voltar amanhã

Se eu te explico a fantasia/ o sonho ou alguma coisa do outro lado… Acredito/penso/imagino na justificativa para correr/ ou mudar/ ou inventar outra vida. Nós dois. (tão bom poder pensar / ter esta alegria de resolver…, acreditar que eu posso/ que eu consigo, tu me perturbas!). Mudar de casa pode ser, ainda, ainda uma vez, reinventar o caminho/viajar/procurar. Esta inquietude fantasiosa não se explica com palavra, melhor seria soltar balões coloridos ou todos brancos, ou todos vermelhos. Soltar balões pela janela. E se o vento conversa com balões a minha vontade se desgrudaria e iria junto pelo céu. Voltar a Porto Alegre, morar em Porto Alegre! Porto – chegada, Alegre – feliz! Estou  ainda, outra vez, a divagar. Do porto saio / embarco, e posso voltar, ou não voltar.  Quando este calor viajar, voltar pro lugar dele, sair por aí… Irei caminhar. E Torres deve me abraçar outra vez. Tens razão! Estou melhor em casa. Vais gostar do apartamento com este jardim iluminado, envidraçado, quase farol! Ou…Todas as histórias se prendem no ir e voltar. Eu sei que vais / estás a entender. E nós dois deitados, no sonho, contaríamos outras/ muitas histórias proibidas, e de meninos, de jovens vestidos de gala dançado, ou na areia, no jogo, no mar. E rir e lembrar enganaria a blindagem de ser como é/do jeito feito, acabado. Sim, tu tinhas uma casa em Torres. Como ia ser bom voltar! Beth Mattos (amanhã faço correções)

passos

Não desejaria a ninguém que fosse eu.

Só eu sou capaz de me suportar.

Saber tudo, ter visto tanto, e

Não dizer nada, ou quase nada.”

Robert Walser

Passo apertado: solução pacífica!

O medo se encosta naquela sombra.

A resposta me abraça!

Vou conseguir!

Beth Mattos 2020

Confusão ao abrir a porta Carta Três (3)

Este tempo aberto, meu, possessivo. Sempre tempo. Droga! Aquilo que adquiro se desfaz, quero mais, quero outro, quero tudo. Droga! Materializa. O tempo de querer resultou numa infinidade de contratempos, desencontros e equívocos.  Já nesta carta voltaria… Alguém mencionou Messalina! Fiquei quieta. Não escorreguei na casca de banana da calçada. Nem fiz tanta coisa que pensei querer fazer, reservei tudo para os cadernos pra depois… Ninguém entende nada. A vida tem que correr nos trilhos que estão ali, desvios não….Claro! Sim. Desvios que estejam em trilhos! Putz! Difícil pensar. Ler também confunde. Atrasa o processo, escurece por dentro e, paradoxalmente, estou numa clareira evidente, aberta. Esqueci de te contar do livro de J. M. Coetzee (ainda). Leio aos solavancos. Já te contei da precisão e deste jeito perfeito, adequado de escrever o essencial sem adjetivar e se pavonear. Dizer. Esta aula não termina. Estou quase a desesperar no tempo. Escrever sem ler, ler para escrever. Ficar e sair andando a fazer. Difícil! Por que volto sempre ao que eu leio? Porque não aprendi a nadar, nem andar de bicicleta, nem caminhar, muito menos sei usar o patinete. Estou sempre sentada esperando para nascer. E nascer não chega. Quanta preparação! Não desisto. Voltei para te contar de Robert Walser e da loucura dele.  Elias Canetti escreve: “Eu me pergunto, se entre todos os que constroem uma vida acadêmica confortável, segura e regular a partir da existência de um escritor que viveu na miséria e no desespero, existe um único que sinta vergonha de si mesmo.” Mecanismos internos é o nome do livro de Coetzee. Sei que estás a me achar confusa, irritante, aleatória ou dispersiva. Aiiii! Ai! Sou tudo isso. É a tal da bolha! Não sei arquitetar porque não sou arquiteta, advogar, o mesmo. Construir, não fiz engenharia. Administrar! Ufa! Não conheço os números. E a vida passando. E não li. E não conheço a Suiça nem Walser. Beth Mattos – janeiro de 2020 – desculpa! Esta carta se perdeu nela mesma. Amanhã eu te conto o que me aconteceu quando abri a porta.

Carta dois(2)

 

2.

O mar enfrenta, desafia. Ele se impõe. Mar lavrado, azul, verde, turbulento, calmo, transparente, com renda sem renda. Perigoso ou amigo. A voz do mar enlouquece, acalanta, conversa. Sem se interromper vai dizendo, sublinhando, e o sol responde. Quando escrevo ou te conto/digo deste verão escorrega inquietude, ou solidão, ou exagero, ou fantasia. Não sei. Escorrega.. Por mais que tenha procurado, não encontrei o tal caminho… Areia queima, apaga e… Ontem os cães latiram durante a noite. Eles escutam o que não ouço. Eu já disse. Enlouqueço, depois esqueço de ser louca e volto a cozinhar, lavar, passar e dobrar. Tirar o pó. Aspirar. Estas coisas todas evidentes e corriqueiras. Normais. Escolhi o feijão. Coloquei de molho. Molhei as plantas. Troquei os lençóis. E perfumei a casa. Como te escrevo todos os dias, às vezes, nem sempre, o assunto esclarece, mas morre porque esqueci. Esta coisa de morrer assusta, não consigo aceitar o natural, o simples, esbarro na prepotência. Quero a realeza e a liberdade. Esta coisa de ter que escolher me aborrece. Sou rainha, sou mulher, e sou gente entre gente, comum, sem palácio, nem obrigações, sou eu ora! Ora, ora nunca sei me explicar. Tenho casa é verdade. Boas roupas, também é verdade. Empregados. Carro/ automóvel, prata, cristal, boneca, fantasia, ideia. E tenho amante, marido, filho, irmão, tios, mãe e pai. Madrasta e padrasto. E muitas, muitas, muitas respostas! Hoje estou louca. Amanhã eu volta tranquila. É o calor de verão. Não se mexe, brinca de estátua, dá risada. Beth Mattos em janeiro de 2020

Carta um(1)

Carta 1

Se estou na praia, determino, mentalmente, que o ideal/perfeito seria a montanha. Quando as vozes me atropelam quero a angustia do silêncio vazio. Ou seja, esta danada idade de setentar é uma tentativa audaciosa e covarde ao mesmo tempo. Não me proponho a enfrentar. Sabes bem que antes eu me enfeitava de fazer, de limpar, de arrumar e comprar flores na feira de sábado, picar frutas e comer espinafre. De um certo modo bastava isso. Se alguém telefonava para contar do calor, do frio, do excesso de trabalho, ou da falta de dinheiro, eu podia/posso/poderia acolher. Mas o que pretendo te dizer hoje nesta primeira carta, a número um deste ano. Não me satisfaz, não me aquieta, não melhora meu sono. Ou melhor, estou péssima. Indiferença mortal definitiva fez/faz um círculo a minha volta, estou prisioneira. Gostaria/deveria ter podido estudar e entender a matemática e seu número infinito, ou a lógica, e as certezas. Ao contrário… Desaprendi com o passar dos anos a escrever e a ler. Assim, a fragilidade dos desenhos são meu único refúgio. Sim, seguirei a te escrever em áudio. Terás a minha voz a te contar o que importa. De manhã, altiva. A tarde já querendo te segurar. De noite  a voz estará/será escura. Um beijo com saudade e aquelas despedidas todas que se fazem necessárias ao escrever. Beth Mattos, reduzida ou Elizabeth M.B. Mattos, como preferes. Janeiro de 2020

Tereza

A sala menor, embora todas as janelas estejam abertas o sentimento de apertado, estreito, sufocante se faz maior. A sala grande é o olhar arregalado de Tereza. A sala em desordem. As vozes apertadas nas cadeiras, as mesas cheias de sussurros, e as estantes lotadas de livros e de saudade. Saudade: palavra gasta, sem sentido algum, usada de alavanca para os mais variados sentimentos.

Sem mobilidade. As pernas inchadas pelo calor, os braços pesados e a voz. Bem, a voz treme, ou soa como trovão, e de repente se derrete esvaziada.  Depois os gatos e o cachorro se encarregam de se fazer entender, também eles agitados, e, paradoxalmente, passivos. É o calor. Excesso de verão. A grama seca, as árvores silenciosas, sem flores no canteiro. O muro pequeno deixa passantes espiarem indiscretos o mobiliário, a cama em desordem. Exposição.

O quadro não termina na moldura, como se o infinito pintado, desenhado não existisse, o marrom se acinzenta e fica branco, com manchas amarelas. Aquele sofá vermelho e as poltronas floridas conversam. A mesa retangular com as seis cadeiras em ordem. As frutas, uvas, melões e abacaxi apoiado nas bananas perfumam a casa. E M.B. Mattos – janeiro de 2020, o começo /início e gorda ideia

não devolvi Luiza, teu Depardieu

Lembro da tua pequena e preciosa biblioteca. Sempre o especial. E me beneficiavas. Eu não gosto de emprestar livros, não voltam, ou se perdem no caminho da possibilidade de voltar… Não gosto de ler livros emprestados. Somem na minha casa, e não posso riscar escrever, ou maltratar. Este livro do Gérard Depardieu As cartas roubadas é teu. Cartas/ correspondência -, já me identifico.  Beth Mattos2020-01-12 08.41.40.jpg2020-01-12 08.41.55.jpg

Amanhã, a partir da aurora… Quando era criança,tinha um medo horrível de ser surpreendido pela escuridão. Quantas vezes andei até me sentir esgotado, até dormir em pé para evitar de me encontrar sozinho com a natureza. Na minha imaginação, os barulhos da noite, os gritos dos animais, as árvores, o vento, viravam barulhos humanos. E tinha certeza de que ia ser levado, transformado pela natureza em rochedo vivo, ali mesmo. De manhã, quando o dia se espreguiça, estou sempre acordado para assistir ao seu despertar. Na África as árvores começam a se mexer às quatro horas da manhã. Gosto do campo muito mais do que do mar ou da montanha. A praia me dá nos nervos. O sol me irrita, me tira do sério. Gostaria que ele me deixasse em paz um pouco. Não há nada mais vulgar do que este sol cartão-postal. Só me sinto a vontade nas praias do Norte, onde os sóis são frios, recobertos por uma leve camada de geada. O calor me mata. Sou uma planta, uma planta como a hortênsia, uma planta de sombra. Ou então um ciclâmen selvagem,é mais sutil e cresce nos bosques. São espécies de florzinhas que ainda não abriram, muito delicadas nas suas cores. A montanha não me convém muito. Sou alguém que atravessa, não tenho espírito de escalada. Não sei subir, tento sempre contornar. Prefiro chegar às alturas e outras maneiras. Sou mais sensível às virtudes iniciáticas do deserto, é uma escola de humanidade. Durante a filmagem de Fort Saganne, na Mauritânia, construí para mim um jardinzinho do tamanho da minha mão. Bastam dois grãozinhos e a vida recomeça.[…] (p.101-102) Depardieu