





Que estranho embraço se enreda nesta quarentena: a pandemia se gruda no imaginário, e deforma o dia. Mesmo que amanheça e depois tenha o entardecer, e a lua, e na noite estrelas, sigo estacionada. Fatiada. Posso pensar assim? Estou pela metade, impotente. Uma desorientação. Tu és laborioso: segues escrevendo, traduzindo. O teu TITANIC vence o gelo. O meu se espatifou… Estou presa. E os botes ocupados. Amordaço o meu grito porque, afinal, é tempo de tempo passar, e ponto. Envelhecer pode ser uma droga. Estou acovardada. Beth Mattos – junho de 2020 – Torres
Desconfio: não pensas, nem procuras, nem consegues ler as cartas todas que te escrevo. No meio das panquecas, depois de lavar e lavar e arrumar, e varrer, droga! Pois é. Eu faço estas coisas todas todos os dias. Abrir janela, convencer o sol de entrar, inundar de luz, e voltar pro lugar dele. Sacudir a noite e, eu te penso… Já te esqueceste…(com certeza) daquele janeiro, ou fevereiro. Tudo se resolveu sem voltares a Torres. No entanto, eu desapeguei, entendi, e me libertei das velhas e mofadas inconclusas situações. E descolei do herói, as fantasias. Quanto as séries de televisão…, ufa! Custei a me atirar na história da Inglaterra, nas advertências e coloridas psicanálises, e não viajei como me aconselhaste. Eu ia entrar num navio preguiçoso, preguiçoso como eu, mas barulhento, e agitado, porque sou agitada. Pensei ser o mar e o infinito de estar limitada, mas entregue com tantos quantos forem os passageiros e seus sonhos… Ah! Histórias de viajar. Dizem que o mundo conversa e ensina. Que seja, mas antes tenho que conversar e saber, e ordenar este tanto que enrola dentro de mim. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2020 – Torres

Prosaico. Panquecas para o café preguiçoso que se esticou e se fechou em almoço: aperfeiçoei a massa e o jeito de colocar as bananas, e as panquecas com guisado (de ontem, delicioso) dei uma incrementada (ideia da Ana) e céus! Pensei em ti, e se tu estarias, como eu, feliz com o sol e com a temperatura morna desta manhã. Estaríamos a rir do frio de ontem, e de nosso aconchego com o copo de conhaque. Depois televisão, televisão a colocar em dia as séries de sucesso. Às vezes os livros não resolvem nadinha, mas a imaginação estocada sim. Delícia de café! Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2020 – Torres
Afinal este amontoado de pessoas convivendo (vivendo umas com as outras), abrindo espaços, chamamos conviver. Viver! O que salva x de y talvez, parece, não sei, talvez seja mesmo o grau de inteligência / percepção: estamos todos no mesmo barco.
“[…] à vivre ainsi pressés les uns contre les autres, les membres d’une même famille on à la fois le goût de ne pas se confier et celui de surpreendre les secrets du voisin” […] Chacun prétendait connaître à fond tous les autres et demeurer seul indéechiffrable.”
(p. 33) François Mauriac LE DESÉRT DE L’ AMOUR

“Ah! L’ importunité de ces êtres, à qui notre coeur ne s’ interesse pas, et qui nos on choisis, et quie nous n’ avons pas choisis! – si exterieur à nous, dont nos ne désirons rien savoir, dont la mort nous serait aussi indifferente que la vie…et pourtant ce sont ceux-là qu remplissent notre existence.” (p.98) François Mauriac LE DESÉRT DE L’ AMOUR



Bons tempos de badalação e superação e bastante trabalho. Agradeço as oportunidades, obrigada Tina – Galeria Tina Zappoli – por teres me indicado para gerenciar a Garagem de Arte. Céus! 2002, faz muito tempo! o tempo da Garagem de Arte!




Sonhei que ainda estava morando no edifício Alvorada, na rua José Picoral, em Torres. Referência de tanta! Tanta e tanta e tão boa lembrança! Pensei, enquanto fazia o meu almoço, abençoado sonho de voltar. Queria ter ficado mais tempo neste sonho torrense. Não cheguei a entrar no apartamento…Deveria ter fechado os olhos e insistido. Será que conseguimos? Voltar ao sonho que me escolheu voltar no tempo… Quando terminei / ou acabou o casamento com J. escolhi Torres para morar. E penso: eu escolhi morar em Torres, ou foi o pai e a mãe que traçaram o futuro quando me presentearam com o apartamento. Delimitaram, pintaram de azul o mar gaúcho, e eu me refugiei por estes lados, e cá estou, torrense agora. Elizabeth m.B. Mattos – junho de 2020 – Torres

Este silêncio total,
Ausência infinita
De qualquer sinal
De Deus – o Criador? –
A presença dos homens:
Sábios, cientistas, estadistas,
-alguns bondosos até! –
Mas, ateus, racionalistas,
E um grande aturdimento,
Um ranger de dentes permanente,
A descrença fatal chegando…
Cansaço, cansaço, cansaço…
– Qual será a dor de amanhã?
A morte tão temida,
Agora é longamente desejada;
O nojo, estampado na face
E alguém a perguntar:
“Por que estás tão triste?”
O sorriso sem graça
Querendo esconder a angústia
Que racha o peito da gente
Vontade de blasfemar?
A emoção, o desespero,
O próprio medo de blasfemar
Não serão somente a moldura
A realçar o ridículo
Da nossa própria vida?
Oh! a ausência de Deus,
Deixando -nos à nossa própria mercê!
Não há castigo maior. Hélio Bessa
[…] E cansamo – nos da vida
Porque nada acontece
Que faça vibrar nossos anseios verdadeiros
E, melancolicamente, pensamos
Em tudo o que poderia ter sido
E não foi.
E porque nada acontece
Que nos arrebate para sempre
Deste cansaço, deste vazio,
Passamos, desconfortavelmente,
A acreditar que o evento
Mais importante
Seja a nossa própria morte. Hélio Bessa

“Sim, seremos todos esquecidos. É a vida e nada podemos fazer. O que nos parece importante, grave, pesado de consequências, um dia será esquecido e deixará de ter importância. (Silêncio) E o curioso é que não podemos saber hoje o que um dia vamos considerar grande ou importante, medíocre ou ridículo. As descobertas de copérnico, as de Colombo, não terão parecido, parecido, de início, inúteis, ridículas, enquanto se tornavam as elucubrações de um fenômeno qualquer pela própria verdade? É bem possível, portanto, que esta nossa vida de hoje, à qual emprestamos tanto valor, talvez seja um dia considerada estranha, desconfortável, sem inteligência, insuficientemente pura e – quem sabe? – até mesmo culpada...” (p.25-26) Anton Tchekhov As Três Marias – Contos
Sim, seremos todos esquecidos, ou lembrados na pequena/íntima história pessoal. Se o certo ou o errado se espatifou…estranhamento. Penso, penso lá dentro, cada um se coroa rei, e a cada um sua pequena grandeza, e ou, a cada um sua pequena miséria. Na caminhada, olho para o prédio na sua ideia majestosa agarradando a lagoa, a Serra do Mar, ou o mar… A construção cheia de boas e formosas ideias. E a secura particular de um engenheiro, sonho de arquiteto? Não sei. E lá estão visíveis as roupas do vizinho secando no meio da sala naqueles secadores de alumio… E me parece tão impróprio que alguém pendure suas roupas no meio da sala! Hoje não priorizam áreas de serviço, associam a não sei o quê da vida, do fazer: limpar e secar, confraternizar. A modernidade integrada: cozinhamos na sala, ou esquentamos a marmita, ou a comida chega pronta do restaurante…, enquanto nos refestelamos em grandes sofás, televisão ligada. Ou. Pode ser simplicidade, romântico “nossas roupas comuns dependuradas“. Ou mudou tudo: somos assim, simplificados. Podemos nos esparramar na areia da praia com um biquíni mínimo, ou um maiô bem tapado, ou bermudas, ou mesmo um vestido decotado: as pernas no mar, sandálias na mão e cabelos ao vento. Comemos e bebemos debaixo do sol. E nos sentimos cosmopolitas, gregários, integrados, socializados. Então! As roupas íntimas voando pelas janelas ficam até pitorescas, como se vivêssemos num recanto da Sicília, na bela Itália. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2020 – Torres
O luto remete/faz pensar na perda, no símbolo, na cor preta. Retira alegria, devolve inquietação. Austeridade. Recolhimento. Silêncio. Eu possuía/era dono de alguém, de alguma coisa, de um sentimento, de uma flor, e de repente, terminou, acabou, deixou de existir. Deflagrou-se enorme e gigantesco vazio. Estou no meio do nada. As palavras saíram correndo e se esconderam, não querem dizer coisa nenhuma. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2020 – Torres
Não espero ser decifrada, entendida, ou desejada. Nem saber, nem acumular. Não vejo. Estou algemada, amarrada no meu mundo… E eu sei que eles não podem me ver, estão trancafiados/amarrados, (posso dizer limitados?) ao mundo deles, dito colorido, tão inconsistente. Tão diferentes somos! Estranho beber no mesmo copo.

“Depois que nos livramos do fantasma, tudo segue com infalível certeza, mesmo no meio do caos.[…] Em tudo eu via logo o oposto, a contradição, e entre o real e o irreal via a ironia, o paradoxo.” (p.11) Henry Miller – Trópico de Capricórnio
Experiência, vivência fechada nela mesma. Posso lembrar em/com detalhe o dia da/na pequena e luxuosa galeria: devorou, engoliu… E eu fui feliz. Agarrada no prazer, e entregue ao trabalho, eu me espelhei na arte dos mármores, do ferro, e da madeira. Estava com Xico Stockinger.



“Depois que nos livramos do fantasma, tudo segue com infalível certeza, mesmo no meio do caos.[…] Em tudo eu via logo o oposto, a contradição, e entre o real e o irreal via a ironia, o paradoxo.” (p.11) Henry Miller – Trópico de Capricórnio
Experiência, vivência fechada nela mesma. Posso lembrar em/com detalhe o dia da/na pequena e luxuosa galeria: devorou, engoliu… E eu fui feliz. Agarrada no prazer, e entregue ao trabalho, eu me espelhei na arte dos mármores, do ferro, e da madeira. Estava com Xico Stockinger.



