Interdições do amor

O fio do ontem, e do amanhã no hoje. Duplo na desconfiança do primeiro movimento que geralmente é o bom. E nós não o consideramos bom. Recusamos, escolhemos o segundo momento. Uma elaboração secundária, a  inteligência não permite saboreá-lo. O espelho, estamos lá e cá, ao mesmo tempo…Trágica impossibilidade do imediato. Desconfia-se do imediato, precisamente, porque se  duvida que seja o imediato. Aqui está o sentido da  reminiscência. Nada jamais é descoberto: tudo  é reencontrado pela memória. Em suma, para ser real é preciso copiar alguma coisa, repetir alguma coisa, fixar-se em algo já conhecido, real, pelo menos para nós. E o segundo lance  parece a repetição de alguma coisa já vivida, inacabada, mas sentida, e, definitivamente vivida. Talvez estas emoções não sejam nada mais do que a desconexão, o abandono a esta lembrança de luxo do presente, enquanto que, para a percepção atual, só são úteis certas lembranças do passado.

O lobo comeu Chapeuzinho Vermelho

Reluta para começar a mudança. Talvez seja o medo. Todos os dias risca o calendário depois da meia-noite: marca o tempo. Lê até os olhos arderem. Junta letras mecanicamente. Escuta os ruídos das pessoas que se movem no apartamento de cima. Coloca o livro aberto no lado esquerdo da mesa, escreve. A luz fria do computador permite que mesmo no escuro siga teclando aleatoriamente. Interrompe a escrita. Enjoada corre ao banheiro e vomita. Vomita agarrada nas bordas do vaso sanitário. Apóia-se nos braços, ajoelha-se. Mesmo tonta consegue arrastar as pernas até o lavatório. A água escorre nos pulsos, aproxima o rosto: várias vezes enche as mãos em concha para molhar o rosto.Ter o tempo todo, todo o tempo livre imobiliza. É justamente quando começamos a nos dar conta que não é o fator tempo que impede de agir, mas a abundância de tempo que paralisa. Esta disponibilidade enlouquece. A disponibilidade. O silêncio enjoa. Se conseguir arrumar as gavetas, limpar o quarto… A inércia limita. Caminhar no parque, ou verdejar a planta do vaso com boa água, e terra preta. Olhar as pessoas dentro dos olhos, ou ser gentil? Andar com pés descalços, sentir a água no banho como se fosse mergulho no rio, no mar. Enfim, a natureza precisa entrar no corpo. Beber ilusão. O trabalho das pequenas habilidades parece tão pouco importante! Por ser habilidade tem caráter banal de facilidade,não confiamos no que é fácil. Estranho que estejamos sempre buscando o complicador. Haverá sentido na sobrevida?  O bom desempenho interior, o grau de felicidade, Agora, sabendo da doença, desta súbita partida, quer arrumar a casa, limpar todo medo de morte. Aos menos neste ano que a vida seja serena e ordenada. Que as expectativas estejam na beleza da ordem.  Abre o armário e esvazia as prateiras baixas: todas as botas, sapatos em caixas ou saquinhos. E não encontra o outro pé do sapato verde de camurça do Rui. Supomos que a roupa traga altivez, o luxo da gola de vison, sapatos verdes? Arrumar o armário é  rever a história. Olhar, olhar a caixa entreaberta com um pé do par de sapatos como se este destino tivesse ainda outro significado. Um pé do sapato de camurça verde. Estes pedaços de pedaços. Encontrar a boneca vestida de Chapeuzinho Vermelho. Por loucura volta às caixas do corredor da área de serviço. Surpresa! Mais livros, outros livros. Começa a empilhar pelo quarto na tentativa de novas descobertas. Soterrada. Após esta invasão o esvaziamento. Coragem para enfrentar a limpeza. Limpeza do inútil. O Brasil não é um país onde se possa viver em segurança Temos que descobrir qual o lugar seguro para viver. Adaptação. A casa, o silêncio.  Quisera compreender o ciúme.  A boneca vestida de Chapeuzinho Vermelho que o lobo devorou. Quer ver-se ao espelho. Doente, limitada, faz cruzes no calendário.  As mães não se dão conta de que a infância desenha  o caráter nas repressões, nas ausências.

August Strindberg

O processo de divórcio transcorria com bastante lentidão, interrompido de quando em vez por uma carta amorosa, um grito de pesar, promessas de reconciliação. Depois, de súbito, um adeus irrevogável. Amei-a, fui amado por ela, mas odiamo-nos desse ódio de amor que mais aumenta com a ausência

(p.31) INFERNO

Re talho

Depois que nos falamos o corpo despertou inteiro. Devo acionar o computador para começar a escrever uma carta, e enviá-la às pressas. Contudo, exausta insone sinto apenas o borbulhar do desejo retalhado. Entra  no sangue: sentimento emoção. Transfusão. Desejo! O pecado leva ao inferno. Toas as cartas de amor são  ridículas, já  disse Fernando Pessoa, e não seriam de amor se assim não fossem, ridículas. Janelas sacodem acompanhando o vento, cortinas levantam. O ar gelado entra. Pálpebras descem pesadas. O corpo cai no sono, respiração solta. Estamos encolhidos nas cobertas. Um dia, não mais do que este dia. E, vestindo as roupas devagar, já nos vamos despindo um do outro. Silêncio. O corpo incha no calor, depois murcha como fruta passada… Resseca e aquieta. Envelhece. Elizabeth M.B. Mattos outubro de 2012 – Porto Alegre

Sándor Márai

 Era da raça de Chopin, ou seja, era uma criatura cheia de reserva e de orgulho. Mas no fundo da alma ocultava um impulso espasmódico: o desejo de ser diferente do que era. É o tormento mais cruel que o destino pode reservar ao homem. Ser diferente do que somos, de tudo o que somos, é o desejo mais nefasto que pode queimar num coração humano. Pois a única maneira de suportar a vida é se conformar em ser o que somos aos nossos olhos e aos do mundo. Devemos nos contentar em sermos feitos de  uma certa maneira e em sabermos que, uma vez aceita essa realidade, a vida não nos louvará por nossa sabedoria, ninguém nos conferira uma medalha de honra ao mérito só porque nos conformamos em ser vaidosos e egoístas, ou calvos e barrigudos – não (…) Devemos nos suportar tais como somos, esse é o único segredo. Suportar nossa caráter, nossa natureza profunda, com todos os seus defeitos, seu egoísmo e sua cupidez (…) Devemos aceitar que nossos sentimentos não são correspondidos, que as pessoas que amamos não retribuem o nosso amor, ou pelo menos não como gostaríamos. (…) eis algo que apreendi no decorrer de setenta e cinco anos aqui no bosque.

(p.106)  Sándor Márai in AS BRASAS

Paulo Hecker Filho: Príncipe de Porto Alegre.

Torres, 03 de abril de 2012. Estou aqui sem ânimo, amarrada na vidinha de ir, e ir se amarrando ainda mais. Relendo tuas cartas dou-me conta que a energia se perdeu, pudesse eu recorrer as tuas palavras, ao teu talento amigo! Sinto-me partida. Eu te escrevia meio a febre do momento, acreditava em mim mesmo, e acreditando conseguia dizer o que sentia. Releio uma carta tua de 09 de março de 1999.

Beth: Depois de quatro laudas cheias, dizes: ‘Ando exausta emocionalmente e, portanto, não faço nada. ’ E as quatro laudas? Fazer um pouco, seriam dez? Beth ou o turbilhão. Além do que ficou equilibrado o teu passeio-carta por aquele livro de arte. Se bem que não era o combinado. O combinado foi um romance. Pelo menos uma novela. Pelo menos um conto. A idéia é que isso – ser objetiva ou artista – ajudaria a pôr as emoções no lugar.  Nesse ponto, não é de contar com os outros, a gente tem de resolver consigo mesmo.De alguma forma enfim o resolves na carta passeando por sedas e cores à altura delas. Brava Beth.

Pois é nisso que preciso acreditar, que eu posso. E tu estavas doente! Sem medo. O Príncipe de Porto Alegre! Que saudade!

Limousin

Ainda sobre a França. Não é verdade, mas aconteceu. Desci em Paris, e fiz tudo como precisava ser feito: pegar o ônibus, depois o metrô, e chegar no Bulevard Saint-Germain  antes de anoitecer. No outro dia caminhei, caminhei, e me perdi. De metrô achada, e perdida, outras tantas vezes. Não vi o que deveria ter visto, mas vi meus fantasmas todos. Vi o Sena. Certeza de que estar ali era parte do sonho, tão velho que foi tudo embaçado! Apenas senti que estava  na França, em Paris. De noite, sonhei com o pai e com a mãe juntos, em casa, na Vítor Hugo 229. Acho que já te contei isto. Não pude fazer um diário. Escrevi algumas cartas. Não comprei cartões, nem presentes. Não bebi todo o vinho que queria, nem vi Paris à noite. Revejo  neste momento a universidade de Limoges, a casa da Juliette, o cachorro enorme, a praça. Os amigos: Jean-Jacques. O almoço na beira rio. Livros. Museu. Caminhada. Igreja. Trabalho lento. Não vi tudo o que precisava ver, nem estudei o bastante. Conversei, olhei para o céu. Igual. Igual ao nosso. Nos campos a diferença. Campos de girassóis, ou flores, ou o calor, ou a limpeza, o cheiro das pessoas, os parques.  Também as montanhas de pedras amarelas ou rosadas. Conheci  a região Haute Vienne onde fica Limoges, a cidade da Universidade, Corrèze, Dordogne, Périgord et  Quercy : Domme, de Henry  Miller e Anaïs Nin….Henry Miller escreveu: Só num rápido olhar pelos rochedos escarpados por sobre o escuro e misterioso rio em Domme…vale por toda uma vida. Collonge La Rouge: edifiée de grès rouge, elle offre au promeneur des émotions architecturales brutes. Comme cette cité est petite…mais il y a une église romane superbe. Autour du village, quelques sentiers vous feront voyager dans ces paysages de chênes truffiers et de calcaire, de noyers et de châtaigniers.[1] É estar no campo, no centro do mundo: vi as cavernas… e Beynac- et – Cazenac, Souillac, e Sarlat (toda dourada comme Domme) que eu adorei (para querer voltar) com a sua feira atravessando a rua principal, os cafés, as ruas estreitas, becos, saídas, cantos, floreiras, encanto. Les campagnards, a fonte com água potável, a praça e o rio La Dordogne: a região ora um Van Gogh ora Seurat (sem os maillots listrados) – Dordogne et Périgord foram as regiões que eu conheci depois do Haute Vienne. Verão. Aqueci a alma num tempo que pareceu maior do que realmente foi. Vinte dias enormes, pesados, tensos e maravilhosos. Como explicar? Vivi. Emagreci um pouco. Voltei atordoada. É um jeito de contar?! Não sei. Foi tanto e foi pouco, mas quero voltar… Logo. Logo. Não fiz o caminho da peregrinação normal… Não fui ver Saint-Michel, na Bretagne, mas fui a Rocamadour: un des hauts lieux de la chrétienté. Cette merveille naturelle et spirituelle reçoit de pèlerins. Le site est fabuleux. Il y a la forêt des singes et le rocher des aigles. Le paysage, la vierge noire et le souvenir de l ‘épée de Roland, “Durandal”, qui fut conservée en ces lieux jusqu’à ce que  Henri Court Mantel, pendant la Guerre de Cent Ans, vienne piller ce lieu saint, sont les attractions principales de ce deuxième  site de France, après le Mont Saint-Michel. Les grottes et les maisons abritent deux millénaires d’histoire, de miracles et de ferveur, et l ‘architecture s’en est  largement imprégnée. Rocamadour est à découvrir la nuit lorsque la lumière jaillit du paysage et lui donne un aspect fantastique presque irréel.[2] Fixei residência em Limoges, capital do Limousin (região), e tenho em cada passo a lembrança de uma vida campagnard.  É todo aquele pedaço de vida na fazenda.  Poderia morar no verde, certamente eu poderia.  Mas já estou em Torres. As baleias já chegaram. O calor veio. Mas hoje faz frio. O mar está limpo, e as calçadas vazias, como eu gosto. Um noite eu durmo, na outra fico penso. Quero mais para mim… Tanto eu quero! Voltar pra ver Paris que eu ainda não vi… Elizabeth M. B. Mattos – outubro -2012 – Torres


[1]  Le Guide Dardogne Périgord – Fanlac

[2]  Idem.p.244

Armadilha amorosa

A expressão do homem, suas vozes. O som do ser humano, o gesto, o andar, o escutar, mais uma vez o som genérico das vozes que não cantam soltas, nem livres, mas engajadas nos espaços permitidos, decodificadas por outras vozes.  O homem entre outros homens: dizemos para ser ouvidos, escrevemos para ser lidos, e pintamos para sermos vistos, fazemos música, e compartilharmos o Eu. Um Eu que se formou de experiência, e leituras absorvidas. Este mesmo homem quer, então, participar. Agir e fazer através da escrita: expressar. Escrever nunca é a cópia do que já foi feito, ou, pelo menos não deveria ser. Escrever é instalar-se na recusa do estabelecido. O ato de escrever supõe coragem. Mas escrever assegura mudanças, implica em não se deixar apenas ocupar. Interiorizar-se, observar, mas participar de uma forma contundente do mundo. Reconstruímos, e ou alteramos o estabelecido. Escrever é registro da intenção. O texto, espaço expressivo de quem escreve, é sedução. Seduzir requer toda uma aventura: admitir a necessidade de um propósito. O corpo do escritor se junta ao corpo do leitor num abraço  que busca a resolução do amor.  Assim, a atividade de escrever insere-se entre as outras atividades sociais.  Escrever, então, é fugir da alienação. Escrever é armadilha amorosa. Elizabeth M.B. Mattos –  outubro de 2012  –  Porto Alegre