Quase nada de novo … Certos detalhes desaparecem ao envelhecer. Não é Porto Alegre nenhum bairro específico, nem as calçadas, ou do rio que pretendo te escrever, mas dos sentimentos. Poemas leituras recortes. Fugaz momento. Ou a história toda numa frase sem pontuação … Palavras presas nas vírgulas, no suspiro ou estancadas no ponto. O que se completa no papel. Persigo as ditas/malditas escuras palavras. Corro atrás do tempo e constato: estou mais jovem agora. Elizabeth M.B.Mattos – julho de 2018 – Torres
Mês: julho 2018
sensação estranha
Que loucura! Que sensação estranha! A vida numa corrida galopante e a exaustão tomando conta de toda a minha cabeça transformando o raciocínio num labirinto …, em busca do Minotauro. Não, mais um vez ao terapeuta: o sonho, a mesma inquietação, o regate definitivo: ir a França eu mais eu e eu, nunca foi a Elizabeth. Estou embarcando via Varig dia 11 de julho direto para Paris e retorno no dia 27 de julho Paris Porto Alegre. Tudo desejado, planejado. Tua carta chegou neste pacote de excitação e turbulência. Estou, como deves saber, em recuperação de grau, e na próxima semana, exames. Alunos acanhados decepcionados. Outros atrevidos e agressivos. Os corredores cheios. Hipocrisia no ultimo sorriso. Voltam os desastres de sala de aula. Uma palavra, solução e o resultado. Fico atordoada. Sensação estranha! Anjos e espíritos agitados confabulam para que eu siga em frente sem medo. E tu que já me sabes um pouco. seja pelo não confessado, seja pelo que escrevo sentes em cada corrida o medo de ser eu, e eu e eu. Invoco os santos e quem amo. Fecho o círculo e me protejo de mim mesma. Quisera que a vida nunca terminasse, oxalá pudéssemos estar uns nas mãos dos outros abraçados. Tão abraçados que sentiríamos as voltas do corpo do outro enfiadas nas voltas do nosso corpo; seria um beijo permanente como corrente, prisioneiros. Condenados ao abraço. Encarcerados neste prazer suado. Elizabeth M.B. Mattos – 1999 Porto Alegre – fragmento de uma carta
Willys de Castro
Ontem / Trucidar meu corpo / Projetá-lo ao futuro / Sem razão alguma
Hoje / Sem motivo algum / Devolvê -lo ao passado
Remontar meu corpo / Amanhã
Willys de Castro
Today / Without any reason / Return it to the past / Put my body back together / Tomorrow – Willys de Castro

carta extraviada
Constituição Federal
Art.5
XXXIX
Não há crime sem lei anterior que o defina nem pena sem prévia cominação legal;
O que achas disto?
E deste inciso?
II Ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude da lei;
Que tal?
E a mentira que eu vivo? Onde eu a coloco? Tu, tu tens que continuar o moço que és, aliás, recebi este bilhete de uma amiga especial, colega lá do tempo das cônegas, segue na íntegra, ela mora em Fortaleza: ” […] tava olhando a programação da TV Cultura (é que escuto a rádio Cultura FM de SP enquanto trabalho), e olha o que achei … ! Esses contos da meia noite são ótimos! Contos da Meia-Noite – Quinta, dia 03, às 00h00 – Walmor Chagas interpreta Oração da Noite, de Paulo Hecker Filho. O texto retrata a decadência do ser humano pela ação do tempo, a consciência e a dor de se tornar um ‘peso morto’. Reflete também sobre o desabamento dos valores e as limitações físicas e intelectuais. “
Como vês a tua vida continua, e não tens este embate com a mentira, com esta representação idiota que as pessoas fazem ao se acotovelarem aí pelas ruas. E a preocupação de viver e morrer está dentro de cada um. É mais ou menos assim, escrevi hoje para F.T. […], e pensei em verdade, no amor puro, na entrega, na paixão. […] Estou lendo O homem amoroso de Javier Marías. Também o livro interessante, biografia de MARIA MARTINS (lá na galeria eu tinha no computador, como tela de proteção, duas esculturas dela – e, ninguém sabia quem era. Quanto ao Marías encantada com as palavras o escrito o jeito e … Queria estar dentro dele, ser ele (o escritor é claro) só um pouquinho. Gostando.
Será que existe verdade? Existe mesmo o mundo com uma verdade?Podemos confiar? Apoiar a mão, dar o braço ou quanto mais caverna para vida melhor … Pois é, ligou no meio da tarde o A. querendo fazer um livro que não passasse pela Fundação Iberê Camargo, e fosse uma biografia – , ou depoimentos sobre Iberê. Escutei. O que dizer? Nada. Ironia. Saudade. Pedaços. E eu voltei a pensar: somos antropofágicos. O melhor é seguir os instintos e a regressão para a condição de homem-macaco, será a salvação, tenho certeza. Estes primatas eram melhores, são melhores. Quero que a vida aconteça dentro da possibilidade possível daquilo que penso acredito ser o bom. O fazer se acomoda no bom sentimento produtivo. Busco sonho no talento que me foi entregue e retiro, aos poucos, da energia possível a COISA o fato o criado a criatura construída. O que é esta coisa? Sou e quero como Deus ser aquela que participa de um momento, de de uma ideia. Esparramo cor, busco possibilidade de…, pessoas são apoios escudos objetos de pesquisa quando eu mesma me faço suficientemente importante: isto é verdade? Não, tudo mentira.
Mas, o que são as verdades? E o que A. espera que eu escreva? Jovem artista cheio de projetos. Justo o meu morto projeto sobre Iberê. Será amigo? Chegou o momento de escrever logo tudo que sei? Por que não contar das pombas? O meu par de rolas que vem me visitar todas as manhãs … Uma delas morreu, eu acho, tenho visto apenas uma. Os pássaros são fiéis nas suas parcerias. Acendeu em mim, outra vez, aquela vontade de reagir. Não ficar preocupada com o detalhe, o pequeno, apenas contar o que sinto e como eu sinto: gritar do mesmo jeito que aos cinco anos esparramava tinta no papel. Escrever. E já é tarde, eu sei. Tarde para escola galeria, e para pessoas. Contar o que vivi ou mesmo inventar, ou fazer de conta usando as forças de como vejo o mundo. Espantar o medo: inventar mentir. Posso apenas mentir. Dizer das raivas, dos desencontros, dos enganos e das falsas fantasias. O que é, afinal, o medo? Usar o brinquedo / a invenção. É invenção pura: é lúdico. Não é a ciência empírica, mas a vida a ser comprovada. A maçã mordida pela mulher no paraíso que inventou: a mulher que leva o homem como numa canga pagando o castigo da cobiça e pesando com o peso dele. Dizer nada, dizer tudo. Contar estas biografias programadas como a História escreveu a História, e a Geografia? Quem alcança / sabe das mutações da geografia?
Outra vez acordou dentro de mim o discurso velho e manso em que estes arrimo que busco. Não, – não podes me largar agora, nem um pouquinho de sobra de tempo tens que não seja todo meu. Eu te preciso. Eu te preciso. Eu te preciso: nada de dizer “A ciência é implacável: depois dos sessenta (…)”, eu te preciso com limitações, desarranjos múltiplos para citar até os cerebrais. Nada disto. Agarra-te firme na cadeira, vai tratar na primeira caminhada do meu perfume, meus livros, lápis e sedas, depois conversamos. Tu és as minhas possibilidades além da estampa, da figura de mulher, eu sou gente porque tu escreves para mim. Vais fazer mais do que eles, os médicos. Vais ficar aí, esperando que eu faça o que tenho que fazer. Devo ter uma missão, não devo? E isto segura o que possa haver de possível dentro de mim como criação: o fazer. A necessidade de dizer. Por isto eu amei Lispector, Anaïs Nïn, Canetti, Lessing, V. Woolf, IBSEN e todas as mulheres ou homens que se debruçaram neles próprios, Kafka Gide, e conviveram apenas com as pessoas que de uma forma ou de outra acreditaram neles. Nada mais vale neste mundo do que este esmiuçar de quem somos nós. O acovardamento é que nos paralisa. Mas, queremos dividir. Isto é demais? Paulo, espera por mim.
Tenho que estudar o REGIMENTO. A prova é neste domingo. Reza. Faz por mim . Fica quieto, aliás, faz todas as compras, bem bonitas. Vai ser tão bom! E me espera, por favor.
9/3/2005 Porto Alegre
frio
…, a explicação de um beijo, de um abraço. “Ka endireitou o corpo e disse ao agente que se tratava de um amigo que o parara na rua no dia anterior para lhe falar de seu trabalho de escritor de ficção científica e mais tarde o levara até Azul. Ele o beijou, explicou Ka, porque aquele adolescente tinha um coração puro.” (p.215) Orhan Pamuk Neve
Pode não acontecer o abraço porque não estamos no lugar e na hora que deveríamos estar. Frio, muito e tanto frio! O livro Neve perturba pela revolução da Turquia, pelas mortes, pelo trilho que o jornalista-poeta atravessa enquanto busca o amor de uma mulher ilusão e escreve poemas. Escrever neste trajeto de angustia meio a bombas, ao medo ou ao susto. A palavra é desafio ou alívio de tensão … Pamuk descreve/ entrega uma expectativa. Fragilidade do inusitado do terror de uma política violenta. Homens são violentos. A vida parece arremedo e tão apenas cruel seca triste solitária, e violenta. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2018. Tão frio! Gelado.
não pise na grama
A literatura de Henry Miller é o testemunho de uma vida febril, o depoimento de um homem que, relutando em participar da engrenagem social, ressalvou sua liberdade para ler, escrever e pensar. Tento seguir o caminho, tento…, preciso seguir, dizer escrever, chorar, gritar e ser mais feliz, mas fico nas beiradas a me esquivar. Preciso da palavra deles pra me expressar. Medo. Tenho qualquer coisa represada que me assusta, e ou, me falta ânimo, não sei, acho que não vou saber nunca. Grito por socorro! Apenas peço socorro! Não basta. Não avanço. Não luto. Escorrego. Uma timidez-vergonha covarde. E me escondo nos livros, ou me revitalizo com livros, não sei. Na verdade este não saber imobiliza. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2018
“Uma pessoa que acredita apaixonadamente e age desesperadamente com base no que acredita. Eu sempre acreditei em algo e assim me meti em encrencas. Quanto mais batiam minhas mãos mais firmemente eu acreditava. Eu acreditava – e o resto do mundo não acreditava! Se fosse apenas uma questão de supor castigo, a gente poderia continuar acreditando até o fim. Mas a maneira do mundo é mais insidiosa. Ao invés de ser castigado, você é minado, solapado, tiram – lhe o terreno em baixo dos pés. Não é sequer traição […] É um negativismo que o leva a exceder -se. Você está perpetuamente gastando sua energia no ato de equilibrar -se. É dominado por uma espécie de vertigem espiritual, cambaleia na beira, fica com os cabelos em pé, não pode acreditar que por baixo de seus pés exista um abismo imensurável. Isso acontece devido a excesso de entusiasmo, devido a um desejo apaixonado de abraçar pessoas, de mostrar – lhes seu amor. Quanto mais você se estende em direção ao mundo, mais o mundo recua. Ninguém quer amor verdadeiro, ódio verdadeiro. Ninguém quer que você ponha a mão e suas sagradas entranhas […] Enquanto você viver, enquanto o sangue ainda estiver quente, tem de fingir que não existe sangue, que não existe esqueleto por baixo da cobertura de carne. Não pise na grama! Esse é o lema pelo qual as pessoas vivem.” (p.58-59) Henry Miller Trópico de Capricórnio
nenhuma esperança
“Quando você entregar estas cartas”[..]
“Se ela deve saber que você a ama no mesmo instante em que descobre que não há nenhuma esperança nesse amor, por que lhe contar afinal de contas?” (p.165)
“Ao contrário de você, não tenho medo da vida nem de minhas paixões”, disse Necip. Temendo ter perturbado Ka, ele acrescentou:” A única coisa que me interessa são estas cartas: não consigo viver sem estar apaixonado por alguém ou por alguma coisa bela. Agora eu tenho que buscar o amor e a felicidade em outro lugar. Mas primeiro tenho que tirar Kadife da minha cabeça.” ((p.166) Omark Pamuk – Onde Deus não existe – em NEVE
Pesadelo e o terrível. O dramático percurso com a leitura, a memória escapa foge e se esmaga … Então eu preciso tomar notas, sublinhar, ou voltar, usar de estratégias para segurar trama ambiente. Redesenho modelo a minha maneira. Claro que eu me assusto. Viver parece tão urgente! Esquecer se transforma num gigante assustador. Existem soluções para me distrair de mim mesma. Brincadeiras. Tenho recursos para as boas lembranças, mas tantas vezes negligencio, desvio e penso num dia dentro do outro …, apenas sobrevivo. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2018 – Torres e muito frio.
dois tipos de homens
“Não quero que você me deixe nunca, disse Ka a Ipek. Fiquei loucamente apaixonado.
Mas você mal me conhece, disse Ipek.
Há dois tipos de homem, disse Ka em tom professoral. O primeiro não se apaixona antes de ver como a jovem come um sanduíche, como ela penteia o cabelo, com que tipo de bobagem ela se preocupa, por que ela tem raiva do pai, o que as pessoas comentam sobre ela. O segundo tipo de homem – aquele em que me enquadro – só se apaixona por uma mulher quando sabe quase nada sobre ela. […]
Quer dizer que quando você souber como eu como um sanduíche e o que uso no cabelo, deixará de me amar.
Não, porque a essa altura a intimidade que se criou entre nós se aprofundará, transformando-se num desejo que envolverá nossos corpos, e estaremos ligados para sempre por nossas lembranças felizes.” […]
Como você pode apaixonar – se por mim sem nem me conhecer?
Porque você é muito bonita… porque já vi em meus sonhos como seremos felizes juntos… porque consigo lhe dizer qualquer coisa sem a menor vergonha. Em meus sonhos não consigo nunca para de nos imaginar fazendo amor.
O que você fazia quando estava em Frankfurt?
Eu pensava um bocado sobre os poemas que não conseguia escrever… Eu me masturbava… A solidão é essencialmente uma questão de orgulho; você mergulha em seu próprio cheiro. É sempre assim com todos os verdadeiros poetas. Se alguém passa muito tempo se sentindo feliz, se torna banal. Da mesma forma, se você fica infeliz por muito tempo, perde sua capacidade poética… A felicidade e a poesia só podem coexistir por um prazo brevíssimo. Depois disso, ou a felicidade embota o poeta ou o poema é tão verdadeiro que destrói sua felicidade. Morro de medo da infelicidade que me espera em Frankfurt.”
(p.150- 151) Orhan Pamuk Neve
às vezes
…, às vezes acho que tudo poderia ser diferente, e poderia se eu tivesse te encontrado antes …, outras, acho que está tudo na medida certa, certo triste passageiro complicado e confuso. Eu nunca vou entender bem o porquê. Beth Mattos – julho de 2018
Não é apenas chuva que desceu do céu, mas um protesto. Estar em casa, na frente do fogo, ou no abraço, – um consolo.
beleza e desejo
Lui: Tu me donnes beaucoup l´envie d´aimer. ( Tu me dás vontade, desejo de fazer amor.)
Elle ne repond pas tout de suite. Elle a baissé les yeux sous le coup de trouble dans lequel la jettent ses paroles. […] ( Ela não responde imediatamente. Ela baixa os olhos sobre a força daquelas palavras [me escapou alguma coisa para traduzir, uma expressão]
Elle: Toujours …les amours de …rencontre… Moi aussi… ( sempre …os amores de …reencontros… Em mim também acontece o mesmo [esta vontade de fazer amor]
[…]
Elle: De même que dans l’amour cette illusion existe, cette illusion de pouvoir ne jamais oublier, de même j’ ai eu l ‘ íllusion devant Hiroshima que jamais je l’ oublierais. (Como no amor esta ilusão existe, esta ilusão de nunca mais poder esquecer, eu tive esta mesma ilusão diante de Hiroshima que eu nunca esqueceria.)
De Même qu dans l’ amour. (p.28) (Do mesmo jeito acontece com o amor.)
Lui: Comment c’ était ta folie à Nevers? (Como foi enlouquecer em Nevers?
Elle: C’est comme l’intelligence, la folie, tu sais. On ne peut pas l’expliquer. Tout comme l’ intelligence. Elle vous arrive dessus, elle vous remplit et alors on la comprend. Mais quand elle vous quitte, on ne peut la comprendre du tout.” (p.58) ( É como a inteligencia, a loucura. Não se pode explicar. Exatamente como a inteligencia. Ela chega por cima, ela preenche ou nos toma por inteiro, então a gente compreende tudo. Mas quando ela nos deixa, a gente não consegue mais compreender totalmente.)
Marguerite Duras – Hiroshima mon amour – (p.68)
A gente volta para a terra e a beleza está em todo lugar, encontra certeza cheiro e explora o tempo. Dizer, explicar, não consigo. Apenas sei. E.M.B. Mattos – julho de 2018
