feliz triste aguento, te amando

Damos risadas! Nem tua camisa rasgada, nem meu vestido de cinquenta anos, nossos olhos sonolentos…, ninguém toca. Sem sapatos nos debruçamos no parapeito da janela num abraço. Não me faças cócegas! Temos que limpar /fazer/ e sacudir nossos lençóis, vou deixar os travesseiros tomando ar…Beth Mattos / março de 2021

Mas o que é , afinal, uma noite? Um curto espaço, especialmente quando a escuridão diminui tão cedo, e tão cedo um pássaro chilreia, um galo canta ou um verde desmaiado se aviva, como uma folha revirada no oco de uma onda.

Atrapalhados nesta proibição proibida de nos vermos, e nos vemos e nos apalmamos. Pandemia, epidemia, rodoviárias e aeroportos, bares, e praças fechados, somos nós, desavisados, a transgredir.

nunca tanto

Como um susto, no inesperado…, mas atentos ! Todos (deveria ser) iguais, sem poder viajar, sem poder exibir/mostrar as compras, sem poder nos enfeitar…, bobagem! Fazemos (seguimos compartilhando) tudo isso, e estamos no vídeo, adoramos! Temos direito a retoques…, O mundo não sabe/ não aprendeu a nos recriar, somos duros como pedras de rochedo. Seremos os mesmos neste hoje e no amanhã, nunca tanto o mesmo! Beth Mattos / março 2021

It grew darker. Escurecia

Noting could survive the flood, the profusion, the downpuring of the immense darkness which, creeping it at keyholes and crevices, stole round the window blinds, came in to the bedrooms, and swallowed up, […]” nada podia sobreviver ao dilúvio, ao derramamento, à tromba d’ água de imensa escuridão que, insinuando -se pelos buracos das fechaduras e pelas frestas, metia – se pelas venezianas, atingia os quartos, e engolia […]” Virginia Woolf (1882-1941) O tempo passa – tradução e notas de Tomaz Tadeu – Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2013 – Edição bilíngue

O tempo passa’ é o título da segunda das três partes em que se divide AO FAROL de Virgínia Woolf

Vento sopra / traz chuva, aquele bebê grita, a chuva se atira nas vidraças. Do farol posso ver a calçada brilhando. Logo a água enche a rua. Eu transbordo ansiedade… Fico a me pensar acarinhada pelo teu olhar. As fotos de antes/do antigamente/ presas no tempo. O tempo que cruzamos sem nos tocar. Sem esta latente ansiedade. Tua voz segura aquele passado: atravessamos com certa dificuldade a vontade. Primeiro olhar. Depois tocar. Depois inventar. Que medo eu sinto. Medo de estilhaçar os vidros. Segurar o tempo / a vontade rondando a nos espionar. Estamos proibidos, mas naquele ano que virias, quando nos falamos,cheios de coragem / eu já assustada – invadida por uma timidez medrosa levantei um alerta. Lembras? Assim mesmo chegamos a combinar, trocar números de telefone, fotos e estávamos desavisados, ansiosos. Querendo.

Como não sei o que escrever vou para os livros, vou estudar inglês para entender o que me dizes. Escutar as mesmas canções mil vezes. Vou redesenhar. Estes anos, tão poucos que se atravessaram entre as confidências e o meu susto, parece pequeno e enorme… Enorme! Cada semana pesa. Cada dia. Eu me encontro em tudo o que fazes, nos filmes, nos jogos, nas caminhadas, no verde, no descaso, no trabalho, no desleixo, e no susto. Nós nos esbarramos na cozinha. Quebrei o copo, deixei cair os talheres. Desastre. E a casa? Não podemos ter casa. Temos que estar no meio do jardim, no meio da rua, no café da esquina. Na rodoviária. Que medo! Não temos aeroporto. Fico com vontade de sair mudando tudo, não posso. Eu te passo o texto, como tu me passas as referências, vou aprender, vou começar do zero, nos veremos na penumbra, no escuro. Imagino outra vez. Sinto o perfume/cheiro da tua comida.

Basta que alguém tome o seu lugar e eis que a casa adquire todo um outro jeito, como se ela se adaptasse às percepções e a vida de seu novo locatário. Estes lugares , têm eles uma alma ou são nossas percepções que lhes dão uma alma? essa experiência banal que diz respeito ao nosso habitat pode ser generalizada para os dados do ambiente […] Que os olhos do filósofo desbotam a grama, que os da sua mulher, bela, a tornam, ao contrário, deslumbrante… como se a beleza salvasse o mundo.[…] Existiríamos como faróis.” Michel Serres

Estes volumes são todos especiais. Especiais as edições. Preciosas. Paraliso. Estarrecida com nossa ousadia. Tu sabes tanto e mais! A pressão dos erros nos encoraja, o castigo fortalece. E nos aventuramos feito crianças. É nosso minuto, nosso momento. Este copo cheio de ansiedade e desejo nos pertence. Apenas um copo cheio, a transbordar: o nosso. Queres me devolver o encantamento… Eu quero. Faz tanto tempo que eu procuro uma saída, não consigo ver a porta que se abriu…Elizabeth M.B. Mattos – março de 2021 – Amordaçada, amarrada e te gostando tanto!, eu te escondo nos meus textos, fazemos aqui todas as brejeirices. Escondidos. Eu te gosto tanto. Antes, agora. Tu me salvas!

explicações

Eu não sei o porquê de explicar, mas estou sempre a explicar, esticar, querer saber mais isso, e ainda aquilo. Tudo agarrar e entender. Engraçado! Houve tempo comprido a pensar que se desvendaria o difícil! Pensava chegar perto do tempo para ser/ter/ e aceitar quem eu era/sou, sem saber ao certo como, e nunca soube, sem meta… Fui a tatear, a desviar mais do que entender. Aprender, perseverar ou focar: distraída, sempre tão distraída! Difícil entender/saber/apreender a escrever e a ler. Brincar era /ainda é? (risos), não aceitar. Maior melhor, não ver / sair/ correr/ o quintal grande, as bananas fritas! Fascínio da cozinha:  conversas fáceis, riam enquanto trabalhavam…, e eu gostava do cheiro, daquela simplicidade, e provar antes de todos, descobrir o gosto. A mesa cerimoniosa. Sendo a mais nova, a criança, falar era mesmo atenção, cuidado. Participar difícil. Eu dizia tantas bobagens, e desconcentrada, apreendia lento, muito lento. Brincava com as bonecas, pedrinhas, tampinhas e falava atrás da cadeira imaginando isso e aquilo. Acompanhava o pai aqui e ali sempre que podia/ nem sempre conseguia acordar a tempo. Acordava cedo, apressada, sem preguiça para conseguir: sair com o pai, levar as irmãs mais velhas ao colégio. E gostava. Depois ele me mimava com pequenos agrados, cortar o pão em pedacinhos, o café junto. As laranjas descascadas. E o silêncio daquela conversa terna. Ninguém imaginava o fácil para mim, tanto escorreguei e foi mesmo difícil aprender e a fazer. As lágrimas eram boas de chorar. A mãe, mais ausente / ou transparente, não sei. A beleza importava: bonitas as cortinas, o carpete, o jardim, os detalhes, o cheiro. Perfumada a casa. E os livros, a biblioteca, as lareiras. Aqueles banheiros coloridos, e o gramado. Os discos, a música. Música, tanta música!  O francês rondava… Eram os sons a me perseguir. E ainda agora. O som, o cheiro. Vejo meu pequeno apartamento entre desordem e desordem, e uma vontade enorme de ter tudo novo, mudar, recomeçar, refazer. Parece tarde. Tão tarde! Decadente? Elizabeth M.B. Mattos – março de 2021 – em Torres, porque o pai definiu / desenhou um lugar refúgio certo. E aconteceu. Corri para me refugiar em Torres, depois Ana Maria chegou de seus Anos na Itália, depois de Berlim, e ela também ficou. E os netos já nasceram aqui. Tão estranho! E Luiza foi crescendo aqui, espiando este mar daqui todos os dias, estudou aqui…E agora tão longe! A história se perde na narrativa dos filhos… Descobri um caderno velho de 1985, a reler. Estou impregnada dos nossos verões / férias -, presente da vida ter sido criança, adolescente pelos corredores da SAPT. E a beleza. É bonito aqui.

sensação

O pensamento é uma sensação, não é mesmo? Através do contato e da percepção está a sensação, e dela nasce o desejo, o desejo e a escolha. A minha escolha, a tua escolha. Quando nos pensamos (eu te penso e tu me pensas) temos a sensação de proximidade, de experiência e de poder. Derrubamos os muros reais, e também os ilusórios, e os invisíveis. A palavra chega como uma bomba! Explode dentro, fora, e o dia fica contaminado /impregnado de amor. O desejo é o começo da identificação, do que é meu, ou também do que não me pertence. O conflito surge como obstáculo, como sensação. O pertencimento se complica, se atrapalha… Ou porque envelhecemos / ou porque nos acovardamos, não ousamos. Não. O motivo é não ser livre, não estar/ser sozinho para escolher / decidir, mudar de direção. Estas escolhas são todas jovens. Arriscar. Neste tempo de vida a viver /conviver com companheiro certo (imaginado escolhido como certo), não nos permitimos sair por aí a experienciar / escolher outro sonho / ou tornar real uma fantasia. Sair de casa, atravessar a rua, abrir outro portão, atravessar o jardim, bater na porta / esperar e dizer. Oi! Estou aqui. O pensamento é a sensação verbalizada, resposta a memória, a palavra, a experiência, a imagem. Quanto te digo estas coisas, estou vivendo contigo. Estou sentada ao teu lado, olhando nos teus olhos castanhos, sentindo o teu cheiro e falando. Tu me ouves. De repente tu me tocas, e me fazes calar. Não intelectualiza o sentimento. Fica quieta Beth, não diz nada. Elucubrações. Estás sempre a fugir do sentimento. O pensamento é transitório, mutante/ cambiante/ alternado. Ele não é permanente, embora procure todos os dias, todas as horas se firmar e te pensar. Desejo /quero o permanente. E estamos nele. Entramos corajosamente neste desvio e avançamos. Passou um ano, não importa, foi ontem, não importa. Estamos sempre emaranhados e embretados ao mesmo tempo. Responder ou não responder as minhas cartas não importa, eu respondo como uma cascata, jorrando sem sentindo, desconexa, uma água que explode não se sabe de onde. Água jorrando. E deixamos água correr, e nos banhamos na imaginação fresca e somos/ficamos jovens, aliás, és tão mais menino! Eu já te disse. Estou eu na tua imaginação. Se fôssemos nós, talvez nos perdêssemos um do outro. O tempo físico, real não é tempo. E se não me respondes, igual eu te penso, bordo, recorto, cozinho, durmo, acordo, faço nada e te penso. Igual eu te penso. E a coisa vai explodindo/ explode por dentro. Quero te ver, tocar, atravessar o portão, falar contigo sobre nada. Sobre…Quero te escutar. Juro. Prometo ficar quieta, estar perfumada. Não vamos ser quem somos, vamos brincar de ser quem fantasiamos ser. Vai que dá certo e…Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2021 – Torres oxalá leias, oxalá saibas que eu te escrevo fantasiada de azul, amorando.

https://www.letras.mus.br/platters/225186/

But where can I go from you

Amarelinha

Cinzento / aquele vento mexido de frescor, um dia mal-humorado porque ainda cedo, acordou cedo, coisas assim. A calçada já povoada. Ninguém se importa muito de obstruir o caminho, e ou se amontoar conversando com o vírus. Talvez ele nem se importe. Tem tanta gente fazendo barulho, esperneando, gritando! É tanto estardalhaço sem ser Carnaval. Um desagrado de gente com gente, feito bonecos com outros bonecos. Não ter o que fazer fazendo então este remexido de dizer e achar solto, desgovernado, livre. Liberdade é mesmo uma boa palavra. Desenhei nas paredes do quaro, depois na sala, depois risquei Amarelinha na calçada, no lugar de céu, com giz azul, L I B E R D A D E! (Amarelinha ou “Jogo da Macaca” em Portugal é uma brincadeira popular entre crianças. A palavra “amarelinha” vem do francês marelle, que por adaptação popular ganhou a associação com amarelo e o sufixo diminutivo.) Google. Pulei de lá para cá muitas vezes, sem pensar idade, nem nas pernas cansadas. Ah! E como estou moída, sem energia, mastigada…Era tão fácil correr, fazer, brincar e pensar / contrariar / dar risada ou chorar de tristeza. Céus! Como ficou tudo tão difícil! Sentar, cruzar as pernas, beber o chá, palpitar. Uauuuu, só no palco. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2021 – Torres

cartas cartas cartas carta cartas

DUAS CARTAS E FRAGMENTOS: 1970,1980 e 1990.

Querida Elizabeth

            Recebi a tua carta. Vejo-te a beira do mar. Enche, pois, a tua mão de mar enche, e os teus olhos de luz.

            Na minha lembrança, tu és uma presença.

            Eu perdi o jeito de correr pelas praias e de me misturar com os peixes.

            Faz isso por mim.

            De Torres guardo este fragmento, por certo o mais agreste, o mais autêntico.

(na carta, a que eu guardo comigo, tem um desenho, um rabisco dele – caso aches interessante ter uma fotocópia eu posso mandar – está emoldurada….)

            Ao pé do penhasco, o mar enrola-se como uma grande cobra verde. Ao longe ele é sereno. A distância dá placidez as coisas.

            Tenho produzido pouco ou nada. Espero melhores dias.

            Mando-te a minha saudade que é muita.

            Afetuosamente, o Iberê

            Rio, 28 – 1 – 75.

(na carta, a que eu guardo comigo, tem um desenho, um rabisco dele – está emoldurada….)

Porto Alegre, 14 – 5 – 84

(…) estou com tendinite, inflamação dos tendões da mão, segundo diagnóstico do neurologista e demais especialistas que me examinaram. Para recuperar o movimento do polegar (mão esquerda), faço, diariamente, ionização, infra-vermelho e ultra-som, além da medicação específica. O tratamento dura um mês, no mínimo. Isso impede que me afaste, no momento, de Porto Alegre, salvo se for para onde possa continuar o tratamento com a mesma eficiência e regularidade. Foi por este motivo, e pelo mundaréu de água – que fez da sanga rio, do rio fez mar -, que não fui a Santa Maria[1], onde deveria assistir a inauguração da minha exposição (Coleção da Maria), na Universidade. Talvez compareça ao encerramento se as águas e a saúde deixarem. Como já deves ter percebido, estou preocupadíssimo com este problema da mão. Sabes bem o que elas representam para mim.

                                                                       —

            Também tenho imensa vontade de te ver, de te ouvir, de te falar. Não concebo que isso não seja possível numa das tuas vindas aqui. Tu se me afigura uma princesa aprisionada num castelo[2] de mentira. Não vê nesta expressão outra coisa senão o carinho deste teu velho amigo. É que te vejo num corre-corre sem descanso. Espero que estejas contente, pois […]

[…] quando o trabalho não é gratificante consome-se a vida sem viver. Sou muito cioso do meu tempo, porque este é a duração da vida. Jamais entendi os que procuram passar o tempo, sem se aperceberem que estão gastando o que jamais se repõe. É vero que a maioria é programada como robô. São sonâmbulos, apenas tateiam o mundo. Quero ser lúcido, mesmo na desgraça. Para dormir, temos a eternidade…

            Quero saber o que pensas do que digo. […]

(15-5-84).

            Minha exposição em Porto Alegre, em setembro, inclui retratos, nova faceta da minha obra. (15-5-84)

            Agora pinto manequins, manequins da Rua da Praia, como eu os chamo. Eles me dão toda a dimensão da vacuidade em que vivemos nesta sociedade de consumo. Eles são vazios, ocos, apenas vestem. Entretanto significam porque são simulacros, modelos de uma vida irreal que coexiste com o real, como um mundo paralelo. É por isto, […], que há tantas mulheres andando por aí com um tope de fita no cocuruto. Elas se identificam com certa personagem da novela.

(12-1-86)

            Estou pintando quadros de grandes formatos com a intenção de expô-los em Porto Alegre, Rio e São Paulo, simultaneamente.

            O primeiro da série Fantasmagoria 180 X 213 está reproduzido na revista Galeria, junto da apresentação tem um belo texto de Ronaldo Brito.

 (6-10-86)

(…) “quando o trabalho não é gratificante consome-se a vida sem viver. Sou muito cioso do meu tempo, porque este é a duração da vida. Jamais entendi os que procuram passar o tempo, sem se aperceberem que estão gastando o que jamais se repõe. É vero que a maioria é programada como robô. São sonâmbulos, apenas tateiam o mundo. Quero ser lúcido, mesmo na desgraça. Para dormir, temos a eternidade…”.

[…] Continuo trabalhando muito, adoidado. Não raro atravesso a noite, pintando, pintando. Agora pinto manequins, manequins da Rua da Praia, como eu os chamo. Eles me dão toda a dimensão da vacuidade em que vivemos nesta sociedade de consumo. Eles são vazios, ocos, apenas vestem. Entretanto significam porque são simulacros, modelos de uma vida irreal que coexiste com o real, como um mundo paralelo. É por isto, […], que há tantas mulheres andando por aí com um tope de fita no cocuruto. Elas se identificam com certa personagem da novela.

(12-1-86)

Porto Alegre, 12 – 3 – 90.

            Beth, minha amiga.

            Teu silêncio sempre me inquieta. Enviei-te uma longa carta, ilustrada. Espero que a tenhas recebido. Agora, envio-te este bilhete para ser lembrado.

            Hoje chove barbaridade, talvez não possa ir ao correio. Essa noite caiu um temporal, o céu ficou um só clarão. Os trovões ribombavam como se costumava dizer nas redações do tempo de colégio. Pensei até que o mundo fosse acabar.

            Há uma grande expectativa e muita esperança na iminente mudança do governo. Eu apenas assisto jamais me empolguei com política.

            Continuo na minha saga. Neste deserto, avanço no escuro, com os olhos da intuição.

            Deves estar muito atarefada com o início das aulas. Isso é bom.

            Querida amiga: sempre te recordo com carinho

 o Iberê.


[1] Coleção que pertence hoje a Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, RS.

[2] Este desenho, da princesa no castelo também foi feito, mas desapareceu com algumas cartas, e outros desenhos.

AS BALEIAS

AS BALEIAS

As baleias estiveram em Torres: dezoito ou vinte. Esguichavam, nadavam com seus filhotes. Vieram parir em Torres, nas águas mornas e mansas deste mar. Entre os lobos marinhos, as rochas. As baleias estiveram em Torres. Vieram parir em Torres. Passo o tempo arrumando. Detalhes…Preparo / reviro / remexo amor: penduro os quadros, encero os móveis, lustro as pratas.  Espaços no armário… As roupas passadas, empilhadas.  Luzes certas para a meia-luz. Discos de vinil com o piano de Mozart e Brahms, ou Mahler.  Não vejo / sinto os dias passarem.  Espero o amor. Espero bater, espero… Marceneiros, prateleiras, eletricistas, luminárias: preparo a casa para que chegues amanhã, ou setembro? Nunca sei ao certo. O correio pontual. Estou alegre.  Outro telegrama:

 “Só quando rapaz é melhor amar sem paz; mas já, mais tarde, como agora, quero tranqüilo comer amora pra que todos vejam Gaal me namora, menamora.”

  Leio, releio.  São versos. Olho para as minhas mãos, e penso que vou tocá-lo, ainda, vou passar meus dedos pela tua boca: feias e velhas! Relendo o que escrevo percebo que me descrevo arrancando a beleza de meu corpo, e sabes por que faço isso? Para que possas te concentrar apenas nos meus olhos. Esquece o estético. Não quero ser bonita, apenas quero estar dentro da imagem que faço de ti… Nos meus movimentos, tua presença. Minhas mãos existem não para ser belas, mas pra tocar teu corpo. O que posso fazer meu amor, o que posso fazer com o tempo para que o tempo não me consuma? Escrevo. Escrevo enquanto e espero. E o que faço para que não leves pedaços quando partires?  Antecipo tudo, ansiosa. Marcas pelo corpo. Meus olhos! A pele fica seca. Os dedos mais grossos! Encero, limpo, lustro, espero. O que faço? Vem logo, amor, meu! Vem logo pro abraço. Compro violetas. Plantas verdes para novos vasos; verdes pendurados na luz de frestas das janelas entre abertas. Os dias iluminam a sala, a chuva faz com que o verde chore. Venta nesta primavera. Os telegramas e os versos chegam:

Quando a quem ama só resta telegrama, até mesmo o beijo escreve-se com o desejo de que o papel tenha gosto de mel; saudade aperta, mas abraço não deserta mesmo que no dia 12 não esteja aí, estarei ao teu lado, contigo, todos os momentos.

            Aperto entre os dedos o papel. Leio. Releio. Os olhos brilham; riso aberto.  Quente, bom é te esperar.

            “Para que perdure andar do amor de abraços beijos toques alma, terminantemente proibido refrigerantes, comida salgada, álcool em suas várias modalidades; além todas manualidades exclusivas vida íntima. Gafa.”’  

            “‘Pretendo inspeção ocular após dia 25. Beijos, Saudade. “‘

            “Descomunal saudade Gaal, mas não quero apurar viagem; pois necessito tentar vender imóveis agora pra não voltar rápido permanecendo eu lado todo o tempo. Mil beijos. Gafa.

 O tempo de espera o meu tempo de amor. Mais um detalhe, mais outro e o riso perpassa tudo. O desejo aquece, e as palavras escrevem o tempo. Os telegramas caminham/voam/ soam rápidos, e misturam emoções. Amo as palavras que brotam, crescem no meu caderno de notas: para cada nova palavra nova leitura encadeada, associações de prazer, dor, choro e riso: exercício de te pensar. Um jogo de ir além… Linguagem desdobrada, leitura misturada às tantas outras leituras! Tecer, tecer amor. E amar a nova forma de amor: palavras, palavras, palavras. Palavras.

            “A paga incêndios, contém emoções, evita suicídios, homicídios, afogamentos. Enfim, explica aí. Quem interessar possa que não se aflijam além limites porque poucos dias mais estarei chegando. Beijos. Saudades.”

            “Difícil resolver alguns detalhes aqui. Talvez não esteja aí data pensada. Tento cumprir pé da letra, sugestão entregar tudo, mas, burocracia demora obrigando adiar. Beijos, abraços. Quero envolver Gaal. Estejas tranqüila. Estou sozinho.” O ciúme arde.

            “Retido. Retido. Faço mil planos contigo para julho, também, depois tentando sonhar preciso Gaal pra vencer letargia tomou conta de mim; estarei aí máximo primeira semana de julho esperando até lá te cuides: corpo e alma, cabeça já que coração é ingovernável mesmo. Mil beijos, milhões de abraços. Gafa.

            “Adiamentos viagem aumentam saudades. Vontade sentir-te estar contigo; demora não é desamor ao contrário. Tardo por querer ganhar tempo extraviado anos não te conheci. Beijos.”

Cada palavra, cada nova palavra mais um significado. Aberta. Uma via. Veia rasgada que sangra. Uma nova via levando um guia. Todavia, no entanto, contudo, como diria aquela professora nossa amiga, tudo isso, ou, isso tudo vem de atraso, atraso… De se deixar ficar, letárgico. Fico olhando para o nada. Releio, vejo, repasso. A palavra vai crescendo, criando outra nova palavra, movimentando: interno, remexendo depois numa outra via, outra guia… Nova história. Leio entre todos os outros todos os novos, o último conto… O novo tempo. A palavra vai criando, crescendo, movimentando, depois salta.  Estanca. Para, fica quieta e significa toda: a via, a veia sangra, via faz o novo, o outro, um homem, uma mulher, uma história. Triste! Lentamente sigo o rumo, a nova estrada. Não é mais a minha história. Mistura tudo com passado. Fico parada, estagnada. Letárgica no espanto do vazio: tua ausência. Sem vida. Parada: espero espantada, o amante. São as chuvas deste inverno. São os ventos. É o mar sem as baleias. Esguichavam; no verão nadavam com seus filhotes. Vieram parir em Torres.  Estou pronta.  Ninguém aqui.  Estou pronta. Albertina A. Cardoso / Elizabeth M. B. Mattos – Torres

sem parar / grita / late

O cachorro passa a tarde inteira latindo / trancado no apartamento, e um quartinho apertado, ou apenas porque está sozinho. Late pedindo socorro sem parar…Penso que todos no edifício acham normal, não deve ser todos os dias, ou vai passar, vai passar… Estas dores inexplicáveis Beth Mattos / fevereiro – Torres