12 de outubro

a mãe morreu neste dia da Nossa Senhora! não lembro da chuva. hoje chove bastante…. eu estava longe, na fazenda. quando o pai morreu eu também estava longe, quando tia Joana morreu eu estava perto. minha tia mãe, brigava comigo, e eu brigava amando, acostumada, moldada, do jeito dela / do meu jeito de querer, desconfiada. íamos para o colégio, almoçávamos juntas, dormíamos no mesmo quarto, o dia e a noite, minha tia Joana! a mãe morreu de manhã no dia da Nossa Senhora Aparecida! ninguém ia morrer, ou adoeceu para morrer, ou era hora, ou…, não era para ser, aconteceu quase no susto. aconteceu para ser assim, rápido, cedo, sem conversa, sem medo… como os anjos são anjos este morrer do pai, da mãe e da minha tia Joana, só aconteceu… Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – Torres

Joana de pé e Anita sentada – saudade sinto delas!
Minha tia, minha mãe! Joana de Athayde e Anita de Athayde Mattos

infantil embalo de criança

deve ser isso

Deve ser isso mesmo viver: esperar, desesperar, montar / fazer, acreditar, e, tudo desmoronar. Recomeçar. Estudar. Estudar. E o tempo, desespero no vento de outubro. Queria o verão das férias, dos anos… Não estou num bom dia! Não achei a linha certa, nem a possível agulha, nem… Vou beber o tal chá. Tentar terminar o livro, E esperar o próximo feriado. Recolhi todos os ovos, como tu mandaste. As galinhas estão inquietas porque já parece anoitecer, e eu cansada sem ter feito nada. Desculpa.

Dançar no baile / na festa, não com o par certo, mas o possível: e não desanimar, sempre se apaixonar, pelo impossível, o menos possível mesmo. O prosaico. Não ver nada / atordoar e não dizer. Claro que não posso voltar nem desfazer, foi tudo mais ou menos assim, atrapalhado. Éramos tão jovens! Estupidamente jovens! E eu? Cega. Tinha lá minhas metas: escrever histórias, abrir o silêncio, encontrar o lugar certo. Ficar longe, e remexer naqueles guardados, também ler os livros certos. Empilhar os necessários, ler. Ler. Ler. Revejo corajosos e elaborados textos/histórias. Costurados, deveriam estar alinhavados, mas agora engessados / não, viraram pedras, não sei esculpir, nem consigo aumentar o verde, trazer o vermelho, desenhar os olhos, abrir as janelas. Reescrever? Impossível. Tudo é supérfluo. Vou voltar para as cobertas. Estou com medo do verão! Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2021, como assobia o vento! Vem deitar também.

assim Paulo

Assim, Paulo:

Estou a pensar neste “gosto que olha”, neste gosto que lê. Associações pessoais, únicas. No monólogo. Na conversa. Onde a conversa?! Tão difícil! Ou mesmo inútil. Idiomas diferentes, desconhecidos. Não convergem nem explicam. Qual planeta? Terra, ou Saturno? Marte ou Vênus? Em qual rotação? Qual pressuposto? Qual bagagem? Uma mochila ou uma mala com rodinhas? Sacola ou valise Onde estão os afins, os pares? Sinto-me / estou estrangeira. Fotografaste meu quarto, as plantas, também as pedras e concluíste: “estás protegida, estás feliz, bonita e bem”. A voz da Luiza me faz falta, seu olhar castanho, os cabelos, o corpo, a minha Lú. Sabes que o Flávio já está com sua identidade italiana? E que ela me mandou uma écharpe verde, modesto presente segundo ela, mas, do meu, gosto digo eu. Adoro lenços e mantas como se o inverno pudesse ser permanente na minha vida. Junto ao fogo e ao vinho. Isto traduz o Sul, mas, se o mar estivesse aqui com suas falaises e ventania e maresia eu estaria melhor. E se meus olhos pudessem olhar e ver a filha eu estaria mais feliz. Sinto falta dela: como se eu desejasse o começo. Que tudo recomeçasse, desde a gravidez… Como se eu devesse a ela uma vida. Ela me sabe inteira, e eu? O q eu sei da filha? Quero mais. E não posso tocá-la. Escrever é pouco, não sinto o cheiro. Sinto saudade. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2021 – numa velha / antiga lembrança de 2004

amar é proteção, e

Amar é proteção. Esvaziar esperança, desespero. O vento acinzenta mais o dia, não sei se quero dormir, escrever, ouvir música, ou ficar em silêncio. Deveria ter sol num dia comprido como o de hoje. Eu deveria estar animada. O sol demora para chegar, mais preocupada eu fico… Será um verão colorido, escaldante, superlotado? Deve ser o susto esticado do frio! Como será voltar a ser como era? Como será voltar? Ou não. Terei que recriar. A energia se desprende por um nada. Escrever tão complicado! Pensar tão complicado! E as calçadas estão cheias. É o feriado. Ansiosos ou inquietos, ou distantes, ou esvaziados. Presos. E por que a sensação de encolher? Tudo é sintético, prático, posso jogar na máquina de lavar… Secar o casaquinho em cima de uma toalha, e na grama quente, ao sol, outra toalha bem fina em cima. Descascar laranjas. O sol seca, perfuma, mas desbota também, estou confusa. E a louça deveria ser seca imediatamente, almoço sem vestígio. Vontade de comer um pudim de leite doce, leve, com calda. E a comida teria sido feita na hora. E as vozes deixariam a tarde maior, não o dia inteiro se espreguiçando, mas as coisas sendo feitas. Escrever pesa, e se arrasta sem vontade. A pensar que faço tanto força para ser eu mesma, mas todos os dias quero ser outra. Por que minhas unhas deixaram de ser polidas e bonitas? Aquela alegria desapareceu, talvez tenha apenas se escondido. Não basta carregar alegria renovada, há que cuidar e distribuir com gentileza. Os sabonetes devem ser perfumados, os lençóis limpos, as cobertas ventiladas, a poeira? Está ventando. Que dia tão cinzento! As buganvílias se entusiasmaram: dois ramos começam a florir. Vou cuidar do meu olhar, deste ver e ouvir exaustão. Por que estou tão cansada?!

Vou fazer um chá. Voltar ao livro, mas ele se arrasta, por que não deixo de lado? Será que estou mesmo aprendendo?! Estes escritos de todos os dias devem ter fio / sem fio complica, como jogar pedrinhas no fundo do rio…nunca mais. Estou no “nunca mais” -, ok!? Vou buscar um vestido colorido, e começar a me perfumar, tu estás chegando, e vais me dar um beijo, cozinhar para nós e rir. Entrarás com teus caprichos mundanos. Vou ceder. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – Torres

visível

Dia completo: afeição. Teu carinho, o meu. Nunca estamos em nós; estamos sempre além; já te disse uma vez. Sinto o beijo, teu abraço. Sinto o cheiro / perfume de rosas, ou seriam dos jasmins? O brilho retorna no sonho. Eu te sonho no meu azul, mas estou a ver o teu verde. Rever o sonho, num repente, já é passado. Volto. Noutro sonho, projeto e ele fica futuro. Posso me balançar e me divertir porque estás perto de mim! Teu abraço. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – Torres

Cesare Pavese

As coisas são alcançadas quando não as desejamos mais

A única regra heroica: ser só, só, só. Quando passares um dia sem necessitar ou sentir a presença alheia, em qualquer gesto ou pensamento que tenhas, poderás chamar a ti mesmo de heroico. Ou ao contrário, ser Cristo – isto é, anular -se. Mas disseste ontem – ninguém renuncia ao que conhece – e tu conheces coisas demais.” (p.207) Cesare Pavese O Ofício de Viver

As coisas de viver me parecem esquisitas, mas a disposição. Ou melhor, as coisas de viver se amontoam. Não encontro os pincéis certos, perdi o fôlego, as telas em branco me assustam. Sequer releio, sequer faço a correção, ou tento. Quase desisto, sem motivo nenhum, chorar seria perfeito. Acertar o estabelecido, alguma coisa ficou acertada, confirmada, não comigo. Falta entregar a coragem, e sentar. Então, eu caminho de uma calçada para outra. Beth Mattos, não eu – em outubro de 2021. Não vou desistir. Uma vez uma poeta, uma amiga, intrigada me perguntou das citações, não soube responde. Não sei responder , ou dizer as coisas, enveredo para o prolixo, e depois, já é tarde. Os livros fazem aquela conversa de repetir, repetir. E.M.B. Mattos

desesperança

Quem mora à beira mar dificilmente poderá ter, entre todos os seus pensamentos, um só no qual o mar não esteja presente… Há quem não se alimente desta imensidão, não absorva as vozes que chegam do mar…, eu me envolvo. Tudo que se aproxima dos meus sentidos, cada tom, cada cor, cada chamada de pássaro e cada raio de sol altera meu humor. Todo eco deste/neste murmúrio me atordoa, ou acalma. Se eu me envolvo com estes sentires/sentimentos, não preciso me tornar apenas eu, mas me transformo em parte de outra coisa, estrangeira. Escorrego silenciosa.

Anos acalentando a memória: esperança de jovem, desesperança de velho. Desesperança do poder apanhar o acontecido, e o que está por acontecer, antes que seja tarde demais. Começar pela infância…, eu começo por lá, e, fico estacionada. Não parece simples a verdade. As engrenagens não funcionam… Bem! É verdade. Eu tenho o mar. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – Torres

auxílio

Nesta solidão ninguém pode contar com o auxílio do vizinho: cada um com sua preocupação incompreensível. Extremas solidões. As confidencias não ajudam. Toda e qualquer observação machuca. Falar pode ser a mais incrível aventura… Não, não está tudo bem, mas se estivesse seria mais esquisito ainda… Elizabeth Mattos – outubro de 2021 – Torres

Brinco com as ondas do mar. Enfio os pés na areia molhada. Espero o novo temporal, e a tal reviravolta…

um caso de amor

Se eu pudesse te chamar de volta / se tivesse segunda chance! Não tem. Choramingo um pouco, escuto música. Lembra do fervente? Lembro de tuas mãos geladas, tua pressa e teu medo, teu sucesso! Lembro das tuas leituras surpresas atravessadas e dos teus telefonemas escondidos, do fax, dos bilhetes rasgados. Lembro quando juntei pedacinhos… Somos surpresa, reação. O que nunca faríamos, fazemos… Ah! Sinto saudade do teu amor! Eu te amava e tu me amavas. Uma volta não pode, há que haver duas e riscos, penhascos, aquilo tudo que vivemos. Às vezes, eu me aborreço por estar ancorada neste mar. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 –