outra vez o mesmo

A mata azul no cabide. Os chinelos. A escova de dentes. O pente. A lata de chocolates. As fitas penduradas. Oprime o segredo. Oprime a preguiça. Incapacidade, ilusão frustrada, a idiota vaidade. Este mesquinho egoísmo e esta opaca inconsciência. Oprime não ter compreensão, nem o espetáculo inteiro, apenas o palco. A palavra dele, a voz, o cheiro, a roupa, a ausência, o silêncio, os remédios, o casaco xadrez. Por que não aceitar o que terminou? Não olhar o fogo, e deixar para traz as cinzas deste incêndio. Alguém fez este recorte, eu procuro o texto, inútil, apenas um fragmento de uma história sem memória. Nem a data, nem a referência, do amorasazuis.com /de Elizabeth M.B. Mattos Hoje? aquela mesma preguiça, ontem foi tão agitado! Dizer não é a tarefa mais complicada e difícil da vida; ou talvez seja…

já no limite

A gente gosta de pensar, de escrever, de falar, de ouvir, mas tem dia que não acontece assim, é um fazer enfiado, o dia inteiro, o dia todo de gosto bom / cheiro bom, então, eu limpo, não tanto, mas o mínimo, e este mínimo é bastante, eu canso. Este pouco toma manhã inteira: manhã de tirar o pó, arrumar um pouco aqui, ali, deixar outro bastante para trás. E lá/já chego na cozinha…, a geladeira, sem vontade, o banheiro, com capricho…ah! foi bom! Limpar tem uma certa magia flutuante, (risos) um gozo. Coisa de eu comigo, desde sempre assim. E flor no vaso, e música no rádio. Amanhã vai ser longo este outro fazer que ainda não sei qual será. Não escrevo, mas leio, continuado, não querendo acabar, um livro termina, aí, dá saudade danada.

Guimarães Rosa tem este jeito feitiço de agarrar, prender, e te cercar, pronto, vou entrar…E coisas do amor então!? A gostar do amor!? Ser sempre um abraço e um beijo, um enrosco. Ufa! Que saudade! Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2021 – Torres

A verdade que, em minha memória, mesmo, ela tinha aumentado de ser mais linda. DE certo, agora não gostasse mais de mim, quem sabe até tivesse morrido…Eu sei que isso que estou dizendo é dificultoso, muito engraçado.[…] E estou contando não é uma vida de sertanejo, seja se for jagunço, mas a matéria vertente. Queria entender do medo e da coragem, e de gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder. O que induz a gente para más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso,, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe!'(p.140) João Guimarães Rosa –Grande Sertão: Veredas

gaúcho, não carioca, olhos azuis de Lajeado

Chegando desde ontem, cheguei em Porto Alegre hoje. O ônibus sofreu neblina, dormi pouco. Viagem comprida, companheira de poucos passageiros. Vai parando, trocando de motorista, guardando cautela, imagino. Conheci um jovem de Santa Cruz do Sul, este, já ia seguir rumo em outro ônibus para ver pais, avós. Ele vive, atualmente, em Angola, fez curso de Teologia. Contou tanta coisa! Quem sabe eu arrumo um emprego por lá, eu me ofereci. De repente?! Disse ser lindo! E eu já fiquei um pouco lá do ouro lado do mar africando…

Paulo querido, não imaginas o prazer de ler tua carta transformando o meu mar em texto bem pontuado, quase poema sem eu saber. Depois, tua carta toda quente e boa. Estou caminhando, lenta, inclusive já usando a homeopatia.

Encontrei frio lá pelo Rio. Quero te contar depois. Agora estou com fome. Vou até ao correio, pego uma fruta pelo caminho. Depois, deito um pouco e volto a te escrever na noite.

Precisava dizer logo O B R I G A D A. A revista Folha das Letras veio também, vou explorá – la. Assis Brasil recebeu prêmio?

Aliás, conversando com Roberto Acízelo, em despedida, sei lá o porquê, eu lhe pergunto se já tinha viajado pro EXTERIOR. Ele responde sério, sim, claro, fui ao Rio Grande do Sul e gostei disse ele.

Pois é mesmo, gaúcho é gaúcho, não sei se brasileiro.

No teu poema eu viajo. Este é para mim: tomei posse. Obrigada Paulo. E lá estás. Tu vendo o mar… (19/08/2004 13:50:17) Elizabeth M.B. Mattos

fala interna e identidade

Como? Por quê? E se…

Aos cegos / aos que de alguma forma se sentem menos e terminam por se completar com este diálogo interno, precioso e necessário para sermos nós mesmos. A viagem vida…,e, já estou perdida, tantos são os elos de um único sentimento, compartilhar / dizer/ ou se fazer ouvir. A cada autor, seu tema / seu gosto / seu temperamento, o que de alguma forma persegue, sua cisma. Ciúme / infância / sexo / tropeço, rua ou cidade, leis, ou ética ou traição, morte ou vida. O seu monólogo interior materializado. A minha truncada e esquisita memória que acelera quando perco um livro, esbarro no outro:

“É preciso começar a perder a memória, mesmo que a das pequenas coisas, para percebermos que é a memória que faz nossa vida. Vida sem memória não é vida […] Nossa memória é nossa coerência, nossa razão, nosso sentimento, até mesmo nossa ação. Sem ela, somos nada.” Luis Buñuel

O diálogo impulsiona a linguagem, a mente; mas, depois que esta é impulsionada, desenvolvemos um novo poder, a ‘fala interna’, e esta é que é imprescindível para nosso desenvolvimento mais amplo, nosso pensamento. ‘A fala interna’ explica Vygotsky, ‘ é uma fala quase sem palavras […] ela não é o aspecto interior da fala externa, é uma função em si mesma […] Enquanto na fala externa o pensamento corporifica – se em palavras, na fala interna as palavras morrem quando dão à luz o pensamento. A fala interna é em grande medida, pensamento em significados puros.’ Começamos pelo diálogo, pela língua que é externa e social, mas depois, para pensar, para nos tornarmos nós mesmos, temos de passar para um monólogo, para a fala interna. Essa é essencialmente solitária, profundamente misteriosa, tão desconhecida pela ciência, escreveu Vygotsky, ‘quanto o outro lado da lua’. ‘Nós somos nossa linguagem’ costuma-se dize; mas nossa verdadeira linguagem, nossa verdadeira identidade, reside na fala interna, no incessante fluxo e geração de significado que constitui a mente individual. É por meio da fala interna que a criança desenvolve seus próprios conceitos e significados; é por meio da fala interna que ela conquista sua própria identidade; é por meio da fala interna, finalmente, que ela constrói seu próprio mundo. E a fala interna (ou sinais internos) […]” Oliver Sacks Vendo Vozes na (p.84-85)

Um elo traz outro elo, a generosidade de um voz, de uma conversa flutua com a mesma medida da agressividade, movimento modular. Este monólogo, esta vontade insana de escrever para dividir, para entender o próprio pensamento pode ser uma jangada em alto mar, sem direção / definitivamente perdida da minha vontade genuína ser pianista / escritora / cantora. Escrever sem eixo nem foco ou certeza, uma fala interna a querer se comunicar, tal qual a a foto de um rio, de uma flor. Traduz um/o mundo, mas /porque atrás da imagem um olhar, da lente, o desejo solitário. Eu querendo dizer/querendo sentir/ querendo comunicar: o grito de uma janela, de um não sei aonde…, perdido a ecoar grita por socorro! Tão solitário… O que se pode fazer?! Não sei. Somos todos, estranhamente, solitários e perdidos. E achados. Encontrados na voracidade da leitura, ler traz/produz uma identidade. Ler pode ser aquela conversa / monólogo-diálogo. Os IGUAIS /SEMELHANTES se aproximam…, sem mesmo poder dizer. Os surdos / os cegos / aos que de alguma forma se sentem menos e terminam por se completar com este diálogo interno, precioso e necessário para sermos nós mesmos. A viagem vida. Lembrei de um autor que adoro Ernesto Sábato (nascido em 1911 em Rojas, na província de Buenos Aire) e do seu Informe / Relatório sobre os Cegos, parte de Heróis e Tumbas. Não esquecer de ler O túnel. E…, já estou perdida, tantos são os elos de um único sentimento, compartilhar / dizer/ ou se fazer ouvir. A cada autor, seu tema / seu gosto / seu temperamento, o que de alguma forma persegue, sua cisma. Ciúme / infância / sexo / tropeço, rua ou cidade, leis, ou ética ou traição, morte ou vida. O seu monólogo interior materializado. E o luxo de escrever, aos meus escritores preferidos / aos esquecidos / aos interlocutores, aos pintores pintores, aos amigos missivistas (com Paulo Hecker Filho e Antônio Carlos Resende), aos jornalistas amigos e amantes amados. Obrigada. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2021 – Torres

aqueles sonhos

“Não sei se devo lhes contar meus sonhos. São sonhos velhos, fora de moda, mais apropriados a um adolescente do que a um cidadão. São floreados e ao mesmo tempo precisos, meio lentos embora de grande colorido, como os que poderia ter uma alma fantasiosa mas no fundo simples, uma alma ordenada. São sonhos que acabam cansando um pouco, porque quem os sonho sempre acorda antes do enlace, como se o impulso onírico se esgotasse na representação dos pormenores e se desinteressasse pelo resultado, como se a atividade de sonhar fosse a única ainda ideal e sem objetivo.”(p.11) Javier Marías O Homem Sentimental

gentil sem amor

Memória encolhida, tropeça, atrapalha…, uauuu, não lembro teu cheiro, nem teus olhos. Lembro. Demoro para lembrar, teu cabelo. E te juro, não é preguiça, mas falta, falta de palavras grandes…, esqueço palavras definitivas, e as vozes…, palavras soltas distraídas, impotentes, as pobres, é a voz… Nunca escutei tua voz.

Ela é gentil, vivaz, transparente, intensa, eu não sou gentil. Sou amiga desagradável.

Se não tomo nota, se não agarro o lápis, ficha e caderno, esqueço: desaparece o assunto, perco o fio, esqueço a cor.

A comida ficou delícia!!!!, a mesma, e delícia! Coisas de carinho de meu prazer pro gozo. Tesão por estar a fazer, a querer,… aliás, bem ao meu gosto destemperado: pimenta, passas, vinho e fome. Embalo do vinho…ou sei lá. Se eu cozinho, eu me alegro, se demoro me exaspero, e se tem cheiros desisto. Se faço assim, a te pensar, fica delícia! Esqueci das batatas. Adoro batatas, adoro conversar… Onde tu estás? A cozinhar, imagino. Tudo azedo. Os cantinhos, sem música, sem sedução. Como te explicar? Amanhã como sanduiches e tomo leite e fico na cama, de pijama, não camisola, não sou afeita aos pijamas. Tô avarenta, contida, reprimida, pouco, pouco, muito, egoísta. Digamos ser amarelo com mais marrom, pouco perde, preto, preto dominando. Ficou bonito o quadro, pois é, mas tu és azul?! porque usei tanto marrom?! Azul e amarelo, iluminado.

Por que eu me aborreço? Sou aquele tipo ‘esquisita-acentuada’ não confiável, azeda mesmo, desagradável pra ser mesmo desagradável. Preciso de espaço, espaço, o infinito da terra finita, fora do lugar, a meu jeito esparramado… O meu canto? É pequeno, sei. Tu sabes, é pequeno onde moro, mas desarrumado, empoeirado, florido, aberto, fechado, polido, e os livros esparramados: meu espaço, adoro os possessivos.

Detesto cozinhar?! Estás indo? Não cozinho para ninguém, cozinho apenas para mim, então escolho os melhores talheres, o copo mais delicado, a louça perfeita e devoro a comida, prazer sem educação, grandes garfadas, voracidade. Escuto músico e bebo vinho, e sinto preguiça depois… Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 021 – Torres tá cinzento e tá ficando frio! Sabes de uma coisa? Quase não sinto tua falta, mas, às vezes sinto forte, repasso as lições…

eu finjo

orquídeas para o baile

Preciso de calças jeans, meia dúzia de camisetas brancas, pretas, talvez azuis também, enfim, pode ter uma amarela por causa da luz: preciso. Preciso comer laranjas colher espinafres… Deixar o tomateiro invadir o jardim, e dançar com as orquídeas:, orquídeas em cascata tão perto da minha janela! Ouço a música da tua voz, da tua risada, sei que brincas de esconder. Sim, deixar o dia chegar. Acordar no silêncio pode ser complicado. Mastigar o amanhecer pra energizar a vontade. Como eu demoro para me dar conta que estou sozinha, agarrada aos sonhos e lenta. Estupidamente lenta. Estantes arrumadas, incrível! Consegui! Achei livros extraviados (risos), e, acabei concordando com a filha: choramingar amores passados, desejar os novos: vida correndo, não dá pra mudar – é assim mesmo. Reler Épaves de Julian Green, sinto saudade da Anita. Uaiii! Ela era forte, atuante, focada, decisiva. E eu não gostava nenhum pouco disso.(risos) Não é estúpido? Mães ocupam espaços gigantescos, imensos! Depois, ficam carentes. A independência se pendura num braço amigo, onde? Sei lá, meus amores desapareceram… Do Zé ao André, ao Roberto, ao Gustavo, ao Luiz, ao Nelson, ao Paulo. Mágica desta epidemia. Ou não?! Sou eu mais desejo, mais deixada no escuro, mais lúcida, ou meio anestesiada. A noite estava quente, com lua e estrelas, sem política, sem presidente. Eu teria ido direto para os braços do amado. Amado?! Esqueço, completamente, o cósmico. Atrai e nos deixa cair na ilusão… Igual. Tesão. Uaiiiiiiiii, isso não esta nada certo, nem fora do lugar: esquisitice. Adormeço antes do tempo, ou desperto antes da hora? Vai saber! Onde está a senhora sensata, organizada, avó, matriarca? Pessoa resolvida, esclarecida?! Sei lá. É a música. Mimos, nenhuma saudade, puro desejo. Diz minha sensata amiga que a COVID nos fez/faz amadurecer: o necessário. Apreendo a dizer não, usando o sim. Arregalo vida! Eu preciso viajar, mudar, alterar, sair. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2021 – Torres vou retomar O Grande Sertão do Guimarães, ali a conversa sai de verdade e do jeito que é, confessional, equivocado porque não sou quem eu digo ser, eu finjo ser. E tu não és.

onde estás?

Pequenas histórias não interessam, grandes parecem, excessivamente, as mesmas, comuns. O balanço se perde na paixão avassaladora da mesmice que consome. Pequena aventura: atravessar a rua…, estou sem ânimo, caminho/vou/no tropeço no galho da palmeira. Labirinto de Alice: sem hora para o chá. Sem hora… A leitura se entrelaça gasta. Usada metáfora. Loucamente, e pálida, repetida, a mesma…, e a genial linha?, labirinto particular, não identificado. Dia de sol que se acinzenta, nublado, outonal, não, seria primaveril?, mas ontem, ontem invernoso, e nesta madrugada era verão. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2021 – Torres

setembro

Vento vento vento desta primavera que conversa, mistura confissão com fantasia, inventa, alucina e inventa venta. Inventa. Hora diz noutra hora nega…,confunde. Venta. Se agita, e depois se aquieta…, confunde. Venta. Se agita e depois se aquieta e pergunta. Não espera. Se domingo fosse, mesmo domingo…, o dia não dizia, mas calava quieto, acarinhava. Mas como venta! Venta voa, sacode…, eu espero. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2021 – Torres

cores dobram, enlouquecem abençoam e iluminam