LIMA BARRETO

Doar entregar compartilhar, alguma coisa assim de intimidade e liberdade. Gostei do que Lima Barreto escreve sobre críticos leitores! Ler e dizer e escrever deve ser luxo e liberdade.

Um crítico não tem absolutamente direito de injuriar o escritor a quem julgar. Não se pode compreender no nosso tempo, em que as coisas do pensamento são mostradas como meritórias, que um cidadão mereça injúrias, só porque publicou um livro. Seja o livro bom ou mau. Os maus livros fazem os bons, e um critico sagaz não deve ignorar tão fecundo princípio. Ao olhar do sábio, o vício e a virtude são a mesma coisa, e ambos necessários à harmonia final da vida; ao olhar do crítico filósofo, os bons e maus livros se completam e são indispensáveis à formação da literatura.”(p.43) Lima Barreto –Diário ÍNTIMO

Tempos invernosos, com cheiro de primavera outonal. Sim. As estações comprimidas, apertadas num único dia! Polêmica aquecida do certo e do errado, entre o bem e o mal. Não posso me afogar! Sentimentos esgaçados… Leveza!  Incerto amanhã! Dia colorido com sacolas pesadas: alface, alface, alface e couve. Brócolis, beterraba, cenoura, abóbora e batatas! Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

 

WALTER GALVANI

Eu ESCREVO PORQUE…

Por que escrever? Grande e querido Walter Galvanir responde: “…eu acho que tenho uma obrigação comigo mesmo de me comunicar. Eu acredito profundamente na capacidade da literatura mudar de mudar o mundo. Acho isso possível porque considero a palavra o maior instrumento da história do homem. Não existe invenção alguma, nem a roda, que tenha a força da palavra. Acredito sinceramente que, de alguma forma, fomos habilitados para nos comunicar – até por havermos tido mais oportunidades do que o grosso modo da população, que precisa batalhar para sobreviver. Então nós que temos essa possibilidade maior de nos informar, de estudar, de ler, temos obrigação de escrever para botar para fora tudo isso e para estabelecer a ponte com as pessoas.” Walter Galvani – autor de ANACOLUTO do Princípio ao Fim

Estou a remexer /encontrar / reler recortes: no tempo das gavetas e caixas. Guardados. Jeito / forma de voltar ao passado, aos bons tempos, aos amigos e festejar PONTES, atalhos / riscos e estradas, todas a redesenhar o passado, e tatuar a memória com alegria. ElizaBeth M.B. Mattos agosto de 2019 – Torres

acima da polêmica

na polêmica

A prepotência engole as pessoas por inteiro, devora pela vaidade e pela cegueira:  reafirmo. Encontrei / reencontrei Iberê amigo, e agarro os vestígios daquela quarta-feira, 27 de maio de 1998.  Do trabalho com o jornalista Flávio Tavares, no tempo fôlego de algumas certezas… Faz muito tempo! TEMPO volta / surpreende. Esta história deve ser escrita / contada. Diferente e novo, reinvento, volto a pensar no intercâmbio de afetos. Outro caminho, outra ternura, e um punhado de certezas incertas, como diria eu mesma. Elizabeth M.B. Mattos agosto de 2019 – Torres

Com meu filho Pedro M.B. Moog –  na Viúva Lacerda – Humaitá – Rio de Janeiro Iberê Camargo em suas visitas matutinas: café sem cafeina e cigarros mentolados e conversas sobre cores e carretéis 

 

 

 

Depois de amizade de trinta (30) anos, ter trabalhado com os manuscritos de Iberê não foi apenas um privilégio. Foi a nossa intimidade. Nesta falsa polêmica gerada e iniciada pela vaidosa cegueira do professor Massi: vale dizer que demos à obra o título de O Tormento de Deus, ou  Memórias Inconclusas, e foi substituída por Gaveta de Guardados.

 

sem vestígios

Foram teus vestígios nos meus vestígios que acenderam a chama de um amor que nem tu, nem eu, conseguimos sustentar. Enquanto caminho com a Ônix penso em tuas palavras ardidas, e na rapidez com que te apressas a apagar o fogo derramado no meu mar, e depois recuas a preservar tua floresta. Rejuvenesce minha alma a ideia desta tua mágica: estares comigo sem estar, de percorreres meu corpo toda a madrugada. Invisível, visita sensual / sexual. Eu te recebo neste meu entardecer tão dado a meninice de amar! Arrancaste o luto prematuro e devolveste força, um abraço de juventude intacto. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres ainda a te procurar e esperar: se escrevo apressada é para reter / segurar teu olhar. Assim mesmo desconfio / imagino que apagaste todos os vestígios / todas as possibilidades / todos os nomes como que a preservar uma história que se transformou em estória, outra e absurda fantasia! Eu te quero real para logo poder esquecer…

” O amor, a morte e o fogo unem -se num mesmo instante. Através do seu sacrifício no coração da chama, o efêmero dá – nos uma lição de eternidade. A morte total e sem vestígios é a garantia de que partimos inteiros para a outra vida. Perder tudo para tudo ganhar. A lição do fogo é clara: ‘Depois de tudo haveres obtido através da manhã, do amor ou da violência, é preciso que cedas tudo, que te aniquiles’ (D’ Annunzio,  Conemplação da morte).  É, pelo menos, esta a tendência intelectual, assim diz Giono no seu livro Vraie  richesses (p.134) ‘ das antigas raças, tais como os indianos da Índia, ou os Astecas, homens cuja filosofia e crueldade religiosa anemiaram até ficarem totalmente ressequidos, tendo apenas no alto da cabeça um globo inteligente’. Apenas esses seres intelectualizados, esses seres entregues aos instintos de uma formação intelectual, prossegue Giono, ‘conseguem forçar a porta do forno e penetrar no mistério do fogo'” (p.39) Gaston Bachelar A Psicanálise do Fogo

começou como um erro

Estas coisas de fazer e agarrar o talento (qualquer talento), agarrar a vontade de fazer porque não fazer parece mesmo a coisa mais idiota que existe. Então faço, qualquer coisa, uma delas é escrever, outra limpar repetidas vezes tapete, fresta. Lavar louça, e descuidar de mim mesma… Exercício de esquecer, não se olhar no espelho, apenas se imaginar. Bom tamanho! Comer menos, embora pastéis e sonhos, pão redondinho, alongadinho, doce ou, qualquer um, será delícia pura, e as manteigas, todas, de preferência, sem sal, com gosto de leite, ou pode ser geleia, ou mel. Uma xícara de café, preto, não muito preto, nem muito quente, um café esquisito. Como o jeito da vida esquisita do jeito que ela sabe ser. Descobri: ricos não gostam de conviver com quem não tem dinheiro, medo de que comecem a pedir e se apropriar, incomodar a paz de ter. Viver pode ser / ou deve ser acomodar – se com iguais, nos iguais. Haja danadas diferenças e a coisa se arrepia, se agita e se assusta. Nada de muitas ou tantas ondas… Vá lá descansar em ser igual!A genialidade e o talento está plantado na loucura desta idiota procura de fazer acontecer de um jeito especial, mas o jeito, coitado, sempre o mesmo!

“Começou como um erro. Era época de Natal, e ouvi de um bêbado lá da colina, que usava esse truque todo Natal, que eles contratariam qualquer condenado; então fui, e a próxima coisa que me aconteceu é que passei a andar com uma sacola de couro nos ombros e a vagar por aí à toa. Que emprego!, pensei. Maneiro. Eles lhe davam só um ou dois pacotes de cartas, e, se você desse um jeito de liquidá- los, o carteiro efetivo lhe daria outro pacote pra carregar, ou talvez você voltasse lá pra dentro e o bolha da seção lhe daria outro, mas você simplesmente ficava na sua e ia empurrando os tais cartões de Natal pelos buracos. Acho que foi no meu segundo dia como empregado temporário de Natal que aquela mulher enorme apareceu  e ficou me acompanhando enquanto eu entregava cartas.” (p.11) Charles Bukowski – Cartas na rua

Ninguém resiste as cartas, empregos temporários, nem a pessoas carentes de voz de tato de cheiro de qualquer bobagem ou coisa importante, ou nem tanto. Nada consegue ser diferente, os mesmos vestígios. Há que ter o mesmo gosto. A força de querer mudar, o empenho, o nosso olhar lento, ou demorado. Há que se viver patinando em talentos miúdos e gigantes. Em frente. Ainda estamos em agosto, em setembro carregarei as flores, em outubro estarei completamente esquecida de que este inverno gelado aconteceu. A conta da luz será gigante, enorme, assustadora igual. Detesto sair suarenta pela rua, verdade que a opção chuveirada também é boa! Odeio / não gosto de piscinas e o mar…, bem o mar eu gosto, mas fica tão concorrido que desisto. Estou aborrecida, é claro, sucessivas investidas em leitura de romances, agora da Elena Ferrante (pseudônimo) evidencia, nada muda. Muda o jeito / a forma de dizer. As mesmas coisas sempre e, completamente, as mesmas. Os mesmos mecanismos, a boa ideia, mas o  jeito igual de abraçar o abraço. Há que se envolver o dia inteiro com a coragem de respirar e seguir em frente. Sem ideologias alucinatórias. Guimarães Rosa tem razão: viver é perigoso! Avanço. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – ainda em Torres, mas irei a Itália! Na imaginação, é claro! Voltarei a te escrever. Não resisto: tanto te espero! Começou com um erro. Eu te amo no meu engano. Não tem mais importância. Acordo, e me lembro de ti, e te procura na contramão da minha vida e te amo, diferente de como amei antes o jornalista. Tão diferente! Maior. Simples assim. Como a Ferrante, como Bukowiski, um dia eu conto, só pra contar as mesmas coisas que as pessoas contam… Cartas, poemas e fantasias reais, absurdamente verdadeiras, o meu conto de fadas, os muitos (risos), hás de me compreender. Todas fantasiosas.

quando voltas

Quando voltas, eu me ilumino. Alegria cintila. Corro ao teu encontro. Abraço forte e me deixo ficar. Seguras o meu rosto. Olho nos olhos. Castanho sereno este abraço. Espero e espero e espero! Caminhamos em direção a lagoa. Beleza domada. Lembras como era no tempo de meninos? Rimos. Nosso abraço  faz o caminho. Chegamos na praça: a Serra do Mar desenha o horizonte. O cheiro perfumado do silencio. Em casa: janelas abertas. Todo a luz do mundo ilumina nosso beijo. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

risco de lua

O frio me enfeita / embeleza, / deixei a porta entreaberta

Comprei rosas, margaridas.

Enfiei as calças mais velhas,  blusão azul do fundo da gaveta,  tênis de jardim e caminhei entre eucaliptos até chegar a porteira…

Não sei deixar de nos esperar… Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

lindaaaaaaaaaaaaaaaa

 

agosto gelado

Diz / repete mais uma vez o caminho atrapalhado, esboço ou desenho, amontoado de palavra de um agora inusitado. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

 

1.

 

Todos os dias é   =   a nenhum dia. Óbvio incerto. Particularidades? Suponho / acho / penso: somos iguais. Sublinhado fato. Identificação comezinha. Lugar / ponto /estação diferente, mas a mesma manteiga, o mesmo leite aguado ou não, o mesmo pão dormido. Ou saído do forno. As mesmas laranjas e as mesmas bananas. E lá vou tentar, outra vez, ser autobiográfica. Pedaço de montanha, outra de lagoa. Buganvílias, gramado, um cão. Natureza igual, aparência diferente. Sentimento, o mesmo. Classificação por conta de especialista. Desejo igual ao que desejas: somos iguais. Isso apraz. O começo, uma vontade. Nascida na rua Vitor Hugo 229, Petrópolis, Porto Alegre. Jardim jacarandá e quintal. Abraços e beijos na conta das mamadas, do fogo das lareiras, das risadas. Do silêncio festivo atrás da porta fechada, e do escuro do quarto: arrulhos latidos difusas vozes miados. Depois atravesso a calçada. Mergulho na piscina do Tênis Club, ou vou comprar balas no Bar Tupi. Telhados, outros quintais, bonecas de papel, tampas de garrafas, rolhas, azulejos em lascas, corda, bola.

 

  1. Amigos cuidam, incitam a escrever: para eles, palavras e aquela vontade toda de desnudar, ser aceita, ou voltar.

 

  1. Setenta anos com evidências. Alguém vai corrigir: setenta e dois em setembro. Setenta e três? Sou de 1946. Setembro.

 

  1. Amontoado confuso de emoções. E o Amoras, amor exigente galopa. Hoje dia gelado. Amanhece no gosto bonito do sol. Demorei a sair da cama. Quase oito horas. No verão volta inteira na lagoa. Inverno ponte e sol, o limite. Café preto. Lavo a louça da preguiça, deixo outra no balcão. Vou escrever. Lá vai a fumaça azul, como disse, o amigo. Pedra solta sinal voz e cheiro. Não te espanta, sigo tua palavra. E corro atrás de mim mesma para costurar minha sombra, como Peter, o menino que não queria crescer e vive na Terra do Nunca. Corro atrás. Persigo estórias e histórias. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019

amante amado

Não consigo mudar o formato. Igual digo e sublinho. ”Alguma coisa vibrou no coração de Constance: ‘Sou pela democracia do contato, pela ressurreição do corpo!’ Embora não soubesse o que isso queria dizer, fez – lhe bem a frase, como acontece com muita coisa incompreensível.”(p.90)

Livro / leitura revirou alma e corpo. D. H. Lawrence O amante de Lady Chatterley – outro século, outro mundo, mas a alma, a mesma. Amante amado. O que somos no melhor, ou no pior: amando o amor do amado: igual. E.M. B. Mattos – julho de 2019

“- Mas a impressão de um contato pode durar tanto tempo assim? – perguntou Constance de súbito. – A senhora o sente até agora…  – Oh, madame, outra coisa pode durar tanto como a lembrança do sentir, do contato? Os filhos crescem e nos abandonam. Mas o homem, ah! Mas mesmo isto os corações duros querem matar na gente: lembrança do contato.Até os nossos próprios filhos! Quem sabe das coisas? Nós poderíamos ter nos separado, mas o sentimento é coisa diversa. Melhor talvez seja não gostarmos de ninguém. Entretanto, sempre que vejo essas mulheres que nunca foram aquecidas por um homem, tenho a impressão de ver corujas, pobres corujas, por mais que se enfeitem e corram atrás da vida. Não. Nada me faz mudar de ideia. Não tenho grande respeito pelo mundo.” (p.188)

baleias na Ilha dos Lobos

Falei o que devia e não podia, cascata de passado, do que já foi / antes, muito antes e também do depois, não pensei amanhã ou futuro, tão longe! Só conversa: resultado de falação ascende / ilumina / traz de volta vida, pedaço do tempo menina! Quando converso solto, ou confidencio, esqueço limite gentileza polidez. Tudo solto, tão leve! Entregue escorrego nas bolhas coloridas. Conversa e dizer. A visita se alonga por beiradas inesperadas, e já penso nas frutas da feira, no sol de amanhã, nas baleias que veremos lá  alto, do  Morro do Farol. Elas passam por Torres com filhotes. Agosto em Torres: visita  e surpresa! Amanhã vamos ver as baleias. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres