Pesado sentimento lânguido, soterrado na esquisita e triste pandemia. Cruel. Não consigo a leveza. Arame farpado. Neurose. Atravesso o vento da primavera: coragem. Disposição para sarar o eu ferido. Ruptura cirúrgica e necessária. Mundo particular. Esfacelado. Aos poucos eu me transformo. Paradoxo caleidoscópico. Por que te penso tanto? Espero um sinal. O silêncio conversa também… Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2020 – Torres
Estou lenta. O que penso não é pensamento ou raciocínio, mas arrastada memória esquisita. Misturam-se sentimentos e vontades, esforço da vida a se ordenar… Eu me pergunto, o que importa o tempo, ou o não feito, ou o espicaçado sentimento? Chove forte / bastante / muito. O casamento amarra o número colorido de ser independente (ilusão) e dá coragem para ser gente grande, céus! A inteligência precisa nos agarrar e fazer crescer, caso contrário, nos transformamos em margaridas a despetalar, precisamos ser rosas espinhentas e perfumadas. Depois encontro minha foto no Grupo Escolar Rio Branco onde estudei até a quarta série – de bonde, ou caminhando, naquele horário intermediário das 11 horas até às 14 horas. Tia Joana lecionava nesta escola. Lembro das professoras Nair, Virgínia e Ester. E a Diretora, até ontem, eu lembrava. Depois fui para o Colégio Santa Inês, perto da Igreja São Sebastião, do cinema Ritz, para o outro lado a caminhada. Ah! O Bar Tupi! Balas, chocolates e gostosuras! Como lembro destas caminhadas por Petrópolis.
Inexplicável rejeição, finalmente a chuva forte e poderosa, rejeição oscilante e inquietante. Segunda-feira esquerda. Acordamos tarde com a sensação de cansaço grudada. Sensação também, inexplicável.
Uma caixa de cristal com cigarros, e a fumaça se espalha pela sala, posso tragar, cruzar as pernas, e tomar uma taça de café.
“A noite teve algo de dissonante. […] Meu amor, meu amor, como se você não soubesse! Talvez sejamos capazes de usar máscaras para sempre, até que a M nos separe, mas nunca poderemos nos casar…enquanto os dois estiverem vivos […]esperar quarenta ou cinquenta anos […] A simples ideia de que alguém está esperando por uma coisas dessas não combina com nossa maneira de ser; é vil e monstruoso! Ele beijou seus lábios semicerrados, carinhosa e ‘moralmente’, como costumavam definir os momentos profundos a fim de distingui-los do desespero da paixão.”(p.204) Vladimir Nabokov Ada ou ardor
“Tento explicar-lhe que não existe diferença alguma entre crianças e adultos, já que os adultos são crianças obrigadas a viver fantasias de adultos. Para mim, o ser humano é uma criação indescritível, tal qual um pensamento incompreensível. E no ser humano existe tudo, do mais alto ao mais baixo, precisamente como na vida. O ser humano é a imagem de Deus e em Deus tudo existe, tudo, como se fossem forças enormes. E assim se criaram os diabos e os santos, os professores e os feiticeiros, os artistas e os destruidores. Tudo existe, lado a lado, penetrando-se mutuamente. E como se fossem monstros gigantescos que a toda hora se transformam, entende o que eu quero dizer? Da mesma maneira deve existir também uma quantidade ilimitada de realidade. Não apenas aquela realidade que entendemos com nossos sentidos obtusos, mas sim um montão de realidades girando à volta umas das outras, por dentro e por fora. Claro que é apenas o medo e o pretensioso bom-senso que nos fazem acreditar em fronteiras. Não existem fronteiras. Não existem, nem para os pensamentos, nem para os sentimentos. É a angustia que fixa as fronteiras, você também não acha? […] É evidente que as pessoas ficaram com medo, desesperadas, exatamente como ficam quase sempre aterrorizadas e tentam fugir quando um grande sentimento as subjuga. Isso apesar de passarem o tempo todo se arruinando com saudades de seus sentimentos ressequidos e mortos.” (p.55-56) Ingmar Bergman Sonata do outono
O que deveria mesmo importar? O amanhecer sonolento nesta ventania torrense. As calçadas povoadas e a caminhada festiva que faço com a Ônix. As vozes misturadas dos filhos a conversar. Estas viagens telefônicas que me alegram e misturam realidade virtual com a real. Em que estado estou? Com quem estou? As fotos se misturam e cada um deles me visita de jeito completo e ao mesmo tempo fatiado. Fico a imaginar como será me deslocar de lá para cá nesta coragem renovada de me reinventar. Não. Verdade seja confirmada, eu nunca deveria ter me casado, nem com um nem com outro, porque minha alma esteve sempre amarrada na árvore do meu quintal, se a casa da Vitor Hugo não tivesse desaparecido da minha vida, eu estaria por lá a cavoucar os canteiros como minha irmã Suzana fazia para revirar os canteiros, estaria com os cães, estaria conversando com os fantasmas numa dança ininterrupta. A vida tem certas alavancas misteriosos, e somos lançados de um lado para outro a fazer voltas mirabolantes. Que Rio de Janeiro era aquele que me esperava maternal, instrutor e balizador, como cheguei a Santa Cruz do Sul, depois de me demorar em Montevidéu naquela paz de beleza certa a bicicletar, e voar. O grande equívoco de uma maternidade galopante que deveria fazer parar a roda, mas não conseguiu. Os sonhos saltavam pela janela, a inquietude me dominava, e as loucuras incertas de ser eu comigo deformavam o protótipo bem-comportado da menina gaúcha, agora deslocada, eu me transformava todos os dias. Não existe realidade possível. Existe uma mistura diabólica. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2020 – Torres
Pedro e Cláudia neste domingo de outubroMarina Pfeifer linda! …tempo da Garagem de ArteLuiza na beleza de ser ela hoje: outubro de 2020 – Recifea mãe saindo de Guaíba para se casar
As narrativas são como caleidoscópios. Brinquedo genial de beleza: a cada giro uma faceta/um lado/uma visão curiosa. A mesma história, os mesmos personagens, e as percepções se modificam com um leve giro da mão, um olhar diferente. Fascinante.
Embora a família seja a mesma, os galhos se inclinam frondosos e floridos com belezas únicas/diferentes. Perfeitas. Quando conto a história da minha vida eu me perco no polimento… Quero que a transparência tenha foco generoso. Então, minhas pequenas dores não devem/não são sublinhadas, nem arejadas.
Vou dormir com o cansado inexplicado de um dia em que mais estive sentada, quieta do que toda a semana quando arrumei, agitei a inquietude, e choraminguei. Estes acontecimentos interiores pesam/trabalham como se fossem halteres: alegria escondida, boa. Empurro o susto de escrever palavras erradas, fui mal alfabetizada, péssima aluna, e meus erros tão vermelhos e salientes que me transformaram numa menina tímida. Eu me refestelo na correção automática. Como estou corajosa!
Se lembro da maternidade eu me vejo acanhada, empurrada para a vida sem certezas, nem conhecimento, neófita figura distraída. O casamento, generosidade de G. atendendo a nossos desencantos (os dele e os meus) recria história de possíveis acertos. Colore nossas vidas com possibilidade aberta, protegida de intromissões e exigências. Dois meninos incautos. Sei lá se esta introdução é boa ou ruim, o fato se resume numa solução, casamento. Hoje eu penso que poderia ser tudo diferente, mas quando me arvoro o direito de pensar, sim, o direito de pensar, esbarro nos meus medos arraigados de ser eu assumindo meus limites, reforçando meus sonhos. E a loucura destas questões.
Quais são meus limites?
Que sonhos sonhei?
Se pudesse definir estas questões, poderia caminhar. Poderia avançar um quarteirão. Quem sabe entrar num navio, e fazer a viagem de sonhos. Se sonhos existiram nesta Noruega que amei. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2020 – Torres
“Um caleidoscópio ou calidoscópio é um aparelho óptico formado por um pequeno tubo de cartão ou de metal, com pequenos fragmentos de vidro colorido, que, através do reflexo da luz exterior em pequenos espelhos inclinados, apresentam, a cada movimento, combinações variadas e agradáveis de efeito visual.” Google
Isso mesmo, artista. Acho que você pensa que é um artista. É o que muita gente pensa. Que negócio é esse de artista?
Um observatório subterrâneo, retrucou Van prontamente.
Você deve ter tirado isso de algum romance moderno, disse Dick, pondo de lado o cigarro depois de poucas e ávidas tragadas.”(p.140) Vladimir Nabokov Ada ou ardor
Foto de Ana Moog / outubro de 2020
Cinzento e amolecido este domingo. Eu te escrevo sem saber exatamente o que dizer. As leitura seguem lentas, lentas, interrompidas, sem fim, sem rumo… Estou no meio de Nabokov. Terminei Lolita -, e me impressionou. Ele sacode com sensibilidades adormecidas. Adormecida: como eu me sinto, digo assim para não desdobrar a palavra desanimada. Perdi uma faísca no meio deste novo e heroico caminho. Não terminei Fala, memória, livro autobiográfico, impressionante. Empacada com o volume O original de Laura -, uma aula magna de ser escritor / poeta e colorista, não esquecer que Nabokov teve aulas de desenho, pintura e era um botânico apaixonado. O que posso te dizer nesta carta apressada? Abandonei Robert Musil (claro que voltarei, resgatarei) tendo certeza que todos desfilam no precioso livro O Homem sem Qualidades. São 864 páginas a serem degustadas, letras miúdas, e cada parágrafo tem o o vigor de um livro inteiro. Não é possível descartar a ordem, a força de vontade, o envolvimento total. E me dou conta que O Idiota de Dostoiévski guarda a principal influência / impacto. Eu me demoro a pensar. Ah! Estes russos danados de importantes. De certo aqueles longos invernos são excursões preciosas para eles. “Aqui é uma escuridão. Estás vivendo no escuro.” (p.241), e o volume tem 681 páginas. Estou escorregando envolvida com ventanias torrenses, vozes das calçadas, dores que sinto nos ossos. E tanto tempo enfiada nas cobertas. Estás a pensar que misturo todos, e não sei nada de nada. Concluo o mesmo porque espio os três volumes da tetralogia de Yukio Mishima Neve da Primavera: paixão e poder, morte e reencarnação – estes são os emas. A leitura como um túnel escuro. Tão negro! Não enxergo. Interminável. A luz ofusca, atrapalha, e o tempo fica / se transforma em grão de areia. Eu me perco de mim mesma, eu me perco na tua lembrança. Não porque te amo (não quero ser piegas), mas por responderes/significares a paz , a danada da paz que eu busco. E por me trazeres de volto ao mundo. Então eu te espero. E neste esperar arrastado, não faço nada: nem leio, nem escrevo, nem respiro. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2020 – Torres
“Tratava-se de uma noite escura, quente e úmida de meados em julho de 1888, em Ardis, no condado de Ladore – não nos esqueçamos disso, não nos esqueçamos disso jamais, uma família de quatro pessoas em torno de uma mesa de jantar oval reluzente de flores e cristais.” (p.194)
Posso estar presente neste noite quente e úmida…, incrível forma de transportar/colocar/inserir a narrativa na vida pessoal/íntima de cada um, sem ser especificamente esta ou aquela Maria. A literatura acorda, desenha sentimentos. Vladimir Nabakov, como mestre, constrange a ingenuidade de observações gerais. Cirúrgico e profundo ele espicaça a realidade. Não sei como lidar/apontar o sentimento, ele desdobra opções, então transcrever, citar importa. A leitura me conduz a sentimentos intensos, obscuros tantas vezes, constrangedores, mas reais. EM.B. Mattos – outubro de 2020 – Torres Fujo da exposição evidente, depois descubro que a verdade transitória e amarga.
“É estranho, mas quando alguém encontra, após um longa separação, um amigo ou uma tia gorda de quem gostava quando criança, de imediato redescobre, intacto o calor humano da amizade, ao passo que, com uma ex-amante. isso nunca acontece – a parte humana de nossa afeição parece ser varrida juntamente com os detritos da paixão inumana, num processo implacável de demolição.“(p.195)
“Fiquei sem palavras. Os labirintos de tuas memórias, de teus desejos, de teus medos explodem no mar, nas pedras, no mar. Na solidão dos ciprestes, na solidão avassaladora, na fronteira entre o sonho e a memória, entre as frestas do sol. Maravilha de mulher.
O quê dizer? Mergulhar em tuas entranhas líquidas, transparentes de tuas confissões que deixas transparecer em teus escritos, de tuas viagens em direção ao mar às pedras, de volta ao mar; de tuas caminhadas sob buganvílias olhando pelas frestas do sol tuas fatias de escritora.
Confesso que não é fácil mergulhar nas entranhas de tuas escritas!
O quê dizer? Mergulhar em tuas entranhas líquidas, transparentes de tuas confissões que deixas transparecer em teus escritos, de tuas viagens em direção ao mar às pedras, de volta ao mar; de tuas caminhadas sob buganvílias olhando pelas frestas do sol tuas fatias de escritora.” Terezinha Lanzini – outubro de 2020 – Canoas
Terezinha Lanzini descreve a personagem: brota da leitura daqueles textos-fragmentos. O dia não esteve sobrecarregado, o feito se fez cedo. A casa, cheia de sol, entregou o silêncio para largas leituras. Sentada na varanda começou a desenhar os parágrafos. Escrever é oficio. Pensou: juntas, Elizabeth e ela, não eram apenas amigas, mas cúmplices. E.M.B. Mattos
Este sono fora do lugar desarruma as letras, todas as palavras. Livros a serem lidos me esperam impacientes… A chuva não veio, um jeito de verão, mas ainda sinto frio. Cansei de ordenar gavetas, separar papéis e brincar de arrumar. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2020 – Torres