atrás da cadeira

Atrás da cadeira, atrás do preconceito, da religião, atrás do aplauso: e vamos diminuindo, diminuindo, invisíveis. Importa o outro: companheiro, filhos, amigos de sempre, os novos, mas o essencial, o  verde, o azul e o infinito é a liberdade possível. Não dominamos sempre, somos passagem… Aceitar com modéstia o que foi colocado nas mãos: facilidade, vida abastada, tristezas inesperadas, coragem ou covardia, carência. Avançar / recriar / reinventar é difícil, mas se deixar ficar parece mesmo desolador. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2019 – Torres

Bariloche a neve e eu

setembro cinzento

Pessoas se cruzam e a energia agarra o possível: não afogues o outro na fantasia da tua vida, nas tuas sombras, e mesmo em tuas inusitadas alegrias! Encontros casuais e fantasiosos eriçam exercitam a partilha, a generosidade do tempo. Se escutas, se ouves te darás conta dos longes, da ventania e da alegria carregada de desejo que está em quem te olha porque o olhar transborda silencioso. Quantas vidas desejamos? Aperfeiçoar as conexões, priorizar o fazer e costurar teus despeçados desencontros. Então, aquele amigo alegre, generoso e traído, volta e posso abraçá – lo na distância do tempo e o meu obrigada será, desta vez mais forte. Eu estava, meu amigo querido, atordoada, não fiz o possível e o impossível, e foste tu o responsável pela minha liberdade.

Inteireza e coragem: ser apenas quem és assusta. Espinhos nos defendem da mesmice do outro, e eu compreendo a natureza das roseias… Naquele momento eu era espinhos.  Hoje não agrado ou desagrado, sou o momento. Exercitar a Elizabeth que estou a reconhecer, encontrar a Beth, rir daquela sombra que me perseguia, não ser meiga nem doce, nem bonita nem feia, apenas existir generosa, atenta, feliz ou infeliz, completa. Descobrir reencontros nos elos perdidos. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2019 – Torres

Quero te estender a mão e tocar teus olhos. Obrigada por me saudar, obrigada por estares atento, obrigada. São estes gestos a diferença…

 

De poemas

O coração tem bordas estreitas

E, feito o mar, se mesura

Por um poderoso baixo contínuo

E monotonia azul […]

 

The Heart has narrow Banks

It measures like the Sea

In mighty – unremitting Bass

And Bleu Monotony

 

EMILY Dickinson – Poemas Escolhidos – Seleção, tradução e introdução de IVO BENDER – (p.69) LPM Pocket

À exceção de Kafka, não lembro de nenhum escritor que tenha expressado o desespero com tanta força e constância quanto Emily Dickinson.” Harold Bloom

vou te contar do sonho de te ter

Enquanto sonho com o sonho, posso te ter. Penso em cada detalhe do desejo e esparramo pela casa teus pedaços de vontade. Depois fujo para o abraço. Demorado abraço. Encabulada, ilustro o teu prazer e o meu. Não posso me frustrar de escrever / descrever e pedir… Ainda aperto teu desejo com o meu no segredo de sermos nós. E não me importo de perder para te ganhar, e te ganhar despedaçada de tanto sangrar. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2019 – Torres

[…] pois tudo que é sagrado possui a substância dos sonhos e das lembranças de forma que experimentamos o milagre das coisas das quais estamos separados, seja pelo tempo ou pela distância, e que se tornam de repente tangíveis para nós. Sonhos, lembranças, o sagrado – são todos parecidos pelo fato de estarem além do nosso alcance. Quando ficamos separados, ainda que não substancialmente, daquilo que não podemos tocar, o objeto fica santificado, adquire a beleza do inatingível, a qualidade do milagroso. Todas as coisas na realidade possuem esta qualidade sacra embora possamos conspurcá – las com um toque. Quão estranho é o ser humano! Seu toque vilipendia embora nele esteja contida a fonte dos milagres.” (p.47) Yukio Mishima – Neve na Primavera  – Mar da Fertilidade vol.I

resmungo

Se o sono não chega, eu te chamo, resmungo. Depois eu te chamo, insistentemente, outra vez. Escuta. Preciso de ti, volta: estejas onde estiveres, volta, preciso de ti… Eu me distraio para não te pensar: escuto rádio, caminho pelo/no nublado, na chuva chuvisco, dou volta inteira. Desço na noite, espio o céu. Tomo banho de prazer, molho a cabeça, enxugo os olhos na toalha. Perfumo o quarto:  cheiros novos e misturados. Reviro na cama, volto ao teu olhar… Quanta saudade sinto de ti! Dos dias que te espero/ esperei, sinto saudade. Belisco os pastéis. Devoro os sonhos. Bebo sucos, escolho doces, e peço todas as empadas de camarão… Quanta saudade sinto de ti e da tua voz e da tua timidez e saudade de te sonhar. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2019 – Torres.

será que virá?

Cinzento dia cinza que amanheceu  e se esquece de ser dia. Não me entristeço estou sol. Acordei arrumando, limpando e me excedendo no café a pensar gulodices e prazeres. Preguiçosa nas leituras, lenta e lenta. Agitada com a vassoura, com lava isso e aquilo (neurose dos cheiros, adoro alfazemas e flores). Vou comprar um ramo azul ou amarelo na feira livre de sábado, vou colorir nas frutas e claro, encerar e polir. Das bobagens envelhecidas fica uma memória que acorda brejeira, e depois do café, se esquece do trágico. Importa se debruçar no imediato da calçada. Ah! Que trabalho tenho para não esquecer, anoto aqui, ali e vou empilhando a memória. E as citações pontuadas não te levam pela mão: esqueço no livro, o último da pilha, mas te digo, estão na correspondência de Sigmund Freud e Anaïs Nin e Miller (Correspondência de paixão) e interrompo o fluxo para responder as cartas que chegaram. Agradeço e festejo! E me divirto antes de passar os lençóis, já com a máquina a funcionar. Sinto paciência no olhar manso da Ônix, eu me agito antes da chuva cair,será que virá? Tanto a necessitamos. Elizabeth M.B. Mattos

“ Se você vier mesmo aqui, provavelmente em primeiro lugar será atraída pelo que cativa a maioria das pessoas de forma exclusiva: o brilhante exterior, as multidões apinhadas, a infinita variedade de mercadorias expostas de modo atraente, as ruas que se estendem por vários quilômetros, a profusão de luz à noite, a alegria e a polidez geral das pessoas; mas para pôr tudo isto em harmonia com o resto tem – se que conhecer muita coisa.” (p.223)  Sigmund Freud

Correspondência de Amor e outras cartas) 1873 -1939

 

Freud

túnel do tempo

Olha o tempo, o pai é aquele apoiado na perna do meu avô

O meu pai é aquele menino que está com a mão no joelho do meu avô Pedro Alexandrino. E neste recorte volta a vida, ninguém se preocupou com o passaporte português… A vida tem desvios, chamamos de caminhos… Atravessamos bosques / florestas e nos deixamos ficar atraídos pela paz de apenas existir, imóvel. Elizabeth M. B. Mattos –  setembro de 2019 – fragmentos

verdade bem grande

“Diego. É uma verdade, bem grande, que eu queria falar, nem dormir, nem ouvir, nem querer. Sinto – me encerrada, sem medo de sangue, sem tempo, nem magia, dentro do teu próprio medo, e dentro da tua grande angústia, o mesmo no ruído do teu coração. Toda essa loucura, se a ti perguntasse, sei que seria, para o teu silêncio, pura confusão. Peço – te violência, na desrazão, e tu me dás a graça, tua luz e calor. Gostaria de pintar – te, mas não há cores, por haver tantas, em minha confusão, a forma concreta  do eu grande amor. F. “(p.205)

Frida Kahlo O Diário – um auto-retrato íntimo

 

 

eu te pedi para não me escreveres

Tu me pediste para não te escrever, tu me pediste para não responder, tu me pediste para ler e não responder. Já passou quase um ano ou são dois? Por que não posso falar contigo, ou te ver, ou te pensar… Vou a me esquecer devagar. Lenta no amor, lenta para dizer, lenta para compreender o porquê de não te escrever, ou de não te ouvir… E não te ver / olhar / olhar bastante e muito.

Ontem te aconselhei que não me escrevesses todos os dias, hoje continuo pensando o mesmo; seria muito conveniente para ambos, e volto a aconselhar – te ainda uma vez, com maior insistência ainda; mas por favor Milena, não me faças caso, e escreve – me igual todos os dias, embora seja uma carta muito breve, como a de hoje, apenas duas linhas, uma só, uma mera palavra; privar – me dessa palavra me custaria horríveis sofrimentos. F.” (p.90)

Ainda aguardo uma linha, a palavra, ou tua voz. Não mudaria nada, eu sei, seguirias onde estás… Tuas proteções interiores resilientes. Não podes dizer, nem pensar em nos querer / não podemos. Este é o jogo. Estas são as regras.

Talvez o que acontece é que ambos estamos casados, tu em Viena, eu com a angústia em Praga, e que ambos nos torturamos inutilmente para libertar – nos de nosso matrimônio.”(p.91)

Não consigo reverter ou mudar tua verdade. Sigo o vento, ou corro na chuva, ou aceito o sol  a queimar. Para o reencontro  a coragem se faz necessária. Aceitar o desafio de recomeçar e recomeçar e recomeçar acelera a loucura. Fica – se no velho e conhecido amor amigo desbotado, desgastado, silencioso, mas conhecido. Eu te compreendo.

Cartas tão breves, alegres ou pelo menos espontâneas como as duas de hoje são para mim quase (quase, quase, quase, quase) o bosque e o vento em tuas mangas e uma vista de Viena. Milena, como se está bem ao teu lado” (p.97) Frank Kafka Cartas a Milena – Editora Itatiaia Ltda. Belo Horizonte – 2000