E te quero

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“Temo a vida subjetiva e recuo ante qualquer empresa, vontade, ou promessa que me obrigue ou realize; tenho o terror da ação e não me sinto à vontade se não na vida impessoal desinteressada, objetiva do pensamento. Por que isto? Por timidez. De onde vem esta timidez? Do desenvolvimento excessivo da reflexão, que reduziu a quase nada a espontaneidade, o impulso, o instinto e por isto mesmo a audácia e a confiança. Quando é necessário agir, eu só vejo em toda a parte ciladas e embustes, causas de erro e de arrependimento, ameaças ocultas e dores mascaradas, e naturalmente não ouso mover-me. “1]

Uma vez ele me disse: Temos de ser competentes para sermos loucos.

O fim de semana li Quase Memória de Conny. Acerto de contas com o pai. Todos nós temos acertos com o pai. O meu morreu há vinte e três anos, mas é como se fosse ontem, guardo lembranças, queixas, alegrias, perguntas. Inquietações. Repasso na memória as dores. Juro que vou acertar mais vezes do que ele acertou comigo. Sábado à noite, um concerto. Pianista conhecido recriando a obra dos Beatles. Ontem o documentário Buena Vista Social Club de Ernest Wilhelm Wenders, que aos 22 anos se divertia tocando seu saxofone. Um dia viu na vitrine uma câmara de 16 mm Bolex. Ele abandonou seu instrumento na loja, um trocado a mais, saiu com a câmara. Encerra-se a carreira de músico do jovem Ernst e inicia a biografia de Wim Wenders, criador e diretor do filme Asas do Desejo, 1987. O filme, a existência carnal, agruras e maravilha que lhe são peculiares. A conseqüência? Perda da imortalidade. Questão de escolhas. A tese da superioridade terrena, divagações do espírito: dilemas metafísicos do pecado e da punição, do amor e da morte. Estamos sendo imaturos? A biografia de Wenders incomoda ou é estímulo? Abandonou os estudos de medicina e filosofia aos 23 anos e tornou-se crítico de cinema. Quem abandona a medicina? Ou a vida organizada pelo caos? A Câmara Bolex de Wim Wenders é hoje uma relíquia. O cinema aplaudiu de pé. Amiga, sofre tudo que for preciso: esgota tua dor, é o melhor jeito e volta logo a me escrever. Li e reli as cartas. Eu me pergunto: A quem devo responder? A mulher apaixonada que se entrega vias abertas à sua fome e grita pela ausência do homem amado, ou a mulher racional, eloquente.  Difícil conciliar. Procuro a correta sintonia. Vou me decidir pela mulher apaixonada. A outra não tem tanta urgência. Mas a mulher apaixonada emerge, grita, sofre. Não sei se estou no tempo certo. Se as coisas escritas ainda  doem… Não sei como aliviar esta dor. Desculpa o sadismo, mas desejo que sofras logo tudo de uma vez.  Estou na vitrine. Terei o poder de criar uma mulher?  A mente deformada pelo impulso, pelo medo nada conseguirá. Assim – minha amiga – urge afirmar que mal sei ver… Se eu pudesse enxerga poderia agir. Não existe a ingerência do tempo entre a percepção e a ação. Quando se vê perigo não há nenhum intervalo de tempo, a ação é instantânea.  Eu estou do outro lado, alerta, mas não vejo… Quem tu és? Quanto a sua alusão ao budismo penso que nossa escolha não é pela virtude. Para eles primeiro vêm à virtude. A razão pode ser uma aliada, nunca a dominadora. Confesso que senti ponta de inveja por não ser o outro quando li  ‘Pedaços’. Mas penso, – o amor não precisa ser tão doído. Com este sabor rasgado, arado, mas sem plantio.  E rejeitas a dor… mas ainda te contorces. Hás que continuar nas múltiplas fases… Eu estupefato! Atolado na vidinha de medo aprendo contigo. Sou espelho. Do teu texto ao nosso texto há incompletude… Sem síntese. Somos  almas achadas exercitando as melhores fantasias. Li O perfume, Patrick Süskind, triste trajetória! O livro vendeu, fez sucesso, mas foi engolido pela imprensa. É preciso  força interior pra suportar os baques, mesmo os da fama. A memória que me traz é de beleza e crueldade. Você desorganizou a vida. Somos dois malucos. O que estou entendendo por tempo? Tempo para viver… Tempo para ler todos os livros que ainda não lemos juntos. Tempo para nós dois. O outro poema de Whitman, como é belo! Surpreendo-me desta urgência de ler. Serão os livros das estantes, ou serás tu mesma quem me interessa?  Estou feliz por dentro, pelo avesso. Meus pares me desconhecem? Mas serão pares? Vivo com a impressão que estou no lugar errado. Estou sobrando nesta casa sem identidade. Ontem fui a Curvelo. A porta do sertão. O Grande Sertão do Guimarães Rosa. Onde são raras as montanhas. Prevalece o cerrado. Preparação para a aridez do nordeste. Acabei a leitura de Nós três de Lygia Bojunga Nunes. Você tem razão, – os rótulos para literatura não dizem nada. Literatura é apenas literatura. Nunca procuraria livro infanto-juvenil por conta própria.  Amiga, estou dividido. Preço da distância. Queria discutir trivialidades contigo.  A palavra esconde a emoção. Inexplicável. Também acomoda  circularidade… A linguagem passa por dentro da pessoa, vasculha tudo para soltar-se! Fundamentada em quê? ( esta conversa que não termina, a nosso!) Sempre quero  fundamentos e lógica. Palavras! Puxar elos,  colocar vírgulas, reticências, nunca um ponto. Vida desencontrada é de matar! Terminei ‘Pedaços’,te digo.  Nós dois mesmos somos ficção, não somos? De qualquer jeito é belíssimo o que escreves. Em certos momentos chega a doer no leitor (pelo menos em mim doeu). É impossível esgotar tudo de uma só vez. Deslumbramento. Recebi o livro do Paul Auster. Parece que estou batendo de frente com o resgate das lembranças paternas.  Meu pai foi uma figura estranha. Talvez estranha apenas para mim, mas assim mesmo estranha. Na verdade completamente diferente da presença constante como descreve Conny, mas talvez mais próxima do misterioso pai descoberto, pouco a pouco do outro autor. Tenho nos imaginado passeando por Ouro Preto, Mariana, São João Del Rey… Será que existimos como estamos nos percebendo? Estou me lembrando do pai do Conny. “Amanhã faremos grandes coisas!” Talvez tire fotos. E perguntas pelo meu café da manhã? Meu café da manhã é sempre apressado. Repasso a vida. Não menciono felicidade, não acredito. Mas ter como queixa apenas o café da manhã?  Angústia desgovernada. Você já leu Adélia Prado? A intimidade pode ser um trem que demora… Sou contido, introspectivo. Mineiro? Temos em comum  solidão. Tudo o mais diferenças. Meu físico pode não agradar. Minha voz pode ser um desastre. Posso me vestir mal.  Num trecho de ‘Pedaços’, numa carta, o personagem Francisco descreve o gesto de ir embora, abrir a porta, e não voltar… Difícil quebrar o círculo, ousar. Apesar de tudo, a ânsia persiste, paralisa e impulsiona de forma contraditória…  Duvido de nós dois. Não arrombo portas. Estabeleço diferenças, mas enfrento contradição…E te quero.
Terceiro elo da corrente mineira. Há memória em Belo Horizonte, Ouro Preto, Mariana e a saudade.

Elizabeth M.B. Mattos Torres da rua José Picoral, frente ao mar. Fevereiro de 2013

[1] Diário íntimo, Amiel. (p.84)

O instante seguinte

Estou sempre começando. Mas, na verdade, eu não sei onde é o início. Deve ter havido mesmo um início…

 

Tudo deu certo. Ou não.

Mas por que continuar?

Terminou, terminou.

Há que inventar depressa

algo a tentar,                             

que por sua vez acaba                                                                

 e nos devolve à vida.                                                                 

E o que fazer com a vida?                                                           

Outra coisa, mais uma, mil                                                                    

ou mesmo nada                                                                

e não se evitará                                                                

que a vida volte!

Poema de Paulo Hecker Filho – O instante seguinte –

XIX -19 acordes

                                                I – Primeiro movimento

Não deixá-lo cair. Inesperado movimento. Tropeçou. O corpo se inclinou na minha direção, solto. Eu o abracei. Olhos azuis. Mãos geladas. Esticar  o corpo modificou olfato, tato. O corpo magro, no meu abraço. Beijei o pescoço ousando. Caminhamos de mãos dadas, depois ele me abraçou… Bizarro e natural. Saímos do Museu. Atravessamos a passarela. Cidade vazia. Centro de Porto Alegre. Uma hora da manhã. O velório duraria ainda toda a noite. Apertei meu corpo contra o dele. Caminhamos pelo viaduto, encontramos o caminho. Chegamos. Rua Santo Inácio deserta.  Antes de abrir a porta nos olhamos, nos olhamos na intimidade da exaustão, da tristeza. Estupefatos, cheios de estranheza. Nossas bocas se tocaram. Tinha os lábios gelados. Decidira tudo sobre o velório,  a máscara. E não dormia já faz um dia… Estranho querido! Queria embalar o corpo dele. Desci do carro com frio.  Nos vemos em Torres, ele disse. Anotei telefones e endereço. Espera por mim . Vou esperar. Sorri. Entrei na casa da minha irmã! Exausta! Elizabeth M. B. Mattos – memória de amor – tão bom!

                                              II – Segundo movimento

 Ainda te amo.

Não é Mário, nem o Pedro, nem o Gianfranco ou o Luis, ou Antônio

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Compreendo o que escreveste sobre o Sergio! A dor de saudade! E mencionas o importante – valorização -. Algumas pessoas fazem a diferença. Eu diria até que o ‘como’ estas criaturas conseguem o feito é misterioso, mas nos sentimos inteiras, melhores, como explicaste: valorizadas. Não são elogios. E não é simples. Não é dizer que somos lindas, ou inteligentes, ou coisas desse gênero… É mais. Por um motivo único, ou pelo próprio jeito de ser, de se aproximar, a mágica ocorre. Estar com elas nos valoriza. A referência. O guia do amor próprio… Então, escutar a voz já nos alerta para este generoso doador. O amor nos dá auto-estima. Ele, o danado do sentimento amor entre homem e mulher que apesar do sexo, apesar da ausência, apesar dos beijos, apesar das palavras, apesar do silêncio nos sustenta. Não é amor pelo amor. É um amor que nos valoriza como ser humano. Indica a saída. Aponto o caminho. A vida não é afagos, boa comida, bom sono, e beijos. O significado de estarmos no mundo, de atropelarmos a vida com metas, dinamismo, conquistas, perdas, tropeços, e outra vez vitórias está neste amor que tudo valoriza! Esta roda gira, e se transforma em caleidoscópio. Assim, minha amiga, não são os belos olhos azuis, nem as sacadas que se estendem no mar, nem terras, nem o fluxo do rio, nem poemas, nem dinheiro, nem falta de. O caminho, a estrada, as mãos dadas aliada a esta valorização faz a diferença. O mesmo esforço interno, pessoal de cada um permite esta essência de vida, – o amor. E só conseguimos dar um passo depois do outro quando confiamos em nosso poder de equilíbrio. Não é assim com a criança? Supera o medo, qualquer medo. Depois de vários joelhos esfolados um dia levanta e caminha. Bem! Um novo encontro, um novo processo. Não é Mário, nem o Pedro, nem o Gianfranco ou o Luis, ou Antônio. Esta constelação favorável pro amor nós é que vemos… Precisamos descobrir o motivo, a luz… Minha amiga: amamos perdidamente no silêncio, e na ausência tanto quanto no abraço, e no beijo. Ninguém ama melhor ou pior. Vale o que escreve Henry Miller:

” Nossas leis e costumes relacionam-se com nossa vida social, nossa vida em comum, que é o lado menor da existência. A vida real começa quando estamos sozinhos, face a face com nosso eu desconhecido.” (p.29)

Henry Miller– apresentação de Otto Maria Carpeaux – O mundo do Sexo –

Editora José Olympio – 2007.


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Búzios – Rio de Janeiro:- Praia de João Fernandes, Armação e Manguinhos.

Diana a caçadora solitária

“Não há pior servidão que a esperança de ser feliz. Deus nos promete um vale de lágrimas aqui na Terra. Mas esse sofrimento é, afinal, passageiro. A vida eterna é a eterna felicidade. Respondemos a Deus rebeldes, insatisfeitos: Não merecemos uma parcela de eternidade em nossa passagem pelo tempo? – Podemos amar na Terra e merecer um dia o Céu? Não como penitentes, flagelantes, eremitas ou famélicos da vida, mas participando plenamente dela, obtendo e merecendo seus frutos terrenos, sem sacrificar por isso a vida eterna; sem pedir perdão por termos amado  not wisely but too well ? ” Fuentes – Diana a caçadora solitária –

Difícil traça um plano, ou fazer acontecer quando temos todo o tempo, todo o tempo do nosso dia. É justamente quando começamos a nos dar conta que não é o fator tempo que nos impede de agir… Não conseguimos agir por estar/ ser incapaz. E incapaz por ter me dado tanto tempo livre. Esta disponibilidade é que enlouquece. O teu silêncio me deixa enjoada. Simultaneidade de mal estar inexplicável. Se conseguir arrumar as gavetas, limpar o quarto, executar tarefas mínimas, e necessárias todo o corpo corresponderá ao prazer… A inércia nos faz menores, muito menores. Prazer. Será o prazer que corrompe? Toda a relação possível com o exterior é necessária, curativa. Qualquer atividade como caminhar no parque, verdejar a planta do vaso com boa água, e terra preta. Ou podar ansiedades, fazer um bolo, varrer. Lavar. Cuidar do gato. Pensar grande pensando o mundo. Ser gentil com a vida. Andar com os pés descalços, sentir a água no banho como se fosse mergulho no rio, no mar. Enfim, a natureza precisa entrar no nosso corpo. O desejo morno, tão manso que imobiliza é nocivo. Sim. Carecemos do beijo, do afago, do sorriso. As pessoas importam. Não podemos descartar o afeto. Terrível nos dar conta que em pleno poder do amor ousamos rejeitá-lo. É preciso medir. Somos prepotentes até quanto aos nossos sentimentos. Não importa se atravessamos a mata, o abismo do corpo para tocar a lenda… Beber ilusões e desfazer possibilidade. Mas…

“Mas quem é Prometeu, o que rouba o fogo sagrado? Por que usa sua liberdade apenas para perdê-la? Teria sido mais livre se não a usasse e não a perdesse apesar de que tampouco a teria ganhado? Pode a liberdade ser conquistada por um outro valor que não seja a própria liberdade? Nessa terra só podemos amar se sacrificamos o amor, se perdemos o ser amado por nossa própria ação, por nossa própria omissão? É preferível algo a tudo ou a nada? Perguntei-me isso quando terminaram os amores que aqui vou relatar. Ela me deu tudo e me tirou tudo. A ela pedi que me desse algo. Esse “algo” só pode ser o instante em que fomos ou acreditamos ser felizes. Quantas vezes não me disse: Sempre serei o que sou agora? Recordo e escrevo para recuperar o momento em que ela sempre seria como foi, aquela noite, comigo. Mas toda singularidade, amatória ou literária, lembrança ou desejo, logo é abolida pela grande maré que nos rodeia sempre como um incêndio seco, como um dilúvio flamejante. Basta-nos sair por um minuto de nossa própria pele para saber que nos rodeia um pulsar todo-poderoso que a nós precede e sobrevive, sem importar-lhe a minha vida ou a dela: nossas existências (…)”  CARLOS FUENTES –  Diana a caçadora Solitária – 

A vontade de viver, ser tocada, transgredir parece mais forte do que o selo comportado da moça bem comportada. Presta atenção! Este carnaval de boas maneiras me exaspera! Então quero ser transviada, ou obscena. Esbravejar. Mas o que se entende da vida quando crescemos em quintal cercado? Há que ad infinito adaptar-se.

 

 

Antiquário Azul

Foto-0057Tendência de guardar tanto troço inútil? E encontramos, de repente, preciosos documentos. História da história que não prestamos atenção… A memória é assim tão pequena pra armazenar lembranças?

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Tendência natural.  Guardar para construir/ refazer os passos. Armazenar para que um dia, quem sabe, talvez… E as caixas começam a ocupar os armários. É o medo de esquecer de lembrar. Lembranças se espicaçam, não permanecem, e se deformam. Papéis, certidões, foto são como marcos, e parte desta sonhada eternidade. A casa é o meu museu particular. Quando nos mudamos incêndio… A cada mudança um pedaço da identidade. Mas recomeço… E os guardados ocupam o melhor espaço. O mais importante seria / será o que está na casa da avó. E se não tenho nada para guardar entro no primeiro Antiquário Azul…

O último documento fotografado é o Passaporte de Francisco d’Assumpção Martins Cardozo  que passa a assinar Francisco Martins Cardozo de Mattos, pai do Pedro Alexandrino, o pai de Roberto Menna Barreto de Mattos –  meu pai. Dados  detalhados do Passaporte em Comentários. Tenho também a certidão de casamento de Pedro Alexandrino de Mattos com Maria Luiza Menna Barreto.  E  pais de Rita Menna Barreto de Mattos. Mãe de Roberto Menna Barreto de Mattos.

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Transcrevo:

Distrito Administrativo do Porto para Repartição

Passaporte do Exterior

Número 1404 Folha 68 do Livro 7

Signaes

Idade: 23 anos

Altura: 59 polegadas

Rosto: comprido

Cabello Sombrolhos Olhos: castanhos

Nariz Bôca: regular

Cor: natural

Depois vem a assinatura:

Francisco  d’ Assumpção Martins Cardozo de Mattos (d’ Assumpção riscado) Custo do Passaporte 1:600rs

 

Procurador Civil O Administrador Geral do Districto do PORTO

Concedo Passaporte a FRANCISCO d’ Assumpção (riscado) Martins Cardozo, natural de Conçelho de Fontes,   Solteiro e súbdito Portuguez

para o Rio grande do Sul

Levando

Abonado competentemente

E cumprindo con a obrigação de fazer sellar este Passaporte com o Sello da Causa Pblica, – de o referendar pelo respectivo Agente Diplomatico, ou Consular, residente neste Reino – e bem assim pelas Authoridades Administrativas das Terras em que pernoitar (um furo q não consigo ler) às mesmas Authoridades, e a todas aquellas a quem pertencer o conhecimento deste, não ponham embaraço algum ao Portador.

Valioso pelo tempo de trinta dias para sahir destes REinos. 

Dado em o Porto – aos 22 de Março de 1843.

Como Governador Civil

Administrador Geral

Antônio Luis D’Abreu

 

 

Para Ana Maria

Juremir Machado da Silva – Correio do Povo – Porto  Alegre, 6 de outubro de 2004. Ser feliz 

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É tudo o que se pode. Mas  nem sempre os outros deixam. São tantas as recomendações: não se queixe, não conte vantagens, não demonstre ressentimento, lute, não se deixe abater pelas derrotas, não seja invejoso, não seja arrogante, ajude os outros, seja humilde, não banque o dono da verdade, não seja fútil, não seja pernóstico, pense nas pessoas… Cada um tem tantas vontades e tantas limitações que a felicidade parece o horizonte perdido, ou o pote de ouro no fim do arco-íris. Quando mais a gente se aproxima dele mais ele se afasta. Muitos se assustam com tantos imperativos categóricos, e não se atrevem mais a pôr a felicidade no colo numa tarde qualquer de primavera. Mas a felicidade anda sempre por aí à espera de um carinho. É certo que não se entrega para sempre, porém encontra mil maneiras de satisfazer uma pessoa que esteja disposta a correr esse risco.

Exatamente, um pouco de felicidade exige uma boa dose de risco. Não se imagine, contudo, que correr riscos tenha algo a ver com aventuras terrivelmente perigosas em campos minados. O maior risco continua sendo o de se abrir para o mundo, fugir das parcas certezas que nos prendem ao sofá como ao rochedo da salvação e mergulhar no extraordinário do cotidiano. Por trás da aparente banalidade do dia-a-dia esconde-se um universo fantástico de pequenas grandes coisas. É difícil esquecer banho de chuva de verão ou de mangueira em tardes de janeiro. A infância, mesmo que os adultos tentem estragá-la, é um reservatório de sonhos. Mais difícil ainda é ver que há, felizmente, muito dos jogos infantis na vida dos adultos de coração aberto às coisas simples.

Do futebol de sábado à tarde às rodas de amigos nos bares ou nos parques, numa atmosfera de não está acontecendo nada, está acontecendo o principal: a vida. A grande lição, sem preço, da vida é sempre a mesma: seja autêntico. Brigue se tiver de brigar, rompa se tiver de romper, não abra mão dos ideais, salvo se eles se tornarem prisões dogmáticas ou armaduras do passado, e perdoe quando chegar a hora, pois ela quase sempre chega. Eu estava pensando nisso, domingo, atravessando a Redenção, quando um mendigo me chamou. Tentei evitá-lo. Ele insistiu. Finalmente, do alto dos meus preconceitos, certo de que me daria uma facada, olhei para ele. Sorriu. ‘Viu como esse raio de solte persegue?’, perguntou. Não, eu não tinha visto. Estava pensando na felicidade.

Foto:  Rua Marquês de Pinedo – Laranjeiras – Rio de Janeiro

Bebete Torelly, Lala Aranha,Beth Mattos,Zenia Aranha, Ana Luisa Terra Lopes, a Lali (prima da Zênia e da Lala, e da Maria Clara Gomes), veio do Rio de Janeiro, e Maria Araci Correia Meyer …

 Na outra foto  na casa da Mila Cauduro à direita:  Helena Fontoura, Marta Cibils, Bebete Torelly, Lala Aranha, Maria Araci, Luiza Maria Cavalcanti, Zenia Aranha, Marisa Melzer, Tânia Borges, Magda Franciosi, Beatriz Paiva (meio escondida), duas que não lembro, não eram de Porto Alegre…acho) e eu.

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Na casa da Mila CAUDURO o grupo das debutantes.

Ana Helena Macedo e Maria Araci, eu…  Baile do dia 9 de junho 1961 no Country.

Luiz Augusto com suas debutantes.

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Beatriz Paiva, Luiza Maria Cavalcanti, Magda Franciosi, Tânia Borges e Marisa Melzer, sentada não me lembro…E eu.

DEBUTANTES de 1961 – Country Club

OUTRA vez

Como venta! Aquele velho vento torrenses que assobia sacode tudo, grita que ainda é primavera. Leva todas as folhas, sacode a cidade, e tempera o verão. Tomei banho demorado, perfumado. Prazer na água! O cheiro do sabonete, a esponja esfoliante. Consegui separar um vestido. Abri a mala, e pendurei o que ainda faltava guardar. Mas não são as roupas que importam. Faz já tanto tempo que abandonei a vaidade! Também disto preciso tratar! A dor de te perder já passou, mas esta de envelhecer… A danada! A perversa juventude que desaparece! A exigência doente se transforma em nada fazer, em silêncio belicoso. Vou quebrando gestos, dor, prazer como se fossem  legumes do caldo verde que bebo antes de dormir. Na sombra do entardecer observo outra sombra, quero lembrar. Quero lembrar da beleza que nego, do abraço. E me espicho para te alcançar. Equívoco. As fotos trazem de volta a sensação de tempo lacrado, estático. O dia já  termina.  Avanço mais um pouco no que chamo ir ao teu encontro.  Vou descobrir tristeza e liberdade. Impotência. Vou até a vulnerabilidade. Nossa conversa sacudida alterou o dia. Agora estou a pensar na doença de ir e vir, no arrastado movimento que tanto me atrapalha! Esquisito estar sem lugar.  Esquisito o silêncio.  Por que escapo da ideia de ser com o outro? E quero. A vida vazia se agita com pernas e braços… Por que não sinto o prazer? Estou aqui, encostada na cadeira, penso palavras que não saem… O encontro que não tenho. Agora, empurrada pelas urgências, sigo o sinal da emergência… Foi no recuo do amor que o afeto surgiu, foi neste tempo escorrido entre medo e dúvida que ajoelhei. Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2013 – Torres