jardim

Vou colocar uma casa pequena neste jardim e cuidar do flamboyant. Vou querer varanda, uma rede e… O chalé ficou exigente. Não posso/não vou pensa. Preciso fechar os olhos / esquecer o que dói, acreditar na pequena alegria. E confessar, o que já foi, não volta. Quando disse não, foi um não definitivo, sem balança. Mazelas para trás… Possíveis e impossíveis: eu não quero. Não vou votar ao minúsculo molusco de jeito nenhum, nem sonambula, nem em tortura… Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2022- Torres

fechar a gaveta

Limpei a casa / engavetei o resfriado, e vou apertar o desanimo. Uma salada colorida. Cozinhar feijão, arroz cheio de imaginação. Abarrotar o tempo com enorme vontade de escrever, pensar, dizer sem explicitar, assim na brincadeira de esconder palavras, mas mesmo assim desenhar e… As reticências guardam um mundo, uma vontade de gritar, de enlouquecer. A louca precisa ser contida, administrada, e, com certeza, comedida. A fantasia ‘megalonâmica‘ (risos) permite que a inquietude se mude de quarteirão todos os anos, ou entre num avião, ou o no trem, e pelas estradas areje a vontade de crescer. Estas salas arrumadas ou desarrumadas, claustrofóbicas. Eu preciso, ao menos abrir um fresta da janela e esperar que as buganvílias voltem a florir. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2022-

repouso

“Repouso! Ser hóspede, um dia. Nem sempre ser o próprio a oferecer a seus desejos mesquinha ração. Nem sempre hostilmente agarrar todas as coisas. Deixar um dia tudo acontecer, e saber: o que acontece é bom. Também a coragem deve um dia distender-se e à beira das cobertas de seda sobre si mesma dobrar-se. Nem sempre ser soldado.” (p.96) Rainer Maria Rilke A canção de Amor e de Morte do Porta Estandarte Cristovão

Abri apenas a fresta da janela, o vento e com o vento a poeira e o susto: de repente, qualquer opinião pode ser o vendaval… não sei se o medo se arrepiou, se as convicções enfraqueceram, mas não estou pronta pra enfrentar! Não o intempérie / ou sou mesmo frágil! Pensei nos escudos, nas certezas, na minha retirada. Votar / dizer e sair do círculo. Ser eu a reagir, não porque sou assim ou daquele outro jeito, apenas pensar. Os filhos espalhados em estados diferentes / e importantes / bem, o Brasil inteiro importa! As escolhas dão colorido / pintam os temperamentos! A sala descreve a alma. E o silêncio desenha! Vou aceitar a sugestão, comprar tintas e pincéis! Saudade dos amigos! Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2022 – Torres, ainda Torres, sem as dunas, sem areia na praia, com sinaleiras, ruas atoladas de carros, e as lojas incríveis, qualquer coisa, o tudo nas vitrines: comorar me alegra! Amanhã vou misturar as tintas e passar a tarde inteira na beira do rio Mampituba. Ah! O perfume da cidade-mar, da cidade rio, da vida a descascar um tempo novo…E tantos edifícios! Não sei se resta um chalé, se resta um de antes, vou calçar os novos sapatos e passear! Preciso entender.

e vou achando

não percebo, já sei, e não vou. O espelho não mostra, não adianta,… já sei.

devagar / lento e devagar este folhear.

sou eu desanimada, prepotência do tempo. brotam as buganvílias.

será que as coisas, no lugar destes sentires, mudam de lugar? Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2022

Cada palavra é uma pintura abstrata. Uma superfície. Um volume. Superfície sobre a página. Volume na voz.

*

As palavras na correnteza da frase alcançam uma vertiginosa velocidade que as faz perder a substância.

O olho, na poesia nova, capta a palavra globalmente – a palavra objeto -, esta deslancha no psiquismo do “leitor” uma série ilimitada de ecos sonoros – depois de ecos de pensamento.

Então o corpo inteiro se engolfa nessa floresta de ecos.

*

A palavra é a parte visível da ideia como o tronco e a folhagem são as partes visíveis da árvore.

As raízes, as ideias vivem embaixo.

Pierre Garnier Manifesto por uma poesia nova, visual e fônica – tradução de Roberto Acízelo de Souza – Revoluções Literárias – Editora Argos

meu

Teu beijo, meu. Passo voltas na chave, seguro, guardo. Abraço quente como as dunas de verão, fica: não me importa que tenhas engordado, também eu, não sou a mesma, e, ainda assim, somos… Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2022 – Torres

substância

“Percebe-se, bem pelo alto, que o homem é duplo; mas é, diz-se, por ser composto de uma alma e de um corpo; e acusa-se este corpo de não sei quantas coisas; seguramente, muito mal a propósito, pois ele é tão incapaz de sentir como de pensar. É da besta que nos devemos queixar, desse ser insensível, distinto da alma, verdadeiro indivíduo que tem a sua existência separada, os seus gostos, as suas inclinações, a sua vontade, o que não está acima dos outros animais senão por ser melhor educado e provido de órgãos mais perfeitos.

Meus senhores e minhas senhoras, tende tanto orgulho da vossa inteligência quanto vos aprouver; mas desconfiai muito da outra, sobretudo quando estiverdes juntos.” (p.27-28) Xavier de Maistre

estremecida

…estremecida a contar os dias, jogar naftalinas no lixo, ventilar mil vezes o quarto! ah! este cheiro não desaparece! venha o sol! e que eu possa arrancar o melhor de todos os anos! vou seguir a enfeitar minha vontade e a lustrar o tempo! Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2022 – Torres

[…] “converter as nossas lágrimas em prazer. Enfim, as percepções do espírito, as sensações do coração, as próprias lembranças dos sentidos são para o homem fontes inesgotáveis de prazer e felicidade.”(p.86) Xavier de Maistre Viagem ao Redor do Meu Quarto – tradução de Armindo Trevisan

boa rotina

Rotina pode ser uma palavra sem graça, eu gosto. Empresto E N O R M E importância: a novidade, a surpresa, a beleza transborda da rotina. Ação decide, escolhe: uma aposta. Apenas uma alternativa, decido e resolvo.

Não amanheceu ainda: o gosto do café com leite define: já se faz hoje. Empurro a ideia de demorar na cama, rotina: escrever. Quero dar um volta / sair dela. Por quê? Estou a pensar! Não tenho escrito, rasguei a ideia de escrever impreterivelmente…

Estou a fantasiar o dia de festa / de dança. Termina quando a orquestra para, ou o disco (ah! este tempo!), não sei o que escrever, assim mesmo, empurro os dedos, voltar a rotina.

Quando eu me afasto a desordem fica maior… Complexidade de uma arrumação: buraco no dia, confusão, dificuldade de seguir. Vou dormir mais um pouco, e fazer de conta que hoje é amanhã. Oxalá o sono me aperte num gosto bom de sonhar! Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2022 – Torres

acalma

Escrever acalma, não compreendo porque reluto. Alongo o dia, aperto o corpo, não escrevo… como se, como posso explicar?! Uma represa / uma contenção, será por que penso em ti com tanta frequência? Será que estou a me sentir só?! Por que não chegas? Não te apressas em voltar? Será que não guardo paciência para te esperar? Reli a carta, reli teu escrito apressado, acompanho as notícias, recebo tuas saudades / recebo teus beijos / sinto teu carinho, igual me inquieto

escreve outra vez, exige, quem sabe o telefone? sim, detesto, não é o meu forte, mas pode ser solução. Eu me apresso em desligar, então…, talvez escreva e me acalme.

vou descobrir uma forma nova de te contar de mim, da casa, das panelas novas, da chaleira, da minha velocidade em limpar, da comida que fiz! é diferente, tens razão, cozinhar, arrumar a mesa, pegar o bom copo, e ter flores pela casa…tens razão! Sempre tens razão. Beijo. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2022 – Torres – vou me acalmar. Amanhã colocarei a correspondência em dia, voltarei a ser eu. Outro beijo.