e retiro a manta que tua mãe tricotou.
Perdi o você depois que te conheci,
Nem sei por que cedi.
Elizabeth / Beth Mattos e penso nesta coisa complicada dos nomes F.H.T. Um nome, uma pessoa, outra, e depois ainda outra… Mudar na ventania, desaparecer no mar… Em abril de 2020 / Torres Lagoa do Violão sem frio, com epidemia a rondar.

A Blusa Amarela

“Do veludo de minha voz
Umas calças pretas mandarei fazer.
Farei uma blusa amarela
De três metros de entardecer.
E numa Nevski mundial com passo pachola
Todo dia irei flanar qual D.Juan frajola.

Deixai a terra gritar amolengada de sono:
Vais violar as primaveras verdejantes!’
Rio-me, petulante, e desafio o sol!
Gosto de me pavonear pelo asfalto brilhante!’

Talvez seja porque o céu está tão celestial!
E a terra engalanada tornou-se minha amante
Que lhes ofereço versos alegres como um carnaval
Agudos e necessários como um estilete pros dentes.

Mulheres que amais minha carcaça gigante
E tu, que fraternalmente me olhas, donzela.
Atirai vossos sorrisos ao poeta
Que, como flores, eu os coserei
À minha blusa amarela!” Vladimir Maiakovski
1913 – tradução de Isadora Coutinho Guerra

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