privação

Demorei para encontrar o estado pacífico de ser eu…Demorei para ter mínimas certezas, sair da angustia da privação para me debruçar em pequenas certezas confortáveis! Às vezes, tristonhas, mas são minhas. Por que não posso reinventar aquela alegria, agarrar confiança, fazer um projeto? Estou vulnerável. Não consigo me surpreender. Sentimento contraditório, história inacabada, sem resposta… Estou a sentir falta de sorriso, de alegria sem dor, apenas leveza… De sono inteiro. Não sei explicar o que me falta! Os buracos da alma parecem maiores do que realmente são, e insondáveis. Tenho histórias completas: pessoas se movimentam… As palavras conversam, e se enfiam no misterioso silêncio, nas caixas catalogadas, empilhadas. (E eu, sem coragem de destampá-las).

Curiosidade: descobri uma flor muito linda, exibida e perfeita…, logo arrancaram… É assim, há que ter posse: poder do para sempre, posse. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2020 – Torres – Quero perfume. Velas, toca disco para os velhos, velhos discos de vinil: movimento do tempo. E também chuva forte e sol quente.

a beleza tem dono certo, posse, e o tempo de olhar/ver/ ‘prazerar’ um agora meteórico

florzinha: amarela e rosada

Esta coisa de fugir do próprio pensamento talvez seja uma estratégia de guerra, abandono as trincheiras não atendendo ao telefone, não falando, caminha numa calçada vazia, não responde as cartas, e esqueço, por um momento, o passado. Sono e sonho atropelam a noite. Monólogo duríssimo. Os fantasmas se divertem: jeito simpático de voltar, insistir e se instalar. Acordo possuída pela saudade. Escrever parece tão absolutamente artificial, como levar muros, um tijolo depois do outro, em quantas horas a proteção? O musgo, o tempo de chover e de fazer sol, e o infinito… O maior de todos os obstáculos, o silêncio. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2020 – Torres Acreditar no sonho/desejo e seguir cega e surda, o mar responde, o sol responde, o verão responde.

presente do noivo

Guardei este caderno de notas (lindo! capa de couro), uma lembrança, outras? Ia seguidas vezes ao Uruguai e Argentina, nunca me levou. Ah! E também escova os dentes seguidas vezes o L.A. Bom hábito de higiene. Acho que era limpo e perfumado, e bem penteado. Beth Mattos – outubro de 2020 – Torres

o diabo veio me visitar

Seis pedaços de pizza, duas taças de vinho. Separo todos os tais copos de geleia, mania de guardar vidrinhos! E coisas ridículas de aproveitar… E copos que não uso/gosto. Prefiro transparentes. Taças, copos a exibir/mostrar o colorido do líquido: água tem cor, sabor e mistério. Vontade de colher as flores exóticas, exibidas no canteiro no prédio, colocar nos meus vasos. E dizer a estes visitantes que lotam as pequenas calçadas da lagoa: SUMAM, por favor. Colocar música muito alto(pra gritar mesmo), deitar na rede, (que não tenho), e pensar nos cinamomos floridos. Deixar de ser tão crítica, esnobe/ridícula. Olhar meus cabelos despenteados mais vezes no espelho. Deveria comprar roupas descoladas e tênis confortáveis. Estou com tristeza crônica: aperta e tortura. Deveria me irritar menos com o telefone, e com as vozes: ser mais gentil com visitas. E não consigo. Ligo para um amigo perdido no meio do feriado, sem pudor ou consequência. Ele gentil, positivo e cavalheiro atende ao meu chamado, mas não sei o que dizer. Pura ansiedade deslocada. E me dou conta da loucura de ser tão absolutamente assumidamente solitária. Reviro os olhos. Preciso um chá de tranquilidade e conversar. Entender as pessoas. Ser gentil. Não sou. Passo todos no moedor de carne preso na minha bancada. E o sol, paciente invade a sala. Mal-humorada, fecho as cortinas. Abro o livro. E não entendo nada. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2020 Torres Por favor me perdoem. Amanhã serei/estarei gentil / alegre e boa pessoa. Hoje o diabo me domina.

qualquer coisa de ridículo

Há qualquer coisa de ridículo na necessidade de voltar ao passado, ou premência em se apoiar no desconexo. O que ficou para trás, os lampejos de juventude e expectativa, iluminam, mas não definem mais nada, afinal, ficou para trás, ou nunca esteve, regulamente, no presente. Há qualquer coisa de dolorido no vazio, embora este espaço enorme, aberto, que insisto em dizer meu, seja apenas imaginação e ansiedade.  E vou, insegura a procurar palavras, a conversar sozinha comigo mesma, vigiar as calçadas e as sombras.  Fico triste porque estou triste, eu de natureza alegre e corajosa. Fico triste.  E penso logo no bom sono. Depois, abro o primeiro livro que vejo e começo a ler, assim, aos pedaços. Num encontro tipo mosaico, brinquedo de encaixar. E encontro o que gostaria de ter dito/escrito.

“Les mots sont souvent mon refuge, jusqu’á l’ aube, et parfois les letres se mélange à mes rêves aux fronteires de la somnolence.” (p.15) David Foenkinos  Nos séparations

Palavras, seguidamente / quase sempre são o meu refúgio até o amanhecer, e, às vezes, as letras se misturam com meus sonhos na fronteira / no limite da minha sonolência. Talvez eu esteja o dia inteira sonolenta a me esconder atrás de alguma gasta lembrança. E esta memória se agarra nos indefinidos sentimentos que se grudaram em mim, como pesos pesados / grilhões / de uma prisioneira. Beth Mattos – outubro de 2020 – Torres

Embora eu tenha escutado tua voz firme e certeira, como apenas tua voz soa, eu estremeço. Tropeço nas palavras. Elas ficam/ se mostram inúteis, resvalam, e eu me sinto ridícula. Por que insisto em te pensar? Se me perguntares não saberei responder. E idiotamente eu pedirei desculpas, esperando que me perdoes.

Aquarelas de Petya Taneva

És mulher

És mulher e basta – dizia o meu avô,  – Quando se lê  num  livro de centenas de páginas  de letra miudinha que uma mulher é  realmente um ser de maravilha, é  porque o escritor desviou os olhos da mulher dele é se pôs  a sonhar. Deixa – o ir.” (p. 20) William Saroyan  O Meu Nome é  Aram

Não trocávamos palavra, porque havia imensas coisas para dizer e não havia linguagem que as dissesse.” (p.41) 

aquarelas e

(01:53:11 depois das fotos e das aquarelas)

Delicadeza, perfeição no cotidiano, no uso doméstico da vida. Se houvesse um jeito de dizer! Qualquer objeto, qualquer luz e também o acaso de um casaco perdido nas costas de uma cadeira. Elizabeth M.B. Mattos – Outubro de 2020 – Torres

Três horas da manhã

Aquarela: Petya Taneva

Três  horas da manhã  1 : três  horas da manhã,  neblina e pingos de noite no corpo. Gelados, os pés . O frio me sacode. Será  a idade? Subo  as  escadas depressa e volto para as cobertas… Três  horas da manhã  2: delicadas louças floridas ,  esplêndidas aquarelas . Eu me inclino no detalhe. Cestas, pratas e porcelanas majestosas. 3: O som do quarto inunda a sala com violinos.  O frio arranca todas as palavras: silêncio. Acordo três horas da manhã , e vejo todos os jardins umedecidos.  Café  com leite , pão  com manteiga,  geleia,  patê  e pepinos. Suco de duas laranjas. Quatro horas da manhã.  A Ônix se refestela no peitoril da janela e o gato atravessa a rua. Fazeres de Beth sem jeito : descasco bergamota, as cascas ficam no balcão, copos espalhados pela sala, um chinelo perdido, o tênis embaixo da cadeira, a cama desfeita e os travesseiros afundados… Roupas para lavar no chão do banheiro.  O livro aberto em cima da cadeira, os lápis na mesa, espalhados. Luzes acesas. A música tão alta! É  proibido. Elizabeth M.B. Mattos outubro de 2020 – Torres

Aquarela de Ptya Taneva (enviadas pela aquarelista Marina A.B.P.)

Charles Baudelaire

[86] “Quanto mais queremos, melhor queremos. /Quanto mais trabalhamos, melhor trabalhamos e mais queremos trabalhar. Quanto mais produzimos, mais fecundos nos tornamos.

Após uma orgia, nos sentimos mais sós, mais abandonados.

Tanto no aspecto moral quanto no físico, tive sempre a sensação do abismo, não apenas do abismo do sono, do desejo, do arrependimento, do remorso, do belo, da quantidade, etc.” (p.81) Charles Baudelaire MEU CORAÇÃO DESNUDADO Editora Autêntica 2009 – tradução Tomaz Tadeu

Quanto mais leio, mais estranhada fico. Abismo enorme entre a vida: ser manhã ou noite. Necessidade dolorida rasgada de conhecer, sem ter, minimamente, a possibilidade de fazer acontecer um dia infinito, uma noite permanente, um verdadeiro acontecer (nebuloso dia, iluminada noite). “Tenho a sensação de estar capenga”. Estou/sou dolorida, moída pelo desejo. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2020 – Torres com vontade de aquarelar como a Marina, minha sobrinha. O talento precisa ser regado com mimos e trabalho, e coragem… Baudelaire explica muito bem, quanto mais, mais, mais, mais é possível.