Reencontrar, saber. Querer voltar, entrar na brincadeira (no jogo) e não tocar…, eu corro, olhos fechados, reconheço pelo tato. Sinto teu cheiro. Toco no teu braço, escapas. Eu te sigo, outra vez. Droga! Não te esqueço. Ok! Já sei como deve ser. Eu conto até dez para brincar outra vez, procuro, te escondes! Vou esquecer! Outro jogo! As regras! Inacreditável como demoro / como sou lenta para aprender. Eu vou entender, não te preocupes! Vou ficar bonita outra vez. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2022 – Torres entre cinzento, menos frio e saudade apertada de ti. Vou voltar a cozinhar, estes preparos nos enriquecem. Comprei panelas novas. Vou te mostrar.
Um sorriso na voz. Não preciso de nenhum sonho entre nós e a vida. Teu sorriso, tuas certezas…
Eu me deixo ir, eu me deixo ficar, ora acredito, ora sinto medo…, mas acredito, um pouco em mim, sou eu, outro pouco em ti, és tu. Agarra minha mão. Nunca foi fácil. O sorriso na voz. Concluo: a realidade só pode ser descrita mediante uma transgressão do social, mas não deve me trair, eu sou o meu foco. Cada um tem a luz própria…
Sem explicar por completo, tentando: a palavra se arrasta, não alcança o completo, porque sou incompleta, sem definição, tu também não tens definições. Eu quero que ele seja herói (herói das suas próprias conquistas), afinal os vinte anos são mesmo um amontoado de equívocos. Deste/neste emaranhado as flores crescem, e se transformam em frutos. Nunca ficarei sem alimento. Ele será sempre o meu herói preferido. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2022 – Torres
“A única maneira de extrair o medo ou preconceito seria a partir de dentro, de baixo, e como naturalmente esse tipo de mente preconceituosa ou atemorizada se esquivaria à menor sugestão de tratamento psicanalítico, ou mesmo de estudar e pesquisar dentro dessa linha, você não pode chegar a raiz do problema. Cada palavra, pronunciada em minha defesa digo, para indivíduos já preconcebidos, serve para aprofundar ainda mais a raiz.” (p.112) Hilda Doolittle Por amor a Freud
os ódios, ou as raivas mal compreendidas saem a passear pelas calçadas…contaminam, temos que estar alertas / vivos /, não importa se choramos, importa continuar…
Conseguimos decidir: escolhemos a casa com jardim pequeno na frente, um canteiro, a bem da verdade, um portão grande, curiosamente, pintado de rosa. As janelas vermelhas forte/ vermelho sangue e a porta vinho. Suponho que as flores, hortênsias margaridas, duas roseiras, nos darão trabalho. Tudo parece em bom estado. E tem uma chaminé, uma lareira com um canto para assar pão. Duas quadras do apartamento, cheiro de mar. Uma grama mal tratada, mais terra do que gramado.
Como o João me advertiu, senti um pouco de medo, parecia desprotegida a casa. E a inquietude me agitou num ir e vi frenético como se testar portas e janelas pudesse me contar da paz a das boas histórias. Uma aventura meio deslocada, numa vida desfocada, de aventura. Dois anos! Seriam dois anos a dormir escutando o mar. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2022 – Torres
Causa desta loucura deste risco deste intenso possível porque o corpo responde ao desejo. Posso acreditar, trocar o justo / o melhor pelo incerto. Quero romper a lógica. Não quero outra vida. Ou posso mudar. A vida teria sido outra? Talvez nunca fosse diferente, mas o caos maior, ou menor. Loucura picada, lucidez atenta: define mais que todos os cuidados. A paixão pelo idioma francês, a paixão pelo estrangeiro. O universo íntimo define qualquer avanço. Podia tudo. Era tudo. Atravessar o arame farpado. Plantar/ fazer nascer/ entregar a força. Quanto menos lógico, mais encantador e possível. A febre autorizava, o trabalho faz acontecer porque o fazer dignificava. Eu era ótima / ótima e lúcida / confiante. Deste jeito eu te amei / amo. Corajosamente, ousaste posar teus lábios gelados na minha boca. Eu te abracei, colei meu corpo no teu corpo porque tudo em mim já te pertencia.
Fechei as malas, empacotei os livros. Preciso ir e estar onde quero ser eu: estou a brincar com a ordem / a possibilidade. Desenho todos os cadernos. Sem lógica.
As palavras gotejam e se espalham… Nunca estou pronta, mas logo gritarei aliviada, solta… Vou. Preciso sobreviver.
As confissões se escondem no dia azul e manso, eu fecho a porta. Tantas vezes fecho a porta! Não adianta. Todos os erros entram por baixo da porta, ou pela fresta da janela. E se acomodam nos degraus de escadas entre um andar e outro. Beijos, abraços, promessas, o melhor daqueles dias. Entendo. Posso abrir a porta e te receber, farei a comida, escolherei a melhor cama. Poderás retomar a luz, dormir / não dizer nada. Por favor, eu vou te abraçar e vou chorar nossa alegria, soluçar desejo. Misturo minha vontade com o gosto da tua boca, não me importo, estás aqui. Vou recomeçar Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2022 – Torres
Teres chegado assim desarmado e livre me faz rir – a manteiga e o pão e o leite se transformam em nó dois, ah! O prazer.
” Je m’en vais, dit Ferrer, je te quitte. Je te laisse tout mais je pars. Et comme les yeux de Suzanne, s’ égarant vers le sol, s’arrêtaient sans raison sur une prise électrique, Félix Ferrer abandonna ses clefs sur la console de l’ entrée. Puis il boutonna son manteau avant de sortir en refermant doucement la porte du pavillon.” (p.7) Jean Echenoz Je m’en vais
Adoro o título. Adoro este começo/este início: “Eu vou embora, eu te deixo. Eu te deixo tudo, mas eu vou embora.” (livre)
Que vontade de agir/fazer assim, eu vou embora, eu deixo tudo, eu não me importo, eu vou embora. E a força de recomeçar, de poder, de decidir. Terminar aquilo que começou, ou que já se esgotou… Abotoar seu casaco, fechar com tranquilidade a porta, e sair. Por que é impossível? E sempre é impossível, e, por ser assim impossível, a gente vai se deixando ficar… E já é o começo de morrer. Embora se morra tanto e tanto, todos os dias a morrer, mesmo batendo a porta… indo. Indo e deixando, para trás, o sonho / ou a vida de sonho, o outro / ou ela ou ele, ou a casa, ou o desejo, ou a vontade, ou a coragem. Aquele corajoso ir arranca um pedaço. Exagero! Renasço. Brotam, brotam, brotam vontades de nascer! Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2022 – Torres
…,querendo brotar, querendo ter força para seguir, e escrever, escrever: e recomeçar.
Viver /morar na caverna pode ser opção (idealizada). O processo de proteção se instaura. No princípio foge-se de frustrações banais, do não reconhecimento. O desejo da posse / ou a posse-sonho corrompe…, eu acho. A pessoa quer/imagina poder administrar espaço, tempo. Os tentáculos. A gente rejeita um isso e um aquilo. Seleciona. Procura o companheiro, acredita, se inspira… A ideia de ser dois e multiplicar (certeza de poder), e as conversas compridas, a força de estar perto e repartir / refazer. ( O que desejamos refazer?! Sabemos tão pouco do feito! Se ao menos fossemos precisos, mais exatos com o sonho…). E agora eu pergunto / eu Elizabeth / eu Beth o que desejo/quero exatamente, o que pretendo? Os espinhos / a indisposição da alma, como ouriço. E logo o corpo quer o abraço, o beijo, o afago -, parece simples, mas não é nada simples. Quer dividir a risada. Carece. Se aninha no vazio de ser assim, o vazio. E mesmo quando acendo as velas por toda a caverna, ilumino, os degraus, invento voltas / fazeres, ou renovo, limpo! Um vazio! Carrego jasmins, desenho folhagens. Persigo o som. Num minuto a vontade de chorar sacode a rede, e aquele vazio ancestral, infantil silêncio, medo de estar sozinho, de ser nada, de não significar… Não merecer um olhar, não fazer brotar nenhuma ideia, nem lampejo de luz… E não saber se caminho para a esquerda, ou dobro aquela rua, ilumino aquela praça, adoto mais cães. Ou liberto. Como a gente faz isso? Que droga de sentimento! Como se materializa este sentimento? A saudade. Não a saudade dos nomes, das pessoa, a saudade do tempo de acreditar. E uma voz estranha chama pela mãe, pelo pai… (outra vez criança, meio perdida). Eu quero tudo outra vez. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2022 – Quero outra vez querer tudo outra vez, outra vez. Voltar a Ponta Grossa, a Santo Ângelo, apreender a rezar a Ave Maria e o Pai Nosso, e saber ler com os cartazes da tia Mariazinha. Quero tentar outra vez. E prometo! Não vou me deixar engordar e vou estudar. Vou ser bonita. Vou cuidar de mim, vou me encontrar com o verão, entrar no mar…
Os olhos ficam úmidos e aquela escondida vontade de chorar aperta a garganta: flores, folhas, ideias, cores, amor desgovernado, saudade poderosa, alegria, presença, palavra, abraço, beijo, outro abraço, uma fita, um jardim, a mesa colorida, a cadeira vencedora, o tímido, o exuberante, o alegre, o alegre e generoso e alegre e talentoso filho! Parabéns! Feliz aniversário!
Vou colocar uma casa pequena neste jardim e cuidar do flamboyant. Vou querer varanda, uma rede e… O chalé ficou exigente. Não posso/não vou pensa. Preciso fechar os olhos / esquecer o que dói, acreditar na pequena alegria. E confessar, o que já foi, não volta. Quando disse não, foi um não definitivo, sem balança. Mazelas para trás… Possíveis e impossíveis: eu não quero. Não vou votar ao minúsculo molusco de jeito nenhum, nem sonambula, nem em tortura… Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2022- Torres
Limpei a casa / engavetei o resfriado, e vou apertar o desanimo. Uma salada colorida. Cozinhar feijão, arroz cheio de imaginação. Abarrotar o tempo com enorme vontade de escrever, pensar, dizer sem explicitar, assim na brincadeira de esconder palavras, mas mesmo assim desenhar e… As reticências guardam um mundo, uma vontade de gritar, de enlouquecer. A louca precisa ser contida, administrada, e, com certeza, comedida. A fantasia ‘megalonâmica‘ (risos) permite que a inquietude se mude de quarteirão todos os anos, ou entre num avião, ou o no trem, e pelas estradas areje a vontade de crescer. Estas salas arrumadas ou desarrumadas, claustrofóbicas. Eu preciso, ao menos abrir um fresta da janela e esperar que as buganvílias voltem a florir. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2022-