lágrima – poder criativo

Eu disse que alguns livros voltam..., as leituras nunca são/serão definitivas, datas também não. Esquisitices humanas. Mulheres Que Correm Com os Lobos de Clarissa Pinkola Estés, impressiona. O texto não se fecha numa ideia emotiva, nem tesão ou sensação, nem caça pela caça, mas aborda uma reflexão – pensamento. Arranca um motivo. “Amar o outro não basta. Não basta ‘não ser um estorvo’ na vida do outro. Não basta ‘dar apoio’, ‘estar disponível quando necessário’ e tudo o mais. O objetivo é estar familiarizado com os métodos da vida e da morte, na nossa própria vida e numa visão panorâmica. E o único meio de se chegar a ser um homem familiarizado consiste em aprender a lição nos ossos da Mulher-esqueleto. Ela está esperando pelo sinal de sentimento profundo, por aquela única lágrima que diz: ‘Admito o ferimento.’ Essa simples admissão alimenta a natureza da vida-morte-vida. Ela cria o vínculo e faz com que comece a surgir no homem o conhecimento profundo. Todos nós já cometemos o erro de pensar que uma outra pessoa podia ser nossa cura, nossa emoção, nossa realização. Leva muito tempo para se descobrir que isso não existe, especialmente porque pomos o ferimento na parte externa em vez de ministrar – lhe a cura dentro de nós. Talvez não exista nada que uma mulher deseje mais de um homem do que a atitude de ele desmanchar suas projeções e encarar seus próprios ferimentos. Quando um homem enfrenta seu ferimento, a lágrima surge naturalmente, e suas lealdades internas e externas se tornam mais fortes e definidas. Elas se transformam no seu próprio curandeiro. […] Ele não tem medo de desejar, porque acredita que sua necessidade vai ser satisfeita,”(p.197-198) – e, não basta, mas é o começo, pensar, derrubar o proibido, amar pelo amor de amar… como podemos ser frágeis e evidentes! … eu posso dormir no teu abraço. E vou até o final. Seguras minhas lágrimas, passas a mão no meu cabelo, e embalas meu sono. Junho de 2021 – Torres – Elizabeth M.B. Mattos ” Não é de espantar que na nossa cultura coexistam a questão de esculpir o corpo natural da mulher, a questão correlata de entalhar a paisagem e ainda a de retalhar a cultura em partes que estejam na moda. Apesar de uma mulher não ter condição de parar a dissecação da cultura e das terras da noite para o dia, ela tem condição de interromper esse processo no seu próprio corpo.” (p.256)

2004 2014 2021

Quatro autores conversam, e, se fecham. Em circuitos particulares. Personagens e sentimentos… Outra vez, a estudar. Exigente, embora amolecida pelas horas. Dias fantasiados se sacodem exaustos, insones porque vigilantes. Tudo se alinha, mas tão absurdamente sem sentido! Pobre. Sem sentido nem explicação. Incompreendidas angustias. Sobressaltos autoritários, talvez poderosos. De tal forma poderosos que escravizam em exigências silenciosas. Num repente a relação-união queima como sacrifício, imolação. Difícil acertar na liberdade de ir e vir / avançar ou recuar.

Relações deveriam ser oxigenadas / livres, não pedras. E os sonhos, sonhos, não dívidas ou pesadelos. Relações sem falsas imagens nem teatro. Que a sombra fosse arejada, sombra de árvore bem plantada. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2021 – Torres – anotações de 2014 – chegando a 2004, sem urgência – debruçada em 2021 no embalo do inverno)

para Francisco, carta derramada

Alter ego ou alterego (do latim alter = outro egus = eu) pode ser entendido literalmente como outro eu, outra personalidade de uma mesma pessoa. Para a psicanálise, o alter ego é um outro eu inconsciente.

Assumo que estremeço. Assumo que deixo de ser natural. Assumo que conversar contigo é…, indizível. Antes do amigo, professor. Professor de uma nova disciplina. O homem dos pássaros, da terra, do jardim, e dos livros, da literatura, da teoria, meu professor, e ponto. Um ser/pessoa diferente. Bloqueio. Sinto medo, alguma coisa esquisita em relação ao que escreves, ao que escrevo para ti, ou compartilho contigo, ou imagino dizer e nem digo. Bloquear o pensamento, e me assombrar contigo. Não consigo estabelecer diferenças saudáveis, nem mesmo nas leituras. Até o teu francês grita superior ao meu, e sabes da minha formação… Existe o muro, a parede a ser derrubada / transposta / atravessada cada vez que te encontro nova sensação. Esquisito. Mergulhei na análise detalhada deste sentimento, que sejas, então, o terapeuta. Demoro um tempão pra relaxar, pra ver, olhar, para sentir que estou a conversar, afinal, com Francisco, o velho amigo! Em tempo, pois tão jovens és! Que dificuldade! E me sinto vigiada. Esquisito isso. Um jogo estranho. Sim, como se existisse um tabuleiro, e eu precisasse jogar, inferir, negar, ir pra direita, ou pra esquerda, atacar. Defender. Recuar. Esconder-me. Como se te escrever, ou responder me levasse para um terreno minado, cheio de bombásticas incertezas. Leio. Releio. Não respondo. E quando, espontaneamente escrevo, recuo. Outro mundo. Outro planeta. A vida acadêmica que eu queria / desejava pra mim? Um jeito de pensar, uma inteligência como a tua, não a minha? Não, mas não sou assim, penso. Tenho a minha própria história e trajetória, diferente, apenas diferente, mas,… Não é o algoz nem o juiz. Apenas o Francisco! Esquisito! Politicamente diferentes, e, tu és homem, e eu sou mulher, tu moras em Jacarepaguá. Curiosamente /estranhamente Jacarepaguá. Era onde pretendíamos morar, um longe agreste, hoje tão povoado, diferente. Estou a colocar todos os pronomes: excessivos em português, mas tão ‘naturais’ em francês! A doença, a perda, a morte. O fixo e o rígido. Neurótico. Algumas perdas me escapam, ou se acomodam no necessário. Luto prolongado quando perdi a mãe (atritos e divergências), conversas sem ponto final. Três anos depois o pai morreu, e, a minha tia Joana, aumentou a lista em cascata já sem lágrimas. Perdi as raízes, ou finalmente, brotou uma árvore?! Não sei. Não sinto mais nada agora. Não somos eternos / nem para sempre. Eu te digo que estou atrapalhada. Sofro para dentro, num lamento inútil, pesado e ansioso, tropeço na dor e avanço: tudo passado, e, ainda hoje/agora. Engolir a coisa sozinha. Afinal, morrer ou viver não deve ser filosófico, mas real, da vida / na vida, a morte depois do viver. Que loucura! Morrer é difícil! Desaparecer é como não ter vivido. O que resta é a memória na lembrança de outra pessoa. Uma ironia! Ironia fantasiosa! Enfim! Não era da morte, mas da vida o meu escrever. O que queria te dizer, ou o que confesso, agora, neste momento, descreve a minha confusão emocional diante dos teus julgamentos literários que me atropelam antes de serem proferidos. Não acreditas, mas enquanto leio, antes das letras, imagino teu julgamento. Teu julgamento me inibe antes de acontecer, sem existir. Não é ridículo? É louco. Escrever demorado para leres mais demorado ainda, parece um desenho pontilhado, do impressionismo, sair às pressas dos pincéis molhados no preta e mergulhados no vermelho, ao expressionismo. Por que, num repente, alguém se agiganta desta forma? Agora estou lendo Trem Noturno para Lisboa, (começou com o pedido do oficineiro: ver o filme, depois o livro, ou vice-versa. Fui atrás do livro, comprei, e gostei. Mas não sei fazer crônicas, e não consigo escrever, nem entender da coisa. A burrice me imobiliza, nem pra frente, nem pra trás. Então o livro começa a me aborrecer. Sem esmiuçar repetições, dizendo o mesmo… O truncado, o obscuro, o filosófico, mais do que o romancista. Depois me apaixono e mergulho. Tropeço, depois gosto, gosto do texto de Peter Bieri (o inventado). O filósofo com o pseudônimo de Pascal Mercier, ou o autor do romance com mais de 2,5 milhões de exemplares vendidos… Como O mundo de Sofia de Josten Gaarder. Nem ia te contar desta aventura. Habitas o planeta Terra, não sei bem o nome do meu planeta. Sofro influências, e logo desanimo, tu segues sempre. És metódico, sou desorganizada. És absolutamente claro, objetivo mesmo quando te propões subjetivo, sou confusa. Um sentimento de inferioridade acentuado. É isso? Não sendo objetivamente. Confuso. Tudo que preciso, ou imagino necessitar se refere a tua AVALIAÇÃO, a Beth aluna, (discípulo seria demais), se apresenta, um pouco sob o encantamento, outro tanto, timidez, mas certamente com inferioridade. Eliza, ou Liza? Tua posição em relação a vida, escolha, profissão, e até amor parecem seguros. E eu tropeçando… Tudo para te dizer que comprei um volume de Aureliano de Figueiredo Pinto, porque ainda não o conhecia. Quanto ao mineiro, não consegui. Quanto ao Tabajara Ruas, nem lembro mais qual livro, não sei. Estes livros descartados, com dedicatória e tudo, assombram as estantes dos meus filhos que os receberam, assim, aos montes sem terem escolhido. A ideia de os guardar, e de que um dia lessem os que não li, ou redescobrissem os que gostei, pura fantasia minha. Joana ia se desfazer e o fez, lembras? Apenas se desfazer. Esta partilha aleatória e necessária, fiz antecipada, antes de me mudar pra casa da minha irmã. Eu que zelava por grande parte da biblioteca da casa da rua Vitor Hugo. Livros encadernados pelo pai, pela mãe… Nome de família na lombada. Outros doei também para a biblioteca pública de Cambará do Sul! Quem deve ter aberto um livro? As traças. Literatura, jurídicos, e livros em francês! Esta coisa da perda! A biblioteca inteira do Paulo Hecker Filho que ocupava já um apartamento foi doada para Paulo Betancour. Este vendeu aos sebos. Contam que Paulo fez consciente para ajudar o amigo. Pode-se vender livros assim, aos magotes. Graças! Tu és feliz nestes encontros! E guardas os teus livros. Como te agradeço! Por todos os que amam livros. Também és agraciado pelo prazeroso destas leituras, escolhidas ao acaso. Deste jeito. E sempre, eu vou querer te seguir. E leio tão pouco! Um beijo e bastante saudade. Desculpa a carta derramada. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2021 – Torres – a ser revisado

gosto do que gostas

Gosto do que gostas em mim: por isso te quero, e me entrego. Eu te gosto. Esse desejo cheio de voltas, incerto. Estar sem estar, compartilhar sem nada dividir… Eu me despejo em carícias. Longos silêncios ruidosos, e, medrosos. Se eu sei o que gostas, eu gosto. Nunca mais abrir enlatados / sempre o verdadeiro das parreiras, da horta, de nós dois. A lareira a queimar nós de pinho, a queimar. Os cães quietos, e este vento de inverno. Não, neste momento em que divido a sopa e os cogumelos salteados, eu gosto apenas de te gostar. E o vinho. E a preguiça… A chuva inverna no cinza. Eu me distraio, nem sei mais quem sou sou. Procuro meu contorno, Desenho o corpo com as mãos. Procuro o querer, eu quero/ eu gosto. Eu me confundo, eu me entrego: feitiço deste gozo e vou…

Rio sem nascente, correnteza, margem mansa… ElizaBeth Mattos – junho de 2021 – Torres

velhos hábitos

Carta atravessada, voz sussurrante desejo estrangulado. Sedução latente. Nada a ser controlado: acelero sem rumo, esquisita sensação! Pradaria de margaridas selvagens: amarelas, azuis. Violetas misturadas, e uma alameda de camélias brancas! Singelas margaridas a serem despetaladas. Ouço tua voz sem nunca ter ouvido… Estaciono no meio do campo, e os olhos procuram, se perdem no verde. Não choro. Haverá um desavisado passante. Adormeço, estacionada neste céu. Velhos hábitos! Vou redescobrir equilíbrio manso sem paixão/ sem desejo. Beth Mattos

atrás de ti

Não adianta dormir de dia nem se esconder de noite. Não adianta escrever ou deixar de escrever, não atender ao telefone. Apagar o sentimento, escabelar o sorriso, olhar distraída. Nem caminhar leve, despentear a cabeleira, enfiar o chapéu. Vestir preto, misturar com o cinza, ou sair de branco. Não adianta olhar pela janela, achar que sim…,

és obstinado, correto, certo, descomplicado (desfazes desencontros, e pontuas), fiel, compenetrado, azul, um pouco verde com amarelo, cheiro de capim, galho poderoso. Tens terra no corpo, e a lembrança em broto, esqueces. Não lês, não desenhas, não brincas, não jogas nem cantas. As voltas que dás, estes cafés que bebes, estes acertos…, ah! este jogo de xadrez! Este teu riso na cerveja, o bocejo na caipira, esta carne de panela… Eu te espio, eu te sigo, eu durmo contigo no sofá, enrolada, depois vou embora do sonho, e tu ficas… Eu volto para fechar teus olhos, e tu dormes até às 10 horas da manhã na preguiça do frio: janelas fechadas, cobertas pelo chão. Se eu te contar o tamanha das caixas! Faço mudanças, vou viajar, volto, igual te levo por ali, e por aqui. Não vês. Eu te sinto. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2021- Torres hoje o mar molhou meus pés e eu corri na praia, atrás de ti…

Instantâneo tirado pela Ana Moog no Bistrô Taverna – Torres 2020
Colégio Bom Conselho / Formatura do Colegial
Búzios / Rio de Janeiro

esforço e coragem

O dia puxa pro escuro, para dormir continuado… Esta pandemia avança tão sem tempo de terminar! Como se fosse para sempre este apartado/separado aflito de ficar em casa, portas fechadas. Afinal / então / assim, fica tudo mesmo como era, fosco. Eu me proponho, meio sem ânimo, até sem música… ah! não acelere o tempo, atrase. A cada luz bordada um esforço desmedido, claro, um salto! Possível e vitorioso. Mas deixa eu dizer que estou cansada! …cansada! E um pouco triste. Amanhã vou fazer roda, cantar, encontrar pedrinhas brancas, jogar Três Marias, vou fazer bolo… Comecei a dieta, séria, seríssima, e me engalei para a festa, nada (risos), na primeira tentação, lá me fui a comer macarrão, camarão com muito queijo com vinho, então, dei risada, deixei tudo pra outra semana, outro mês. Vou buscar outra coragem, outra caminhada, outro vestido de chita para pular o São João! Vou espiar o vizinho e as bandeirolas da esquina. Elizabeth M.B. Mattos – vou rodopiar! junho de 2021 – Torres

erros errados

Narrativas, as mesmas. O fato/incidente, o mesmo. As mesmas perguntas: as respostas únicas/ emparedadas. Por que me repetir nos erros errados dos amados amores? E, afinal, certos… / Beth Mattos – junho de 2021 – Torres

Algumas experiências (ou serão todas?) são tão intensas que parecem/ou serão? únicas, nunca sei ao certo se o antes ou agora foram/são/eram/serão essenciais – de repente estou sentido o mesmo/fazendo o mesmo, acho que bonde sobre os trilhos não me levavam aos mesmos lugares…, mas nunca saíram dos trilhos…, pois é. Na verdade deixaram de existir, simples assim.

Nelson Rodrigues, óbvio

Leitura como onda, pois é, para encontrar o leitor há que se estender / aprender e se divertir. Errar, mas continuar: livros se reviram nas estantes.

Tenho promovido tão tenazmente o “óbvio” que ele se tornou íntimo de toda uma população. Sim, fala-se do “Óbvio” como se ele fosse um amigo, um parente ou jogador do Flamengo.

Aprendi que as coisas ditas uma vez, é só uma vez, morrem inéditas. Claro que os eternos descontentes, que sempre os há, protestam – “Você já escreveu isso”. E, um dia, uma senhora bateu o telefone para mim: – O senhor escreveu, hoje, a “Confissão” de ontem. Disse-lhe – “Boa piada”. Rimos ambos e ela já se despedia alegremente: – desculpe a brincadeira.

A leitora tinha razão a meu respeito, porque não nego as minhas repetições. E, além disso, sem o querer, ela definira toda uma época jornalística. […]Outro dia, um colega veio para mim, aflitíssimo: – “Não sei o que eu tenho, não sei.” Pergunto: – Dor de cabeça?” Pergunto. Não, não. E explica: – “Estou me sentindo velho, velho.” Ofereci-lhe um comprimido, como se ele pudesse curar a súbita velhice com aspirina. Até que percebi toda a verdade: – era uma velhice profissional e repito: nós, jornalistas, é que estamos mais obsoletos, mais fora de moda do que o charleston, do que o tango, do que Benjamin Costallat.” (p.67-68) Nelson Rodrigues O Reacionário memórias e confissões

Ontem, a passear pelas calçadas da rua André Poente. Ontem, quando cachorro quente era a melhor delícia, no Joe’s. Ontem quando namorado buzinava na calçada. Ontem, a televisão deliciava com o seriado Bonanza, e, torcíamos para o futebol brasileiro, para o vôlei, ontem eu deveria ser como hoje, feliz. Ontem vira hoje, e vira alegria dobrada. ElizaBeth Mattos – junho de 2021 – Torres (ontem era apenas veraneio, hoje delícia de todos os meses)