A foto conversa. Conversa com ela mesma usando da memória. Foto ponte balsa navio, chegada. Ela interroga, mas responde. O silêncio, – demorado discurso… Existem fotos silenciosas. Outras descritivas. Outras são nominadas. Na escolha o rascunho. Texto subentendido. A foto pode ser bela ou conter/ser o horror como a bomba de Hiroshima. Pedro Oswaldo Cruz  fez esta foto ser bonita especial. Para cada pessoa uma história diferente. Obrigada Pedrinho! Elizabeth M.B. Mattos – Rio de Janeiro – 1968

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Foto de PEDRO OSWALDO CRUZ

ELLES – o filme

 ELLES -filme de Malgosska Szumowska com Juliette Binoche

A verdade não tem formato, não é palpável, nem visível… Tantas facetas! E o melhor lado parece espirrar sacudir, atropelar o pior… Não acertamos quando explicamos a verdade, quando nos explicamos. Há que se procurar o discurso mais plano. Ver. E como recebemos as imagens? A verdade surpreende pelo que não foi dito, pela evidência, pela nuance. A prostituição é sempre terror. Toda relação ‘atravessa’ esta dimensão? A narrativa do fantástico ultrapassa este raso momento… A criatura. Os valores. A beleza. O questionamento. Alienação. O que é? Mentir, ou esconder? A prostituição de jovens estudantes – o filme mostra apenas duas – e fere com golpes de faca. Amordaçados? Protegidos? Os dois lados do dinheiro… A culpa humaniza? Irmãos no pecado. A redenção parece inviável, e o sexo… O filme impressiona. O pecado não tem uma só face! Em qual lado estaremos?

Juliette Binoche numa entrevista: “Não tenho medo de parecer medonha nas telas. E preciso coragem para mostrar a intimidade, sem máscaras. A luta de uma mulher para atingir o orgasmo nem sempre é algo bonito de ver.”

AS garotas mais TOP

033Porto Alegre que conversando com o social… Poetar, colorir  dançar, esquecer pra lembrar! Em 1964  O Golpe Militar!

As atrocidades da Ditadura …Os equívocos. Estaríamos preparadas? Eu não.

1961  –   1962

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“A nova cela não me exime de novos interrogatórios e ameaças por parte da equipe do PIC, em plena madrugada, passo a ser acordado com um grito – ‘Flávio Tavares’ – vindo do térreo. É a ordem para me buscarem. Em seguida, ouço o barulho do cadeado, a porta se abre e vêem me levar. Esta mudança brusca do estado letárgico do sono para o despertar muscular do choque elétrico, ou até do simples interrogatório, é uma violência em si mesma. Saio desse mundo em que não estou no mundo – o mundo do sono e do sonho – e entro à força num mundo onde jamais quis estar: o mundo da ameaça e da tortura.” (p. 96) Flávio Tavares  – Memórias do Esquecimento – Editora Globo 1999.

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“Agora,quando roço a tua pele e no silêncio te sinto estremecer, me pergunto para que evocar o exílio, aqueles longos dez anos em que fomos ‘banidos’, algo extravagante que nos obrigava a vagar pelo mundo sem jamais poder voltar à pátria e ouvir teus sussurros ou descobrir teus olhos verdes-claros ao sol do lugar onde nasci. Eu me lembro tanto ou de tudo que, talvez por isso, tentei esquecer.Quando te amo, este amor enfurecido de beijos e abraços ocupa todo o espaço da memória e, só então, vivo tranquilo e em paz. Sim, minha amada, o que meus olhos viram às vezes tenho vontade de cegar.” (p.12-13)

Flávio Tavares – Memórias do Esquecimento – Editora Globo 1999.

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“Antes de abandonar o Fusca, passei um lenço pelas superfícies metálicas internas para apagar as impressões digitais e ainda lhe gritei que voltasse, mas Víctor só moveu a metralhadora a tiracolo de baixo para cima, pedindo que André, o terceiro ocupante do carro, o acompanhasse. Ambos correram em direção a um contingente de quase cem policiais apoiados por helicópteros, enquanto eu fazia exatamente o oposto: recuei a pé, na contramão, voltando em direção ao subúrbio. Instintivamente, eu punha em prática o princípio geral da guerra contido em todos os manuais militares: se o inimigo ataca, recuamos; se o inimigo pára ou recua, atacamos.” (23-24)

Flávio Tavares – Memórias do Esquecimento – Editora Globo 1999.

Expurgar

Amanhece cinzento. Abafado. Nada se mexe! Dores no/do calor. Estas permanecem incompatíveis, ardidas. Sem medida. O sentimento imensurável espreguiça. Antônio Arthur é bom saber de você! Margeado pelos seus, e trabalhando. No meu ócio, lembranças. Guardo comigo festas de meninos mimados! Acordo recordações. Divido vozes, letras, seus poemas… Olho o vento. Leio a carta cautelosa escrita por você. Eu lhe mandei um pacote de pedaços descolados da Beth que você desconhece. Queria afastar a rigidez que impede minha mobilidade inteira. “Que minha situação não seja assim tão má”. Eu o desejo, mas é raso este seu querer. Estou com o gesso da imobilidade pós-acidente: não foi do trem, mas do tempo. Tudo está na alma. Ninguém pode chegar perto, tocar, despertar, fazer sumir ou ver. Assim é a dor. Seus poemas descrevem sentimentos coerentes. “É duro o viver” diz a carta. “Nós acordamos e recordamos”, o poema. Sobrevivemos entre aspirar, expirar, sangrar, curar. O que sabemos de perder ou ganhar? Ou será que ficaremos para sempre amarrados no amparo conhecido de ontem? Bom ter ontem como passado perfumado. Colhido com segurança. Feliz momento, o segundo daquele que nomeamos felicidade, ou o inteiro. Alegria, tristeza consciente. Podemos, mesmo soterrados, cavar, e sobreviver. Mesmo com mãos cheias de bolhas a sangrar. Tão diferente a perda! O pesar! Muitos poemas serão escritos! Muita carta perdida, nenhum livro feito… Sentaremos no banco da praça esperando as estações se alternarem. Crescer pode doer mais do que envelhecer! Descola-se a pele, e nos vemos nus, disformes.  É um diálogo sincopado, diferente do que possa ter escrito em cartas apressadas, postadas com ansiedade: correio lento, tanta terra, tanto voo… Perguntas nas respostas. O tempo aliado do passado não redimensiona o presente. Quem é o Arthur? Quem sou eu? E o Antônio Arthur, quem é? Quem somos nós? Todas as perguntas amontoadas atravessam os dias, e chegam à sua voz e voam, mas não encontram respostas nem nas suas cartas, nem nas minhas… Histórias vazias, palavras ordenadas não chegam onde você está. Os poemas sim. O poeta descreve o trajeto, alivia a alma, dilacera, corta, cola. Dói Arthur! Respira a dor. Protege, cuide para que nada perturbe o sentimento deste pedaço arrancado, violentado pelos versos deste seu eu inexplicável. Ao chorar as lágrimas não lavam, sulcam. A presença do outro permanece nas marcas que o corpo possui. Seus olhos azuis mais sombrios deste seu inverno cinzento de chuva e frio rebrilham no fogo e pingam a dor… São lágrimas, não olhos o que posso ver neste momento. Das mãos em concha um pedaço arrancado: seu coração, e seu olhar insone. Então o que se quebra, o que verga é a dor. Exposta.  Liberar. Listar. Escorregar. Largar, guardar. Poetar é alinhar, transgredir, expurgar. Eu beijo você. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2013 – Torres

amosasazuis,pitangas, e stella

download (16)045Nascimento, mamadas, e lágrimas. Aconchego. A vez de segurar/abraçar, trocar fraldas, e nós! Nosso bebê… Pessoas amorosas vieram te homenagear, felicitar! O nosso bebê amado, desejado festejado! Parte tua, minha, nossa. Francisco não veio, Gianfranco desapareceu, Flávio não compareceu, Paulo viajou, Willy se atrasou. Eduardo não achou correto, Júlio Carlos me visitou em sonhos…, nos sonhos nos amamos! Rubinho não veio a tempo, nem falou. Ricardo, nem Geraldo  se inclinou, nem Jorge. Ninguém abriu corretamente as duas portas daquela sala. O Flávio me escreveu, Iberê Camargo desenhou… A filhota nasceu!  Porto Alegre, 14 de fevereiro 2013 – Hospital Moinhos de Vento

Pedro e Lucia

“Não a amava, então? Justamente ele a amava e por isso em toda a parte a via, sob todas as formas. Pois ela é toda sorriso, toda luz,toda vida. E o desenho exato seria um limite. – Mas a gente quer este limite para sossegar o amor e para possuí-lo. Ainda que nunca mais a visse ele sabia que ela existia e que era o ninho. No furacão, o porto. O farol da noite. Stella Maris, Amor.”(p.35)

Romain Rolland – Pedro e Lucia – Tradução Carlos de Lacerda – Ed Globo, 1945.

SONO na casa de campo

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Nascer no abraço do amor: amamentar, sorrir, dormir, pensar. Cantar, falar, sorrir, olhar, ver, escutar, sentir, Stella, Luiza, Pedro, Arthur, Francisco, Júlio, Marco, Jean. João Carlos, Maria, Stella. Estrela, mar, onda, cor, brilho, amanhecer. NASCER. Hoje, amanhã, sempre crescer… Beth Mattos – 2013 – Porto Alegre

Liberdade torcida

Os livros voltam; e porque voltam preciso guardá-los. Nas páginas deste, ou daquele autor as mesmas palavras. Ditas lapidadas reconhecidas, mas as mesmas.  Sem vaidade abaixa- se  a cabeça. E nos reconhecemos…  Então o recorte.  O dito é a voz do outro. Um jeito de se esconder, fugir a responsabilidade! Retomada,  ou talvez conclusão? Assimilei o que li, ou leio o que já é conhecido? O fermento faz crescer o pão. O espelho reflete a verdade. Estranha memória! Surpresa. Se a memória falha, se não é estudo, mas ritmo, reconhecimento prazer preenchimento água ferro … Se … O cristal ou a prece … sair, chegar compreender telefonar. Que importa? Está lá. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro 2013 – Porto Alegre

“O que mais me irritava era que, à primeira vista, as pessoas me tomavam por bondoso, afável, generoso, leal, fiel. Talvez eu possuísse essas virtudes, mas se isso fosse verdade, era por indiferença: podia dar-me ao luxo de ser bondoso, afável, generoso, leal e tudo, mais, pois não sentia inveja. (…)

Desde o comecinho, devo ter-me treinado para não querer nada muito a sério. Desde o comecinho fui independente, de uma maneira falsa. Não precisava de ninguém, pois queria ser livre, livre para fazer e dar apenas o que ditassem meus caprichos. Assim que se esperava ou exigia alguma coisa de mim, eu dava para trás. Foi a forma que assumiu minha liberdade.” (p.5-6)

Henry Miller nas primeiras páginas de Trópico de Capricórnio

Um agitador toma a palavra

Um agitador toma a palavra. O artista é tomado por ela.

Um agitador toma a palavra. O artista é tomado por ela.

A matéria a que o compositor dá forma é o som, e o pintor fala por meio das cores. Por isso, nenhum leigo respeitável que fala apenas por meio de palavras se atreve a emitir um juízo sobre música ou pintura. O escritor dá forma a um material acessível a qualquer um: a palavra. Por isso, qualquer leitor se atreve a emitir um juízo sobre a literatura. Os analfabetos do som e da cor são modestos. Mas as pessoas que sabem ler não são consideradas analfabetas.

Será a literatura nada mais que a habilidade de apresentar ao público uma opinião com palavras? Então a pintura seria a arte de expressar uma opinião em cores. No entanto os jornalistas da pintura são os pintores de paredes. E eu acredito que o escritor é aquele que diz ao público uma obra de arte. (…)

Devemos ler todos os escritores duas vezes, os bons e os ruins. Uns serão reconhecidos, e os outros desmascarados.

KARL KRAUS – AFORISMOS – Ed Arquipélago – Seleção, tradução, glossário e apresentação Renato Zwick – Porto Alegre 2010.