aventura suficiente

Dia de vento e chuva. Tranca-se a porta, fecha-se a janela. Abre-se ao sol, ao suor. As horas gargalham, acham graça delas mesmas. Os fenômenos exageram nos ventos furiosos. Granito. Destelham, afogam, e hoje, o dito tempo, se abre ensolarado, irônico. O mundo gigante de nuvens como me contou a pequena: enormes, entre cores, brancas, brancas, e o preto, o azul, azul…  Ausência e presença. O livro é igual. Qual é a guerra mais eficiente? A cada boa linha, ideia, nova suspeita. Debate intenso que nos violenta. Acorda. Esmurra. Entristece, não vitaliza. Adormeço. O Jantar Herman Koch: incompreensível como o dia. Como a insistência de correr, de parar, de estar perto e longe. Amar um dia, desprezar no outro. Apaixonar-se pela luz de um olhar, modificar-se, apaziguar-se. Adoecer. Adoecer porque dói a dor de não ser tudo. Ser inteiro! Não o mundo está ao contrário, ao teu contrário, ao teu avesso. Vamos costurar estes livros. Lançamentos perdidos, esgotados, uns sobre os outros, a se contradizerem! Guerra de futilidades, de exigências, cicatrizes, internas. E risadas de escárnio! Bolsos recheados de injúrias! Afirmar o que sou assim, aquilo, exijo isso ou aquilo? Não leiam O Jantar de Herman Koch. Aliás! Parem de ler! Não leiam nada, olhem as fotos. As fotos. Ou fiquem apenas olhando, pela janela, o tempo acaba passando mesmo. E olhar já é aventura suficiente. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres texto escrito em Porto Alegre, retomo, o mesmo. O livro se perdeu. Quero reler. Escrever e ler. Obsessão!

amorosidade generosa

Mundo e vida, revoada boa. Dia azul. O frio gelado, beira mar no arvoredo verde da lagoa: maresia gaúcha. Chocolates Praliné depuis 1845 presente festivo / delicado / mimoso. Amorosidade generosa da amiga. Tanto a dizer e a lembrar como rosário: pérola, cristal, ametistas redondas. Perfeito: “ajuntamento das palavras por quem sabe conduzir por meandros mal-acostumados…” E eu já fico a pensar que acostumar dizer e saborear tem gosto de agora no gosto doce chocolate do chocolate. Penso vinho e revoadas. Sinto o gosto gasoso da água. Escorrego feliz…  Deixo sentada, na melhor poltrona, aquela angustia aflita de ontem! Sigo limpando os livros e revirando o passado, gostando deste hoje ventoso. Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

 

LINÉIA no Jardim de Monet : Texto de Christina Bjõrk – Ilustrações de Lena Anderson e Tradução de Ana Maria Machado

 

LINEIA

Aqui te amo

[…] “Às vezes amanheço e minha alma está úmida.

Soa, ressoa o mar distante.

Isto é um porto.

Aqui eu te amo.

 

Aqui eu te amo e em vão te oculta o horizonte.

Estou a amar – te ainda entre estas frias coisas.

Às vezes vão meus beijos nesses pesados barcos

que correm pelo mar rumo a onde não chegam”(p.59)

CARIBÉ

Pablo Neruda  20 POEMAS de AMOR e Uma canção desesperada / om texto original e a tradução de Domingos Carvalho da Silva e ilustrações de CARIBÉ

A veces amanezco, y hasta mi alma está húmeda.

Suena, resuena el mar lejano.

Este es un puerto.

Aquí te amo.

 

Aquí te amo y en vano te oculta el horizonte.

Te estoy amando aún entre estas frías cosas.

A veces van mis besos em essos barcos graves,

que corren por el mar hacia donde no llegan.

O LIVROOOOOOOO

 

 

“A tensão se afrouxou”

Tentativa. Domingo dedicado a festejar os pais. Nostalgia bem própria do mês de agosto. Eu gosto: frio, inusitadamente, dentro de mim mesma, festa.

Escrever e ler, ler e escrever: um caldo. Ferve. Esta explosão se completa: larva de vulcão. Então eu me apaixono pela italiana que escala pequena/gigante aventura.

Havia um cheiro forte de terra enxugando ao sol.” (p.68)

“[…] era o invisível que nos excitava. ” ou “ Não podia acreditar que ele fosse uma pessoa comum, um tanto baixo, um tanto calvo, um tanto desproporcionado, mas comum.”(p.59)

A enxurrada desce pelo meu corpo e o prazer assume sorriso louco de momento. Há que parar, respirar. Largo o livro dou dois passos e me entrego, ainda uma vez, outra, e a manhã não terminou. Repetidas vezes o mesmo sentir. Não basta olhar pela janela, atentar aos ruídos do edifício ou pensar na fome, outra vez. Inquieta recolho a roupa seca do varal. Penso no ferro de passar. Coloco a macaxeira / o aipim para cozinhar, lembro da cerveja que não comprei. Abro o vinho, e vou festejar o gosto da leitura. Esquecida do tempo, das confidencias, desaparecimentos, rupturas e encontros… O dia de hoje, aquele ontem festivo, a lacuna, a viuvez, os casamentos e as separações, a orfandade e o encontro, amigos, amigas. Ser criança = peso avassalador da de alegria feliz. Não importa o como. Somos a possibilidade de. Lembro da Magda, da  Ana Maria, da Nádia, dos chineses que moravam na casa ao lado, dos barrancos na rua Vitor Hugo, da Marlene, dos guris, do Ping-Pong, dos muros e dos telhados, das bicicletas e das bonecas despenteadas. Das aulas de piano, de estar sempre apaixonada! Sem lógica.  Escuta isso e  me diz se não estou certa, se Lúcia e Mabel não estão nadando de lucidez e razão!

Avançamos muito tensas. Depois Lila deu um grito e riu de como o som explodia violento. Desde aquele momento só fizemos gritar, juntas e separadamente, risadas e gritos, gritos e risadas, pelo prazer de ouvi – los amplificados. A tensão se afrouxou. Começou a viagem. ” (p.68) Elena Ferrante – A Amiga genial – série napolitana – Primeiro Romance

Impressionada, agarrada no jeito de escrever solto e detalhado da FERRANTE.

Cortei conexões, voltei para me achar sabendo que não serei inteira, exposta e certa ou explícita, como gostaria de ser. Ninguém consegue ser/ ninguém é curiosamente aquilo que pensar ser: uma representação peculiar de sobrevivência e vida: vivência/experiência/ resolução/ atuação o que cabe/ou se prende dentro da idade: adorei tuas palavras Luisa! (Almoço maravilhoso deste sábado!Eu te disse que ia registrar tua conversa.)

Tempo de respirar pesado. Afinal, descosturo / rasgo o vestido para apreender a precisão. Eu me dou conta das respostas dengosas ou incertas. Até me perdoo. Das agulhas de tricô a me fazerem doer os dedos. Inteiro o sentimento e fatiado. Se confesso amor logo alguém me atropela e pergunta o porquê de dar certo ou errado, ou mais ou menos vivido, esquecido, perdoado, ou cheirosamente lembrado. Deve existir a resposta atenta certa. Hesito e penso e já vou estou com olhar vago e incrédulo para trazer/ o prazer lúcido do porquê, a explicação. Será que os grandes e perfeitos e quentes e cálidos amores terão que, necessariamente, serem para sempre? Não são. Sequer se explicam. Os amores se cortam, são podados. E se estranham e se entreolham no susto e no gozo. E se prometeram / prometem, juraram para sempre, e já não é mais nem o sempre , nem a tal da danada direção de olhar para o mesmo jardim. Aquele com rosas é o mesmo das hortênsias! Exceções. Abnegação. Aquele prazer enorme e completo, espaço aberto, um em direção ao outro, êxtase absoluto? Não. Lampejos. Comunhão? Parcial de bens de mente, ou separação total para que cada um mantenha sua individualidade no dito casamento (viver juntos ou separados por paredes e valas). Estranho dissecar o cadáver. Coisas de amor! Esta escritora italiana (ou escritor), ele ou ela, atrás de pseudônimo remexe a palavra, a infância. O começo particular sem estar na pieguice de beijos e abraços, mas no susto de viver / sobreviver. Hoje importa o esconde-esconde, o leitor se derrama na foto ou na vida particular, nas peripécias de quem escreve, não no texto, pseudônimo resolve. Aquele espiar, vislumbrar, desvendar na letra a pessoa, o indivíduo igual ao vizinho do andar de cima, ao passante daquela calçada. Complicado jogo de fazer e desfazer. E somos todos tão absurdamente iguais, dentro de um caso de visom Yves Henri Saint Laurent, legítimo, ou de uma lã escocesa, legítima. Ou jaqueta jeans, ou até sem casaco, ou nestes casacos americanos / japoneses legítimos. Os mesmos. Como os mesmos perfumes! Os odores. O certo / perfeito e instigante cheiro gente, cheiro pessoa. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

 

várias boas numa só

RAUL SEIXAS e Paulo Coelho

voltas da vida

Raul Seixas – o máximo! deu uma daquelas saudades que afogam, e se espalham.

Escutar tudo outra vez : com certeza, nenhuma certeza.

Tudo————-música

verdades inverídicas apenas poesia / luz: somos tantos, um exército de afirmações

…e logo dúvidas

verdades individuais: quero saber o que pensas

importa / faz sentido uma dupla, uma voz que se oponha! Difícil viver!

Hoje foi um dia de festa e festa e festa! bomboms Lindt mini praunés SUISSE

obrigada Luiza! Delícia! Elizabeth M.B. Mattos 2019 – Torres

  

linha do conforto

voltar para Porto Alegre

hoje me ocorreu…

caminhar pelo apartamento vazio,

e preencher a volta: sensação de para sempre

as voltas e reviravoltas da vida, eu gosto.

 

Torres me escolheu. A Lagoa do Violão o detalhe. Sigo a sonhar com mar, com  infinito, com a rua José Picoral 117 – mas, eu me acomodo olhando a Serra do Mar. Liberdade e eterno veraneio desenhado… Torres se veste de surpresa. O pai e a mãe adoravam esticar o veraneio até março, abril! Sinto saudade dos olhos alagados de verde do Roberto e daquele olhar lúcido de Anita. Desbravadores de amar. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2019 – Torres

 

 

 

mimo de amor

Tempo não define amor. Senti / sinto por ti, por nós ! Foi enquanto foi, tu e eu sabemos de magia. Não quero ser sentimental! O fio telefônico, as frutas,  o vinho e a beleza: nosso contorno. Nosso! Gosto de lembrar dos detalhes. Piqueniques e ceias enormes vagares, e tantas luas! Pequena loucura, grande loucura e o mar! Amas / amaste.  E as águas te levam! Perfume e luxo a se esticar em prazer. Impecável, sempre. Não vou lembrar o que decepcionou / engasgou ou deixou de ser. Soluço apertado,  equívoco de dor doída! Já passou. No tempo significados… Guarda prazer, cheiro e surpresa! E eu te amei, e eu te gostei neste amar. Felizes juntos. Correrias intervalos. Queria não saber que chegou a hora! Eu te quero feliz alegre! Assim te descrevo e te  guardo! Histórias do imaginário! Paixões e  inquietudes! Obrigada por teres sido… Levo flores! Sempre levei / levarei flores e frutas, as preferidas! Presentear / mimo de amor!Elizabeth M.B. Mattos – 2019 – Torres

memória distraída

Trancada/presa/amarrada ou desanimada. Escrever remédio, ou exercício, ou vício. Não sei. Escavar a memória, descascar, procurar, resolver equações, abonar ou dividir entre bom e ruim, não sei. Estou lenta! Busco respostas. Memória distraída!

Pois eu considero nossa memória um elemento que não conserva casualmente um ou perde outro, mas sim uma força que ordena cientemente e exclui com sabedoria. Tudo o que esquecemos de nossas próprias vidas, na verdade, já foi sentenciado a ser esquecido há muito tempo por um instinto interior.

Sentenciar, um bom verbo. Penso sentimentos brinquedos. Casacos, sapatos, bibelôs, claro! Livros e livros, fotografias, diários e tantas cartas… Seguro com as duas mãos esta memória. Voz sorriso doçura alegre, fitas coloridas! Cansada de tanto correr! Estou a sentenciar o silêncio? Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torrestrico livros e buganvílea