Domingo avança morno. Ruídos atravessam as janelas, mesmo fechadas, e me aborrecem… Liguei o rádio. De onde estou posso ver as folhas verdes. A porta-janela da sala está com respingos verdes das novas folhagens, altas e esparramadas para esconderem as janelas do outro prédio. Ias gostar. Sexta-feira, afundei-me na compra de um mar verde em vasos de diferentes tamanhos; verdes e verdes pra fazer o jardim no estreito corredor-balcon da Independência: dívidas indevidas/compras e compras. Eu e as compras!
Sábado, fui ao cinema ver DOGVILLE excelente filme, talvez o melhor… Agora deitei, não. Estou sonambulando (fantôme)pela casa.
Quero te escrever em francês, vou comprar um dicionário eletrônico para resolver tantas dúvidas!!! Agora, tudo é em português: Porto Alegre.
Nostálgica saudade que sabe ser diluída nas impossibilidades. O curto tempo dos nossos encontros, Diferentes. Não imaginei nenhum rapport homem versus mulher onde beijos e abraços se evidenciariam, importantes. Aconteceu, lembro a doçura dos beijos, enamorados estávamos pela possibilidade, ela mesma, do enamoramento. Que vontade eu tive de me deixar inteira e acarinhar. O calor, a exaustão, mesmo os desencontros, os impulsos nos fizeram felizes. Gostei quando tu me olhavas e tocavas avançando no prazer de cada pedaço do corpo. E, naquele momento, eu não era uma mulher, mas um braço, um pescoço, um rosto, uma boca. O egoístico momento em que somos possuídos pelo desejo do outro. O prazer vai descendo lento, manso e morno para chegar ao momento certo. Perfeito. O cheiro da tua pele, do teu corpo a entrar/caminhar pelas narinas. Apalpei a vida.
Por que não fui ao teu encontro? Não tinha certeza. O corpo cansado, a cabeça confusa. Éramos possíveis amigos, aceitar a luxúria como normal, sem ter mais trinta anos parece indecente. Estamos velhos, os dois. Agora, os sonhos se concentram na proximidade das ideias, das longas conversas, de um toque manso. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro 2021 – Já em Torres
Cartas, o melhor leva e traz, desvenda, esconde. Jeito aberto-livre de dizer, não dizendo o importante, o que se esconde num ponto, numa vírgula. Na omissão. Um passo seguro, porque incompleto. O que posso fazer? O que não consigo dizer? E as pedras? Temas, leituras, bilhetes. Fica a conversa escabelada, ventosa, interrompida. Sou ansiosa. Esquecida. Tenho vontade de acertar. Isto serve? Acertar no ponto de fechar, interromper porque chegou ao fim… De repente nunca é fim, nem começo, eu me perco. Estou esperando a tua mão, o alfabeto todo. Os velhos cartazes de “VIVI VIU A UVA” … Ou muitas rodinhas até formar a letra O que não é 0 (zero), nem o A que vai ter um rabinho arrastado. Alfabetização precária. Conversa. Adesão. Estar entre as pessoas, estar. Vou fazer a caminhada, e volto para te esperar. As cartas, ou o projeto. Textos pequenos? Não sei. Elizabeth M.B. Mattos
Já demos uma rápida saída para esticar as pernas. Ontem dormimos cedo. Tantos sonhos, tantos! Acordadas noturnas. Queria estar mais em forma. Emagrecido, feito ginástica, sei lá. O corpo reclama, nada em especial, mas este amolecimento incomoda. Sabe o que penso? O medo pode ser obstáculo e… Quero enfrentar um dia inteiro, mas vou acovardando, e pronto, engulo o comprimido. Talvez seja envelhecer, não sei. Viajar também seria um treino, um susto imprevisível. (risos) Quero fazer uma viagem ao exterior com o João enquanto ainda posso. Japão seria muito dispendioso, mas quem sabe conhecer a Itália, Londres, voltar a França com vagar, devagar? Divagando…
O Balonismo acontece pela janela. De manhã bonito, mas de noite será muito mais…Aproveita a Onix esticada na almofada, olhando o céu! Pode? Hoje é a primeira prova. Acabam de aplaudir um vencedor do Paraná. E já temos uns oito balões no céu.
Filho, saudades tuas. Desde que voltaram do México a vida se transformou num ir e vir, entrar e sair de hospitais, subir e descer, como se o mundo tivesse feito uma parada de horror. Acompanhei tudo ansiosa, angustiada, numa aflição inexplicável. Sofri contigo a cada minuto. E tua voz chega pausada, num ritmo novo, com eco, e eu me lamento pelos cantos. Depois, esta fatalidade com o pai dos meninos! Ontem, por um milagre, não pensei em doença, no que pode ou não acontecer. Às vezes nos antecipamos aos acontecimentos.
Organizo o apartamento para a chegada da Joana e da Valentina. As coisas vão indo para os devidos lugares, e fico contente. Marquei a faxina no dia deixo a Ônix no hotel, não posso me afligir com a pequena. Tenho pensado muito entre Porto Alegre e Torres sem poder me decidir, mas vou me deslumbrando com a passarinhada, o silêncio, a rotina da lagoa. Mas, confesso, saudade da Tânia, das pessoas, das conversas, de um estar sem o que fazer, de participar… Aqui tenho uma rotina que me faz limpar, ordenar, ir e vir, num movimento circular. Em Porto Alegre poderia ter uma pessoa para me ajudar, e o doméstico seria mais leve, casual. Seria? Alguém para cuidar de mim, fazer o pesado…Penso no meu pai que queria morar, como o Mário Quintana, num hotel. Viver seria sinônimo de ler, escrever, pensar, aquietar-se ou passear sem pensar a hora.
Saudades tuas, muitas. Vontade de te abraçar bem forte, ficar de mãos dadas, o pai fazia isto conosco. E te escutar por um bom tempo, apenas escutar. Esta coisa de tocar, ficar perto! Sinto a energia voltar quando o João chega/vem com aquele sorriso pronto, conversas de confidências, uma cumplicidade gostosa. Ontem lemos, juntos, na verdade eu em voz alta, o pequeno livro do Moacyr Scliar Max e as feras, o tema, e a narrativa mesmo nos prendeu. Este voltou a pauta quando o livro de um autor canadense, As aventuras de Pi ganhou um prêmio. Houve uma colagem, ou o uso do mesmo tema. Em ambos os casos, um menino, após o naufrágio de um navio, sobrevive no caso de Moacyr Scliar, com um jaguar. No livro do canadense, Yann Martel, o menino se salva com mais três feras… Foi bom discutir a questão de plágio, ler o que foi escrito na época, depois a leitura. O canadense ganhou o prestigioso Prêmio Booker de 55 mil libras esterlinas. Do outro lado do mundo escrever tem mais valor. O livro do Scliar é anterior, bem anterior.
Saudades tuas. Grandes. Um bom feriado para vocês. Cuida de ti, muito. Te amo.
***
Filhota amada, não consegui fazer tudo, faremos juntas o que falta, mas penso nas duas todos os dias. Vamos ver umas roupas quentinhas por aqui se for o caso. As mantas serão necessárias. Te amo. Te espero ansiosa, feliz. Beijo
sem conseguir, nem movimentar / sem fazer acontecer
lamento alongadooooo,
estranhado e melancólico.
estacionado assombro:
sonho
calor a desmaiar,
fresca e arredia madrugada
e o tempo, o tempo não espera: não lamento, antes justifico…
erótico, não esquecido amado…
eu a te desejar…
Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2021 – Torres, desejando fosse Limoges, ou Lisboa, ou Montevidéu, quem sabe Buenos Aires, ou Rio de Janeiro, seguramente em São Paulo! Gosto.
Não é o desejo o que permanece sempre IMPENSADO (o não pensado) no coração do pensamento? Desejo / pensamento / pedaço de uma memória qualquer memória, aquela… Afinal passamos mesmo a pensar pensamentos e pensar morte também. A pensar desejos de coração, de memória / ou inventar memória. E a inquietude da ausência traz de volta / arrasta tristeza pesada. É o teu medo, somado ao meu medo = vazio, uma soma infinita e desesperada. Depois rejeição, depois vazio outra vez, e outra rejeição. Estou procurando uma casa pequena para passar um ano pequeno e assim pintar o apartamento, acertar as luzes, e trocar os móveis, não sei. Quem sabe? encontrar o novo debaixo destes sessenta anos de uso, ou foram mais? Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2021 – Torres
[…] “fora para procurar as pegadas de Gradiva – e ‘pegadas’ no sentido literal, pois com aquele andar peculiar ela deveria ter deixado impressões inconfundíveis nas cinzas” (p.70)
“Não é preciso que uma pessoa sofra de um delírio para se comportar de forma análoga. Ao contrário, uma pessoa, mesmo saudável, pode com frequência enganar – se quanto aos motivos de um ato, tomando consciência deles só depois do evento; para tanto é necessário que um conflito entre as diversas correntes de sentimentos crie as condições para tal confusão.” (p.71) Sigmund Freud Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen – Editora Imago
Estranho pensamento se mistura a minha vida hoje (embora esta observação seja do dia 02 de setembro de 2007 / dentro do livro, como seguido eu faço, serve para meu hoje 2021…) Percorro o passado com a doçura de voltar a ele / reviver/ retomar/ rever. Por que não posso aceitar o inevitável, ou a perda. E os nomes se partem, mas não se apagam. Esta multiplicação é inacreditável! Livro pequeno, quase um parágrafo, em se tratando de Freud. Inacreditável o recorte! Eu me pergunto: o que estaria acontecendo em 2007 / e o que me acontece em 2021 / serão os mesmos fenômenos? […] “lembranças reprimidas se transformam em fantasias que poderão ser compreendidas erroneamente” (p63)
Gosto repassado de vida, do novo, quase simultâneo ao passado: perfuma a sala. Como faz calor! Deve estar escaldante onde o mar não está… Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro – Torres
Arrastei uma manhã inteira, já quase quatro horas da tarde: vitória. Não. Não ficou tudo arrumado, a sei feito / lento fazer… Revirei as fotos, arranquei dos álbuns colantes, péssimos com aquele plástico. Tempo de imprimir fotos. E rabiscar apressado a data. Espalho aqui ali, faço um quebra-cabeça, esgravato na memória. Lamento a dispersão. Refaço. Ameaço escrever. Como disse minha filha, “sempre felizes”! Claro! Agora / hoje quero lamentar isso e aquilo. Agarrar alguma coisa, encontrar o perdido. Apreender a olhar outra vez…e os dias se arrastam…, como no tempo de ser criança. São imensos, quase vazios, e depois, depois chegam as noite longas, também as noites enormes. E os pássaros parecem certos: fidelidade, cantoria e voar, ir…
escondidas, as duas no verde, protegidasna casa da rua Vitor Hugo, 229 – Petrópolis – tempo das festastambém ParisPetrópolis / Rio de Janeiro / Beatriz Bohrer, e Biduca (Beatriz, lembro bem dela, ah! os nomes completos!)Quando uma foto traz uma história não definida: saudade deste 1979 se eu tivesse ficado no Rio, se eu fosse corajosa, se eu não justificasse, mas fizesse acontecer?
O exercício do mergulho, ou nostalgia. Preguiça? Incrível confusão. Um baralho nas mãos, sem jogo. Nem paciência, nem canastra, nem… Ah! Adoro cartas! Lembro das tardes na SAPT a jogar, depois dançar. Correr nas pedras (perigoso! não sabíamos), inventar brincadeiras, espiar os apaixonados, imaginar, subir o Morro do Farol! Torres. Ah! verões de tanto sol! Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2021 – Torres, ainda
Ensaio/repito/ anoto o jeito, a forma, mas o roteiro não se fixa, escorrega. Um balanço. Tenho medo. Então, uma amiga traz de volta e se deslumbra com o livro Desamparo da portuguesa Inês Pedroso. Eu me deslumbro. Portugueses: música embalada e perfeita. Valsa constante, sonata, canção, palavras e palavras e palavras! Walter Galvani, jornalista, amigo contou; conversou com Inês Pedrosa, num voo. Repetiu: ela enfeitiça. Morri de inveja! Beth Mattos
” O amor não tem portas que possamos abrir e fechar, nem passagens secretas para um sótão onde possamos fazer férias dele. Toma conta de tudo em nós, envolve – nos como um lençol de tédio, sedoso, infinito. Ninguém fala deste tédio sublime, tão contrário à acção e à eficácia, imóvel inimigo do progresso do mundo. Só no trono do sonho, iluminado e funesto, o amor interessa. Prolongada, a vida torna -se demasiado curta e o ritmo ganha o ritmo da chuva que bate leve, levemente.” (p. 78) Inês Pedrosa. Nas tuas mãos Editora Planeta do Brasil – 2005
Se as palavras se espalhassem em formato de verdade… Se tudo fosse dito branco no branco. Olho no olho… Tenho medo. Não deve ser este uivo do vento, nem a calçada varrida que impressiona. Desviar…
Verdade sem rumo, desvairada… Chuva! O susto do retrato, do fato, do gesto. Esta história da história embala! O medo! Esquisito estranhamento! Fantástico boneco. Brinca o amor, esconde a raiva, atropela a confiança, quebra o vaso, esparrama o mel…
E cala. Não desconfio, sei. Tu sabes. Ele também sabe. Sem princípio, nem fim. Pensar Roma. Vaticano. Pensar Alemanha. É a França? Não. Vai outra vez pra Inglaterra… E me espera. O Brasil se esconde. Enfeita-se roliço… O Rio de Janeiro festeja. E o gaúcho brinca de viver em São Paulo, bafeja o carioca, olha pro mar inteiro e se alegra… E o nortista? E o mineiro? E eu nem sei esta geografia toda. Calo. Não é irmão, nem primo, nem sangue, nem nome inteiro, cortado, adotado. O meio sorriso manso contamina.
Era uma vez um lobo mau. Era uma vez uma menina. Era uma vez uma vovozinha covarde. E aconteceu tudo uma vez… Todos se empertigaram na cadeira pra escutar… Elizabeth M.B. Mattos
“Quando George Gruikshank, o renomado ilustrador dos romances e Dickens, leu O Gato de Botas, ficou horrorizado ao pensar de que os pais leriam aquela história para os filhos. ‘O conto era uma sucessão de falsidades bem-sucedidas – uma brilhante aula sobre como mentir! -, um sistema de impostura recompensado pelo maior lucro mundano possível.’ E, na verdade, há pouco valor a louvar nesse gato que ameaça, lisonjeia, engana e furta no intuito de instalar seu amo como senhor do reino.” (p.236)
Contos de Fadas Edição Comentada& Ilustrada – edição, introdução e notas Maria Tatar – Jorge Zahar Editor – 2004.
E se fosse possível dizer o sentimento inteiro que descreve o amor, ou a corrida em direção a alguém / estudar o caminho para entender porque seguem longos/ penosos / sem fim estes caminhos… E a cada encruzilhada uma surpresa a ser absorvida!
Gosto deste sabor de sopa, carne assada, deste jeito lento de fazer acontecer: devagar, um pesar se estica, aperta os joelhos. A dor do corpo, o prazer da comida, a fantasia = analogias. Beth Mattos