três passos

Acordei bem cedo preparada para uma boa caminhada, dia alto às sete horas, entusiasmo. O calor ficou nos três passos! Sou eu que estou nos limites ou o excesso me agarra? Ah! choramingar não resolve nada, imaginar, talvez! Estou a pensar na densa guirlanda de lembranças, uma traçada com a outra, e o efeito desta memória! Um dia cheio de listas! E os lápis ficam agitados na hora de riscar: o que eu vou contar primeiro… Depois, vem aquela vergonha de ser eu! Por quê? Porque meio cheia de mágoas agora, e, não era assim antes, eu deixava cair no poço, esquecia. Agora tenho a mania de pescar uma por uma. É péssimo. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2022 – Torres – igual vou contar – escrever é libertar e prender tudo à escrita, a relevância diz respeito a comunicação – tudo se enfeita no dizer. Memórias infindáveis, uma narrativa! Uauuuu! Vou trabalhar.

pedras que flutuam

História pendurada, amarrada em dificuldade emocional, travada. Mecanismo que prende ou recria a pessoa que és (ou eras/ quem eu sou), um sentimento atrapalhado. Coisa / fato atrapalhado / passado travado. Então, tomo decisões, deixo de fazer, de acontecer onde deveria estar. Como uma avalanche em tempestade o inesperado. Cobro uma dívida que o outro não sabe que tem, muito ambíguo. Quando eu me apercebo? Na hora de explicar isso ou aquilo, porque sim, ou porque não. O encolhimento, ou o tamanho das raízes. “Não posso me mover.” E o sofrimento, a dor maior cobre tudo. Inexplicavelmente se transforma: por dentro, por fora. Acolhe e rejeita ao mesmo tempo. Transborda e revoluciona. Surpreende como a guerra. Ataca e se esconde, justifica e segue… Elizabeth M.B. Mattos – março de 2022 – Torres

menos convencional

Esconder-se atrás das citações pode ser um jeito menos convencional de fazer silêncio, ou será dizer fantasiar-se, e, assim, “pular carnaval”, carnavalescamente, soltar sentimentos. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2022 – Torres – e, a guerra (a morte) continua: as explicações / motivos estão num lugar inacessível.

” […] a leitura dos livros ensinaram-me a diferença existente entre a aparência externa convencional e a moral íntima de cada um. Os homens não externam tudo, mas quando se adquire, como eu, o hábito de certas reticências, percebe-se rapidamente que elas são universais. […] Na verdade, muitas pessoas aprendem a conviver com instintos iguais aos meus. Não é tão raro nem, sobretudo, tão estranho. Detestava-me por ter/haver levado tão a sério (quase ao trágico) os preceitos que tantos exemplos desmentem. Afinal, a moral humana é apenas um grande compromisso. Bom Deus! Não censuro ninguém. Cada um abriga em silêncio os seus segredos, sem jamais confessá-los a si mesmos. E dizer que tudo se explicaria se todos não mentissem tanto!” (p.110-111) Marguerite Yourcenar Alexis ou O Tratado do vão Combate

Ainda na casa da rua Vitor Hugo, 220 – Petrópolis – Porto Alegre, antes dos 15 anos / cães, e, certezas.

volta, volta amor, volta indiferença, volta o sentimento, a espera, o desespero também volta “il n’en reste rien”

Je me suis écoulé comme le vent du désert, qui d’ abord chasse des larmes de sables pareilles à une charge de chevaliers, et qui enfin se dilue et s’épuise; il n’en reste rien” […]

Le Prince de la Mer

Seigneur, la gravité de la chose móblige à basculer vos gardes. Une offense odiuse a été faite à Votre Majesté, dont la réparation exige des ordres immédiats. […]

Ferrante

Personne donc ne gardait la mer devant la côte du sud? […]

(p.124-125) Henry de Montherland La reine morte / Gallimard – Collection Folio

O castelo de Helsingor

A felicidade transborda, a de dentro, por dentro. Eu esperava o último volume, depois, deixei de querer, de pensar, esperar, e fui me acomodando em outras leituras, enfeitiçada por outros encontros, outros amores, outros desejos, outras entregas. Choramingando, mas aceitado. E súbito estou outra vez na Noruega, entregue, querendo ir, e, quem sabe, nunca mais voltar. Quem acompanhou o meu encontro com com Karl Ove sabe. Eu entrei nos navios, eu zarpei pelos mares gelados. Chegou o sexto volume / Minha Luta encerra com o livro O FIM (este volume de 1047 páginas). Tensa, assustada, envolvida com a guerra real acontecendo… tomada pela tensão, eu ouso abrir o livro e escorrego.

A ideia de que eu estava vendo o castelo de Hamlet fez com que eu sentisse um arrepio nas costas. […]apenas o castelo naquele cenário, pensar apenas nas distâncias enormes que existiam naquela época, no pouco espaço que as pessoas ocupavam no mundo, nos grandes vazios que havia entre elas, para então olhar em direção ao castelo, onde o filho do rei, arruinado pelo desespero causado pela morte do pai, muito provavelmente morto pelo tio, talvez estivesse deitado com olhar fixo no teto, atormentado pela enorme ausência de sentido que havia se interposto entre ele e todas as coisas. […] embriagados de luz e tédio” (p17) Karl Ove Knausgard O FIM

A minha fragilidade. Esqueço que a perna dói, esqueço amanhã, e ontem, e vou construir a minha muralha, entrar onde me sinto bem, e seguir tropeçando. Festejo a chuva que refresca o dia. E agradeço a noite. O tempo e os óculos! Estou feliz. Um pouco envergonhada de dizer, mas digo, estou feliz! Elizabeth M. B. Mattos – março de 2022 – Torres

vácuo

Conversar não faz sentido, não posso. Podemos sim, mas o que dizer quando o susto congela o verão, e o tempo se escandaliza?! Arranco energia para segurar tua mão. Arranco energia da terra exaurida. Sabes o gosto que tem aquela liberdade, a nossa terra. Vamos recomeçar, aos poucos. Unir, sem largos sorrisos, mas solidários. Pois é, não sei o que dizer. Não posso te cuidar. Nem descrever o sentimento, nem a leitura, nem o tempo, nem o jeito de amar, nem a comida. Tenho voltado a limpar a casa, esfregar. Tirar tudo do lugar: vou amontoando de um lado, esvaziando do outro. Trocar os lugares, remexer os braços e as pernas para largar esta coisa de doer, soltar o grito. Doer de doer. Não escrever tranca a alma, aprisiona o gosto. Eu te gosto. Mas não basta de abraçar. Estou assustada. Durma de dia e sou sonambulando durante a noite. Vigiando a noite. Hoje vou colher as rosas, estancar o verão. Ah! Mas tenho medo do inverno. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2022 – Torres e não posso acreditar que estás indo, e…, parece temporal. Eu sei, tu voltas. E eu irei. Queria parar de envelhecer para te esperar, meu querido.

não vou pensar nas grades, nem nos esquecimentos: desenho o tempo e uso os teus pincéis

filha, volta

Um sonho, uma experiência, uma vivência, não sei te explicar: talvez por ter ventilado, sacudido fatos e feitos, arejado de um jeito leviano o calor excessivo, o colorido, o movimento, o ir e vir nas pedaladas, o trabalho, o excesso, não sei, tenha eu levado um transbordamento ao teu irmão. Sim foi a conversa com ele que voltou agora na madrugada, e me acorda. (Não imaginas como a noite está parada, abri as janelas, entra uma fresca silenciosa, mas nenhuma folha se mexe, tudo esquisito, quieto.) O Pedro presente / aqui comigo todos os dias, nunca estou/fico sozinha, ninguém por aqui nestes longes desconhece deixa de conhecer seus humores atentos as minhas esquisitices. Sentimos o olhar. Num pulo, vivemos juntos como se assim tivesse sido sempre. Ah! filha, teu irmão é cuidado, atenção! Um parêntese para explicar o sonho! Hoje contei de ti, falei em ti, mandei fotos tuas, e a tua risada chegou na conversa, abraçou tudo. Ela, tua vida, voltou no sonho. E ele e eu, preocupados, trouxemos a Ana Maria para conversar, claro, ela e tu, se confundiram nas confidências, Estávamos atrapalhados assim quando Joana entrou com a Valentina, colocou ordem em tudo, bateu um bolo, e bebemos um chá. E de repente, era como se ninguém tivesse outra vida que não fosse estarmos juntos, apenas nós, naquela paz de portas trancadas, e nas certezas de amor e na ordem da casa. Ninguém quer estar na vida do outro, o que nós queremos é estarmos todos enfiados/juntos na nossas vidas (uma única) de ser filhos e mãe. Conversando com Pedro sinto isso. Durmo e sonho, e num perturbado conviver com gentes/pessoas/talvez Recife escaldando no verão, nos perdemos a te procurar… Eu precisei acordar para te achar! Ah! Filha! Que sonho! Volta para casa! Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2022 – Torres

teus dedos

fiquei com vontade de pegar tua mão e contar os teus dedos, e, depois aprisionar o poder de agarrar a mão, não com força, tu entregas, confiante, mas, sou eu quem faz o brinquedo acontecer. Saudade grande tenho de ti! Fica bom logo, empurra toda a doença, todo o susto, e volta pra mim. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2022 – Torres

da música

Na música não existe um significado, não existe um sentido, não existem pessoas, mas apenas atmosferas, cada uma delas um característica própria, como se eles fossem caracterizadas simplesmente por ser aquilo que são, cultivadas sem corpo nem personalidade, ou melhor, como uma espécie de personalidade desprovida de pessoa, e em cada disco existe um número interminável dessas impressões de um outro mundo, que ressurgem cada vez que o disco é tocado. Eu nunca descobri o que me preenchia quando ouvia música, apenas que eu queria mais daquilo. ou na música o completo nos envolve e somos a música, entregues, pacíficos, guerreiros, inteiros. Estamos pronto. Talvez eu devesse abrir as portas e deixar as pessoas entrarem, abrir as janelas e deixar a música sair, ou aceitar a plenitude, deixar que o sentimento lave a minha ranzinze, purifica e eu me transforme em uma pessoa boa! Ah O tempo de ajoelhar e confessar, assistir a missa, participar do ritual, do silêncio, do jejum e se sentir perdoada. Não é o vestido preto, nem o banco, nem o desalinho dos cabelos, nem a paciência de ouvir que consegue me libertar. Vou explodindo aos poucos e inadvertidamente perco os pedaços, a lógica a memória, o interesse. a pessoa pode perder a esperança de amar uma montanha de vezes, uma corrente, uma…, não sei, explicar. Sei que o amor e o interesse, e o desafio volta, se renova, agarra tua mão, molha teus olhos de beijos e tu te esqueces de ser feia ou velha, ou outra… És tu, transformada, somos dois. Somos música. ah! Se eu pudesse entrar na música e ficar! Não. Eu volto, eu fico a me debater neste limbo de ir e voltar…Voltar a caminhar, caminhar, caminhar, caminhar! Amanhã a Magda chega e nós conversaremos sobre o calor, iremos até o mar, dormiremos na madrugada, e lembraremos de anotar que este é mais um verão a ser registrado. E eu que gosto do inverno! Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2022 TORRES