curiosidade

“É curioso como é muito mais fácil ser idealista nas coisas grandes do que nas pequenas; como é muito mais fácil dar cem libras para o Lar dos Pernetas do que ver um hóspede comer dez colheradas de mel; como é mais fácil morrer de uma morte heroica do que vencer suas próprias fraquezas.” (p.122)

Embora trabalhasse, e se atarefasse, e escrevesse, e teorizasse, e pipocasse aqui e ali como um coelho inesperado no viveiro do saber e da teoria, tudo isso lhe era artificial. Estava perdendo alguma coisa. O que era? Era a vida. Ele estava perdendo a vida, com seus livros, e sua teoria, e seus papéis. A sua parte mental estava sobrecarregada e entediada, e no entanto o que ele haveria de fazer? Estava condenado a teorizar.” (p.123)

Segura a xícara enquanto pego a cafeteira. Bem, não estou te vendo. Não consigo deixar de sentir, e sentindo ter medo… Envelhecemos. Não somos mais,  por isso estou encabulada, e estás aí, descontente. Volta para nós …, não desisto do tempo, embora o tempo vá, aos poucos, desistindo de mim. E tu sabes. Entendo todas as tuas fidelidades: físicas e espirituais. Elizabeth M.B.Mattos

Tanto não é possível provocar, deliberadamente, uma esplêndida tempestade de paixão sensual entre você e sua mulher quanto não é possível provocar uma trovoada nos céus. Todos os artifícios, todas as intensificações deliberadas não passam de artimanhas e de pressão da vontade. Temos de libertar do controle mental as fontes profundas da paixão; e, depois disso, tem de haver o salto para o ajuste polarizado com a mulher. […] A profunda familiaridade do casamento é a única forma de preparação. Só aqueles que se conhecem um ao outro nos negros e intricados caminhos do hábito físico podem passar através dos sete infernos escuros e dos sete céus radiosos da realização sensual, E é por isso que o casamento é sagrado.”  (p.223-224)  D.H. Lawrence Mr. NOON

Cães CORRRENDO adorei esta foto

 

 

amor com tampa

O relógio de pulso que usava era uma das poucas coisas tangíveis que herdara de seu pai. Uma bela antiguidade fabricada no início da década de 1960. Se ficasse sem usá -lo por três dias, ficava sem corda e os ponteiros paravam. Mas Tsukuru gostava dele justamente por sua inconveniência. Era um belo e genuíno aparelho mecânico. Não, talvez fosse melhor chamá – lo de obra de ate. Não havia nenhum fragmento de quartzo nem micro-chip. Funcionava com exatidão graças somente a molas e engrenagens precisas. E, mesmo hoje, depois de trabalhar sem descansar por quase meio século, continuava marcando as horas de forma surpreendentemente correta.”(p.316-317)  Haruki Murakami – O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação –

Tsukuru Tazaki é um homem solitário, perseguido pelo passado.” Acordei depois das dez horas da manhã. Acabo de fazer o café que não me pareceu tão bom assim. Escrevo às pressas lembrando festejos do dia, mas que bobagem! Não existem dias de calendário para pessoas que amamos, nem aniversários …, na verdade, estes dias parecem apenas limitadores.  Quadrado a sinalizar amor com tampa. Neste dia, abrimos a caixa para ventilar … E nem sou original pensando assim, meu pai tinha horror a estereótipos. Vejo seus olhos verdes  arregalados e quietos a se submeter  …, não. Não sei explicar o homem que eu vejo. Talvez a visão seja apenas alucinação. Volto a Murakami. Homenagem a Ana Cristina e ao João.  “ Para falar a verdade, não se lembrava bem dele, nem sentia uma saudade especial. Não se lembra de ter saído com ele ou ter tido uma conversa íntima com ele, nem na infância nem depois de adulto. Seu pai, para começar, era de falar pouco (pelo menos em casa ele quase não falava), sempre estava bastante atarefado com o trabalho e quase nunca voltava cedo para casa. Pensando agora, provavelmente tinha outra mulher.” (p.317)  Sim, os livros são contrapontos que a vida desdobra. Memórias coloridas novas velhas inusitadas inventadas ou reais. E  assim começo este dia silencioso. Desfocado. Elizabeth M.B.Mattos – agosto 2018 – TorresLIVROS e ESTANHOS LINDA FOTO

 

 

 

curvas do corpo

” Assim que meu marido retorna para o consultório, eu pego o meu maiô e a minha toalha e vou de carro até um clube esportivo nas redondezas. Costumo nadar durante trinta minutos. Uma atividade extremamente vigorosa. Não é que eu goste de nadar. Eu nado porque não quero engordar. Eu sempre gostei das curvas do meu corpo. Mas, para ser sincera […] em compensação, eu gosto do meu corpo. Gosto de ficar nua em frente ao espelho; de contemplar seu delicado contorno e sentir nele a presença de uma harmoniosa vitalidade. Eu sinto que ele possui algo que é muito importante para mim. Não sei exatamente o que é, mas, seja o que for, eu não quero perdê – lo. Não posso perder isso. […] Uma coisa é certa: se uma mulher de trinta anos ama realmente o seu corpo e deseja mantê – lo em forma, precisa se empenhar muito. Isso eu aprendi com a minha mãe.” (p.24-25) Haruki Murakami SONO – ilustrações de Kat Menschik – Editora Alfaguara – tradução do japonês de Lica Hashimoto

É o decimo sétimo dia em que não consigo dormir

Leio com cuidado para não dobrar a capa. Não risco nem sublinho frase ou palavra. Eu, demolidora de livros. Descuidada. Obsessiva. Este, leio com zelo. Inquieta no  meu prazer. Murakami escreve na primeira pessoa.

Tão longe o tempo de me dizeres/falares como devo cuidar do meu corpo, do meu cheiro … Fecho o livro sem terminar. Este não termino, não sei te explicar nem o sono, nem a saudade, apenas penso em nós dois. Beth Mattos – Torres 2018  Estás do outro lado, vigilante. Eu não consigo deixar de ser eu, mesmo na história do outro, nem no escuro.

azar é o meu

…, limbo existe?! Caminho escuso/escuro iluminado, paradisíaco e infernal. Inquietação ausência, e tanta presença! O azar é meu: na imaginação, na tua narrativa estou, mas não participei. É o limbo. O azar foi / é não participar. Não deixar acontecer. Ser distraída.

Mas o prazer de ouvir histórias é tão natural no homem como o prazer de ver a dança e a pantomima, de que nasceu o teatro. E que esse prazer existe inalterado, está provado pela voga das novelas policiais. As pessoas mais intelectuais as leem, com condescendência, é claro, mas o fato é que as leem. E por quê? Só pode ser porque as novelas psicológicas, pedagógicas, psicanalíticas  (que só a estas seu espírito aprova) não lhes dão a satisfação dessa necessidade particular.  Há uma porção de sutis escritores que, com toda espécie de boas coisas na cabeça para dizer e o dom de pôr de pé criaturas vivas, não sabem que diabo fazer com elas depois que as criaram. Não podem inventar uma história plausível.[…] Alegam que na vida as histórias não terminam, as situações não se resolvem e muita coisa fica no ar. O que não é bem verdade, pois pelo menos a morte termina todas as nossas histórias; mas, ainda que assim fosse, não seria um bom argumento.“(p.195-196)  W. Somerset Maughan Confissões

Confissão: página branca lisa encorpada grossa que eu chamo de limbo. Azar tristeza sorte encanto lucidez sensualidade líquida abuso gentileza feitiço e silêncio. Maldito silêncio! Agiganta o gozo o silêncio do olhar. Maldito corpo! Descreve a vida. Agora/hoje este momento poderia ser..,  não sei. Por que nominar? Por que não deixar ser? Vontade tenho de bater, estapear, gritar, surrar e… Limbo pode ser o lugar entre isso ou aquilo, o lugar onde fica tudo o que não aconteceu, não nasceu. Seguro a hora. Onde se guarda  ou se esconde a possibilidade? E penso: talvez a ideia do possível seja a essência da felicidade, se é que felicidade prazer realização paz alegria existem. E não fazer  acontecer, e não permitir, e não desejar, nem dizer seja outra ideia/forma de surrar estapear apertar arranhar, sem gozo nem culpa. “As palavras têm peso, som e aparência; só levando isso em conta é que podemos escrever uma sentença que seja boa de olhar e boa de ouvir.” (p. 51) Dobro o espanto. E repito, com duplo sentido, é claro:” […] é curioso que as nossas próprias infrações nos pareçam muito menos odiosas que as dos outros. O motivo deve ser que conhecemos todas as circunstâncias que as ocasionaram, de modo que podemos desculpar em nós o que não podemos desculpar nos outros. […] devemos aceitar o que de bom e mau existe em nós. Mas quando julgamos os outros, não o fazemos por nós mesmos, como realmente somos, mas por uma imagem que formamos da nossa própria pessoa e da qual retiramos tudo quanto pudesse ofender a nossa vaidade ou desacreditar – nos perante o mundo. […] Quantos de nós poderiam suportar que as suas cismas fossem automaticamente registradas e apresentadas como numa tela à sua frente? Morreríamos de vergonha. Bradaríamos que não podíamos ser realmente tão mesquinhos, tão maus, tão egoístas, tão obscenos, tão esnobes, tão fúteis, tão sentimentais, assim. Mas os nossos pensamentos constituem parte integrante do nosso eu tanto quanto as nossas ações,  e se houvesse um ser de quem fossem conhecidos os nossos mais íntimos pensamentos, poderíamos muito bem ser responsabilizados por eles como pelas nossas ações.” (p.62-63)  Todos os pecados me pertencem… E os teus, te pertencem. Talvez o pior de todos seja o que fiz contra mim mesma, não ir ao teu encontro. Não ter exigido de ti, nem de mim, o lúcido olhar do inviável. A confissão de  um sonho não sonhado.  Nem céu nem inferno, mas o limbo. Céus! Preciso me libertar e voltar a ter paz. Elizabeth M.B.Mattos – agosto de 2018 – Torres com sol, ainda frio. Cinzento mesmo e com sol. Talvez o início da história sem fim (sem fim, pode ser sem final, ou indefinido como o para sempre das histórias / contos para crianças), ou começo início, ou indefinido de…, a história tu sabes, eu sei, todos nós sabemos.apartamento da indepencia em plena arrumação

Significado de Limbo

No exterior de algo; margem, borda, rebordo.[Figurado] Estado do que se encontra esquecido; negligenciado ou indefinido.[Figurado] Condição de dúvida; indecisão, incerteza.[Religião] Local que, segundo o Catolicismo, estão as crianças que morreram antes de serem batizadas.[Religião] Lugar onde estão as almas sem batismo, temporariamente afastadas de Deus, até que sejam perdoadas do pecado original.[Por Extensão] Perda de memória; esquecimento.

dogville

DOGVILLE, excelente! Um alívio! Salvação no extermínio. Não existe ponderação nem generosidade no mercado de relações. Conselho pode ser entendido quando a outra pessoa quer ouvir ou quer ver. O filme é duríssimo, e necessário. Cada ser humano está  na sua própria ilha, a exclusiva. Cego surdo para toda e qualquer evidência que não seja sua própria escolha, e ou território. Estranhíssimo!  Como se pode tocar, beijar, amar ou estreitar relações nesta cegueira? Borges era lúcido, Sábato diz bem em seu Informe dos Cegos, Saramago esboçou a questão. Coetzee alerta para o extermínio. DOGVILLE faz a síntese. Tenho ido ao cinema. Vejo tudo. Ainda não vi Terra dos Sonhos. Vou assistir.

Estou a te escrever apressada, antes que alguém entre …, e agitada. Após o susto e a tensão  depois de um sequestro com arma enfiada na barriga, pressão daquele abraço criminoso …, o frio medo incerteza.  Embora repitam que não machucar. Sou refém. Converso com o rapaz para acalmá – lo, estou imóvel, não precisa apertar o cano do revólver.

A coisa esquisita pode voltar quando me surpreendo com ruídos. Ainda não aprendi a atirar. Quero me voltar e descarregar o revólver. Os barulhos/ruídos voltavam.  Pressinto que voltarão. Medo. Fico gelada.  A casa tem vários patamares, como se fossem quatro andares. Pelo pequeno sótão. A janela basculante do banheiro ficou aberta … Entraram. Eram Três ou quatro.  Sobressalto. Gavetas abertas, reviradas, armários esvaziados: lenços, perfumes. Exorcizei. Aquela Liza elegante sofisticada sorriu … O relógio de colete do vovô, e a corrente. A caneta Cartier.  …, os lenços de seda! Por que nominar? Vestidos. Casacos. Comecei a rir das lágrimas. Levaram duas roseiras. Tiveram tempo. Bebidas e panelas. Toalhas bordadas. Uma gaveta cheia de guardanapos com monogramas deixaram. Copos e garrafas. Levaram as bandejas.  Porque te conto isso? Não fiquei mais pobre, apenas desenhei novo personagem. Recolhi  cadernos, lápis e papelada. Coloquei tudo numa caixa. E me atirei no sofá. Uma coberta um travesseiro. Fechei as portas. Acendi o fogo na lareira. Depois de esgotar o choro dormi. Elizabeth. M.B. Mattos – 20 de fevereiro  – 2004 – Santa Cruz do Sulcaixa gucci2015-12-14 13.47.08006 (4)DSC00290

 

quero mais

1.

Coisa complicada, imagino eu, entregar a história pessoal, não por ser particular, nem suficientemente secreta, mas pela pretensão de posse, do mais e do melhor. Do íntimo, e claro, do excesso de zelo. Da amorosidade do mínimo detalhe, e de tudo que importa no que digo ser a minha memória. Não sou / nem tenho memória exclusiva. Coadjuvantes mais importantes do que eu mesma habitam esta história. Recomeço, ou me armo para contar/escrever/ confessar, não avanço. Desde 2012 eu me invento no Amoras. Tímida. Seguro cada episódio, encabulada. Deixo entender sem dizer, nunca revelo o inteiro. Difícil a nudez. Milhões de reticências. Eu me escondo no autor, eu espio pelas janelas. E, às vezes, num súbito entusiasmo me entrego … Três páginas. Logo me distraio com o feijão, o cozimento do aipim. Com a vontade de comer chocolate. Com o gole de cerveja, com a hora de caminhar. Eu me distraio com o céu das janelas abertas: nuvens vozes árvores e movimento. Não tenho camélias brancas. Jasmins miúdos perfumam a calçada. Guardo os pessegueiros de jardim na lembrança, se pudesse os plantaria na grama da lagoa. Hibiscos não vejo, mas palmeiras coqueiros. O meu tempo é usufruir. Viajo pelos livros, e vou de trem, de bicicleta, de automóvel, de navio ou de avião …, um pouco ansiosa. Gosto de ficar.  Não gosto de ir, gosto de voltar, de fechar a porta. De imaginar que vou te encontrar na rodoviária, no acaso de ir a Porto Alegre, ou voltar de Porto Alegre. Eu me distraio com o cinzento, ou com o sol. Com as coisas desarrumadas, espalhadas. Livros lidos, e os que devem ser lidos, com o telefone que toca e não atendo, não falo, mas me distraio. Quando penso no João, nos filhos, na neta, e ou no silêncio do Lucas cheio de força para desenhar, ah! Estes netos! Ou seja, não escrevo. Não escrevo por mais motivos que tenha para escrever. E me lamento. E a memória vai terminando porque demoro a lembrar da palavra radiador, por exemplo. Ou fico a listar livros que quero presentear, ou examino a estante que deveria ser ordenada, limpa. Toda a energia do amanhecer fica menor quando demoro a sair da cama. Ou arrumo outra vez os armários. Penso que já fui mais cuidadosa com a casa. E mergulho no livro, com tanta coragem que fico acreditando no poder de viver e vivo com ele, … autor, personagem. Ideia se sobrepõe a fantasia, e agora, nesta contagem regressiva penso, não naqueles específicos olhos azuis, ou naquele cabelo, naquele jeito de olhar, naquela promessa, eu penso no que está por acontecer. É este acontecer, nenhum dos que foi que importa. Quero o que seria. Ninguém ocupa o definitivo. Ninguém ocupou. Muitos e intensos amores vividos. Agora …, eu te espero. Este que eu espero seria o definitivo se existe definitivo. Deve existir. Alguém que não vai cobrar nem isto nem aquilo, nem vai preencher este ou aquele lugar. Nós vamos apenas rir e ser felizes, quando/se for possível ser feliz. Sem medo. Prazer fluído do agora.  Histórias de equívocos a ser contadas. Fico a olhar pela janela. Penso na panela que ainda quero comprar. Quadros que não coloquei nas paredes. E os filmes!? Sim, todos os filmes que gostaria de ver. Não escrevo. E penso neste ou naquele amigo que deveria ser mais próximo, e nos amados, que foram, ou passaram a ser, depois…, deixaram de ser. Quando me olho no espelho e vejo o rosto envelhecido, que pescoço! Céus! O tempo passou. De que servem cinco voltas de pérolas, as mais próximas de verdadeiras, ou o charme dos vestidos pretos, as mantas que escondem e enfeitam. Sedas estampas …, os sapatos de salto alto. Saias escorregam sensuais pelas pernas, mas me escondo, sistematicamente, em calças de alfaiataria. E os dedos para as alianças, pedras preciosas, ou nem tanto, envelhecidos. E não escrevo. Penso na água do próximo chá, ou no whisky. Termino (vinte páginas presas antes do fim) o Museu da Inocência de Orhan Pamuk …, agarro as últimas gotas, escondo a vontade de conhecer a Turquia, ou o olhar perdido no Bósforo, ou ainda entrar numa confeitaria …, seguro as páginas a pensar nestas visitas feitas aos museus de Proust, de Maurice Ravel, Pirandello, Strindberg (que me impressionou tanto quando li), Edgar Allan Poe, Tagore, Nobokov, o Museu do Memorial Literário a F.M. Dostoiévski. O Museu Mario Praz, (autor de A carne, a morte e o diabo da literatura romântica – que eu não li) o Musée Flaubert et d’ Histoire de la Médicine, e se penso nestes museus penso nas viagens que não fiz, e não farei. “Não, eu não achava absurda a ideia de um museu de um escritor. Por exemplo, na casa de Espinosa, na pequena cidade de Rijnsburg, na Holanda, achei adequado que tivessem reunido todos os livros de sua biblioteca que tinham sido enumerados no relatório oficial produzido depois de sua morte, ordenados do maior ao menor, como era costumeiro no século XVII. E que dia feliz eu passava percorrendo o labirinto de salas do Museu Tagore, apreciando as aquarelas do escritor […]”. (p.542)

Estacionada como estou em Torres, a encolher o sonho, seguro as asas neste obsessivo desejo de beijar e abraçar.

Volto aos livros. “Há quem encha sua casa de objetos e, no momento que sua vida começa a se aproximar do final, a transforma em museu. Mas eu, tendo transformado em museu a casa de outra família, tentava agora – pela presença da minha cama, do meu quarto e de mim mesmo – transformá –lo, de volta, em uma casa. O que pode ser mais lindo que passar as noites cercado pelos objetos que nos ligam às nossas memórias e conexões sentimentais mais profundas. ” (p.539)

E me ocorrem lembranças, e detalhes de construção, ou ideia de museu do amor. Fico tentada.  Estremeço. “Os verdadeiros museus são lugares onde o Tempo é transformado em Espaço. ” E penso em personagens / pessoas. Nas viagens imaginárias. E penso naqueles que vivem vida com os pés na terra, olhos no olhar, na mata ou no asfalto. Penso sentimento agarrado no gosto e no tato. Reverencio. Pessoas que transformam lembrança memória afetiva em terra em natureza em vida como vida. Elas podem, como os xamãs, ver a alma do mundo melhor do que eu. Então, eu te procuro.

Escreve Pamuk […] “e, como um xamã que consegue ver a alma das coisas, sentia suas histórias bruxuleando dentro de mim. ” (p. 541)

O meu museu seria os teus sentires com gosto de vida viva. Não dos livros, nem dos objetos, neles eu me perco, em ti eu me encontro e me visito por dentro. Elizabeth M.B.Mattos – agosto de 2018 – Torres

corpo inteiro cortei o braço bem boa boa

 

beijo

Foi um beijo profundo e maduro, que durou dez ou doze segundos. Nove anos antes, nós nos beijávamos como crianças. Mas não havia nada de infantil nesse beijo, com sua intensidade lenta e poderosa.” (p.491)  Orhan Pamuk – O Museu da Inocência

Abro o livro, leio. Apalpo a lombada de outro, penso nos velhos autores, amores. Esqueço que tenho setenta anos. Imagino quando terei oitenta, ou será oitenta e cinco. Escrevo apressada, de repente, quem diz que terei setenta e dois? E sinto prazer, porque eu me consumo com a ideia de um beijo que será como o roçar das asas das borboletas, e depois, mais nada… E.M.B. Mattos – agosto de 2018 Por que não fiz todas as perguntas quando estávamos próximos, por que não estamos nos olhos um do outro?

No curso comum da existência é preciso que dediquemos a nós mesmos um grande amor, ou que tenhamos em vista o êxito de algum sério projeto, para que nos empenhemos com tanto ardor em repudiar a calúnia que atinge todos os homens, mesmo os melhores, e para fazer questão fechada de provar aos outros as nossas próprias virtudes. Na vida pública, isso às vezes se torna uma necessidade; mas na vida privada ninguém prova com discursos a sua lealdade, e como a ninguém é dado provar que alcançou a perfeição, devemos deixar aos que nos conhecem a tarefa de absorver – nos das nossas faltas e de dar valor às nossas qualidades.”(p.19) George Sand  História da Minha Vida

não espere

” — Ne l ‘ attendez pas, dis -je. Créez un monde, votre monde. Seule. Soyez seule. Créez. Alors l’amour viendra vers vous, alors il vient à vous.  Ce n’ est qu ‘après que j’eus écrit mon premier livre que le monde où je voulais vivre s’ est ouvert à moi.” (p.269) Anaï Nin Journal 1931-1934

“Não o espere. Crie um mundo, o seu mundo. Sozinha. Seja sozinha, (apenas tu mesma contigo). Crie. E o amor chegará, então ele virá até você. Apenas depois de escrever meu primeiro livro, o mundo  que desejei para mim se abriu …”

Tradução irregular. Anïs Nin mulher perfeita e incompleta, ela.  Perfeita para minha fantasia de querer ser eu. Eu mesma. Tenho que ser eu. Os sonhos são apenas o começo. Indicam o caminho a seguir. Às vezes penso que sonhar não faz parte da vida, mas é justo ao contrário, sonhar indica/mostra como a vida está na minha medida.Claro, a minha vida! Às vezes esqueço o caminho, fico no escuro. Outras vezes tropeço num sonho mal sonhado, o sonho do outro. Fecho os olhos, e sigo o outro como que obcecada, absorvida. E vou como sombra, sigo a vida do outro, não a minha. Perdida, carente, desequilibrada. E não há outra vida. Existe esta vida com a minha vontade, a luz de dentro. Às vezes não compreendo. Por que insisto em me apaixonar? Elizabeth M.B.Mattos – agosto de 2018 – Torres

 

O que é o amor?

‘O que é o amor?’

‘Não sei.’

‘O amor é o nome que se dá ao laço que une Kemal a Füsun sempre que eles se deslocam pelas ruas ou calçadas; entram em casas. jardins ou salas; ou sempre que ele olha para ela sentada no pátio de uma casa de chá ou num restaurante, ou sentada à mesa de jantar.’

‘Hummm …Gostei da resposta.’, dizia Füsun. ‘ Mas amor não é o que você sente quando não me vê?’

Nesse caso o amor se transforma numa obsessão terrível, uma doença.’ (p.458)

[…] Por um breve instante de acanhamento, eu vi o corpo de minha amada, e então ela se afastou a nado, tão depressa que dava a impressão de fugir de mim. As bolhas e a água agitada no rastro de seu mergulho, a luz maravilhosa, o azul muito escuro do Bósforo, seu biquíni preto – tudo isso se combinou em minha mente para formar uma imagem indelével, uma sensação à parte.” (p.462) Orhan Pamuk – O museu da inocência – 

Eu tive um biquíni preto. E um dia perdi a parte de cima  numa onda do mar. Foi um susto, mas ninguém viu. Beth Mattos – julho de 2018

ninho

No que ficou da poda. Nas ramas do jasmim, dois zelosos  passarinhos, rolas eu acho, preparam o ninho. Ora um, ora outro. Chegam com a rama no bico. Sentada na minha cadeira de leitura, desconcentro porque nada melhor do que este fazer cuidadoso e simbólico: o ninho. E o domingo fica perfeito. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2018 -Torres