deixa eu sentir teu cheiro / segurar tua mão / vou pedir o café no balcão e encostar minha perna na tua, como o sonho. lambuzo os dedos todos, bebo coca – coca, e, deixo tu ires para outro verão, eu te espero no inverno…Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2022 – Torres
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coisas vivas
A essência da tragédia é ser irreparável. Costurei os rasgos. Paciente, dobrei os desesperos. Renovei pequenos sacos, alguma coisa me desfiz, inventariei… Se eu sair amanhã? Ah! Posso levar a saudade inteira e aquela estante de livros, a cadeira da rua Vitor Hugo, as outras duas não são minhas, duas mesas, ou três, as camas. Tenho que me decidir. Amanhã vou comprar um colchão e novos travesseiros, duas camisolas. Acocorado lá entre salgueiros e vegetação rasteira, não compreendo! Como foste gostar tanto de chimarrão?! Esta foto que me mandaste! Não és tu. Sabes, meu querido, não adianta repassar o erro, está enfiado no lugar certo. O que passou foi o tempo de amar. De acordar no meio da noite para jogar cartas e comer sanduiche. O tempo de escutar piano e violino. Escancarar as janelas! Deixar os cães se aproximarem… Ainda tomo quatro banhos por dia! E não tenho medo de empobrecer. Nem de voltar para as bacias e os baldes! Ah! Que saudade das nossas frutas repartidas! Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2022 – Torres

descascando a alma
A descascar de vagar/com vagar / com calma minha alma. Chegar nos teus sonhos. Juntos resolvemos do canteiro das margaridas, da cerca de jasmineiro, e também das pedras que planejamos para aquele caminho. Enquanto eu te ouço, já vou abrir o vinho, comprei o que pediste, Casa Valdugo Terroir / Chardonnay 2020, mas os camarões, espero que acertes. Deixei na vasilha, como pediste, preparei os verdes da salada. Faço o arroz e os legumes. Bebericamos o verão na varanda. Eu te agradeço. Obrigada por teres vindo. Meu pecado é o desencorajamento, minha desgraça a indeterminação (precisas me ajudar entre o isto e o aquilo sim, este não). Meu pavor é ser enganada, e enganada por mim mesma. Estás a rir?! Eu confesso, o meu ídolo é a liberdade; minha cruz é querer, mas, meu entrave a dúvida, e o adiamento. Ah! eu me perco na psicologia, e o erro frequente é desconhecer a ocasião. Decidir e ouvir, apenas ouço a orquestra da minha voz. Minha paixão é o inútil; e o meu fraco, ser amada e aconselhada, a minha grande tolice, viver sem finalidade… Detesto escolher, resignar-me. Não empurro, aceito o limite, caminho pela sombra, esqueço a dor, e ouço tua voz mesmo quando não estás, eu te persigo. Eu te curo das dores. E curo teu coração. Olha Magro! Teus bolsos estão cheios de junquilhos. E quando voltares, encontraras cravos vermelhos e brancos. Os lençóis estão limpos, perfumados, e, as duas janelas do teu quarto, abertas para o sonho. Empilhei os jornais. Estes dias sobrecarregados me iluminam e me fortalecem. Quando voltar, não importa se já adormeceste. Gosto de entrar no silêncio e bebericar teus sonhos. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2022 – Torres – aquela chuva foi cena teatral, um arremedo de refresco, o mundo se inclina ao teu prazer, aos teus verões, farei tudo do meu jeito quando o inverno chegar.



indefinido, mas florido
Distante! Perto! Indefinido amigo
querido! Pois é! Passou um mês ou foram dois, foi um tempo enorme, tempo indefinido, não sei. Tristeza de saudade. Tanto me afundo nesta ‘coisa’ de sentir, sem explicação, ou
explicada, explicada, estripada: perde o sentido. Invade, arrebenta o prazer, o desgosto entra pelas
frestas. Sou nevoeiro de aflição, e tão, inexplicável angústia! Não.
Sei tudo. E não sei. Arrogante eu sou, a gente nunca sabe, não é?
Preciso dizer, escrever, fazer alguma coisa. Molhar os pés no
mar, lavar o tempo! Bom! Demorei para escrever! Então a chuva resolveu
chover! Chuva boa, passageira! Aqui necessária, aí de terror! Tudo
assusta. E eu travo os sentimentos. A leitura se arrasta, escrever
parece impossível, ler penoso. Assim mesmo eu me sento para te escrever / dizer meia
dúzia de coisas. E depois mandar flores. Sentir o vento doce no estômago a digerir alegria. Vou te
mandar flores! É isso, a mágica. Sim, antes de mais nada, gosto o bom de te amar. Eu era tão leve!
Tão a gostar de tudo! Acho que agora não adianta mais ADIAR…(risos)
Não vai ser possível disfarçar/ esconder ou fazer de conta que não estou vendo,
ENVELHEÇO. (Será esta a tragédia maior?) Ah! A chuva segue com jeito de ficar boa! Acho que o verão
me aperta. É isso. Bom estar a te escrever. Bom pensar que eu te
abraço, eu te olho, e te sinto perto! E sei que tens o jardim, o mato, as tuas árvores. Eu me esforço a colorir meu corredor de terra. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2022 – Torres



chuvosa queixa
Queixa, gueixa, deixa, seixo, queixo, eixo: chuva boa de verão. Devagar, sem medo,…(uauuu)! E lá foi tanta chuva e tanta a desabar no morro, desabar o sonho! Ah! verão traiçoeiro, o meu, desajustado e inquieto! Eu me queixo! Eu travo, engasgo no silêncio de dentro, de fora! Agora, enquanto te escrevo, sinto como se o porão! Ah! O danado do porão a deixar o sol espiar, e agora, a água a escorrer! Confesso! Eu te amo! E de tanto te amar, eu encolho, enfeio, fico azeda, triste. Carrancuda, esquisita, horrível de horror mesmo. Fui caminhar pela feira livre da lagoa, neste sábado, comprei bananas e flores! Engraçado! Tanto sol! Era cedo. Quente. Agora! Graças! Caiu a chuva! Desceu a chuva! Veio chuva hoje. Que venha! Cozinhar? Não. Estou enguiçada, sem gosto. Esquisito humor estremecido! Vontade de tirar férias de mim mesma! Um lugar! Qual será o lugar bom das férias boas? Eu arrasto flores para a máquina de fotografar! Passo assim o lápis de cor no risco e fico pensando que um dia reformo meu gosto / meu amor e desço as escadas com cuidado! Vou te ver. Vou até o mar te encontrar! Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2022 – Torres – nesta segunda- feira com chuva, apenas tu e eu, no mar.



o que ele disse

Fiz um amigo importante, fiz dois amigos quando o Amoras nasceu, um deles já morreu, mas, por motivos estranhos nos aproximamos muito e muito. Depois do luto que doeu demais, eu me aproximei mais das afinidades que tinha com quem não me convidou para almoçar, mas fazia música (minha paixão). Depois, e depois, as coisas de fazer se enrolaram e fomos nos afastando. Ele se leva a sério, ele, tem metas e caminhos, inclusive mantem os cadernos diários, religiosamente, / e neles o caminho é explicitado / aberto / claro / religioso. Eu vou tão devagar! Cadernos anarquizados. Eu mantenho as gavetas desarrumadas, eu mantenho a vida por um fio: eu tenho o excesso nos guarda-roupas. Eu me perco todos os dias. A depressão puxa os cabelos da menina alegre, a velha disposta se transforma numa anciã cansada, neurastênica. Eu me apaixono. Eu não durmo. Eu me apaixono! Eu durmo demais. Uma vez o monge me diz: o blog é teu diário de menina, não precisas levar com tanto empenho! Não trabalha sério. Não te empenhes assim… Não respondi. Apenas desanimei. E tudo que quero fazer empurro para amanhã. A caixa de livros do Xavier, as unhas, um bom corte de cabelos, vestir vaidade, esconder as manchas, procurar um vascular, ir a um oftalmologista, colocar um sapato com salto, pedir ajuda na limpeza. (risos) Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro 2022 – chorar por Petrópolis – por nós e todas as dores – chorar – Torres

vento quente

Verão como deve ser, verão. Calor, calor e gosto de sal, de mar superpovoado, e de asfalto quente. Não sei onde encontrar areia. Vento, ruas terrosas. Verde desorganizado, e mar: claro! O meu mar, a minha duna, o sal do meu corpo, o vento dos teus olhos. Posse, horrível! Assim! Quero o meu, o perto, o conhecido, o fotografado, então, bonito. Terapeuticamente acompanho/sigo/observo as buganvílias a explodir flores… Penso em vasos: folhagens. Tudo carregado de verde e cuidado amoroso! Não sei. Pode ser apenas imaginação. Imaginação de/para sobreviver, de viver entre eu e comigo: superlotada, transbordando e represada, azeda e os vasos floridos, e os galhos pendurados a bater nas vidraças. Vontade comprimida na dor do corpo. E o corpo? Não sei. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro cortando, 2022 – Torres

verdade
“Mas a verdade é dura como o diamante e suave como a flor em botão.”(p.139) Mohandas K. Ganhi Autobiografia: Minha Vida e Minhas Experiências Com a Verdade
és tu
Escorrego, sem saber, desanimo, aperto a mão / acredito em nós, em mim, em ti e …, estamos lá. E és tu, és tudo. Escorrego, não vou, não sei, mas quero chegar. Escrever se atravessa perdido / perdida / e termina o dia. A vontade, o ânimo, termina e começa/recomeça ao me mesmo tempo, porque não é. Sou eu tentando… Ah meu querido! Que fiques bom logo, que voltes logo, que seja azul, que seja lilás. Amanhã, ou um dia todo verde, outro com listas amarelas e teu sorriso vontade / eu te vejo a força colorida, e as noites pesadas de sono. Eu te vejo chegando. Agarra minha força, coloquei em baixo do teu travesseiro. Amanhã conversamos. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2022 – Torres

penso sentir
O amor que sinto / ou penso sentir é como o vento. Uma mensagem chega de longe, e ela não parece verdadeira nem falsa, sensata ou absurda, mas me comove. É como se um leve e doce exagero me caísse no coração! Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2022 – Torres