Pode ser um som, uma palavra, qualquer detalhe, detalhe…, mas assim mesmo intenso. Céus! Este vírus está roendo, azedando o tempo, e… Com tanta hora vazia não há esforço possível! Faço força para ser eu, não consigo. Desaprendi tudo (se é que existe um tudo / alguma possibilidade amontoada ou compreendida): falar, caminhar, sentir, tenho que apreender tudo outra vez! Insone. Olheiras, e sem força para cavoucar a terra, plantar, regar, esperar o sol. Sem força. Não consigo lavar, esfregar, nada… Vou procurar o fazer. Tempo de coisa ruim este! Beth Mattos
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as mesmas
Devagar, sem roteiro, o sentimento vai / foi / volta / igual. Aperto de amor. Esbanjar alegria de sol e de verão… Estupidamente perfeito. Ao mar outra vez: limpo, delicioso! Dos deuses e de todos os prazeres concedidos. Areia, água e onda. Decidi querer o sol. Abusarei do verão. Pequena caminhada e mergulhar, uma, duas, três vezes… Volto a querer. Não desaparece o vírus, a pandemia, veio para ficar. É preciso reagir. Descobrir um bom café, dormir mais, perfumar a casa, acreditar. As mesmas monótonas coisas de sempre a se repetirem, e, assim mesmo, diferentes, únicas e absolutas, agora melhores. E as mesmas.
dançar
Depois das panquecas, da roupa lavada, e da roupa passada, do aspirador. Enjoada tarde. A música francesa, todos os chansonniers / toda a memória, e teu sorriso. E dançar, não sei se gostas de dançar, nem da música, nem do piano…Sou eu a divagar, devagar, espreguiçar. Faz tanto calor! Agora um vento morno, tudo bem. Não vou te escrever. Vou ver um filme, ou dançar mais um pouco .Não envelheço, não consigo. Não consigo largar a vida, nem a dança, nem os teus abraços. Não consigo deixar de querer rosas e flores, e risos, doces e a França. Um copo bem cheio: limão, água, saudade, riso e prazer. E o mundo inteiro me espera…, e não vou. (risos) Beth Mattos – fevereiro de 2021

silêncio incômodo
Silêncio pesado. O brinquedo de esconde-esconde não alimenta, apaga. Apaga a lembrança, o gosto, e, até a fisionomia. Estarás mais gordo ou mais magro? Sorridente? Feliz ou triste. Descontraído. Com olheiras, sem olheiras? Queimado do sol? Com gosto de sal. Reconhecerei quando passares por mim? Não sei. E eu? Castanha? Dourada. Com barriga, ou magra: gordíssima, magérrima. Magra. Curva, não, as costas bem retas. Dores nas costas. Conversa descontrolada a pular de um lado para outro, gritando às vezes, enrolando palavras, rindo enquanto diz. Ou engasgada. Sem o que dizer a esperar. Esperando exatamente o quê? Depois de uma plástica radical tu me reconhecerás? Não. Estarei apenas velha. Iremos jantar, civilizadamente. Iremos a um bom ou num qualquer restaurante que dignifique / respeite o encontro. E nos olharemos na languidez própria do momento errado. O que dizermos um para o outro sem lua. A lua veio, e a lua foi. Viagens aconteceram, caminhadas avançaram, ah! o tal mal arrumado tempo!
Cheiros e ruídos da casa nova perturbam e inquietam. Ainda não dancei nem gritei com a academia: penso ser necessário fortalecer os músculos, mas não encontrei, ainda, a coragem. Caminhar, caminhar. Muito bom. Bom. Musculação. Nadar. Quem sabe umas aulas? Agora quero raspar a cabeça, bem curto, bem e bem. De noite um vinho pra festejar o silêncio. Quando chego em casa, então, eles param de gritar… Quero comprar uma televisão pequena, a menor, neste Liquida Porto Alegre. Preciso? Não sei. Ou um treco destes para escutar CD. Ou me concentrar e escrever, escrever. Dormir depois do amor?! Seria o melhor. Da idéia de amor, isto existe, certo que existe. Vontade de estar/conversar contigo. Eu a entrar na ilusão, ilusão. Elizabeth M. B. Mattos – num 2004 – Porto Alegre
Jean Marie / Antoine / Paul / Jean Pierre, um fantasma
Domingo avança morno. Ruídos atravessam as janelas, mesmo fechadas, e me aborrecem… Liguei o rádio. De onde estou posso ver as folhas verdes. A porta-janela da sala está com respingos verdes das novas folhagens, altas e esparramadas para esconderem as janelas do outro prédio. Ias gostar. Sexta-feira, afundei-me na compra de um mar verde em vasos de diferentes tamanhos; verdes e verdes pra fazer o jardim no estreito corredor-balcon da Independência: dívidas indevidas/compras e compras. Eu e as compras!
Sábado, fui ao cinema ver DOGVILLE excelente filme, talvez o melhor… Agora deitei, não. Estou sonambulando (fantôme)pela casa.
Quero te escrever em francês, vou comprar um dicionário eletrônico para resolver tantas dúvidas!!! Agora, tudo é em português: Porto Alegre.
Nostálgica saudade que sabe ser diluída nas impossibilidades. O curto tempo dos nossos encontros, Diferentes. Não imaginei nenhum rapport homem versus mulher onde beijos e abraços se evidenciariam, importantes. Aconteceu, lembro a doçura dos beijos, enamorados estávamos pela possibilidade, ela mesma, do enamoramento. Que vontade eu tive de me deixar inteira e acarinhar. O calor, a exaustão, mesmo os desencontros, os impulsos nos fizeram felizes. Gostei quando tu me olhavas e tocavas avançando no prazer de cada pedaço do corpo. E, naquele momento, eu não era uma mulher, mas um braço, um pescoço, um rosto, uma boca. O egoístico momento em que somos possuídos pelo desejo do outro. O prazer vai descendo lento, manso e morno para chegar ao momento certo. Perfeito. O cheiro da tua pele, do teu corpo a entrar/caminhar pelas narinas. Apalpei a vida.
Por que não fui ao teu encontro? Não tinha certeza. O corpo cansado, a cabeça confusa. Éramos possíveis amigos, aceitar a luxúria como normal, sem ter mais trinta anos parece indecente. Estamos velhos, os dois. Agora, os sonhos se concentram na proximidade das ideias, das longas conversas, de um toque manso. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro 2021 – Já em Torres
a me distrair pelas/nas/entre cartas
Cartas, o melhor leva e traz, desvenda, esconde. Jeito aberto-livre de dizer, não dizendo o importante, o que se esconde num ponto, numa vírgula. Na omissão. Um passo seguro, porque incompleto. O que posso fazer? O que não consigo dizer? E as pedras? Temas, leituras, bilhetes. Fica a conversa escabelada, ventosa, interrompida. Sou ansiosa. Esquecida. Tenho vontade de acertar. Isto serve? Acertar no ponto de fechar, interromper porque chegou ao fim… De repente nunca é fim, nem começo, eu me perco. Estou esperando a tua mão, o alfabeto todo. Os velhos cartazes de “VIVI VIU A UVA” … Ou muitas rodinhas até formar a letra O que não é 0 (zero), nem o A que vai ter um rabinho arrastado. Alfabetização precária. Conversa. Adesão. Estar entre as pessoas, estar. Vou fazer a caminhada, e volto para te esperar. As cartas, ou o projeto. Textos pequenos? Não sei. Elizabeth M.B. Mattos
Já demos uma rápida saída para esticar as pernas. Ontem dormimos cedo. Tantos sonhos, tantos! Acordadas noturnas. Queria estar mais em forma. Emagrecido, feito ginástica, sei lá. O corpo reclama, nada em especial, mas este amolecimento incomoda. Sabe o que penso? O medo pode ser obstáculo e… Quero enfrentar um dia inteiro, mas vou acovardando, e pronto, engulo o comprimido. Talvez seja envelhecer, não sei. Viajar também seria um treino, um susto imprevisível. (risos) Quero fazer uma viagem ao exterior com o João enquanto ainda posso. Japão seria muito dispendioso, mas quem sabe conhecer a Itália, Londres, voltar a França com vagar, devagar? Divagando…
O Balonismo acontece pela janela. De manhã bonito, mas de noite será muito mais…Aproveita a Onix esticada na almofada, olhando o céu! Pode? Hoje é a primeira prova. Acabam de aplaudir um vencedor do Paraná. E já temos uns oito balões no céu.
Filho, saudades tuas. Desde que voltaram do México a vida se transformou num ir e vir, entrar e sair de hospitais, subir e descer, como se o mundo tivesse feito uma parada de horror. Acompanhei tudo ansiosa, angustiada, numa aflição inexplicável. Sofri contigo a cada minuto. E tua voz chega pausada, num ritmo novo, com eco, e eu me lamento pelos cantos. Depois, esta fatalidade com o pai dos meninos! Ontem, por um milagre, não pensei em doença, no que pode ou não acontecer. Às vezes nos antecipamos aos acontecimentos.
Organizo o apartamento para a chegada da Joana e da Valentina. As coisas vão indo para os devidos lugares, e fico contente. Marquei a faxina no dia deixo a Ônix no hotel, não posso me afligir com a pequena. Tenho pensado muito entre Porto Alegre e Torres sem poder me decidir, mas vou me deslumbrando com a passarinhada, o silêncio, a rotina da lagoa. Mas, confesso, saudade da Tânia, das pessoas, das conversas, de um estar sem o que fazer, de participar… Aqui tenho uma rotina que me faz limpar, ordenar, ir e vir, num movimento circular. Em Porto Alegre poderia ter uma pessoa para me ajudar, e o doméstico seria mais leve, casual. Seria? Alguém para cuidar de mim, fazer o pesado…Penso no meu pai que queria morar, como o Mário Quintana, num hotel. Viver seria sinônimo de ler, escrever, pensar, aquietar-se ou passear sem pensar a hora.
Saudades tuas, muitas. Vontade de te abraçar bem forte, ficar de mãos dadas, o pai fazia isto conosco. E te escutar por um bom tempo, apenas escutar. Esta coisa de tocar, ficar perto! Sinto a energia voltar quando o João chega/vem com aquele sorriso pronto, conversas de confidências, uma cumplicidade gostosa. Ontem lemos, juntos, na verdade eu em voz alta, o pequeno livro do Moacyr Scliar Max e as feras, o tema, e a narrativa mesmo nos prendeu. Este voltou a pauta quando o livro de um autor canadense, As aventuras de Pi ganhou um prêmio. Houve uma colagem, ou o uso do mesmo tema. Em ambos os casos, um menino, após o naufrágio de um navio, sobrevive no caso de Moacyr Scliar, com um jaguar. No livro do canadense, Yann Martel, o menino se salva com mais três feras… Foi bom discutir a questão de plágio, ler o que foi escrito na época, depois a leitura. O canadense ganhou o prestigioso Prêmio Booker de 55 mil libras esterlinas. Do outro lado do mundo escrever tem mais valor. O livro do Scliar é anterior, bem anterior.
Saudades tuas. Grandes. Um bom feriado para vocês. Cuida de ti, muito. Te amo.
***
Filhota amada, não consegui fazer tudo, faremos juntas o que falta, mas penso nas duas todos os dias. Vamos ver umas roupas quentinhas por aqui se for o caso. As mantas serão necessárias. Te amo. Te espero ansiosa, feliz. Beijo

Valentina Valentina Valentina Valentina Valentina Valentina
estacionado, progresso zero
sem conseguir, nem movimentar / sem fazer acontecer
lamento alongadooooo,
estranhado e melancólico.
estacionado assombro:
sonho
calor a desmaiar,
fresca e arredia madrugada
e o tempo, o tempo não espera: não lamento, antes justifico…
erótico, não esquecido amado…
eu a te desejar…
Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2021 – Torres, desejando fosse Limoges, ou Lisboa, ou Montevidéu, quem sabe Buenos Aires, ou Rio de Janeiro, seguramente em São Paulo! Gosto.

impensado

Não é o desejo o que permanece sempre IMPENSADO (o não pensado) no coração do pensamento? Desejo / pensamento / pedaço de uma memória qualquer memória, aquela… Afinal passamos mesmo a pensar pensamentos e pensar morte também. A pensar desejos de coração, de memória / ou inventar memória. E a inquietude da ausência traz de volta / arrasta tristeza pesada. É o teu medo, somado ao meu medo = vazio, uma soma infinita e desesperada. Depois rejeição, depois vazio outra vez, e outra rejeição. Estou procurando uma casa pequena para passar um ano pequeno e assim pintar o apartamento, acertar as luzes, e trocar os móveis, não sei. Quem sabe? encontrar o novo debaixo destes sessenta anos de uso, ou foram mais? Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2021 – Torres
pegadas de Gradiva

[…] “fora para procurar as pegadas de Gradiva – e ‘pegadas’ no sentido literal, pois com aquele andar peculiar ela deveria ter deixado impressões inconfundíveis nas cinzas” (p.70)
“Não é preciso que uma pessoa sofra de um delírio para se comportar de forma análoga. Ao contrário, uma pessoa, mesmo saudável, pode com frequência enganar – se quanto aos motivos de um ato, tomando consciência deles só depois do evento; para tanto é necessário que um conflito entre as diversas correntes de sentimentos crie as condições para tal confusão.” (p.71) Sigmund Freud Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen – Editora Imago
Estranho pensamento se mistura a minha vida hoje (embora esta observação seja do dia 02 de setembro de 2007 / dentro do livro, como seguido eu faço, serve para meu hoje 2021…) Percorro o passado com a doçura de voltar a ele / reviver/ retomar/ rever. Por que não posso aceitar o inevitável, ou a perda. E os nomes se partem, mas não se apagam. Esta multiplicação é inacreditável! Livro pequeno, quase um parágrafo, em se tratando de Freud. Inacreditável o recorte! Eu me pergunto: o que estaria acontecendo em 2007 / e o que me acontece em 2021 / serão os mesmos fenômenos? […] “lembranças reprimidas se transformam em fantasias que poderão ser compreendidas erroneamente” (p63)
Gosto repassado de vida, do novo, quase simultâneo ao passado: perfuma a sala. Como faz calor! Deve estar escaldante onde o mar não está… Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro – Torres
+ um dia
Arrastei uma manhã inteira, já quase quatro horas da tarde: vitória. Não. Não ficou tudo arrumado, a sei feito / lento fazer… Revirei as fotos, arranquei dos álbuns colantes, péssimos com aquele plástico. Tempo de imprimir fotos. E rabiscar apressado a data. Espalho aqui ali, faço um quebra-cabeça, esgravato na memória. Lamento a dispersão. Refaço. Ameaço escrever. Como disse minha filha, “sempre felizes”! Claro! Agora / hoje quero lamentar isso e aquilo. Agarrar alguma coisa, encontrar o perdido. Apreender a olhar outra vez…e os dias se arrastam…, como no tempo de ser criança. São imensos, quase vazios, e depois, depois chegam as noite longas, também as noites enormes. E os pássaros parecem certos: fidelidade, cantoria e voar, ir…






O exercício do mergulho, ou nostalgia. Preguiça? Incrível confusão. Um baralho nas mãos, sem jogo. Nem paciência, nem canastra, nem… Ah! Adoro cartas! Lembro das tardes na SAPT a jogar, depois dançar. Correr nas pedras (perigoso! não sabíamos), inventar brincadeiras, espiar os apaixonados, imaginar, subir o Morro do Farol! Torres. Ah! verões de tanto sol! Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2021 – Torres, ainda