queríamos a história

Meu querido:

Estou desfeita. Não estou lá. Queríamos a estória. Posso contar dias, minutos, repassar mensagens, ouvir os áudios, voltar a cada encontro. Posso voltar no tempo, estarei eu comigo mesma.  Não estarás aqui. Não posso te olhar, nem te tocar, nem ser beijada, nem te beijar. Não acredito que foste embora…  Não compreendo por que me largaste aqui no meio do nada. Tinhas que ter pedido mais tempo. Tempo para nós dois. Não sentirei teu cheiro, teu gosto. Nem posso dizer te gosto. Nada mais será tu e eu. Não vestirás o jeans, nem os tênis brancos. Não chegarei com cabelos desarrumados, bolsa superlotada. Nem vamos rir e conversar a conversa. As perguntas que não fiz, as respostas que querias me darias…,não existem, desapareceram contigo. Textos autobiográficos que se cruzavam, travados, agora se enrolam no vento. Atravessamos a linha proibida e na urgência de sermos nós fomos, os dois, atropelados. Querias olho no olho, mão na mão. E agora nada. Talvez estejas ao meu lado. Estar ao lado parece sempre possível quando nos penduramos no amor. Talvez eu escreva o livro por nós dois. Talvez eu me sinta confiante. Talvez tu voltes. Talvez consigas entender, e me escutar. Elizabeth M. B. Mattos  junho de 2017.

muitas pipaspipas

A vida quando chega viva lá de dentro da pessoa transborda…   Trovões e raios. Tanta água! E depois tanto sol!  Tudo ao mesmo tempo, e já não sabemos se é bom, ou se é ruim, bonito ou assustador. Tudo ao mesmo tempo. Na areia ou em alto mar. Estranho este viver engasgando… E bem que desejaria apenas me embalar tranquila, e sorrir, depois chorar. Viver não sobreviver, …sem me agarrar, mas solta, livre, sem me machucar. Viver, afinal, dói mesmo, e, como é bom ter acontecido! A liberdade me parece mesmo, assustadoramente, perigosa e solitária, e bonita. E.M.B. Mattos, Torres,  junho 2017

a fresta, sem reler

Parece que não vou conseguir escrever o que é preciso. Fico sentada quieta, isso é, imóvel. E penso. Penso que não acertei. Outras vezes aperto a boca aflita, cheguei mais perto.  Também posso sorrir, e dizer, consegui. O que pode ser positivo para mim se apresenta duvidoso do outro lado…. Por onde começaria? Não é possível apontar. Se penso infância, remoto demais, imagino amarelo, mas o xadrez do vestido marrom…  Duas camas gêmeas. E o tempo real se esparrama… já aconteceu, mas podemos fazer acontecer tudo outra vez, imitação, escolha, assimilação? Um círculo. Carbono. Como é que que este olhar se reproduz, e o gesto … A mesma insegurança. Janelas se abrem e se fecham e nada é totalmente diferente. O cenário, o clima, as sombras, os movimentos, e o som. Elizabeth M.B. Mattos Torres junho de 2017

FRESTA da mesa

há qualquer coisa no ar

Voltou o sol. As calçadas estão possíveis e as pessoas abrem janelas e se animam. Escrevo das notícias e para comentar o livro de Philip Roth que me assusta. Mentalizo e construo enormes parágrafos como se pudesse lembrar vinte minutos depois …. Esqueço. E já estou envolvida a limpar isso e aquilo o que me faz ser Isabel por um longo período. Depois, depois quero acordar a vontade de reciclar renovar, mas me vejo apegada, rastejando os olhos pelo apartamento sem me desfazer de nada…amontoo. E o que deveria ser não apenas iluminado, aberto, espaçoso e agradável fica atrolhado de móveis e lembranças. E por falar em lembranças andei olhando fotos tuas. Lindas! E esta beleza alegria interior vivacidade foi fartamente comentada … há qualquer coisa no ar …  memória de pequenos e grandes desencontros. Um ranço que não sei definir. Eu me sinto/estou distante embora pense tanto em ti. Temos aquela afinidade da palavra da ideia do fluxo sei lá bem o que é. A conversa se mistura como se fosse hera invasora sobe muros árvores e se esparrama perdida sem começo, e acaba apenas suspensa … Pois é. Temos que retomar a fala e os resmungos. Estou sem telefone fixo faz dois ou três meses. E mesmo sem o celular. Assim é difícil eu sei.  Todos os dias, todas as semanas estou resolvendo e não resolvo. Eu me apego a desculpas. Tudo é escrita, um enfiado de palavras. Sigo amorando menos do que gostaria. Os dias são pequenos dentro da rotina de levantar sair fazer o café varrer aspirar polir aqui e ali. Abrir um livro fazer uma citação olhar as fotos abrir e fechar caixas ir de uma janela para outra fazer comida e sair outra vez. Lagoa inteira ou meia lagoa. A televisão mais me inquieta. Desanimo …  E nem te falei de gavetas, de buganvílias floridas. As gavetas? As gavetas precisam ser arrumadas, mas o jardim está bem verde e plantei gerânios. Isso me faz lembrar de ti e dos teus vasos do teu jardim da tua energia. E te imagino alegre.

Torres, junho de 2017. E. M.B. Mattos

20160206_154654

ir não ir esquecer

– Hoje de manhã pensei em te fazer uma visita. Fiz um bolo de limão. Da receita de mamãe.

– Estava em casa, seria ótimo! Por que não vieste? Agora estou levando Patrick para a escola, depois vou buscar os convites da festa. Passo aí daqui uma hora, tomamos um café…

– Não posso, Lúcia! Tenho que terminar a pesquisa, entrego ainda hoje…Queria te dizer que pensei no presente, não sei o que comprar!

– Não estou te escutando…

– Pensei em te ver, mas vamos combinar outro dia. Vou me organizar, ligo depois. Marina desligou o telefone, sentou aliviada. Torres, junho de 2017. E.M.B. Mattos

 

margaridas-brancas

os mesmos a mesma…

CEU E TERRA

Está gelado lá fora. Acordei de estranhos sonhos… Sonhos estranhos com pessoas diferentes, estranhas, como se a vida passasse para ser avaliada…  Estamos os dois com uma sede de confidências. Lembrei de outros amores como se os amores descessem para se encontrar todos na nossa terça-feira que já é curta. E quando me perguntas se estou acordada, é como se fosse um comando, eu acordo e espio o celular. Estou, respondi, mas tu já não estavas mais lá,…  E haverá o tempo de abrir os olhos na madrugada para conversar. Sigo escutando o mesmo disco de Keith Jarret e o piano me dá uma emoção/sensação única como se as cordas vibrassem dentro de mim. Claro que eu também ri bastante porque estou indo para Recife já faz um mês, e sempre é amanhã que embarco. É o meu processo, ou nada acontece, ou vou perdendo os pedaços, e corro o risco de não ir mesmo a lugar nenhum…  Repito: o importante de acontecer é dentro da pessoa. Interno e único e íntimo e prazeroso. O colorido e a voz e a intenção o medo se desfaz dentro do avião. Exupéry explica bem esse sentimento de espera que já é a chegada, ao menos o sentimento de…  De tudo me despeço, e a tudo me antecipo, como se a preparação já fosse a certeza deste ou daquele sentimento que não vai voltar. Não vou esquecer me esquecendo, é claro, porque estamos tu e eu neste jogo de ciranda que não termina. Amanhece com aquele brilho de luz que chega não sei bem de onde. Lembro dos amores passados, mas afinal sempre é o mesmo amor. Vai nos acontecer de contar a mesma história porque as lembranças ficam assim amarradas na mesma tensão, ou mesma importância, e somos sempre os iguais / os mesmos a nos repetir…, os mesmos. Releio as cartas que escrevi faz tantos anos para o primo e assimilo / entendo a ideia o engraçado deste sentir tudo outra vez. Os sentimentos são atuais e eu tinha dezoito anos hoje setenta, qual a diferença? São os mesmos, nunca saíram de dentro de mim. Esta seria a história. O tempo o tempo o danado do tempo nos devora, mas, nós não saímos do lugar nem de dentro de cada um, estamos agachados, escondidos, espiando, como digo sempre, espiando. Aquele noivado rompido, aquele abandono quase na porta da igreja se repete liturgicamente dentro de mim. Tenho sempre que terminar, fazer uma tarefa que nela mesma não se termina, como se o processo fosse o mais importante, fosse ele próprio a essência. A vida é mesmo assim, importa a caminhada, nunca chegar. Mas parece que a pedra vai rolar como castigo, e vou ter que carregar outra vez, tudo igual. Acontecer para terminar. Penso que estamos os dois carentes de atenção, mas essas carências não são o amor, o amor (tu) você está a procurar nas salas da sua casa, e desnorteado quer de volta o que não é mais. Penso nos trinta anos como uma condenação. É claro que não é condenação, mas vitória. Sucesso. Então ficarei do lado de fora desta história. Não posso esquecer que você não vai se jogar no mar para chegar até a ilha…  Não vai querer perder nada do que é seu. Nadar e segurar e carregar ao mesmo tempo… difícil!  Não saber nadar não é a boa resposta, nadar é mexer braços e pernas para não afundar … como caminhar é colocar um pé na frente do outro. Amanheceu. E já são sete horas. Vou passar um café, e me acordar.Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2017. Voando.

o pior é o perdido

Meu amigo querido e silencioso. De repente a memória falha, e já não sei mais onde estás, nem qual foi a última vez que te escrevi. Sinto apenas aguda saudade. O esquecimento volta e chega atento. Vontade que estejas em todos os lugares. Confuso isso de não lembrar. E o pior é o perdido, então, não é questão de procurar e pronto, mas aceitar. Insisto: em qual aonde / lugar vou te achar / encontrar. Como te reencontro como te descubro / encontro? Diz, explica como se faz isso de te encontrar? Eu sei, mas não quero, tenho medo, eu te espero. Estranho silêncio, ou este estranhamento de não me escreveres nem ligares: eu te preciso aqui.

Não mais Pernambuco, não mais Recife, não mais a Várzea, não mais Francisco Brennand, não mais a minha pequena, não mais o quente, nem as vozes, não mais o Rio Capibaribe. Eu te espero em Torres.

A saudade fica/está maior… Dois meses, tempo demais doendo. O clima frio gelado este chuvão forte constante contrasta com aquele de lá…  Eu queria que tudo fosse mais e mais e mais e muito. Beijo bom. Saudade boa. Alegria boa. Conversa boa. Noite boa. Dia bom! Pois é, estou de volta ao Rio Grande do Sul carregada de nostalgia. Leio o Diário de Francisco Brennand. Gosto do confidencial deste escrito definido tanto quanto impreciso. Vontade de sentar, pedir um café num boteco qualquer e conversar contigo. Torres, junho de 2017, Elizabeth M.B.Mattos

 

entre tijolos

Quantas e quantas vezes eu me sentei para te escrever quantas e quantas vezes olhei para o céu, pensei naquela noite achada… Foi pouco, e tão só juventude! Bilhetes perdidos outros medrosos alguns audaciosos esperançosos. E o sentimento de/com raízes seguram/prendem nesta terra longe. Difícil ir difícil caminhar. Vencer a negação des/ou armar o medo. Cuidar que nada possa ficar diferente nem melhor nem pior. Este fantasma me acompanha. Tão longe um do outro!

P.S. Não telefono/ligo, não é meu jeito. Nem vou tentar explicar, estaria/estarei sem a palavra certa. Compreendo o silêncio, quem não compreende? E a vida se explica, eu acho. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2017 – E eu não sabia, não sei, ainda…

ENTRE os tijolos

Oficina Francisco Brennand – 2017 – Recife / Pernambuco

junção das águas

Duas vezes ou três vezes não é o que se pode ver: alguma coisa que não sei explicar, mas vai como se…  Não sei dizer como, ainda não sei…  Importa olhar. Será esta a boa resposta?

“A minha repentina desconfiança com as palavras me faz reconhecer a necessidade de contrariar toda espécie de conversa desordenada. E nos escritos, […] liquidar com esse aparente cinismo que faz desmoronar o sábio edifício da linguagem, essa aceitação tácita de Babel.” (p.211) Volume I Diário de Francisco Brennand.

…fica o cheiro diferente de mar e de rio, também a surpresa óbvia como caminhar e respirar. A energia passa fica evapora sai entra estaciona. Porque sou/estou feliz? Não Terminei de Gostar. Esta coisa de terminar não tem / não existe. Doçura de nostalgia.

Francisco Brennand mais menino do que nunca. Fechado / inteiro na Oficina, e atento e aberto e já no outro passo o sorriso. Voltei duas vezes a Várzea. Irei uma terceira uma quarta uma quinta vez ou irei até eu me encontrar com os noventa anos daquela juventude…Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2017 Recife, Pernambuco

OLHOS abaixados dois

Prezada Sra. Elizabeth Mattos,

Espero que a junção das águas do Rio Capibaribe com o mar lhe sejam propícias.

Cordialmente,

Francisco Brennand

Prezada Sra. Elizabeth Mattos,

Espero que a junção das águas do Rio Capibaribe com o mar lhe sejam propícias.

Cordialmente,

Francisco Brennand

Ele me salvou, explicou… Esqueci o trágico, naqueles dias, depois de chorar e chorar, e dormir e dormir e ser acalentada pela Luiza. Guardei os projetos traçados com Gustavo e entendi: eu apenas estava lá,  apenas umas horas antes da passagem. Eu era o Benigno de Pedro Almadóvar

Chegar,…não sei

Paralisada a pensar no desfazer e subtrair para chegar/encontrar o jeito próprio de dizer.

Vou me desfazer de amados amores.  Desnuda re/encontrar/ começar a história de outro mar…  Chegar onde não sei…  E.M.B. Mattos  – Torres, maio 2017

brennand instituto

“Parece que viemos acumulando muita coisa ao longo da vida. Estamos sobrecarregados de informações, de bagagem, ou seja, as opções nos são oferecidas aos montes e, quando tentamos nos expressar, todo esse peso acaba sobrecarregando o motor. E não conseguimos mais nos mover. Nesse caso, temos que jogar fora o conteúdo desnecessário e limpar o sistema para que nossa mente se torne mais livre e ágil. Então, como separar o que é indispensável do que não é muito necessário e do que é completamente inútil?” (p.57) Haruki Murakami Romancista como vocação, tradução de Eunice Suenaga, editora Alfaguara, 2017

Paralisada a pensar  e chegar onde não sei …

fazer confuso

Coisas de vida. Coisas de sentimentos. Coisas de palavras que se misturam confusas. …não sou eu, nem és tu, somos nós  dois.  Danado tempo de esquecer e de lembrar. Tão tudo e completamente confuso, ao mesmo tempo definido como a morte. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2017 – Recife

a tranca

Foto na Oficina Brennand, Recife, maio de 2017.