quando voltas

Quando voltas, eu me ilumino. Alegria cintila. Corro ao teu encontro. Abraço forte e me deixo ficar. Seguras o meu rosto. Olho nos olhos. Castanho sereno este abraço. Espero e espero e espero! Caminhamos em direção a lagoa. Beleza domada. Lembras como era no tempo de meninos? Rimos. Nosso abraço  faz o caminho. Chegamos na praça: a Serra do Mar desenha o horizonte. O cheiro perfumado do silencio. Em casa: janelas abertas. Todo a luz do mundo ilumina nosso beijo. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

risco de lua

O frio me enfeita / embeleza, / deixei a porta entreaberta

Comprei rosas, margaridas.

Enfiei as calças mais velhas,  blusão azul do fundo da gaveta,  tênis de jardim e caminhei entre eucaliptos até chegar a porteira…

Não sei deixar de nos esperar… Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

lindaaaaaaaaaaaaaaaa

 

agosto gelado

Diz / repete mais uma vez o caminho atrapalhado, esboço ou desenho, amontoado de palavra de um agora inusitado. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

 

1.

 

Todos os dias é   =   a nenhum dia. Óbvio incerto. Particularidades? Suponho / acho / penso: somos iguais. Sublinhado fato. Identificação comezinha. Lugar / ponto /estação diferente, mas a mesma manteiga, o mesmo leite aguado ou não, o mesmo pão dormido. Ou saído do forno. As mesmas laranjas e as mesmas bananas. E lá vou tentar, outra vez, ser autobiográfica. Pedaço de montanha, outra de lagoa. Buganvílias, gramado, um cão. Natureza igual, aparência diferente. Sentimento, o mesmo. Classificação por conta de especialista. Desejo igual ao que desejas: somos iguais. Isso apraz. O começo, uma vontade. Nascida na rua Vitor Hugo 229, Petrópolis, Porto Alegre. Jardim jacarandá e quintal. Abraços e beijos na conta das mamadas, do fogo das lareiras, das risadas. Do silêncio festivo atrás da porta fechada, e do escuro do quarto: arrulhos latidos difusas vozes miados. Depois atravesso a calçada. Mergulho na piscina do Tênis Club, ou vou comprar balas no Bar Tupi. Telhados, outros quintais, bonecas de papel, tampas de garrafas, rolhas, azulejos em lascas, corda, bola.

 

  1. Amigos cuidam, incitam a escrever: para eles, palavras e aquela vontade toda de desnudar, ser aceita, ou voltar.

 

  1. Setenta anos com evidências. Alguém vai corrigir: setenta e dois em setembro. Setenta e três? Sou de 1946. Setembro.

 

  1. Amontoado confuso de emoções. E o Amoras, amor exigente galopa. Hoje dia gelado. Amanhece no gosto bonito do sol. Demorei a sair da cama. Quase oito horas. No verão volta inteira na lagoa. Inverno ponte e sol, o limite. Café preto. Lavo a louça da preguiça, deixo outra no balcão. Vou escrever. Lá vai a fumaça azul, como disse, o amigo. Pedra solta sinal voz e cheiro. Não te espanta, sigo tua palavra. E corro atrás de mim mesma para costurar minha sombra, como Peter, o menino que não queria crescer e vive na Terra do Nunca. Corro atrás. Persigo estórias e histórias. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019

amante amado

Não consigo mudar o formato. Igual digo e sublinho. ”Alguma coisa vibrou no coração de Constance: ‘Sou pela democracia do contato, pela ressurreição do corpo!’ Embora não soubesse o que isso queria dizer, fez – lhe bem a frase, como acontece com muita coisa incompreensível.”(p.90)

Livro / leitura revirou alma e corpo. D. H. Lawrence O amante de Lady Chatterley – outro século, outro mundo, mas a alma, a mesma. Amante amado. O que somos no melhor, ou no pior: amando o amor do amado: igual. E.M. B. Mattos – julho de 2019

“- Mas a impressão de um contato pode durar tanto tempo assim? – perguntou Constance de súbito. – A senhora o sente até agora…  – Oh, madame, outra coisa pode durar tanto como a lembrança do sentir, do contato? Os filhos crescem e nos abandonam. Mas o homem, ah! Mas mesmo isto os corações duros querem matar na gente: lembrança do contato.Até os nossos próprios filhos! Quem sabe das coisas? Nós poderíamos ter nos separado, mas o sentimento é coisa diversa. Melhor talvez seja não gostarmos de ninguém. Entretanto, sempre que vejo essas mulheres que nunca foram aquecidas por um homem, tenho a impressão de ver corujas, pobres corujas, por mais que se enfeitem e corram atrás da vida. Não. Nada me faz mudar de ideia. Não tenho grande respeito pelo mundo.” (p.188)

baleias na Ilha dos Lobos

Falei o que devia e não podia, cascata de passado, do que já foi / antes, muito antes e também do depois, não pensei amanhã ou futuro, tão longe! Só conversa: resultado de falação ascende / ilumina / traz de volta vida, pedaço do tempo menina! Quando converso solto, ou confidencio, esqueço limite gentileza polidez. Tudo solto, tão leve! Entregue escorrego nas bolhas coloridas. Conversa e dizer. A visita se alonga por beiradas inesperadas, e já penso nas frutas da feira, no sol de amanhã, nas baleias que veremos lá  alto, do  Morro do Farol. Elas passam por Torres com filhotes. Agosto em Torres: visita  e surpresa! Amanhã vamos ver as baleias. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

terror de envelhecer

Guardei pudor, encabulação, auto estima, vergonha dentro de ser eu, estranho e enraizado sentimento (milhões de explicações, nenhuma clara, objetiva ou lógica). Eu me escondia… Deveria ter me explorado, poderia ter sorrido mais vezes,  decotado os vestidos, mostrado as costas, encurtado as saias e aceitado a luz da juventude. Não consegui. Aos setenta e quatro fico a me pensar/desejar solta, leve e até bonita! Céus! No entanto os rios se apresentam profundos, as vielas, sulcos estranhos se apoderam do meu rosto. No pescoço as infindáveis dobras, e tudo me parece devastado! Não consegui segurar/parar o tempo. Inacreditável! Mandei uma foto tirada no espelho para meu filho aniversariante: oxalá me vejam de outra forma, igual, fotografei e levei um susto! Não sou eu, era outra, enfim! Oxalá seja eu! Não devemos nos fotografar… Hoje, acidentalmente, vejo a foto de uma colega de trabalho, mais nova, não sei quantos anos, talvez cinco, e estremeci de horror maior: rosto deformado por plásticas, não é ela, mas arremedo…  (Pior!, não pode pedir de volta a expressão, entregou ao diabo, sem comércio!). É o medo. A foto do medo, do grande medo de envelhecer! Está estampada a reforma facial. É preciso aceitar a nova máscara: envelhecemos. Reformar é o grito do medo. Mas o terror está em todos os lugares! Sinto medo! Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2019 – Torres

lindaaaaaaaaaaaaaaaa

…, destas flores, esta trepadeira tinha na casa da Magda na rua Vitor Hugo: imagem de memória de ser criança! Descobri a caminhar por ruas novas: pedacinho festivo de lembrança o reencontro.

 

VOAR / no balão

VOAR / no balão, passei estes anos a voar. Difícil explicar. A ideia parece exata, entre nuvens. Voar, olhar de enorme pequena distância, ou perto sem poder tocar. Esta meninice segue dentro de mim: o bebê silencioso. Atento aos ruídos da casa, sem dizer no choro, arregalado. Jeito de estar na vida. Desta atitude, desta forma moldada pela casa movimentada, e o jogo das irmãs, na convivência com avó e depois a tia, cresci. Moldada para ser arredia, desconfiada e atenta, diria medrosa. Qualquer erro pode ser catastrófico. Agradar, conquistar, fazer a jogo: colorir. Eu posso ser em preto e branco, o mais, no entanto iluminado papel colorido e brilhante. Vibra, e se move na beleza o que me cerca. Beleza detalhe, absoluta. Cresci tentando / imaginando como seria poder tocar e estar dentro / integrada neste mundo…   Apenas espiava: o colorido festivo e musical mundo. Na força deste esforço, prevenida e cautelosa apreendi a ser eu comigo mesma: alegre, disposta e pronta embora solitária. Saudade indefinida de uma coisa / um alguém que ainda não encontrei. Procuro. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2019

segredo de envelhecer

O segredo da velhice / de envelhecer: saber / entender que é aparente / aparência. Ela apenas existe e acontece na superfície, na pele, no corpo,  por fora. Por dentro somos sempre quem somos, ou menina ou mulher, ou um eu que não vai crescer, ou súbito, num repente envelhecerá / envelhecerei.  Não sei se traduzi correto,  Claude Mauriac escreve assim:

Le secret de la  veiellesse, c’ est qu’elle n’ a d’autre realité qu’apparente. Drame et mystère qui sont déjà, je le sais ceux de l’ âge mûr.  Veiellir, c’ est ne point changer: même. Je ne vois aucune différence, si ce  n’ est de lucidité et de culture accrues, entre ce que j’étais il y a quinze ans et ce que je suis aujourd’ui. Vieiller, c´est découvrir peu à peu l ‘ angoisse de notre condition. (p.96) Claude Mauriac – Toutes les femmes sont fatales.

Envelhecer é muito mais descobrir pouco a pouco a angustia de nossa condição.

E que a vida se desencanta na medida em que nossos sonhos se realizam. E a vida acontece, paciente a realizar nossos sonhos e fantasias que nos surpreendem pelas facilidades e pelo volátil sentimento de um momento, contas feitas, os amores não foram antes nem depois, foram / serão amores se hoje esticarem o braço, segurar o meu rosto e ainda conseguir me beija. um ato contínuo / permanente. No meu desejo a tua transformação será parte da minha, parte tua, misturadas, uma só. …completo amanhã por ser longa viagem, e por ser nossa e prazerosa. Elizabeth M.B. Mattos – Torres 2019

Adolescente  na energia e no sonho que surpreende. Aos setenta, aos oitenta, com certeza, aos noventa, adolescendo.

tua memória / minha memória

sempre que me visto

durante muito tempo

quando tinhas

no Rio de Janeiro nos encontramos sem nos vermos

fios emaranhados

houve um antes

e a Lucila morreu

esta memória importa,

então, eu repito, eu te penso

Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2019 – Torres

PS1  gosto de hoje /  agora / ontem /  de carne de panela / do campo /  gosto de pensar que estamos juntos e rimos muito, pura alegria, ao trabalho

PS2  cinquenta e cinco anos se passaram /

este hoje é eterno / eu te sinto (magia)

PS3  história / lembrança e memória se fecham: conseguiste apagar vestígios

de encontros / de perdas… DESAPARECERAM! tu ficaste / tu e eu ficamos

 

 

 

 

 

eu comigo

Férias! Um dia ou três, um mês ou umas horas. Eu absolutamente, e tão completamente envolvida com o nada! O sono, o movimento, respirar ou comer: a primeira vez. Não posso levar pessoa ou coisa: preciso do vazio, deste nada. Sem filhos compromissos, marido amigos ou parentes, um lugar longe onde eu sou eu. O novo sou eu mesma comigo mesma. O inusitado sou eu. Reencontro. Este esvaziado sou eu a plenos pulmões, nas férias. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2019