


dinheiro X poder
Detalhes eram/são o essencial. Posso olhar devagar, num relance, identifico. Também a risada, o tom da voz e o estabanado dos gestos, aquela intimidade casual. Se é servido quer o tudo, e mais. Se tem acesso, abusa de caixas fechadas. Até dos livros das estantes. Da geladeira, e também das janelas. Está em todos os lugares ao mesmo tempo.
A cada estrela um cuidado novo/diferente. Estrelas são determinantes. O tamanho da mala também. O dinheiro amolece. Servilismo, doçura, qualidades. A dança supera a música. Mesa farta, presentes cintilantes; deslumbramento. Levemente infelizes, mas… A pessoa que se desconhece, veste qualquer fantasia e segue o Carnaval. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro – 2020
maternidade
“Amar com toda a alma e deixar o resto ao destino, era a regra simples que ela seguia.’Vot zapomni [agora lembre]’, ela dizia em tom um tom de conspiração ao chamar minha atenção para esta ou aquela coisa de que gostava em Vyra -“ (p.39) E eu me pergunto se existe um momento, um minuto em que deixo de carregar a maternidade… Será que transferi aos netos? E apenas bordejo o sentimento sério de contar/escrever/transcrever o que vou sentir quando vieres me visitar, e quietos tentaremos encontrar os sonhos, os pastéis e todos os sucos da nossa lembrança porque fecharei os olhos e serei menina, e tu poderás apenas sorrir, feliz…Vamos fazer a roda e vamos nos dar as mãos.

Foto de João Brentano
Mater / mãe e continuação. Algumas leituras e tantas voltas eu sinto na continuação… Este sentimento a germinar/abrolhar protetor e vigilante a crescer na maternidade: filho e mãe /abraço. Estou a ler devagar FALA, MEMÓRIA de Vladimir Nobokov. Ele escreve com a riqueza russa se posso explicar deste jeito, um vocabulário da elite e não se inibe em descrever o luxo com que viveu, e a delicadeza se estende aos pais, principalmente a mãe. “Minha mãe tudo fazia para encorajar a sensibilidade geral que eu tinha pela estimulação visual. Quantas foram as aquarelas que pintou para mim; que revelação foi quando me mostrou que a árvore lilás brota da mistura de azul e vermelho! Às vezes, em nossa casa de São Petersburgo, de um compartimento secreto na parede de seu quarto de vestir (e no qual nasci), ela retirava uma massa de joias para minha diversão à hora de dormir.” (p.36) E eu me dou conta que filhos e netos, estão cravados na minha vida tanto quanto um dia me senti cravada/apertada/colada na vida de minha mãe e do meu pai. Se oscilo na curva e no encanto, e na incerteza e no absoluto do que entendo amor, estou agarrada nesta luz. E as histórias de insônia, de espera, ansiedade e alegria genuína pertencem a eles (ao pai e a mãe e aos filhos e aos netos). As mães sentem veem com tanta nitidez a nebulosa de um filho! A maternidade. “Por baixo de meu delírio, ela reconhecia sensações que havia experimentado em si própria, e sua compreensão levava meu universo em expansão de volta a sua norma newtoniana. […] e ao escrever isto me volta o toque desta ternura reticulada que meus lábios costumavam sentir ao beijar o rosto dela – voa para mim com um grito de alegria vindo do passado azul de neve das janelas azuladas (cujas cortinas ainda estavam bertas). […] Poucos minutos depois, ela entrou no meu quarto. Trazia nos braços um embrulho grande. […] Ora, o objeto se revelou um gigantesco lápis Faber poligonal, de um metro e vinte de comprimento e grossura correspondente. […] Era, e alguns anos depois satisfiz minha curiosidade fazendo um buraco do lado para descobrir que o grafite percorria toda a extensão do lápis – um caso perfeito de arte pela arte da parte da Faber e do dr. Libner, uma vez que o lápis era grande demais para uso e, de fato, não era destinado ao uso.” (p.38) Não transcrevo a página inteira, quero dar apenas uma leve ideia da beleza e cuidado com que Nobokov escreve estas memórias zela/cuida para que os detalhes sejam preciosos. Nesta lembrança a mãe. Estes laço de amor extremo é a costura da Arte da Lembrança – significado de Vida. Então eu costuro a rua Vitor Hugo os desvelos da minha mãe. Ela deixou de ser ela para estender/esticar o mundo das filhas. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2020 Torres – Tenho este luzeiro aceso enquanto filhos/netos se agitam a buscar o caminho. E na fantasia estendo o braço, as palavras para a fantasia do parceiro invisível, mas são eles que abraçam / beijam e zelam e acompanham. Bonito fruto – família, sempre podemos esticar a mão.

Ainda existem aveleiras

“Ainda é possível, para além de todas as fronteiras, partilhar alguma coisa do mesmo verde de todas as fronteiras, partilhar alguma coisa do mesmo verde um pouco adstringente que envolve as avelã; ainda é possível é possível fazer brotar alguma coisa que crie um vínculo, como a simpatia…Velhice é o espaço que nos separa tenuemente da morte; mas dispomos de escolha, durantes breves minutos, entre nos imobilizar pouco a pouco para dar lugar em nossa vida, ou então, ao contrário, confiar em alguma coisa verde…” Robert Kanters
Estou envelhecendo, rápido. Quando espio o espelho, ou tento tirar uma foto: eu me assusto. Eu me assusto. Ainda acredito nas surpresas de amor. Podem acontecer. Revejo e repasso com ternura as fotos. Olho o verde das pitangueiras, e colho as frutinhas com brejeirice: posso escorregar no perfume do gramado. Volto a pensar na cera do assoalho, nos lençóis perfumados, no sol atravessando os travesseiros e nas manhã penduradas no sono. Sinto o gosto da xícara de café e desejo uvas, geleias e pão fresco.
” No entanto, não me sinto velho. Ignoro se os homens de minha idade tem a mesma impressão que eu. No fundo, parece que permaneci um garoto“(p.113)
De certo o J. não vai ler os livros, não importa. Nem vou escrever uma história. Não tenho tempo porque envelheço tanto a cada amanhecer! Nem os dias serão mais ou menos esticados pelas minha fantasia. O mundo se encolhe progressivamente…,mas eu gosto de te escrever como se teus olhos percorressem o texto e o meu corpo, e eu toco no teu rosto. Elizabeth M.B.Mattos – fevereiro de 2020
de volta
Tenho livros de Simenon, ontem eu me reencontrei com Ainda Existem Aveleiras. Já tarde, sem sono, depois de uma conversa comprida com J. abri o livro:” Naquela manhã, sentia -me eu mais ou menos feliz do que nos outros dias? Não tenho ideia e a palavra felicidade já não faz muito sentido para um homem de setenta e quadro anos.” (p.7) E não não consegui parar. Gostei muito e muito do livro nos anos 80, e dei de presente para a mãe, ela fez uma dedicatória para o pai, e ficou na biblioteca torrense deles como os livros do verão, George Simenon. Eu o guardei. Não. Claro que não pensei que o releria. Tantas leituras interrompidas, em fileiras, em espera e… Eu reli. Estou nas últimas páginas tomada de prazer. Interrompo para escrever. E a cada parágrafo sinto o interesse e a volta. E vou até o apartamento com “o carpete bege”, o aspirador sendo passado, a xícara de café preto. A descrição do apartamento me trouxe a casa da Vitor Hugo, o pai e a mãe, o espírito, e a certeza de que somos este pedacinho de passado resistindo… Tanto tempo para entender a essência!Estou com o hábito de anotar as idades dos personagens e vou a me arrastar atrás das impressões velhas, usadas de uma vida, e ao mesmo tempo, esfarrapadas porque envelhecidas. Céus! Ainda somos os mesmos, Como nossos pais, como diria Belchior na canção… Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2020
https://www.letras.mus.br/belchior/44451/#album:20-supersucessos-2004
corajosa
Beleza corajosa, a beleza livre se transforma em beleza fictícia, irreal. E o prazer chega/cresce/ transborda inteiro, perfeito porque o sentimento bafeja e a luz ilumina. Não chove, mas venta um amontoado de folhas coloridas, e areia tão fina no vento, esvazia a praia. Confetes de Carnaval. Vozes saem das calçadas e se penduram nas árvores. Deve, logo, escurecer. Este meu sono virado e azul! Elizabeth M.B. Mattos – Tanto trabalhado espalhado, apenas inciado…, amanhã retomo. Fevereiro de 2012 – Enjoada como se o gosto estivesse preso no meu olhar. Vou fechar as janelas. A leitura Las Hortensias de Filisberto Hernández sem foco. Já deveria ter sido feita, agora eu estranho.
“Aquella hanitación seria un presidio en un castillo, el piano hacia ruido de tormenta y en la ventana aparecia, a intervalos, un resplandor de relámpagos; […] “( p.16) Felisberto Hernández, Las Hortensias
de Lispector
“Mas voltemos a hoje. Porque como se sabe, hoje é hoje.[…] Tenho um arrepio de medo. Ainda bem que o que vou escrever já deve estar de algum modo escrito em mim. Tenho é que me copiar com uma delicadeza de borboleta branca” (p.26-27) Clarice Lispector em Macabéia e nos meus velhos recortes de tentar, tentar escrever sem ter nada, absolutamente nada para dizer. Gosto de me enfeitar de palavras, já um vício.
Espero tua mão na minha mão. Depois, nem sei. Que este desanimo pesado desapareça no sorriso na vida. Elizabeth M.B. Mattos quase Carnaval num verão que escalda e depois congela, ou quase…
cartinhas 2004
PORTO ALEGRE, 26 de maio, 2004 (amanhã é aniversário da tia T.) J., meu amado, eu te escrevo às pressas, nem consegui fazer a carta do L.. Recortei um carro para ele, e outras figuras: eu quero que tu adivinhes o por quê… Isto é, para cada figura tu contas, imaginas, uma história. Faz o exercício. Assim, tu e o L. podem conversar sobre isto. Conta histórias para ele – verás como ele pode apreender. Depois, um conta história para outro, e logo ficarão craques, como no futebol. Eu tive um irmão preto que fazia isto comigo, o nome dele era ODILON, pergunta para a mãe. Tinha um riso branco engraçado. Nós brincávamos juntos. E ele me contava histórias de fadas de bichos. Amanhã te escrevo mais. Vou me arrumar para sair. TE AMO, TE AMO, TE AMO e te amo.
1983
1983 – Porto Alegre
“Parece que o Homem, condicionado pelo inconsciente coletivo, encaminha-se para um fim inexorável. Através dos tempos, inspirados visionários inculcaram no espírito do homem a idéia do apocalipse. Meu trabalho é uma homenagem às mulheres que se deitam acorrentadas nas ruas do mundo para gorarem os ovos da morte, semeados pela terra. Esta carta também é um grito e um gesto de solidariedade aos que dizem NÃO à prepotência, NÃO a arrogância do forte, NÃO ao holocausto. Falo apenas em nome da vida. Não tive a intenção de ser original. De propósito, empreguei velhos símbolos, como a criação do homem de Miguel Ângelo. Nesta hora que importa é ser claro, repetitivo, para ser compreendido por todos. “ Porto Alegre, 1983 – IBERÊ CAMARGO
com o coração
ARTIGOS DE JORNAIS a serem investigados:
- OS PASSOS DA ALTA SOCIEDADE
- Duas Décadas de Colunismo: um painel variado e colorido de experiências em um, tempo de muitas mudanças. Gasparotto. Ver documento ZH/GAÚCHOS 20 anos -.04.05 1984 – página 7
NOTAS de ARTE
IBERÊ CAMARGO: Correio do Povo 03-01-1961 – página 8
Fim dos “encontros”, começo da exposição. Sexta-feira última, em ato realizado na Galeria Municipal de Artes, encerraram-se os “encontros com Iberê Camargo”, promovidos pelo Setor de Cultura da Secretaria Municipal de Educação de Assistência, dirigido pela professora Istelita Cunha.Compareceu grande número de pessoas, destacando-se a presença do dr. Carlos de Brito Velho, secretário Municipal da Educação; professora Nair Marques Pereira, alta funcionária daquela pasta; escultor Francisco Stockinger. Professor padre Gustavo Pereira filho, Mário de Almeida Lima, Elley Fernanda da Silva, Ruy Paim, Alice Breickmenn, Alice Soares e professora Maria Anita.
Falou inicialmente Iberê Camargo. Seu discurso publicamos na íntegra logo a seguir, após Iberê, usou da palavra o crítico Carlos Scarinci, que salientou a importância dos encontros. Depois, foi inaugurada a exposição dos quadros produzidos durante o curso ministrado por Iberê Camargo, em dezembro. A mostra permanecerá aberta até o próximo dia diz, no horário das 8;30 às 11:30 e 16 às19:30. Não há necessidade de convite. Os leitores já se podem considerar convidados.
E agora, eis o discurso de Iberê Camargo:
“Esta exposição é um esforço e uma resposta. Não pretendo fazer aqui uma análise dos quadros que apresentamos. Prefiro assinalar o significado deste esforço e desta resposta que trazem inquietações e rebeldia.
Eu me alegro com esta inquietação e com esta rebeldia que conduzem á criação, condição de ser da arte.
Refiro-me a rebeldia que não exclui o estudo paciente e tenaz, necessário na elaboração de uma linguagem própria e viva. Nestes vinte ano de trabalho em comum, procuramos estudar o desenho, os rumos, a composição, os valores cromáticos e do quadro, enfim, todos os elementos que constituem a linguagem da pintura.
Fomos exigentes nesta busca e também, fomos humildes: abrimos os livros e dialogamos com Kandiski, Legér, Matisse, Braque,Klee, mestres da pintura contemporânea. Para melhor nos informar da evolução dos nossos meios, pedimos e recebemos de Carlos Scarinci uma dissertação clara e concisa.
Agora podemos dizer que o problema está posto: tomamos consciência das nossas deficiências e formulamos nossos propósitos. Este movimento foi uma arrancada. A intenção dos jovens expositores prosseguir associados num atelier livre. Este Propósito já encontrou acolhida no espírito de elite de nosso secretário de Educação da municipalidade, prof. Carlos de Brito Velho. Também contamos com o apoio da professora Istelita Cunha, que teve a iniciativa dos encontros desde a primeira hora, colocou todos os meios á nossa disposição.
Não quero deixar de associar esta iniciativa a professora, Nair Marques Pereira, senhora terrivelmente simpática que participou deste empreendimento. Estas referências eu as faço para ser coerente comigo mesmo: sei aplaudir e sei criticar!
Celebramos hoje nosso último encontro. Quero lembrar a vocês que a pintura é uma amante exigente: ela só se dá àqueles que também a ela inteiramente se entregam. A sinceridade do artista é condição para possuí-la. Sinceramente em arte significa uma expressiva resposta a vida E esta resposta está no meio que também é fim.
A técnica do pintor seria coisa e pouca valia se fosse mero jogo de cores que o espírito não transformasse na forma e no conteúdo vivente da obra e arte. Sim, pintura não é simples jogo de cores, assim como poesia não é simples jogo de palavras.Direi que pintura se faz com a cor, com a forma e com o coração.
Procurei, nestes breves encontros, transmitir a vocês o pouco que tenho com o fim de fazer discípulos, mas com o propósito de colocá-los diante da pintura de hoje.
Aí estão os quadros! Este é nosso esforço. Esta é a nossa resposta.
Com o decorrer do tempo, nossa voz se tornará cada vez mais nítida, mais poderosa porque nós falamos a linguagem do nosso século. Eu agradeço a todos que colaboraram na execução de nosso pano e faço uma referência especial aos jornalistas Rui Carlos Ostermann e José Monserrat Filho, do Correio do Povo e da Folha da Tarde.
A todos eu ofereço a minha amizade.” Iberê Camargo